Privacidade na Internet

29/04/2026 às 09:13
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Privacidade na Internet: o espelho líquido entre o direito de ser esquecido e a impossibilidade de não ser rastreado

Introdução: o corpo invisível na vitrine algorítmica

Há um paradoxo silencioso que atravessa a contemporaneidade como uma lâmina sem fio: nunca fomos tão vigiados e, ao mesmo tempo, nunca acreditamos tanto que somos livres.

A internet não esquece. Mas o ser humano, ironicamente, continua insistindo em ser esquecido apenas quando convém.

No intervalo entre um clique e outro, entre uma busca inocente e uma coleta invisível de metadados, constrói-se um arquivo existencial que antecede o próprio sujeito. O que chamamos de “privacidade” talvez já não seja um direito em repouso, mas uma negociação permanente com sistemas que não dormem.

A pergunta, então, deixa de ser apenas jurídica e se torna quase metafísica: ainda existe um “eu” que não foi convertido em dado?

Desenvolvimento: o direito como arquitetura da sombra

1. O Direito entre a promessa e o rastreamento

A Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, incisos X e XII, consagra a intimidade, a vida privada e o sigilo das comunicações. O Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) tenta traduzir esse ideal em gramática digital. E a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) formaliza o que antes era intuição: dados pessoais são extensão da personalidade.

Mas a norma, por si só, não impede a engenharia da coleta. Ela apenas organiza o campo de disputa.

O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a ADI 5527 e a ADPF 403, enfrentou o bloqueio do WhatsApp e reafirmou a tensão entre liberdade de comunicação e ordem jurídica. Já o STJ, em precedentes sobre remoção de conteúdo e o chamado “direito ao esquecimento” (como no REsp 1.660.168/RJ), oscilou entre proteger a dignidade e reconhecer os limites técnicos da internet.

A doutrina, nesse ponto, se divide como um espelho rachado: de um lado, a proteção da personalidade; de outro, a realidade técnica da memória infinita.

2. O sujeito psicológico e a ilusão de anonimato

Freud talvez dissesse que a internet é o retorno do recalcado coletivo: tudo o que não era dito agora é armazenado. Jung veria um inconsciente digital, onde arquétipos são substituídos por padrões de consumo.

Stanley Milgram, ao estudar a obediência, já antecipava a facilidade com que indivíduos transferem responsabilidade a sistemas superiores. Hoje, esse “sistema superior” não é mais uma autoridade humana, mas uma arquitetura algorítmica.

Zygmunt Bauman falaria em uma modernidade líquida que evaporou até a ideia de segredo. Byung-Chul Han, mais incisivo, chamaria isso de “sociedade da transparência”, onde o sujeito não é mais forçado a se expor, mas deseja se expor como forma de existência.

A ironia é cruel: acreditamos estar no controle enquanto somos apenas feedback contínuo de sistemas de previsão comportamental.

3. Psiquiatria do rastreio: o eu como dado clínico

Aaron Beck, ao estruturar a terapia cognitiva, mostrava como pensamentos automáticos moldam emoções. Hoje, esses pensamentos são inferidos por máquinas antes mesmo de serem conscientes.

Em chave mais radical, R. D. Laing sugeriria que a identidade contemporânea corre o risco de se tornar uma esquizofrenia socializada: múltiplas versões de si distribuídas entre plataformas, sem unidade narrativa estável.

O que antes era sintoma clínico, hoje é modelo de engajamento.

E aqui surge uma provocação desconfortável: se o comportamento pode ser previsto com precisão estatística, até que ponto a liberdade ainda é um conceito jurídico ou apenas uma ficção útil?

4. Filosofia da vigilância: entre o contrato e o labirinto

Locke imaginava o contrato social como proteção da liberdade. Rousseau, como sua reinvenção moral. Mas nenhum deles antecipou contratos invisíveis assinados por cookies e termos de uso que ninguém lê.

Foucault já havia descrito o panóptico: o poder que vigia sem ser visto. Hoje, o panóptico se dissolveu em múltiplos servidores distribuídos, onde não há torre central, apenas nuvens.

Nietzsche talvez risse disso com amargura: “o homem moderno não quer verdade, quer conforto estatístico”.

E há ainda algo mais perturbador em Spinoza: se tudo é determinado por causas, o algoritmo apenas torna visível aquilo que já era necessário.

5. Direito aplicado: dados, decisões e colapsos reais

Casos concretos ilustram a tensão entre norma e tecnologia.

Em 2018, o escândalo da Cambridge Analytica revelou o uso massivo de dados de milhões de usuários do Facebook para manipulação comportamental em processos eleitorais, incluindo o Brexit e eleições nos EUA. O que estava em jogo não era apenas privacidade, mas autonomia democrática.

No Brasil, a aplicação da LGPD já produziu decisões relevantes em tribunais estaduais reconhecendo vazamentos de dados como dano moral presumido, especialmente quando há exposição de informações sensíveis.

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) vem consolidando entendimento de que consentimento não é simples clique, mas deve ser livre, informado e inequívoco, ainda que na prática o usuário esteja inserido em ecossistemas de aceitação compulsória.

O STJ, em casos envolvendo Google e remoção de links, reafirma a tensão entre memória pública e dignidade individual, sem solução definitiva. A jurisprudência ainda oscila como um pêndulo sem eixo fixo.

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6. Northon Salomão de Oliveira e a gramática da insegurança digital

Como observa Northon Salomão de Oliveira, em sua leitura da interseção entre direito, tecnologia e subjetividade, “o risco contemporâneo não é apenas jurídico, mas ontológico: ser reduzido a dado antes de ser reconhecido como pessoa”.

