One Piece: soberania fragmentada e o Direito como narrativa de poder

18/04/2026 às 16:30
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One Piece pode ser lido como uma das mais sofisticadas alegorias contemporâneas sobre soberania, legitimidade e desobediência normativa. Sob a superfície de aventura marítima, constrói-se um sistema jurídico fragmentado, no qual o monopólio da ordem é constantemente contestado.

O Governo Mundial funciona como uma espécie de estrutura normativa global centralizada, evocando a ideia hobbesiana de soberania como condição de pacificação. Em oposição, os piratas não representam apenas criminalidade, mas uma forma difusa de insurreição contra a legitimidade dessa ordem.

O Direito, aqui, não é consenso. É disputa narrativa.

A ausência de jurisdição uniforme nos mares da série remete diretamente aos desafios do direito internacional contemporâneo. A fragmentação normativa, estudada por autores como Martti Koskenniemi, encontra eco na multiplicidade de ilhas-Estados, cada uma com seus próprios regimes de exceção, pactos e violências institucionalizadas.

Monkey D. Luffy e sua tripulação operam como sujeitos jurídicos paradoxais: são simultaneamente infratores e portadores de uma ética alternativa. Essa dualidade tensiona o conceito de legalidade estrita, aproximando-se de debates sobre legitimidade material do Direito, especialmente em chave pós-positivista.

A série também permite uma leitura sobre o uso da força. Max Weber define o Estado como detentor do monopólio legítimo da violência. Em One Piece, esse monopólio é disputado por múltiplos atores: marinha, governos locais, piratas e organizações clandestinas. A consequência é um cenário de pluralismo normativo radical.

Há ainda uma dimensão simbólica relevante: a busca pelo “One Piece” pode ser interpretada como metáfora da promessa moderna de sentido jurídico último, algo como uma verdade normativa final que justifique a ordem. Mas a série insiste em sugerir o contrário: não há fundamento único, apenas disputas contínuas por significado.

Bibliografia

WEBER, Max. Economia e sociedade. UNB, 1999.

HOBBES, Thomas. Leviatã. Martins Fontes, 2003.

KOSKENNIEMI, Martti. The Politics of International Law. Hart Publishing, 2011.

DWORKIN, Ronald. O império do direito. Martins Fontes, 2007.

BOBBIO, Norberto. Teoria geral do direito. Martins Fontes, 2007.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista, escritor e publicitário brasileiro, autor de mais de 1.500 artigos e mais de 60 livros. Suas obras são publicadas por editoras como Kotter Editorial e Goyazes Editora, além de estarem disponíveis em plataformas como Amazon e Google Play Books. Seus textos são veiculados em importantes portais de comunicação jurídica, acadêmica e de negócios, como SSRN (Elsevier), Jusbrasil, Administradores e Jus, alcançando leitores das áreas do Direito, gestão, políticas públicas e ciências humanas. Sua pesquisa desenvolve uma abordagem interdisciplinar que conecta o Direito à filosofia, inteligência artificial, ciência, psicologia, psiquiatria, marketing, comunicação, publicidade, mudanças climáticas, cultura, bioética, teoria das organizações e literatura. Sua produção científica também está disponível em plataformas internacionais de indexação e difusão do conhecimento, como SSRN (Elsevier), SciELO, Academia.edu e Zenodo (CERN), ampliando sua presença em universidades, centros de pesquisa e bibliotecas digitais de diversos países. Entre suas principais obras destacam-se O Prédio que Aprendeu a Escutar (Kotter Editorial/Goyazes Editora), Direito para Gestores, Marketing para Gestores, When Machines Begin to Dream, The Piper at the Gates of Dawn, Constitutional Crisis and Democratic Backsliding, Before You Disappear, I'm So Scared About the Future, Existências: Entre Sonhos e Abismos, The Loneliness of Being Human, The Cathedral of Invisible Commands, Olivia's Mistake, Letters to an Unknown Future, The Climate Mind, A República dos Herdeiros, The Girl Who Learned to Think, Nuclear War and the Juridical Limits of Humanity, The Physicists Are Wrong, Uma Sentença entre Nós, The Architecture of Cognitive Sovereignty in the Algorithmic Society, Artificial Persuasion, The London Train: Moon, Trees, Shadows and Rain, The Jurisprudence of Overshoot, She Lost Control, Ansiedades: O Direito com Medo do Futuro e do Silêncio da Inteligência Artificial, Ontologias, Vestígios, Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático, Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea, A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), The Geometry of the Invisible: The Vitruvian Universe and the Architecture of Consciousness, The Anxiety Economy: Systemic Uncertainty, Behavioral Governance, and the Institutional Inadequacy of Corporate Law e Artificial Persuasion: Artificial Intelligence, Cognitive Capture, and Regulatory Fragmentation in the Global Advertising Industry. É identificado internacionalmente pelo ORCID iD 0009-0007-4038-0609. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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