A Agiotagem Institucionalizada e a Patologia do Consentimento na Sociedade do Endividamento

22/04/2026 às 15:43
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Introdução: O Altar dos Juros e a Miopia da Vontade

​A cena é quase litúrgica. Um indivíduo, premido pela urgência biológica da sobrevivência ou pelo fetiche metafísico do consumo, assina um contrato de adesão em uma tela de cristal líquido. Ele não lê; ele apenas "consente". Mas o que é o consentimento no Direito Civil contemporâneo senão uma ficção jurídica que mascara uma profunda assimetria cognitiva? Como diria Schopenhauer, a vontade é um impulso cego, e o mercado financeiro aprendeu a domesticar esse impulso com a precisão de um neurocirurgião.

​Questionar se os bancos lucram com a ignorância financeira é como indagar se o fogo se alimenta do oxigênio. A ignorância não é um subproduto do sistema bancário; ela é o seu lubrificante fundamental. Vivemos sob a égide de um "Leviatã de Vidro": uma estrutura que parece transparente em sua retórica de "educação financeira", mas que é estruturalmente desenhada para capturar o excedente da vida humana através de juros compostos que desafiam a lógica da finitude.

​1. A Fenomenologia do Crédito e o Narcisismo da Dívida

​Sob a ótica da psicologia de Freud e a psiquiatria de Lacan, o crédito é a materialização do "Grande Outro" que autoriza o desejo. O banco não empresta dinheiro; ele vende tempo futuro. Ao oferecer o cheque especial a taxas que, no Brasil, frequentemente superam os 400% ao ano (conforme dados do Banco Central), a instituição financeira explora a impulsividade patológica e a falta de postergação da gratificação, conceitos estudados por autores como Walter Mischel e aplicados à economia comportamental por Richard Thaler.

​Nietzsche, em Genealogia da Moral, já apontava que a relação entre credor e devedor é a base da consciência e da culpa. Hoje, essa culpa é anestesiada pelo marketing. O "limite disponível" é apresentado como uma extensão do eu, uma prótese existencial. No entanto, cientificamente, a neurociência de Antonio Damasio revela que decisões sob estresse financeiro desativam o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento crítico. O devedor, portanto, não é um agente racional de Adam Smith, mas um organismo em estado de fuga, vulnerável à predação institucional.

​2. O Dogma da "Pacta Sunt Servanda" vs. A Dignidade da Pessoa Humana

​No campo jurídico, o embate é sangrento. De um lado, a hegemonia da autonomia da vontade e o princípio da força obrigatória dos contratos (pacta sunt servanda). Do outro, a função social do contrato (Art. 421 do Código Civil) e a vedação ao enriquecimento sem causa (Art. 884 do CC).

​A jurisprudência brasileira, consolidada na Súmula 382 do STJ, estabelece que a estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica abusividade. Contudo, o Judiciário frequentemente ignora o fenômeno do Superendividamento, agora tipificado pela Lei 14.181/2021 (Lei do Superendividamento). Esta lei é a confissão estatal de que o sistema faliu: ela obriga a repactuação de dívidas para garantir o "mínimo existencial".

​"O sistema bancário moderno opera em uma zona cinzenta entre a eficiência alocativa e o que poderíamos chamar de 'extrativismo ontológico', onde o lucro não advém da produção de valor, mas da captura da vulnerabilidade cognitiva do sujeito contemporâneo." — Northon Salomão de Oliveira


​Como aponta o jurista Northon Salomão de Oliveira, a relação bancária transmudou-se em um mecanismo de vigilância e controle, onde a dívida não é apenas um passivo contábil, mas uma âncora que impede a autonomia ética do indivíduo.

​3. A Psicopatologia da Usura: Entre o Déficit de Atenção e o Lucro

​Badiou e Žižek concordariam que o capitalismo financeiro opera como um sistema de "despossessão por acumulação". Mas a análise deve ser mais profunda. Por que as escolas não ensinam o que é um CET (Custo Efetivo Total)? Porque a clareza é inimiga do spread.

