A Instabilidade da Identidade e os Limites da Verdade Jurídica em “Ontem”, de Ágota Kristóf

23/04/2026 às 14:41
Leia nesta página:

1. Introdução

A literatura, em sua dimensão mais profunda, frequentemente antecipa dilemas que o Direito apenas posteriormente tenta normatizar. Em Ontem, Ágota Kristóf constrói uma narrativa marcada pela instabilidade da identidade e pela fluidez da verdade, elementos que desafiam diretamente os fundamentos da dogmática jurídica contemporânea.

Este artigo busca investigar como a obra tensiona conceitos centrais do Direito, especialmente aqueles relacionados à identidade civil, à linguagem normativa e à verdade no processo judicial. A hipótese central é que a narrativa de Kristóf revela a insuficiência das categorias jurídicas tradicionais para abarcar a complexidade do sujeito contemporâneo.

2. A identidade como construção jurídica e ficcional

No âmbito jurídico, a identidade é concebida como um conjunto de elementos estáveis: nome, nacionalidade, filiação e registro civil. Esses elementos permitem ao Estado identificar o indivíduo, atribuir-lhe direitos e impor-lhe deveres.

Entretanto, em Ontem, a identidade do protagonista é marcada por rupturas, deslocamentos e reinvenções. Ele assume diferentes versões de si mesmo, como se sua existência fosse um texto constantemente reescrito.

Essa representação literária expõe uma tensão fundamental:

a identidade jurídica, embora necessária para a organização social, opera como uma simplificação da realidade humana.

Dessa forma, o Direito não regula o indivíduo em sua totalidade, mas uma projeção formalizada dele. Surge, então, uma questão central:

até que ponto a identidade jurídica corresponde à identidade existencial?

3. O exílio e a condição jurídica do estrangeiro

O exílio constitui um dos eixos centrais da obra. Mais do que um deslocamento geográfico, trata-se de uma condição existencial de não pertencimento.

No plano jurídico, o estrangeiro ocupa uma posição ambígua: é sujeito de direitos, mas frequentemente submetido a restrições normativas. Sua presença no território estatal é condicionada, controlada e, por vezes, precária.

A narrativa de Kristóf amplia essa discussão ao revelar o impacto subjetivo dessa condição. O estrangeiro não está apenas fora de um território, mas também fora de uma linguagem, de uma cultura e de um sistema simbólico.

Nesse sentido, o Direito enfrenta um dilema:

é possível garantir igualdade jurídica plena em um contexto de desigualdade existencial profunda?

4. Linguagem jurídica e exclusão simbólica

A linguagem desempenha papel central tanto na literatura quanto no Direito. Em Ontem, a escrita em uma língua não materna reforça o sentimento de deslocamento e estranhamento.

No Direito, a linguagem é o próprio instrumento de criação normativa. No entanto, sua complexidade técnica frequentemente gera exclusão. O cidadão comum, embora submetido às normas, nem sempre é capaz de compreendê-las plenamente.

Esse fenômeno pode ser compreendido como uma forma de exclusão simbólica:

o indivíduo participa de um sistema que não domina linguisticamente.

Assim como o protagonista de Kristóf habita uma língua estrangeira, o cidadão muitas vezes habita um ordenamento jurídico que lhe é, em grande medida, inacessível.

5. Verdade processual e narrativa jurídica

A busca pela verdade é um dos pilares do Direito, especialmente no âmbito processual. Contudo, essa verdade é construída a partir de provas, relatos e interpretações.

Em Ontem, a verdade se apresenta de forma fragmentada e instável. Não há uma narrativa única, mas múltiplas versões que coexistem e se contradizem.

Essa característica literária revela uma limitação estrutural do Direito:

a verdade processual não é a verdade absoluta, mas uma reconstrução possível dentro de determinados parâmetros normativos.

O processo judicial, nesse sentido, aproxima-se de uma narrativa estruturada, onde a coerência e a admissibilidade das provas são tão relevantes quanto os fatos em si.

6. Responsabilidade e a complexidade do sujeito

O Direito, especialmente o penal, baseia-se na ideia de que é possível atribuir responsabilidade ao indivíduo a partir de critérios objetivos, como dolo e culpa.

No entanto, a obra de Kristóf apresenta personagens cuja interioridade é marcada por ambiguidades e contradições. As motivações não são claras, e as ações não se deixam reduzir a explicações simples.

Essa complexidade desafia a racionalidade jurídica, que necessita de categorias definidas para operar. Surge, então, um tensionamento inevitável:

como responsabilizar plenamente um sujeito cuja própria identidade é instável?

7. O tempo, a memória e os limites da normatividade

O título Ontem já sugere uma reflexão sobre o tempo. O passado, na obra, não é fixo, mas continuamente reinterpretado pela memória.

O Direito, por sua vez, depende da fixação de fatos no tempo. Ele precisa determinar o que ocorreu, quando ocorreu e quem foi responsável.

No entanto, se a memória é falha e a narrativa é instável, a reconstrução jurídica dos fatos torna-se, inevitavelmente, limitada.

Assim, o Direito se revela como uma tentativa de estabilizar o que, por natureza, é mutável.

8. Conclusão

A obra Ontem, de Ágota Kristóf, oferece uma contribuição significativa para o pensamento jurídico ao expor as fragilidades das categorias tradicionais utilizadas pelo Direito.

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Identidade, verdade, linguagem e responsabilidade, elementos fundamentais da estrutura jurídica, são apresentados como construções instáveis, sujeitas a múltiplas interpretações.

Isso não implica a inutilidade do Direito, mas evidencia seus limites. O desafio contemporâneo consiste em reconhecer essas limitações sem comprometer a função normativa e organizadora do sistema jurídico.

Em última análise, a literatura de Kristóf não nega o Direito. Ela o provoca.

E, ao fazê-lo, convida o jurista a abandonar a ilusão de certeza absoluta e a habitar, com responsabilidade, o espaço incerto entre a norma e a experiência humana.

Referências

KRISTÓF, Ágota. Ontem. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro conhecido por suas obras que circulam amplamente e são debatidas em diferentes ambientes intelectuais e profissionais. Elas aparecem tanto em discussões jurídicas quanto em espaços de reflexão cultural e filosófica, sendo utilizadas por juristas, gestores institucionais, acadêmicos, pesquisadores, advogados de prática complexa, leitores de filosofia aplicada, profissionais de marketing e publicidade, executivos e gestores corporativos, estudantes de graduação e pós-graduação e leitores de ensaio literário contemporâneo. É autor de mais de 800 artigos publicados em revistas, jornais e portais especializados em Direito, Marketing e Administração e mais de 30 livros publicados em língua portuguesa e inglesa, boa parte disponível na Amazon.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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