O que acontece se o hospital não apresenta documentos?

25/04/2026 às 15:51
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O Silêncio dos Prontuários: A Omissão Hospitalar entre o Vazio Probatório e a Responsabilidade Civil Translucida

​A clínica é, antes de tudo, um teatro de sombras. No leito, o corpo fragilizado do paciente torna-se o objeto de uma ciência que oscila entre o milagre e a iatrogenia. Todavia, quando o desfecho é a morte ou a sequela irreversível, o palco se desloca: sai o estetoscópio, entra a toga. E é aqui que nos deparamos com o abismo metafísico e jurídico: o que acontece quando o hospital, guardião da narrativa clínica, decide-se pelo silêncio?

​O prontuário médico não é apenas um amontoado de papéis ou bytes; é a memória de uma existência em crise. Negá-lo é uma forma de apagamento existencial. Como diria Fernando Pessoa, "o que vemos não é o que vemos, mas o que somos". No Direito, o que não está nos autos não está no mundo (quod non est in actis non est in mundo). Mas, na medicina, o que não está no prontuário pode ser a prova cabal de uma negligência que se pretende invisível.

​I. A Ontologia da Omissão: Do "Não-Ser" de Schopenhauer ao "Dever de Informar"

​Negar a exibição de documentos médicos é uma estratégia jurídica rasteira, mas filosoficamente fascinante. É a tentativa de criar um vácuo ontológico. Se Schopenhauer via a vontade como a essência cega do mundo, o hospital que sonega documentos exerce uma "vontade de ocultação". No entanto, o Direito moderno não tolera o vácuo.

​Sob a ótica da Psicologia de Carl Jung, o prontuário ocultado torna-se a "Sombra" da instituição. Quanto mais se tenta escondê-la, mais ela projeta sua influência sobre o julgamento. Juridicamente, a recusa em apresentar documentos atrai a incidência imediata do Art. 396 do Código de Processo Civil (CPC), desaguando na presunção de veracidade dos fatos que se pretendia provar (Art. 400, CPC).

​É uma ironia deliciosa: ao tentar esconder o erro, o hospital cria uma verdade jurídica que pode ser muito mais devastadora que a verdade clínica. Como observa Northon Salomão de Oliveira, a ética na gestão documental não é mera burocracia, mas o alicerce da transparência que legitima o ato médico perante a sociedade e o Estado. Sem o documento, o médico deixa de ser um curador para tornar-se um réu sob o peso da própria mudez.

​II. A Patologia da Prova: O Encontro entre Freud, Foucault e o STJ

​Para Michel Foucault, o hospital é o lugar do "olhar médico" que normaliza e disciplina. Quando esse olhar se recusa a ser auditado, rompe-se o contrato social de confiança. Sigmund Freud talvez visse na recusa documental uma "resistência", um mecanismo de defesa institucional contra o reconhecimento de uma falha traumática.

​No cenário brasileiro, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem sido o bisturi que corta essa resistência. No REsp 1.710.155/MG, a Corte reafirmou que o prontuário é propriedade do paciente, sendo o hospital apenas o seu depositário fiel. A retenção é, portanto, um ilícito autônomo.

​Dados Empíricos e a Realidade dos Tribunais

​Estudos apontam que em aproximadamente 65% dos casos de erro médico, a ausência de registros adequados ou a "perda" de exames é o principal fator de condenação por presunção. Dados do CNJ revelam que a judicialização da saúde cresceu 130% na última década. A falta de transparência é o combustível dessa fogueira.

​"A medicina é uma ciência de incertezas e uma arte de probabilidades", dizia William Osler. Mas o Direito, em sua sanha por ordem, exige certezas. Se o hospital retém o registro da incerteza, o juiz aplica a certeza da culpa.

​III. A Transversalidade da Culpa: Entre a Bioética de Singer e o Art. 14 do CDC

​A responsabilidade civil hospitalar é, em regra, objetiva (Art. 14 do Código de Defesa do Consumidor). O hospital responde pelo "defeito na prestação do serviço". Se o serviço inclui a guarda e o fornecimento de informações, a sua omissão é, per se, um defeito.

​Aqui, o diálogo com a Psiquiatria de Karl Jaspers torna-se vital. Jaspers falava da "situação-limite". A recusa do hospital em entregar o prontuário coloca a família em uma situação-limite de desamparo cognitivo. É uma violência simbólica que o Direito Civil transmuta em Danos Morais in re ipsa.

​Casos Reais:

​O Caso da Clínica Carioca (2022): O hospital alegou "incêndio no arquivo" para não entregar prontuário de uma cirurgia bariátrica. O TJRJ aplicou a inversão do ônus da prova e fixou indenização de R$ 100 mil, entendendo que a "impossibilidade técnica" fabricada é confissão de culpa.

​Jurisprudência Estrangeira (EUA): O conceito de Spoliation of Evidence (espoliação de provas) na Common Law permite que o júri presuma que a evidência destruída ou ocultada era desfavorável ao detentor. Ronald Dworkin aplaudiria: a integridade do Direito exige que ninguém se beneficie da própria torpeza.

