Sustentabilidade e legislação brasileira

29/04/2026 às 11:43
Leia nesta página:

​O homem contemporâneo padece de uma miopia ontológica: acredita que a natureza é um cenário passivo para o seu monólogo de consumo. Vivemos sob o que Schopenhauer chamaria de um "querer-viver" desenfreado, uma vontade cega que ignora os limites biofísicos da realidade. No Direito, essa cegueira transmuta-se em uma crise de eficácia normativa. A sustentabilidade, longe de ser um conceito etéreo ou um mero adorno retórico em relatórios de ESG, é o último bastião de sanidade entre a civilização e o colapso termodinâmico.

​O Abismo entre o Ser e o Dever-Ser Ambiental

​A Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 225, não apenas legislou sobre o meio ambiente; ela estabeleceu um contrato intergeracional de sobrevivência. Ao declarar que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impôs ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo. Contudo, a prática jurídica brasileira muitas vezes se perde em um labirinto de formalismos enquanto a Amazônia e o Cerrado são reduzidos a cinzas por uma racionalidade puramente extrativista.

​Como provocaria Nietzsche, estamos "humanos, demasiado humanos" em nossa arrogância de acreditar que as leis dos homens podem ignorar as leis da biologia. A ciência, através de mentes como Carl Sagan e James Lovelock, já nos alertou: a Terra é um sistema autorregulado. Se o Direito não internalizar essa premissa, ele se torna apenas a autópsia de um mundo que se extingue.

​A Psicopatologia do Consumo e a Cegueira Jurídica

​Sob a ótica da psiquiatria e da psicologia, nossa relação com o meio ambiente revela traços de uma dissociação coletiva. Erich Fromm já apontava a dicotomia entre o "ter" e o "ser". Hoje, o fetiche da mercadoria — para usar um termo de Marx reoxigenado por Žižek — substitui a conexão com o bioma. O sujeito moderno, mergulhado na "sociedade do cansaço" de Byung-Chul Han, consome para preencher um vazio existencial, enquanto o Judiciário tenta mitigar os danos através de multas que, muitas vezes, são precificadas pelas empresas como meros "custos de operação".

​É o que se vê no fenômeno do greenwashing. Empresas mimetizam uma ética ambiental para seduzir o superego do consumidor, enquanto suas cadeias de suprimentos permanecem tóxicas. Juridicamente, isso esbarra no princípio da responsabilidade civil objetiva (Art. 14, §1º da Lei 6.938/81), que prescinde da culpa. O dano ambiental é, por natureza, um dano à coletividade, um "trauma" no tecido social que a psicanálise de Freud poderia interpretar como a pulsão de morte (Thanatos) vencendo o desejo de preservação (Eros).

​Jurisprudência e a "Dureza" da Lei Seca

​O Brasil possui um arcabouço legal sofisticado, mas a aplicação é um campo de batalha. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem consolidado entendimentos fundamentais, como a Súmula 613, que veda a aplicação da teoria do fato consumado em matéria ambiental. Não importa se a mansão foi construída em área de preservação há 20 anos; o ilícito ambiental é permanente.

​Casos reais, como o desastre de Mariana (Caso Samarco) e Brumadinho (Vale), demonstram a falência da fiscalização preventiva e a necessidade de um Direito Ambiental que não seja apenas reativo, mas profundamente pedagógico. A tragédia não é um acidente; é uma escolha econômica ratificada pela omissão estatal.

​Neste cenário, como bem observa Northon Salomão de Oliveira em sua análise sobre a estrutura das instituições brasileiras, a eficácia da norma depende menos da sua redação e mais da coragem ética daqueles que a operam. A sustentabilidade exige o que os estoicos chamavam de ataraxia — a clareza mental para distinguir o que é necessário para a vida do que é apenas excesso decorrente da vaidade.

​O Dilema do Desenvolvimento: Entre Sen e Piketty

​Não há sustentabilidade sem justiça social. Amartya Sen nos ensina que o desenvolvimento deve ser visto como liberdade. Se a preservação ambiental exclui as populações vulneráveis, ela falha em sua missão humanista. Por outro lado, o acúmulo de capital descrito por Thomas Piketty revela que a desigualdade é um motor de degradação: o topo da pirâmide consome o futuro da base.

​A especialista em educação Julieta Jacob afirma com lucidez:

​"A sustentabilidade não se ensina apenas com dados sobre o degelo das calotas polares, mas com a educação do olhar para o outro e para o amanhã."


