The Boys: colapso da normatividade e o Direito capturado pelo capital narrativo

18/04/2026 às 16:31
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The Boys opera como uma distopia jurídica do presente, não do futuro. A série não imagina a falência do Direito, mas sua captura progressiva por estruturas corporativas capazes de redefinir responsabilidade, verdade e sanção.

A Vought International funciona como uma entidade híbrida entre corporação e sistema normativo paralelo. Ela não apenas viola o Direito. Ela o reescreve. Esse fenômeno se aproxima do que parte da literatura contemporânea chama de “privatização da normatividade”, em que atores econômicos passam a produzir regras com eficácia social superior à do Estado.

Os super-heróis deixam de ser figuras mitológicas para se tornarem ativos regulados por lógica de mercado. O Direito penal e o direito civil são continuamente esvaziados por estratégias de gestão reputacional. O ilícito não é apagado, mas transformado em narrativa controlada.

Isso dialoga com a crítica de Jürgen Habermas sobre a colonização do mundo da vida por sistemas econômicos e administrativos. A esfera pública, em The Boys, não desaparece, mas é saturada por comunicação estratégica, onde verdade e publicidade se confundem.

Outro ponto central é a crise da responsabilidade jurídica. A imputação de culpa, elemento essencial do Direito moderno, torna-se difusa quando o poder é distribuído em redes corporativas e tecnológicas. O sujeito jurídico clássico perde nitidez.

A série também expõe a fragilidade do controle institucional. Agências reguladoras, mídia e mecanismos de accountability são sistematicamente instrumentalizados. O Direito permanece formalmente intacto, mas materialmente esvaziado.

No fundo, The Boys não é uma história sobre superpoderes. É uma história sobre o Direito tentando regular aquilo que já aprendeu a simular regulação.

Bibliografia

HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia. Tempo Brasileiro, 2003.

LUHMANN, Niklas. O direito da sociedade. Martins Fontes, 2016.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Vozes, 2014.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Intrínseca, 2020.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Zahar, 2001.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista da comunicação e escritor brasileiro, autor de mais de 1.500 artigos e de dezenas de livros acadêmicos e de ficção. Sua produção transita por Direito, ciência, tecnologia, filosofia, psicologia, literatura, economia, administração, marketing, antropologia e cultura, com especial interesse pelas transformações contemporâneas e pelos temas de fronteira que emergem da interação entre esses campos. No âmbito acadêmico, investiga problemas situados na interseção entre o Direito e outras áreas do conhecimento, em busca de compreender fenômenos que desafiam as fronteiras tradicionais das disciplinas. Na literatura, desenvolve romances, suspenses e ficção jurídico-filosófica para diferentes faixas etárias, incluindo projetos educacionais desenvolvidos em parceria com prestigiadas editoras internacionais, como a Luso-brasileira Kotter e a britânica Camden House. Uma marca central de sua obra literária é retirar o Direito do papel meramente decorativo e transformá-lo em estrutura narrativa — com intensidade proporcional à maturidade do leitor: Para o público adulto, a lei assume a forma de atmosfera e fricção: tensiona a fronteira entre o moralmente correto e o juridicamente admissível, entre a verdade dos fatos e a verdade processual. Responsabilidade, prova, autoridade, poder e os pontos cegos das instituições tornam-se matéria-prima de conflitos e dilemas humanos. Para o público infantojuvenil, o Direito ganha forma de aventura e lógica material. Escrituras, testamentos e registros tornam-se peças de um quebra-cabeça investigativo — descobertas pela ação, pela curiosidade e pela resolução de problemas, nunca pela exposição técnica. Nessa concepção, o volume de Direito numa obra não se mede pela quantidade de artigos ou normas citados, mas pelo peso que uma regra exerce sobre as decisões dos personagens: a criança encontra a lógica da justiça na aventura; o adolescente descobre o peso das obrigações e das consequências; o adulto confronta os dilemas institucionais da vida real. Entre suas principais coletâneas estão The Odyssey (edição em inglês) e A Odisseia (edição brasileira), reunindo 60 obras selecionadas por seus leitores. Soma-se a esse percurso O Prédio que Aprendeu a Escutar, novo lançamento pela Kotter Editorial, que amplia sua investigação literária sobre os espaços, as relações humanas e as dimensões menos evidentes da experiência cotidiana. Sua produção estabelece, assim, uma ponte entre investigação intelectual e imaginação literária, fazendo do Direito um tribunal sem teto, aberto aos ventos da filosofia, aos relâmpagos da ciência, às tempestades da tecnologia, às profundezas da psicologia, às engrenagens da economia, aos espelhos da literatura e aos movimentos invisíveis que transformam a sociedade antes mesmo que a lei consiga nomeá-los. Desenvolve também projetos e propostas de obras voltados à renovação do pensamento jurídico, político e social no Brasil, estruturando uma ampla coleção analítica sobre os dilemas contemporâneos e futuros do país. Esses trabalhos articulam dogmática jurídica, sociologia, economia, filosofia e ciência de dados para diagnosticar problemas estruturais, interpretar as transformações institucionais e propor reformas profundas capazes de responder aos desafios do presente e do futuro.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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