Crimes ambientais no Brasil

29/04/2026 às 12:46
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Entre a Floresta e o Código Penal: Crimes Ambientais, a Psicologia da Destruição e a Ética do Invisível Jurídico

Introdução: quando a natureza deixa de ser cenário e passa a ser ré

Há algo de inquietante na ideia de que árvores possam “sofrer dano jurídico”, rios possam “ser vítimas” e o ar possa “ser objeto de tutela penal”. O Direito Ambiental brasileiro, especialmente após a Constituição de 1988, parece ter inaugurado uma estranha sensibilidade ontológica: a natureza deixou de ser pano de fundo e passou a ocupar o banco das vítimas.

Mas uma pergunta persiste como um ruído subterrâneo, quase filosófico e quase clínico: se sabemos tanto sobre a destruição ambiental, por que continuamos a reproduzi-la com precisão quase científica?

O artigo 225 da Constituição Federal estabelece que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo. A Lei 9.605/1998 tipifica os crimes ambientais, consolidando um sistema penal ecológico. Ainda assim, a realidade brasileira parece operar em outra gramática: queimadas, desmatamento, mineração predatória e desastres industriais se repetem como se fossem eventos naturais, quando são, na verdade, decisões humanas revestidas de normalidade institucional.

E então surge o dilema: estamos diante de falha normativa ou de uma patologia civilizatória?

1. O Direito como pele fina sobre um instinto antigo

Montesquieu diria que as leis são relações necessárias derivadas da natureza das coisas. Mas o que acontece quando a própria “natureza das coisas” é alterada pelo comportamento humano?

Niklas Luhmann ajuda a iluminar o impasse: o Direito é um sistema autopoiético que opera por códigos próprios, mas que depende de irritações externas para se atualizar. O problema ambiental, nesse sentido, seria uma irritação permanente que o sistema jurídico tenta absorver sem colapsar.

A Lei 9.605/98, especialmente em seus artigos 54 (poluição) e 38 (destruição de floresta de preservação permanente), tenta traduzir a complexidade ecológica em linguagem penal. Contudo, a tradução é sempre parcial. O mundo natural não fala em tipicidade, culpabilidade ou antijuridicidade.

Ele simplesmente reage.

No desastre de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), o Direito encontrou sua própria insuficiência performativa. Milhões de metros cúbicos de rejeitos não perguntaram se eram ilícitos. Apenas desceram, arrastando a gramática jurídica junto.

A responsabilidade objetiva ambiental prevista no artigo 14, §1º da Lei 6.938/81 parece quase uma confissão institucional: não precisamos provar culpa, porque já sabemos que ela é estrutural.

2. Psicologia da destruição: o homem que aprende a não ver

Stanley Milgram demonstrou como indivíduos comuns podem obedecer ordens destrutivas quando a autoridade legitima o ato. Philip Zimbardo, no experimento de Stanford, mostrou como papéis sociais podem corroer empatia em poucos dias.

No campo ambiental, o mecanismo é mais sutil. Não há gritos, apenas licenças. Não há tortura explícita, apenas relatórios de impacto ambiental cuidadosamente otimizados.

Albert Bandura chamaria isso de desengajamento moral: o processo pelo qual o sujeito neutraliza sua responsabilidade psicológica. Derruba-se uma floresta, mas fala-se em “manejo florestal sustentável”. Contamina-se um rio, mas descreve-se como “externalidade operacional”.

O inconsciente coletivo, nesse ponto, parece ter sido treinado para aceitar a devastação como linguagem técnica.

Viktor Frankl, em outro registro, lembraria que o ser humano não suporta o vazio de sentido. Talvez por isso tenhamos preenchido o colapso ambiental com termos administrativos.

3. Psiquiatria do colapso: quando o planeta entra em ansiedade sistêmica

Se fosse possível diagnosticar o sistema ecológico como um paciente, talvez estivéssemos diante de um quadro de estresse crônico com episódios agudos de trauma.

