The Boys opera como uma distopia jurídica do presente, não do futuro. A série não imagina a falência do Direito, mas sua captura progressiva por estruturas corporativas capazes de redefinir responsabilidade, verdade e sanção.
A Vought International funciona como uma entidade híbrida entre corporação e sistema normativo paralelo. Ela não apenas viola o Direito. Ela o reescreve. Esse fenômeno se aproxima do que parte da literatura contemporânea chama de “privatização da normatividade”, em que atores econômicos passam a produzir regras com eficácia social superior à do Estado.
Os super-heróis deixam de ser figuras mitológicas para se tornarem ativos regulados por lógica de mercado. O Direito penal e o direito civil são continuamente esvaziados por estratégias de gestão reputacional. O ilícito não é apagado, mas transformado em narrativa controlada.
Isso dialoga com a crítica de Jürgen Habermas sobre a colonização do mundo da vida por sistemas econômicos e administrativos. A esfera pública, em The Boys, não desaparece, mas é saturada por comunicação estratégica, onde verdade e publicidade se confundem.
Outro ponto central é a crise da responsabilidade jurídica. A imputação de culpa, elemento essencial do Direito moderno, torna-se difusa quando o poder é distribuído em redes corporativas e tecnológicas. O sujeito jurídico clássico perde nitidez.
A série também expõe a fragilidade do controle institucional. Agências reguladoras, mídia e mecanismos de accountability são sistematicamente instrumentalizados. O Direito permanece formalmente intacto, mas materialmente esvaziado.
No fundo, The Boys não é uma história sobre superpoderes. É uma história sobre o Direito tentando regular aquilo que já aprendeu a simular regulação.
Bibliografia
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia. Tempo Brasileiro, 2003.
LUHMANN, Niklas. O direito da sociedade. Martins Fontes, 2016.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Vozes, 2014.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Intrínseca, 2020.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Zahar, 2001.