Breves notas de leitura de "Sócrates", da coleção "Os Pensadores"

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Breves notas de leitura de “Sócrates”, da coleção “Os Pensadores”

Rogério Duarte Fernandes dos Passos

1. O volume e seu contexto editorial

Nesse livro intitulado “Sócrates”, da ilustre coleção “Os Pensadores”, da Abril Cultural – editora outrora controlada pelo jornalista, empresário e editor Victor Civita (1907-1990), de tão grande importância para a cultura brasileira contemporânea –, encontram-se alguns dos principais textos históricos para o conhecimento daquele que, mesmo sem deixar nada escrito, é alçado ao patamar de uma das maiores personalidades da história.

Sócrates (470/ 469 a.C-399 a.C.), então, emerge em percepção como uma figura situada entre reconstrução histórica, tradição filosófica e releituras contemporâneas.

Os textos – “Defesa (ou Apologia) de Sócrates” (de Platão); “Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates”; “Apologia de Sócrates” (estes de Xenofonte) e “As Nuvens” (de Aristófanes) –, com seleção e consultoria de José Américo Motta Pessanha (1932-1993), e tradução de Jaime Bruna, Líbero Rangel de Andrade e Gilda Maria Reale Starzynski (1922-2003), fornecem indícios históricos substanciosos acerca da existência de Sócrates, ainda que haja aqueles que prefiram enxergá-lo como a personificação de tradições filosóficas gregas mais antigas.

2. Sobre a filosofia e sobre Sócrates

A "filo” + “sophia" – ou “philo” + “sophia” –, é entendida como um termo de origem grega que pode ser traduzido literalmente como "amor pela sabedoria" ou "amizade pelo saber". A palavra é formada por “philos” – amor, amizade – e “sophia” – conhecimento, sabedoria –. A palavra filosofia, portanto, surge para designar a atividade do seu investigador, isto é, daquele que se debruça sobre a filosofia.

O termo é tradicionalmente atribuído a Pitágoras de Samos (ca. 570 a.C-495 a.C.), consistindo em uma amizade ao saber, a uma busca contínua, ininterrupta, amorosa, sincera e respeitosa pelo conhecimento, independentemente de seu caráter meramente utilitário.

Ademais, a filosofia traz um caráter profundamente humano – algo que contrasta com a recente popularização dos “softwares” de inteligência artificial –, e em contraposição ao desejo da sabedoria plena, que seria um atributo divino e digno de um ser absoluto e perfeito ou a se alcançar.

Poderemos, ainda, buscar mais auxílio na etimologia para melhor falar de filosofia.

A etimologia – enquanto o ramo da linguística que se ocupa de estudar a evolução, a história, o desenvolvimento e, até mesmo, a origem das palavras, tão útil ao estudo de filosofia e de línguas – investiga o seu étimo, isto é, o seu termo original, ao lado das transformações fonéticas e semânticas que se lhes acometem na passagem do tempo e, mesmo, diante das transformações sociais.

Por este campo do conhecimento, portanto, temos do grego o “etymon” – que significa verdadeiro –, aliado a “logia”, que remete a “logos”, a estudo e conhecimento, de maneira que a etimologia deseja nos proporcionar a sondagem mais próxima do “real” em relação às palavras.  

Como dissemos, buscando resgatar a história, origem, evolução e transformação das palavras no tempo e nos processos sociais, a etimologia persegue, em princípio, o seu significado original, o “étimo”, e que como a “etimologia da etimologia”, nos revela, a junção dos termos gregos “etymon” + “logia” ("estudo"), além da “verdade das palavras”, obviamente, nos oferece a possibilidade de melhor desunção, compreensão e assimilação delas.

Ainda ao que diz respeito à filosofia, como vimos, temos a “philo” (“φίλος”), palavra derivada de “philia”, representativa do amor fraterno, da amizade e do respeito, sem correlação ao amor romântico, mas ao afeto entre iguais, entre amigos. Já “sophia” (“σοφία”), como também já afirmamos, remete à sabedoria, ao saber e ao conhecimento profundo, intenso, de maneira que no mundo grego – diferentemente do sentido moderno e contemporâneo, onde até mesmo, um estilo de vida é chamado de “filosofia de vida” –, buscava-se um conhecimento eivado de racionalidade sobre o mundo, sobre o ser e a existência, em associação às propostas de reflexão ética e conseguintes persecuções e investigações pela verdade, aptas a se colimarem ao “amor que se tem pela sabedoria”, mesmo que muitas de suas assertivas não restem dissociadas de modelos abstratos, meramente teórico-utópicos, ou, por derradeiro, ligados à intuição, à lenda e ao mito.