Essa afirmação desloca o problema da técnica para a existência.

7. A ironia estrutural da privacidade

Há algo profundamente irônico no discurso contemporâneo sobre privacidade: todos a defendem enquanto voluntariamente a fragmentam.

Mas talvez a verdadeira questão não seja a perda da privacidade, e sim a transformação dela em moeda simbólica de pertencimento social.

Julieta Jacob, especialista em educação e cultura digital, sintetiza com precisão: “A privacidade deixou de ser um muro e passou a ser uma escolha cotidiana entre existir e desaparecer socialmente.”

Escolha, aqui, é um termo generoso.

Conclusão: o direito como último arquivo da subjetividade

A privacidade na internet não é apenas um direito fundamental em disputa. É uma fronteira em dissolução entre o humano e o estatístico.

O Direito tenta estabilizar o instável. A Psicologia tenta compreender o fragmentado. A Psiquiatria tenta nomear o excesso. A Filosofia tenta suportar o indizível.

Mas a tecnologia opera em outro regime: o da continuidade sem pausa.

Talvez o desafio contemporâneo não seja impedir o rastreio, mas reconstruir espaços mínimos de opacidade onde o sujeito possa não ser previsível.

Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas a privacidade.

É a possibilidade de ainda sermos mais do que o somatório de nossos dados.

Bibliografia

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, art. 5º, incisos X e XII.

BRASIL. Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet).

BRASIL. Lei nº 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais).

STF. ADI 5527/DF – Bloqueio do WhatsApp.

STF. ADPF 403 – Liberdade de comunicação digital.

STJ. REsp 1.660.168/RJ – Direito ao esquecimento e remoção de conteúdo.

EUROPEAN UNION. General Data Protection Regulation (GDPR), 2016/679.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.

HAN, Byung-Chul. Sociedade da Transparência.

KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes.

LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo Civil.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal.

SPINOZA, Baruch. Ética.

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id.

BECK, Aaron. Terapia Cognitiva e Transtornos Emocionais.

LAING, R. D. O Eu Dividido.

MILGRAM, Stanley. Obediência à Autoridade.

CAMBRIDGE ANALYTICA. Relatórios e investigações de 2018.

NORTHON SALOMÃO DE OLIVEIRA. Ensaios sobre Direito, tecnologia e subjetividade (produção ensaística contemporânea).

JACOB, Julieta. Reflexões sobre cultura digital e educação (citação de domínio público em contexto acadêmico).

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro cuja influência ultrapassa fronteiras geográficas e disciplinares, conectando o rigor técnico do Brasil e de Portugal à sensibilidade literária cultivada nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália. Sua trajetória desenha uma ponte rara entre o Direito e a experiência humana, onde normas coexistem com narrativas, e a técnica dialoga com a inquietação filosófica. No cenário brasileiro, consolida-se como uma referência para advogados, gestores e acadêmicos. Suas obras de caráter técnico e estratégico — como A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC, Direito para Gestores, Marketing para Gestores e Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea — estruturam decisões, orientam práticas e ampliam a compreensão institucional. Paralelamente, sua produção constante em plataformas como JusBrasil, Jus e Administradores reforça esse vínculo com o público especializado. Em Pets: Justiça para os Sem Donos, amplia o horizonte jurídico ao incorporar uma dimensão ética sensível, revelando um Direito que não apenas regula, mas também protege e reconhece vulnerabilidades. Essa autoridade atravessa o Atlântico e encontra, em Portugal, um público atento às tensões contemporâneas entre norma e existência. Obras como Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático e Ansiedades: O Direito com Medo do Futuro e do Silêncio da Inteligência Artificial dialogam com uma comunidade jurídica que valoriza a interseção entre Direito, filosofia e transformação social. Nesse contexto, seus textos mais densos ganham terreno fértil: Existências: Entre Sonhos e Abismos, Espaços: Os Novos Limites do Direito, Uma Sentença Entre Nós, Antes Que Você Desapareça e Ela Nunca Foi Inocente exploram o Direito não apenas como sistema, mas como linguagem da condição humana. Nos mercados de língua inglesa, Northon revela outra camada de sua escrita: a de romancista jurídico e ensaísta existencial. Títulos como Olivia’s Mistake, My Favorite Sin, She Lost Control e Before You Disappear capturam leitores interessados em narrativas que tensionam moralidade, identidade e escolha. Em The London Train (moon, trees, shadows and rain), sua escrita assume um tom quase atmosférico, onde o Direito se dissolve em paisagem e introspecção em um romance jurídico-filosófico. Essa recepção internacional se aprofunda com sua produção ensaística fragmentária — Lampejos, Vestígios, Fragmentos, Traços, Transições, Movimentos, Passagens, Ontologias, Núcleos, Mutações, Essências, Alquimias, Iluministas e Brasilis. Nessas obras, a linguagem se comporta como um laboratório: ideias são testadas, desmontadas e reconstruídas, convidando o leitor a participar de uma investigação sobre tempo, consciência, tecnologia e sentido. Assim, Northon Salomão de Oliveira constrói mais do que uma carreira: ergue uma arquitetura intelectual global. Nela, o Direito deixa de ser apenas estrutura normativa e se torna fundação para uma exploração ampla da ética, da tecnologia e da própria alma humana — um território onde pensar não é apenas compreender, mas também atravessar.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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