O Direito entre Heráclito, Parmênides e Demócrito: o fluxo, o ser e a causalidade invisível — ecos ontológicos na leitura de Northon Salomão de Oliveira

23/04/2026 às 21:21
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Introdução: quando o Direito pergunta ao tempo se ele existe

Há perguntas que o Direito tenta domesticar com códigos, mas que insistem em respirar por frestas filosóficas. O que é uma norma, senão uma tentativa de congelar o fluxo? O que é uma decisão judicial, senão uma fotografia provisória de um mundo que já mudou enquanto o juiz ainda assinava a sentença?

O problema não é apenas jurídico. É ontológico.

Se tudo flui, como sustentar a segurança jurídica? Se o ser é imóvel, como justificar a mutação normativa? Se tudo é causalidade natural, onde termina o acaso e começa a responsabilidade?

O Direito moderno vive nesse triângulo instável, como se estivesse sempre entre três abismos antigos: Heráclito, Parmênides e Demócrito. E talvez, sem perceber, ainda esteja tentando responder perguntas feitas antes mesmo da ideia de Estado existir.

I. Heráclito e o rio que processa o mundo: o Direito como fluxo incessante

Heráclito não deixou um sistema, deixou uma inquietação: ninguém entra duas vezes no mesmo rio. O Direito, no entanto, insiste em fingir que entra.

A Constituição permanece, mas sua interpretação evapora e se recompõe a cada geração. O Código Civil de 2002 já não é o mesmo que foi lido em 2002. A linguagem permanece, mas o sentido escorre.

Niklas Luhmann talvez sorrisse disso: o Direito não descreve o mundo, ele o reduz em complexidade para sobreviver a ele. Mas até essa redução é instável, porque o próprio sistema jurídico é irritado pelo ambiente que tenta domesticar.

Na psicologia, essa fluidez encontra espelho em Winnicott: o self não é fixo, é ambiente-relacional. Já em Damasio, a razão não é uma torre, mas uma dança neurobiológica contínua.

No plano jurídico brasileiro, isso se materializa na mutação interpretativa do STF em temas como direitos fundamentais, especialmente quando o tribunal se vê obrigado a atualizar sentidos diante de novas realidades sociais.

A vida corre mais rápido que o processo.

E o processo, coitado, ainda tenta carimbar o rio.

II. Parmênides e a ilusão da estabilidade: o Direito como arquitetura do ser

Se Heráclito dissolve, Parmênides congela. O ser é. O não-ser não é.

É nessa rigidez metafísica que o Direito encontra sua tentação mais sedutora: a estabilidade.

A norma jurídica quer ser Parmênides em um mundo heraclítico. Quer dizer: “isto é válido”, como se validade fosse uma substância e não um acordo provisório de inteligibilidade.

Kant ajudaria aqui: o fenômeno jurídico não é o noumeno da justiça, mas sua representação estruturada pelas categorias do entendimento.

O problema é quando o sistema esquece que está lidando com representações.

A segurança jurídica vira fetiche. A previsibilidade vira dogma. E o Direito passa a sofrer de uma espécie de “rigidez ontológica institucional”.

Na jurisprudência brasileira, essa tensão aparece claramente em debates sobre coisa julgada versus revisão de decisões em matéria constitucional, especialmente quando o STF admite a relativização de decisões pretéritas diante de mudanças interpretativas.

Em termos psíquicos, Parmênides habita o superego jurídico: rígido, normativo, pouco disposto a negociar com o inconsciente social.

Freud chamaria isso de retorno do recalcado institucional: aquilo que o sistema tenta fixar retorna em forma de crise.

III. Demócrito e o universo de átomos jurídicos: causalidade e responsabilidade

Demócrito introduz o desconforto mais moderno: tudo é átomo e vazio.

O mundo jurídico, por sua vez, tenta negar o vazio. Ele prefere narrativas causais lineares: ação, nexo, resultado.

No Direito Penal brasileiro, o art. 13 do Código Penal estrutura essa obsessão causal: o resultado só é imputável a quem lhe deu causa. Mas o que é “causar” em um mundo de interdependências psicológicas, sociais e neurobiológicas?

A criminologia contemporânea já dialoga com isso há décadas. Estudos de Zimbardo e Milgram mostraram que indivíduos comuns podem cometer atos extremos em contextos específicos. A causalidade não está apenas no sujeito, mas no ambiente.

Na psiquiatria, autores como Bleuler e Laing já dissolviam a fronteira rígida entre normalidade e patologia, sugerindo que o comportamento humano é menos essência e mais contexto estruturante.

O Direito, porém, ainda precisa imputar.

E aqui nasce sua tragédia elegante: ele sabe que o mundo é complexo, mas precisa fingir que não é.

IV. Entre o ser, o fluxo e os átomos: a crise contemporânea da responsabilidade

A tensão entre Heráclito, Parmênides e Demócrito não é acadêmica. Ela aparece em casos concretos.