O filósofo, outrossim, é quem se dedica à prática da filosofia. Ele não detém plenamente o conhecimento e a sabedoria, mas ama-as, busca-as e a elas se dedica. Essa perspectiva foi afirmada pelo próprio Platão (apelido que significa “ombros largos”, do nascido “Arístocles” ou “Aristocles”, 428/427 a.C.-348/347 a.C.), o mais notável discípulo de Sócrates e fundador da “Academia de Atenas”, que definia os verdadeiros filósofos como aqueles que amam a sabedoria.

Contudo, na obra “A República”, escrita entre 380 a.C. e 375 a.C. (em seu período de maturidade), Platão traz uma visão que, como bem lembra Augusto de Franco (Franco, 2019), nos parece problemática. Nela, o governante – na notável formulação dos "reis filósofos" – pode exigir a verdade dos súditos e faltar com ela em benefício próprio (Franco, 2019). Nesse caso, segundo Franco, esse governante não seria propriamente um filósofo no sentido literal, contudo, mais um “erudito”, agindo por princípio de utilidade e autoritarismo em nome do sucesso da administração da cidade (Franco, 2019).

Por conseguinte, como já o dissemos anteriormente, atribui-se o primeiro uso da palavra filosofia ao matemático, místico e filósofo Pitágoras de Samos (ca. 570 a.C.-495 a.C.).

Segundo o filósofo campineiro Silvio Donizetti de Oliveira Gallo, outros afirmam que o primeiro a usar a palavra “filósofo” foi Heráclito de Éfeso (ou Heráclito, o Obscuro) (ca. 500 a.C-450 a.C.), usando o próprio Gallo a feliz expressão de conceber a própria filosofia como “experiência do pensamento” (Gallo, 2016). Ele ainda nos acrescenta existir, igualmente, a tradição que o primeiro filósofo teria sido um humilde homem grego que recusava o epíteto de sábio, mas apenas admitindo ser amigo da sabedoria, em uma posição similar à de Sócrates (Gallo, 2016, p. 15-16).

Imaginamos ser possivelmente deste modelo de ideia que surgem especulações de Sócrates ter sido apenas a corporificação ou personificação de uma tradição filosófica ocidental ancestral e imemorial, o que refutamos, vistos os indícios históricos serem substanciosos e verossimilhantes sobre a sua real existência física, e, portanto, obviamente humana.

Ainda que muitos o ponham na condição fundante da filosofia ocidental, destarte, não concordamos com a visão de um Sócrates místico ou sagrado. Apenas assentimos que foi um ser humano de grande valor e, sobretudo, portador de uma missão civilizatória que, potencialmente, poderia transmutar em enormes frutos.

3. A questão socrática e as fontes

Em nota de Victor Civita, editor deste volume “Sócrates”, ora em principal comento, temos a contextualização geral das fontes que nos permitem conhece-lo:

“Sócrates não deixou nenhum escrito. Tudo que sabemos sobre ele [...] provém de depoimentos de discípulos ou de adversários.”

Os principais testemunhos advêm de Platão, Xenofonte [ca. 430 a.C.-354 a.C.] e Aristófanes [ca. 447 a.C.-ca. 385 a.C.], sendo a figura socrática resultante do confronto dessas perspectivas” (CIVITA, 1980, p. XXV) [inserções nossas entre os colchetes].

Uma das primeiras impressões que tivemos em nossos estudos sobre Sócrates, foi o assombro de saber que, como Jesus Cristo, ele – embora possivelmente alfabetizado – não deixou nada escrito, em um legado que no campo das ideias supera vinte séculos em debates, desdobramentos e busca de maiores entendimentos.