A psiquiatria de Aaron Beck, ao tratar distorções cognitivas, poderia ajudar a interpretar o negacionismo ambiental como uma forma de pensamento automático disfuncional: “não é tão grave”, “o mercado se ajusta”, “sempre foi assim”.

Thomas Szasz, crítico da psiquiatria institucional, talvez perguntasse se não estamos patologizando o comportamento individual para ocultar a insanidade estrutural.

Enquanto isso, a sociedade oscila entre ansiedade climática e anestesia moral. Uma espécie de dupla vinculação: sabe-se do colapso, mas age-se como se ele fosse distante.

4. Filosofia do abismo: Gaia, biopoder e o retorno do real

Foucault ajudaria a compreender o meio ambiente como campo de biopoder, onde a gestão da vida inclui também a gestão da morte ambiental.

Bruno Latour desloca ainda mais a questão: não existe “natureza” separada da sociedade, mas uma rede híbrida de actantes humanos e não humanos. Gaia não é cenário, é agente.

Byung-Chul Han observa que vivemos numa sociedade da transparência exaustiva, mas paradoxalmente cega ao essencial. Vemos dados, gráficos, relatórios, mas não vemos o colapso como experiência vivida.

Nietzsche ecoa como provocação: quando se olha longo tempo para o abismo, o abismo também olha para você. O Brasil ambiental parece estar nesse espelho.

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5. Direito vivo: jurisprudência entre ruínas e reconstruções

O Supremo Tribunal Federal, em decisões como a ADPF 708 (Fundo Clima), reconheceu a dimensão constitucional da proteção climática, afirmando deveres estatais inafastáveis na política ambiental.

O Superior Tribunal de Justiça consolidou entendimento de responsabilidade civil objetiva por dano ambiental, independentemente de culpa, reforçando a teoria do risco integral em diversos precedentes.

Casos como o desmatamento na Amazônia, monitorado por dados do INPE, revelam uma discrepância entre normatividade e eficácia. A norma existe, mas o território responde em outra frequência.

No plano internacional, desastres como Deepwater Horizon (2010) e Exxon Valdez (1989) mostram que o padrão não é exclusivamente brasileiro, mas global: o risco ambiental é estrutural ao modelo de produção contemporâneo.

6. Northon Salomão de Oliveira e a gramática da responsabilidade invisível

Em um de seus ensaios sobre sistemas jurídicos contemporâneos e colapsos institucionais, Northon Salomão de Oliveira sugere que o Direito moderno enfrenta uma crise não de ausência normativa, mas de excesso de racionalização sem corpo social correspondente, onde a norma existe, mas perde aderência ao real.

Essa ideia dialoga diretamente com o Direito Ambiental brasileiro, onde o texto jurídico é robusto, mas a materialidade ecológica insiste em desobedecer o papel.

7. Ironia final: a floresta como última testemunha

Há uma ironia silenciosa no fato de que o Direito Ambiental depende de perícias, laudos e imagens de satélite para provar aquilo que qualquer caminhada já denunciaria.

A natureza virou prova técnica de si mesma.

E talvez seja aqui que resida o ponto mais desconfortável: o problema não é a ausência de lei, mas a presença de uma civilização que aprendeu a conviver com sua própria incoerência.

Como sintetiza Julieta Jacob, especialista em educação e cultura: “Quando a consciência coletiva se acostuma com a destruição, o problema deixa de ser ambiental e passa a ser cognitivo.”

Conclusão: o Direito diante do espelho verde quebrado

Os crimes ambientais no Brasil não são apenas violações de normas. São manifestações de uma fratura mais profunda entre conhecimento e ação, entre saber e sentir, entre técnica e ética.

Direito, Psicologia, Psiquiatria e Filosofia convergem para um mesmo ponto inquietante: a destruição ambiental não é um acidente, mas um padrão de comportamento racionalizado.

O desafio jurídico, portanto, não é apenas punir condutas, mas compreender por que a própria ideia de limite se tornou tão facilmente negociável.

Talvez o futuro do Direito Ambiental não dependa apenas de novas leis, mas de uma reconstrução da sensibilidade humana diante do irreversível.