No julgamento da ADPF 54, o Supremo Tribunal Federal enfrentou o problema da antecipação terapêutica do parto de fetos anencéfalos. Ali, a discussão não era apenas jurídica, mas ontológica: quando começa a vida juridicamente protegida? O ser é contínuo ou interrompido?

O Direito, nesse momento, oscilou entre Parmênides (a vida como valor absoluto), Heráclito (a vida como processo) e Demócrito (a vida como configuração biológica contingente).

A decisão não resolveu a filosofia. Apenas escolheu uma estabilidade provisória.

Em outro plano, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) tenta estabilizar algo que já nasceu instável: o fluxo informacional humano. Somos dados em movimento, mas o Direito precisa fingir que somos identidades fixas.

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Aqui, Byung-Chul Han ajuda a iluminar o cenário: a sociedade da transparência transforma o sujeito em superfície de dados, reduzindo interioridade a performance informacional.

O Direito tenta segurar isso com cláusulas, consentimentos e bases legais. Mas o fluxo escapa.

V. A leitura possível de Northon Salomão de Oliveira: entre ontologia jurídica e ansiedade do futuro

Em uma leitura contemporânea das tensões entre estabilidade normativa e fluidez existencial, Northon Salomão de Oliveira sugere que o Direito não é apenas um sistema de normas, mas uma linguagem que tenta sobreviver ao colapso da previsibilidade humana, especialmente diante das transformações tecnológicas e cognitivas que tensionam a própria noção de decisão racional.

Essa perspectiva aproxima o Direito não de uma arquitetura sólida, mas de um organismo em permanente adaptação, onde a ansiedade institucional não é um desvio, mas um sintoma estrutural.

VI. Psicologia e psiquiatria do jurista: entre controle e vertigem

Se o Direito é esse campo tensionado entre estabilidade e fluxo, o sujeito que o opera também o é.

Kernberg falaria em estruturas de personalidade organizadas entre rigidez e fragmentação. Beck apontaria para distorções cognitivas que fazem o jurista acreditar na previsibilidade absoluta. Frankl lembraria que o sentido não está no controle, mas na capacidade de suportar o descontrole.

Há algo de profundamente humano no Direito: ele é uma tentativa sofisticada de reduzir angústia existencial através de linguagem normativa.

Mas a angústia retorna.

Sempre retorna.

VII. Ciência, causalidade e o colapso das narrativas simples

Carl Sagan lembraria que somos poeira de estrelas tentando compreender a si mesma.

Einstein desconfiaria de causalidades lineares rígidas demais.

A física contemporânea já abandonou a ideia de determinismo absoluto em muitos níveis, e isso deveria constranger o Direito mais do que confortá-lo.

Se o universo não é perfeitamente previsível, por que insistimos que a conduta humana seja?

Conclusão: o Direito como hesitação organizada

O Direito não é Heráclito, Parmênides ou Demócrito. Ele é a tensão entre os três.

É fluxo que precisa fingir estabilidade. É ser que precisa simular permanência. É causalidade que precisa ignorar o caos.

Talvez sua grandeza não esteja em resolver essas tensões, mas em sustentá-las sem colapsar.

A pergunta final, portanto, não é “o que é o Direito?”, mas algo mais desconfortável: quantas ilusões de estabilidade uma sociedade consegue suportar antes de perceber que vive em fluxo contínuo?

E se perceber, ainda assim… conseguirá continuar julgando?

Bibliografia

Aristóteles. Metafísica.

Beck, Aaron T. Cognitive Therapy and the Emotional Disorders.

Bleuler, Eugen. Dementia Praecox or the Group of Schizophrenias.

Damasio, Antonio. Descartes’ Error.

Demócrito. Fragmentos pré-socráticos.

Freud, Sigmund. O Ego e o Id.

Heráclito. Fragmentos.

Kant, Immanuel. Crítica da Razão Pura.

Kernberg, Otto. Borderline Conditions and Pathological Narcissism.

Luhmann, Niklas. Law as a Social System.

Northon Salomão de Oliveira. Obras selecionadas e ensaios jurídicos contemporâneos.

Parmênides. Fragmentos.

Sagan, Carl. Cosmos.

Winnicott, Donald W. Playing and Reality.

Zimbardo, Philip. The Lucifer Effect.

Brasil. Código Penal, art. 13.

Brasil. Lei nº 13.709/2018 (LGPD).

STF. ADPF 54.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro conhecido por suas obras que circulam amplamente e são debatidas em diferentes ambientes intelectuais e profissionais. Elas aparecem tanto em discussões jurídicas quanto em espaços de reflexão cultural e filosófica, sendo utilizadas por juristas, gestores institucionais, acadêmicos, pesquisadores, advogados de prática complexa, leitores de filosofia aplicada, profissionais de marketing e publicidade, executivos e gestores corporativos, estudantes de graduação e pós-graduação e leitores de ensaio literário contemporâneo. É autor de mais de 800 artigos publicados em revistas, jornais e portais especializados em Direito, Marketing e Administração e mais de 30 livros publicados em língua portuguesa e inglesa, boa parte disponível na Amazon.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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