Nos adveio também a percepção que, apenas sabendo sobre Sócrates por meio de fontes indiretas – seus discípulos, adversários, comentadores e historiadores, como Diógenes Laércio (200 d.C.-250 d.C.) –, e, também, se o principal meio de conhecimento deste mestre seriam, em essência – e como é corrente no meio filosófico-pedagógico –, os textos de Platão, nos questionamos se este último seria uma espécie de “ventríloquo” daquele que foi seu professor.

Obviamente, com plena ciência de nossa distância diante de grandes mestres desta disciplina, no característico estudo fragmentado que sobrevém àquele que mergulha no estudo da filosofia, igualmente, como surpresa pudemos saber que tal questão já havia sido levantada pelo filósofo austro-britânico Karl Raimund Popper (1902-1994), consoante lídima explicação de Augusto de Franco (2019), ao nos expor o pensamento platônico como contrário ao humanismo histórico socrático (Franco, 2019).

Platão usaria, nesse sentido, a figura do “ventríloquo”, ou de uma “máscara” de Sócrates para expor as próprias ideias, como se vê na obra de Popper, intitulada “A Sociedade Aberta e seus Inimigos” (no original, “The Open Society and Its Enemies”), de 1945 (Franco, 2019).

Assim, haveria um desvirtuamento e a degeneração do pensamento de Sócrates – ainda que Platão se coloque como um “porta-voz” do mestre –, no interior de um programa totalitário e anti(t)ético à liberdade individual e à democracia (Franco, 2019).

Portanto, à custa do indivíduo, se sustentaria um projeto coletivista, de propaganda anti-humanitária, que restauraria a harmonia do Estado, com Karl Popper enxergando Platão não como um seguidor fiel de Sócrates, mas como alguém que usou de sua autoridade moral para defender ideias que o próprio filósofo austro-britânico intensamente criticava como autoritárias (Franco, 2019).

4. Sócrates e a Ágora: filosofia como prática pública

Na apresentação “Vida e Obra” deste volume da Editora Abril Cultural/ Victor Civita, Pessanha (1980, p. V-VIII) destaca a centralidade da Ágora – a praça, o centro vivo da vida pública, local do comércio, da política, das votações, da justiça e da religião na pólis, a cidade-Estado grega e no caso de Atenas, a partir do Século VI a.C. –., como o “locus” em que Sócrates desenvolve sua filosofia, por meio do diálogo público e da investigação constante.

5. Método, maiêutica e autoconhecimento

Sócrates foi um pensador que, por meio do método dialético, buscava expor contradições e conduzir seus interlocutores à reflexão, ainda que também seja alocado como autor de aporias, vale dizer, situações que deixam seus interlocutores sem alternativas de resposta.

Sua “maiêutica” – a técnica do “parto das ideias” – é frequentemente associada à profissão de sua mãe, uma parteira de nome Fenarete. Trata-se de uma verdadeira “profilaxia intelectual”, em que o interlocutor é levado a reconhecer sua própria ignorância.

A célebre e elucidativa máxima “só sei que nada sei”, embora tradicionalmente atribuída a Sócrates, deve ser compreendida como uma síntese posterior de seu pensamento, que se alia a outro preceito de tradição igualmente ulterior, representado no aforismo “conhece-te a ti mesmo”, a indicar a virada do período cosmológico – focado na “physis” – para um antropológico, centrado no ser humano como objeto das reflexões filosóficas (Passos, 2026).

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Sócrates, dessa forma, conclama ao autocontrole, ao combate da autocomiseração, ao comedimento, ao esforço e ao autoconhecimento e instrução como forma de evolução. Evolução que se converte em luzes e benesses de um indivíduo a serem compartilhadas, via diálogo e entendimento, com todos (os que quiserem).

6. Sócrates contra o relativismo sofístico

Pessanha (1980, p. V-XXIII) aponta que Sócrates reage ao relativismo dos sofistas – sábios errantes que expunham quaisquer tipos de teses mediante paga, não à toa sendo considerados precursores das atividades de professores e advogados –, defendendo a existência de significados que não se reduzem à mera convenção linguística.

Aqui, sua filosofia assume contornos que alguns intérpretes associam a influências órfico-pitagóricas, com ênfase na alma como unidade (Pessanha, 1980, p. V-XXIII).