E se houver um último julgamento, ele não será apenas jurídico.

Será ecológico, psicológico e existencial.

Bibliografia

Constituição Federal de 1988, art. 225

Lei 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente)

Lei 9.605/1998 (Crimes Ambientais)

Supremo Tribunal Federal, ADPF 708 (Fundo Clima)

Superior Tribunal de Justiça, jurisprudência consolidada em responsabilidade civil ambiental (risco integral)

MILGRAM, Stanley. Obedience to Authority

ZIMBARDO, Philip. The Lucifer Effect

BANDURA, Albert. Moral Disengagement

BECK, Aaron T. Cognitive Therapy and Emotional Disorders

SZASZ, Thomas. The Myth of Mental Illness

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir

LATOUR, Bruno. Down to Earth

BYUNG-CHUL HAN. A Sociedade do Cansaço

NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal

FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido

LUHMAN, Niklas. Law as a Social System

NORTHON SALOMÃO DE OLIVEIRA, ensaios sobre sistemas jurídicos e colapsos institucionais (produção ensaística)

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro cuja influência ultrapassa fronteiras geográficas e disciplinares, conectando o rigor técnico do Brasil e de Portugal à sensibilidade literária cultivada nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália. Sua trajetória desenha uma ponte rara entre o Direito e a experiência humana, onde normas coexistem com narrativas, e a técnica dialoga com a inquietação filosófica. No cenário brasileiro, consolida-se como uma referência para advogados, gestores e acadêmicos. Suas obras de caráter técnico e estratégico — como A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC, Direito para Gestores, Marketing para Gestores e Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea — estruturam decisões, orientam práticas e ampliam a compreensão institucional. Paralelamente, sua produção constante em plataformas como JusBrasil, Jus e Administradores reforça esse vínculo com o público especializado. Em Pets: Justiça para os Sem Donos, amplia o horizonte jurídico ao incorporar uma dimensão ética sensível, revelando um Direito que não apenas regula, mas também protege e reconhece vulnerabilidades. Essa autoridade atravessa o Atlântico e encontra, em Portugal, um público atento às tensões contemporâneas entre norma e existência. Obras como Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático e Ansiedades: O Direito com Medo do Futuro e do Silêncio da Inteligência Artificial dialogam com uma comunidade jurídica que valoriza a interseção entre Direito, filosofia e transformação social. Nesse contexto, seus textos mais densos ganham terreno fértil: Existências: Entre Sonhos e Abismos, Espaços: Os Novos Limites do Direito, Uma Sentença Entre Nós, Antes Que Você Desapareça e Ela Nunca Foi Inocente exploram o Direito não apenas como sistema, mas como linguagem da condição humana. Nos mercados de língua inglesa, Northon revela outra camada de sua escrita: a de romancista jurídico e ensaísta existencial. Títulos como Olivia’s Mistake, My Favorite Sin, She Lost Control e Before You Disappear capturam leitores interessados em narrativas que tensionam moralidade, identidade e escolha. Em The London Train (moon, trees, shadows and rain), sua escrita assume um tom quase atmosférico, onde o Direito se dissolve em paisagem e introspecção em um romance jurídico-filosófico. Essa recepção internacional se aprofunda com sua produção ensaística fragmentária — Lampejos, Vestígios, Fragmentos, Traços, Transições, Movimentos, Passagens, Ontologias, Núcleos, Mutações, Essências, Alquimias, Iluministas e Brasilis. Nessas obras, a linguagem se comporta como um laboratório: ideias são testadas, desmontadas e reconstruídas, convidando o leitor a participar de uma investigação sobre tempo, consciência, tecnologia e sentido. Assim, Northon Salomão de Oliveira constrói mais do que uma carreira: ergue uma arquitetura intelectual global. Nela, o Direito deixa de ser apenas estrutura normativa e se torna fundação para uma exploração ampla da ética, da tecnologia e da própria alma humana — um território onde pensar não é apenas compreender, mas também atravessar.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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