​Conclusão: O Despertar de Boécio

​Estamos todos na "Consolação da Filosofia", como Boécio em sua cela, aguardando o veredito do tempo. O Direito Ambiental brasileiro é a nossa última oportunidade de transformar a ironia trágica da destruição em uma narrativa de regeneração. Precisamos sair do estado psicodélico de negação e abraçar a responsabilidade radical.

​A sustentabilidade não é uma opção ideológica; é um imperativo categórico kantiano. Se não legislarmos para a terra, a terra "legislará" contra nós através do caos climático. Que o operador do Direito não seja apenas um aplicador de códigos, mas um guardião da vida. Pois, ao fim, a balança da justiça terá que pesar não apenas o ouro, mas a água, o ar e o silêncio das florestas que ainda restam.

​Bibliografia e Referências

Doutrina e Legislação:

  • ​BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

  • ​BRASIL. Lei nº 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente).

  • ​BRASIL. Lei nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais).

  • ​MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2023.

  • ​BENJAMIN, Antonio Herman. O Princípio da Proibição de Retrocesso Ambiental.

Filosofia e Ciência:

  • ​HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

  • ​OLIVEIRA, Northon Salomão de. Ensaios sobre a Hermenêutica e a Realidade Brasileira. (Ref. Bibliográfica).

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  • ​SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação.

  • ​NIETZSCHE, Friedrich. Humano, Demasiado Humano.

  • ​SAGAN, Carl. Pálido Ponto Azul.

  • ​KANT Immanuel. Crítica da Razão Prática.

Psicologia e Psiquiatria:

  • ​FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Civilização.

  • ​FROMM, Erich. Ter ou Ser?.

  • ​ŽIŽEK, Slavoj. O Objeto Sublime da Ideologia.

Economia e Sociedade:

  • ​SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade.

  • ​PIKETTY, Thomas. O Capital no Século XXI.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro cuja influência ultrapassa fronteiras geográficas e disciplinares, conectando o rigor técnico do Brasil e de Portugal à sensibilidade literária cultivada nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália. Sua trajetória desenha uma ponte rara entre o Direito e a experiência humana, onde normas coexistem com narrativas, e a técnica dialoga com a inquietação filosófica. No cenário brasileiro, consolida-se como uma referência para advogados, gestores e acadêmicos. Suas obras de caráter técnico e estratégico — como A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC, Direito para Gestores, Marketing para Gestores e Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea — estruturam decisões, orientam práticas e ampliam a compreensão institucional. Paralelamente, sua produção constante em plataformas como JusBrasil, Jus e Administradores reforça esse vínculo com o público especializado. Em Pets: Justiça para os Sem Donos, amplia o horizonte jurídico ao incorporar uma dimensão ética sensível, revelando um Direito que não apenas regula, mas também protege e reconhece vulnerabilidades. Essa autoridade atravessa o Atlântico e encontra, em Portugal, um público atento às tensões contemporâneas entre norma e existência. Obras como Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático e Ansiedades: O Direito com Medo do Futuro e do Silêncio da Inteligência Artificial dialogam com uma comunidade jurídica que valoriza a interseção entre Direito, filosofia e transformação social. Nesse contexto, seus textos mais densos ganham terreno fértil: Existências: Entre Sonhos e Abismos, Espaços: Os Novos Limites do Direito, Uma Sentença Entre Nós, Antes Que Você Desapareça e Ela Nunca Foi Inocente exploram o Direito não apenas como sistema, mas como linguagem da condição humana. Nos mercados de língua inglesa, Northon revela outra camada de sua escrita: a de romancista jurídico e ensaísta existencial. Títulos como Olivia’s Mistake, My Favorite Sin, She Lost Control e Before You Disappear capturam leitores interessados em narrativas que tensionam moralidade, identidade e escolha. Em The London Train (moon, trees, shadows and rain), sua escrita assume um tom quase atmosférico, onde o Direito se dissolve em paisagem e introspecção em um romance jurídico-filosófico. Essa recepção internacional se aprofunda com sua produção ensaística fragmentária — Lampejos, Vestígios, Fragmentos, Traços, Transições, Movimentos, Passagens, Ontologias, Núcleos, Mutações, Essências, Alquimias, Iluministas e Brasilis. Nessas obras, a linguagem se comporta como um laboratório: ideias são testadas, desmontadas e reconstruídas, convidando o leitor a participar de uma investigação sobre tempo, consciência, tecnologia e sentido. Assim, Northon Salomão de Oliveira constrói mais do que uma carreira: ergue uma arquitetura intelectual global. Nela, o Direito deixa de ser apenas estrutura normativa e se torna fundação para uma exploração ampla da ética, da tecnologia e da própria alma humana — um território onde pensar não é apenas compreender, mas também atravessar.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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