7. Julgamento, acusação e missão

Acusado por Meleto, Ânito e Lícon na “graphe asebeias” (ação de impiedade), Sócrates enfrenta acusações antigas e recentes.

Sua missão é apresentada como de caráter quase divino, associada ao Oráculo de Delfos – templo de onde se originou o aforismo “conhece-te a ti mesmo” – e ao testemunho de Querefonte (ou Cerefão, ca. 470/460 a.C.-403/399 a.C.), que ouviu a afirmação oracular sobre Sócrates ser o mais sábio dos homens.

O “daemon” socrático – frequentemente interpretado como uma voz interior – pode, em linguagem contemporânea, ser aproximado da noção de experiência espiritual. Em leitura posterior, especialmente na tradição da Doutrina Espírita associada a Allan Kardec (1804-1869), em um sentido analógico e não histórico, poder-se-ia falar em mediunidade, que é, porém, um conceito não totalmente compreendido e desenvolvido na Grécia clássica e resulta como fruto de elaboração e codificação moderna.

8. A condenação e a coerência ética

Sócrates recusa abandonar sua filosofia. Em vez de propor pena alternativa convencional, sugere ser mantido alimentado no Pritaneu – gesto de ironia que contribui para sua condenação –.

A pena real: ingestão de uma bebida de cicuta, planta venenosa e mortal.

Sua postura revela uma ética radical: melhor sofrer uma injustiça que praticá-la.

9. Platão e Xenofonte: duas imagens do mestre

Na Apologia de Platão – possivelmente redigida entre 399 a.C. e 390 a.C. –, temos um discurso de defesa do mestre, e não um diálogo tradicional, como é corrente nos textos platônicos.

Já nos escritos de Xenofonte, especialmente nos Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, texto do mesmo período – na denominação conhecida como “Memorabilia” –, emerge um mestre mais prático e moralmente exemplar.

Se na Apologia de Platão há o Sócrates mais idealista e filosófico, ambos os relatos, em forma de panegíricos, nos oferecem retratos complementares.

10. Aristófanes e a caricatura filosófica

Na comédia As Nuvens, de 423 a.C., Aristófanes apresenta uma versão satírica de Sócrates, associando-o aos sofistas.

A peça contribuiu, possivelmente, para a formação de uma imagem pública negativa do filósofo, potencialmente influenciando no resultado desfavorável de seu veredito.

11. Contexto histórico: Atenas e sua crise

Após as Guerras Médicas – ou “Guerras Greco-Persas”, “Guerras Persas” ou “Guerras Medas”, que ocorrem entre os antigos gregos e o Império Aquemênida durante o Século V a.C., mais exatamente entre 499 até 449 a.C. –, Atenas vive seu auge no “Século de Péricles” ou “Idade de Ouro Ateniense” (ca. 461 a.C.-429 a.C) –, seguindo-se por crise na Guerra do Peloponeso (431 a.C.-404 a.C.).

Sócrates participa como hoplita (nas batalhas de Potideia e Délio, segundo fontes mais seguras) e resiste ao governo dos Trinta Tiranos, imposto pelos vencedores espartanos e levado a cabo por Crítias (460 a.C.-403 a.C.) – outrora do círculo socrático e irmão de Perictione, mãe de Platão –, e que é personagem de um dos diálogos tardios escritos pelo sobrinho que leva seu nome, o “Crítias” ou “A Atlântida”, e que resta frequentemente associado ao “Timeu” (ou “Timaios”, ca 360 a.C.) e A República.

12. O problema da reconstrução

Citando a obra “Socrates. New York: Doubleday Anchor Books”, de 1954, de autoria do estudioso britânico Alfred Edward Taylor (1869-1945) –, Pessanha demonstra a dificuldade de restaurar figuras como Sócrates, lembrando sobre a anfractuosidade prática de refazer trajetórias como a deste filósofo e de Jesus Cristo, no que, por fim, o que teremos, será sempre uma construção interpretativa (Pessanha, 1980, p. XI e XXIV). Essas conclusões, inclusive, se associam aos estudos do historiador e filósofo John Burnet (1863-1928) – da chamada “Escola Escocesa” –, que proporcionaram uma nova perspectiva aos estudos socráticos, invertendo um certo consenso então vigente, que o Sócrates xenofôntico era mais fidedigno que o platônico.