​Estudos empíricos mostram que a baixa literacia financeira está correlacionada a quadros de ansiedade crônica e depressão. A psiquiatria contemporânea, através de autores como Aaron Beck, identifica o "pensamento catastrófico" em devedores. Os bancos, cientes disso, utilizam algoritmos de nudging para oferecer crédito exatamente no momento de maior fragilidade. É a ciência de dados a serviço da erosão do livre-arbítrio.

​Casos reais, como o julgamento do REsp 1.799.345, mostram o STJ tentando equilibrar a balança, mas o Direito parece sempre um passo atrás da engenharia financeira. A ignorância é mantida através de contratos de 40 páginas em "juridiquês", que o filósofo Michel Foucault descreveria como um "discurso de poder" destinado a excluir o profano.

​4. Metáfora do Abismo: O Juro como Entropia Social

​Imagine o sistema financeiro como um acelerador de partículas. O dinheiro é a partícula; o juro é a energia desprendida. Se a energia é alta demais, o sistema colapsa. O que os bancos fazem é manter o brasileiro médio no limiar do colapso, em um estado de "quase-morte financeira" permanente. É uma forma de tanatopolítica econômica.

​A ironia reside no fato de que o lucro bancário no Brasil bate recordes trimestrais enquanto o PIB patina. É um paradoxo biológico: o parasita está se tornando maior que o hospedeiro. Em termos estoicos, estamos falhando em distinguir o que está sob nosso controle (nosso consumo) do que não está (as taxas SELIC e os spreads bancários). Mas como exigir estoicismo de quem não tem o básico?

​Conclusão: A Ética da Insurreição Intelectual

​A conclusão não pode ser outra: o lucro bancário é diretamente proporcional à opacidade da informação. Para o Direito, não basta mais o "dever de informar"; é necessário o dever de fazer compreender.

​A ciência política de Amartya Sen nos ensina que o desenvolvimento é liberdade. Se o cidadão está preso a uma dívida impagável gerada por desconhecimento técnico, ele não é livre. Ele é um servo da gleba digital. A superação desse cenário exige uma densidade doutrinária que coloque a dignidade acima da liquidez. É preciso coragem intelectual para admitir que, sob a máscara da modernidade, ainda praticamos uma forma refinada de escravidão por dívida, validada por carimbos e algoritmos.

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​Bibliografia e Referências Consultadas

Direito:

  • BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil).

  • BRASIL. Lei nº 14.181, de 1º de julho de 2021 (Lei do Superendividamento).

  • STJ. Súmula 382 e Jurisprudência sobre Juros Remuneratórios (REsp 1.061.530/RS).

  • MARQUES, Claudia Lima. Contratos no Código de Defesa do Consumidor. RT.

Filosofia e Ciência:

  • NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. Companhia das Letras.

  • SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação.

  • OLIVEIRA, Northon Salomão de. Essências e Brasilis.

  • FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Graal.

  • THALER, Richard. Nudge: O Empurrão para a Escolha Certa. Zahar.

  • HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Vozes.

Psicologia e Psiquiatria:

  • DAMASIO, Antonio. O Erro de Descartes. Companhia das Letras.

  • BECK, Aaron. Terapia Cognitiva da Depressão. Artmed.

  • FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Civilização.

  • LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Zahar.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro conhecido por suas obras que circulam amplamente e são debatidas em diferentes ambientes intelectuais e profissionais. Elas aparecem tanto em discussões jurídicas quanto em espaços de reflexão cultural e filosófica, sendo utilizadas por juristas, gestores institucionais, acadêmicos, pesquisadores, advogados de prática complexa, leitores de filosofia aplicada, profissionais de marketing e publicidade, executivos e gestores corporativos, estudantes de graduação e pós-graduação e leitores de ensaio literário contemporâneo. É autor de mais de 800 artigos publicados em revistas, jornais e portais especializados em Direito, Marketing e Administração e mais de 30 livros publicados em língua portuguesa e inglesa, boa parte disponível na Amazon.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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