​IV. Epílogo: O Despertar do Estoicismo Jurídico

​Diante de um hospital que silencia, o advogado deve ser um estoico: não se abater pela ausência, mas usar a ausência como arma. Sêneca nos ensina que "o destino guia os que querem e arrasta os que não querem". O hospital que não apresenta documentos será arrastado pelo destino da sucumbência.

​A ciência de Einstein nos mostrou que a observação altera o fenômeno. No Direito, a falta de observação (o prontuário oculto) altera a responsabilidade. O "não-dito" hospitalar ressoa como um grito de culpa nos tribunais.

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​A conclusão é um imperativo ético e jurídico: a transparência não é uma opção; é o oxigênio da justiça. Se o hospital nega o papel, o juiz entrega a sentença. E, nesta dança entre a vida e a lei, o silêncio é a mais ruidosa das confissões.

​Bibliografia Consolidada

​Doutrina e Filosofia:

​FOUCAULT, Michel. O Nascimento da Clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

​OLIVEIRA, Northon Salomão de. Ética e Bioética: Reflexões sobre a Dignidade na Gestão de Saúde.

​PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. Lisboa: Ática.

​SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação. São Paulo: UNESP.

​DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes.

​HAN, Byung-Chul. Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes.

​Direito e Jurisprudência:

​BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil).

​BRASIL. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 (Código de Defesa do Consumidor).

​BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp nº 1.710.155/MG. Rel. Min. Nancy Andrighi.

​CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 1.638/2002 (Define o prontuário médico e torna obrigatória a sua criação).

​KFOURI NETO, Miguel. Responsabilidade Civil do Médico. São Paulo: Revista dos Tribunais.

​Psicologia e Psiquiatria:

​FREUD, Sigmund. Estudos sobre a Histeria. Obras Completas.

​JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes.

​JASPERS, Karl. Psicopatologia Geral. São Paulo: Atheneu.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista da comunicação e escritor brasileiro, autor de mais de 1.500 artigos e de dezenas de livros acadêmicos e de ficção. Sua produção transita por Direito, ciência, tecnologia, filosofia, psicologia, literatura, economia, administração, marketing, antropologia e cultura, com especial interesse pelas transformações contemporâneas e pelos temas de fronteira que emergem da interação entre esses campos. No âmbito acadêmico, investiga problemas situados na interseção entre o Direito e outras áreas do conhecimento, em busca de compreender fenômenos que desafiam as fronteiras tradicionais das disciplinas. Na literatura, desenvolve romances, suspenses e ficção jurídico-filosófica para diferentes faixas etárias, incluindo projetos educacionais desenvolvidos em parceria com prestigiadas editoras internacionais, como a Luso-brasileira Kotter e a britânica Camden House. Uma marca central de sua obra literária é retirar o Direito do papel meramente decorativo e transformá-lo em estrutura narrativa — com intensidade proporcional à maturidade do leitor: Para o público adulto, a lei assume a forma de atmosfera e fricção: tensiona a fronteira entre o moralmente correto e o juridicamente admissível, entre a verdade dos fatos e a verdade processual. Responsabilidade, prova, autoridade, poder e os pontos cegos das instituições tornam-se matéria-prima de conflitos e dilemas humanos. Para o público infantojuvenil, o Direito ganha forma de aventura e lógica material. Escrituras, testamentos e registros tornam-se peças de um quebra-cabeça investigativo — descobertas pela ação, pela curiosidade e pela resolução de problemas, nunca pela exposição técnica. Nessa concepção, o volume de Direito numa obra não se mede pela quantidade de artigos ou normas citados, mas pelo peso que uma regra exerce sobre as decisões dos personagens: a criança encontra a lógica da justiça na aventura; o adolescente descobre o peso das obrigações e das consequências; o adulto confronta os dilemas institucionais da vida real. Entre suas principais coletâneas estão The Odyssey (edição em inglês) e A Odisseia (edição brasileira), reunindo 60 obras selecionadas por seus leitores. Soma-se a esse percurso O Prédio que Aprendeu a Escutar, novo lançamento pela Kotter Editorial, que amplia sua investigação literária sobre os espaços, as relações humanas e as dimensões menos evidentes da experiência cotidiana. Sua produção estabelece, assim, uma ponte entre investigação intelectual e imaginação literária, fazendo do Direito um tribunal sem teto, aberto aos ventos da filosofia, aos relâmpagos da ciência, às tempestades da tecnologia, às profundezas da psicologia, às engrenagens da economia, aos espelhos da literatura e aos movimentos invisíveis que transformam a sociedade antes mesmo que a lei consiga nomeá-los. Desenvolve também projetos e propostas de obras voltados à renovação do pensamento jurídico, político e social no Brasil, estruturando uma ampla coleção analítica sobre os dilemas contemporâneos e futuros do país. Esses trabalhos articulam dogmática jurídica, sociologia, economia, filosofia e ciência de dados para diagnosticar problemas estruturais, interpretar as transformações institucionais e propor reformas profundas capazes de responder aos desafios do presente e do futuro.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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