13. Sócrates entre história e filosofia

A distinção entre o “Sócrates histórico” e o “Sócrates filosófico” permanece, para muitos, como uma questão problemática.

Mesmo assim, sua influência é inegável, sendo frequentemente aproximado – em leituras posteriores – de valores éticos que também aparecem no Cristianismo primitivo.

14. Considerações finais: filosofia, modernidade e espiritualidade

Se, como já dissertamos, a filosofia nasce, etimologicamente, como amor ao saber – termo prioritariamente atribuído a Pitágoras de Samos –, é com Sócrates que ela se volta decisivamente ao humano.

Nesse horizonte, sua figura pode ser reinterpretada à luz de tradições posteriores, no que a alusão à mediunidade que aqui propusemos com Allan Kardec não pretende ser histórica, mas interpretativa, mesmo porque do conteúdo socrático “suficiente”, exsurge um processo de elevação da consciência de um espírito imortal e sujeito ao contínuo aperfeiçoamento, ao modo da codificação kardeciana.

Ademais, à similar maneira de Kardec – pedagogo que foi –, a ignorância, como mal, deve ser superada pela “areté” – o ideal de excelência e virtude, colimado à moralidade e realização máxima do potencial de um ser ou de algo –, nos conduzindo da “doxa”, a mera opinião, à “episteme”, o espaço onde se desenvolve e se localiza o saber, e por que não dizer, o próprio bem.

Continuamente, além das constantes releituras contemporâneas, podemos apontar a repercussão da filosofia socrática em inúmeros textos da filosofia ocidental e brasileira, e nesta última – na mesma linha espírita de Allan Kardec –, no escólio de José Herculano Pires (1914-1979):

“Você é um ser humano adulto e consciente, responsável pelo seu comportamento. Controle as suas ideias, rejeite os pensamentos inferiores e perturbadores, estimule as suas tendências boas e repila as más. Tome conta de si mesmo, Deus concedeu a jurisdição de si mesmo, é você quem manda em você nos caminhos da vida. Não se faça de criança mimada. Aprenda a se controlar em todos os instantes e em todas as circunstâncias. Experimente o seu poder e verás que ele é maior do que você pensa” (PIRES, 2009, p. 27-28).

Prossegue o filósofo paulista, nascido em Avaré:

“Reformule o seu conceito de si mesmo. Você não é um pobrezinho abandonado no mundo. Os próprios vermes são protegidos pelas leis naturais. Por que motivo só você não teria proteção? Tire da mente a ideia de pecado e castigo. O que chamam de pecado é o erro, e o erro pode e deve ser corrigido. Corrija-se. Estabeleça pouco a pouco o controle de si mesmo, com paciência e confiança em si mesmo” (PIRES, 2009, p. 28-29).

 E, nesse sentido, ele prossegue:

“Vigie os seus sentimentos, pensamentos e palavras nas relações com os outros. O que damos, recebemos de volta.

Não se considere vítima. Você pode estar sendo algoz sem perceber. Pense nisso constantemente, para melhorar as relações com os outros. Viver é permutar. Examine o que você troca com os outros” (PIRES, 2009, p. 31).

Ademais, o próprio Pires, sobre um ciclo de permanente de evolução humana – individual e coletiva –, acrescenta ao tema da perfeição a característica de ela ser um processo dinâmico de desenvolvimento e não um estado inicial ou final estático (Pires, 2001, p. 17). Com apoio na filosofia de Immanuel Kant (1724-1804) – naquilo que o filósofo prussiano chamava de “a perfectibilidade possível” –, para o pensador brasileiro a perfeição reside no início promissor e na evolução contínua, alinhando-se, então, à "perfectibilidade possível" de cada ser, equilibrando o potencial constante com o progresso contínuo (Pires, 2001, p. 17).

15. Epílogo: permanência e cultura contemporânea

A permanência de Sócrates ultrapassa a filosofia e alcança a cultura contemporânea.

Na canção “One”, da banda irlandesa U2 – que em 2026 completará, com os mesmos integrantes, cinquenta anos de carreira –, por exemplo, ecoa a ideia de unidade na diferença – um tema que dialoga, ainda que indiretamente, com o ideal socrático de humanidade compartilhada –.

Sócrates foi condenado justamente por não se encaixar nos moldes rígidos e por falar diretamente ao coração e à razão das pessoas na praça, sem o "engessamento" dos tribunais de conveniência e dos julgamentos, aos quais sempre caímos no erro de nos aprisionar.

Ao escrever sobre o filósofo com essa liberdade, tentamos fidelidade ao próprio espírito socrático, priorizando a tarefa de busca da verdade e da utilidade do saber acima de qualquer formalismo estéril, em uma jornada que busque conexão entre o saber antigo e os dilemas contemporâneos.

Afinal, a filosofia só cumpre o seu papel quando ela "sai da redoma" e encontra a vida real, seja na letra de uma música, na fé de uma doutrina benfazeja, no combate aos preconceitos do dia a dia e no estímulo de vencer os desafios e provações como oportunidades para buscar o adiantamento e a reforma íntima.

Sócrates permanece, desde a Antiguidade Clássica, nas reflexões, na sala de aula e em nosso dia a dia, mesmo que nele não pensemos diretamente; afinal, talvez inexista alguém que sincera e publicamente afirme desejar uma vida inautêntica.

E sua figura se mantém como símbolo da busca pela verdade e da reflexão crítica, reavivando nossos sentimentos de conexão do saber antigo aos dilemas contemporâneos.

16. Referências

FRANCO, Augusto de. Comentários a “O Fascínio de Platão” de Karl Popper – – Capítulo 8 –. Dagobah. São Paulo, ed. 12 Jul. 2019. Disponível na rede mundial de computadores (Internet) no endereço eletrônico <https://dagobah.com.br/comentarios-a-o-fascinio-de-platao-de-karl-popper-capitulo-8/>. Acesso em 21 Abr. 2026.

GALLO, Sílvio Donizetti de Oliveira. Filosofia: experiência do pensamento. São Paulo: Scipione, 2ª ed., 2016, 328 p.

PASSOS, Rogério Duarte Fernandes dos. Entre a lenda, os indícios e a percepção... E os ensinamentos do professor do ensino médio: reconstruindo a presença de Sócrates. Curitiba: Autores.com.br, ed. 15 Mar. 2026. Disponível na rede mundial de computadores (Internet) no endereço eletrônico <https://www.autores.com.br/publicacoes-artigos2/101404-entre-a-lenda-os-indicios-e-a-percepcao-e-os-ensinamentos-do-professsor-do-ensino-medio-reconstruindo-a-presenca-de-socrates.html. Acesso em: 28 Abr. 2026.

PESSANHA, José Américo Motta. Vida e Obra. In: ARISTÓFANES; PLATÃO; XENOFONTE. Defesa de Sócrates; Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates; Apologia de Sócrates; As Nuvens. São Paulo: Abril Cultural, 2ª ed., 1980, p. IV-XXIV (Coleção Os Pensadores).

PIRES, José Herculano. No Limiar do Amanhã (Lições de Espiritismo). Prefácio de Heloísa Pires e apresentação de Altamirando Carneiro. São Paulo: Fundação Virgínia e Herculano Pires, 2001, 103 p.

______. Obsessão, o passe, a doutrinação. São Paulo: Paidéia/ Fundação Virgínia e Herculano Pires, 10ª ed., 2009, 104 p.

PLATÃO; XENOFONTE; ARISTÓFANES. Defesa de Sócrates. Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates. Apologia de Sócrates. As Nuvens. Seleção de textos e consultoria de José Américo Motta Pessanha (1932-1993). Tradução de Jaime Bruna, Líbero Rangel de Andrade e Gilda Maria Reale Starzynski (1922-2003). Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Abril Cultural/ Victor Civita, 2ª ed., 1980, 224 p. 

U2 (Bono, The Edge, Adam Clayton & Larry Mullen Junior). One. In: Achtung Baby. Berlim/ Dublin: Island Records/Hansa Studios, 1991. 1 disco sonoro “long play” (55 minutos), lado A, faixa 3.

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