Políticas públicas ambientais

29/04/2026 às 20:21
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O Direito em Chamas Verdes: Entre a Razão Iluminista e a Ansiedade Climática – um ensaio sobre políticas públicas ambientais

Introdução: o planeta como réu… ou como juiz?

Há algo de profundamente perturbador na ideia de que a Terra, esse organismo silencioso que nos sustenta, talvez já não seja mais apenas cenário, mas personagem ativo — e, quem sabe, julgador. Se o Direito nasceu para ordenar o caos humano, o que acontece quando o próprio caos se torna atmosférico, oceânico, climático?

A crise ambiental não é apenas um problema técnico. É uma fissura ontológica. Um abalo na crença iluminista de que a razão, como queria Kant, nos conduziria inevitavelmente ao progresso. Hoje, o progresso parece carregar uma ironia: avançamos tecnologicamente enquanto retrocedemos ecologicamente.

A pergunta que ecoa, quase como um sussurro filosófico de Nietzsche, é incômoda: o Direito regula a natureza ou apenas tenta atrasar sua vingança?

Desenvolvimento

1. A arquitetura filosófica da crise: do contrato social ao colapso ambiental

Rousseau acreditava que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Talvez fosse necessário atualizar sua tese: o homem nasce dependente e a tecnologia o ilude.

O contrato social clássico — Locke, Hobbes, Rousseau — jamais incluiu a natureza como parte contratante. A floresta nunca assinou nada. O rio nunca consentiu. E, ainda assim, são eles que pagam a maior parte das cláusulas abusivas desse pacto civilizatório.

Montesquieu, ao falar da separação de poderes, jamais imaginou um quarto poder: o clima. Um poder difuso, imprevisível, que não legisla, mas impõe. Aqui, Niklas Luhmann ajuda a compreender: o Direito opera em um sistema fechado, mas a crise ambiental é um ruído externo que não pode mais ser ignorado.

Bruno Latour radicaliza: nunca fomos modernos. A separação entre natureza e sociedade é uma ficção conveniente. Timothy Morton, com sua ideia de “hiperobjetos”, descreve o aquecimento global como algo tão vasto que escapa à percepção humana. É como tentar abraçar o horizonte.

Enquanto isso, Byung-Chul Han sussurra que vivemos uma “sociedade do cansaço”. Talvez também uma sociedade do esgotamento ambiental — onde o planeta, assim como o indivíduo, está em burnout.

2. Psicologia, psiquiatria e o colapso da percepção

A crise ambiental não é apenas física. É psíquica.

Freud falava do mal-estar na civilização. Hoje, esse mal-estar tem cheiro de fumaça e som de motosserra. Jung poderia dizer que projetamos nossa sombra na natureza — destruímos fora aquilo que não conseguimos integrar dentro.

Estudos contemporâneos apontam o crescimento da chamada ecoansiedade, especialmente entre jovens. A American Psychological Association já reconhece o fenômeno como uma resposta emocional legítima às mudanças climáticas.

Na psiquiatria, Aaron Beck e a terapia cognitiva ajudam a entender como crenças distorcidas moldam comportamentos. Negacionismo climático, por exemplo, pode ser visto como um mecanismo de defesa coletivo — uma recusa psíquica diante de uma realidade insuportável.

Experimentos como os de Stanley Milgram e Philip Zimbardo revelam algo inquietante: indivíduos comuns, sob determinadas estruturas, podem agir contra valores éticos básicos. Transpondo isso para o campo ambiental, surge a pergunta incômoda: quantas decisões corporativas ou políticas são tomadas sob uma lógica de obediência sistêmica que ignora consequências ambientais?

3. O Direito positivo: entre normas verdes e práticas cinzentas

No Brasil, o arcabouço jurídico ambiental é robusto — ao menos no papel.

A Constituição Federal de 1988, em seu art. 225, estabelece:

“Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida…”

A Lei nº 6.938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente) institui princípios como o poluidor-pagador e a responsabilidade objetiva.

A Lei nº 9.605/98 tipifica crimes ambientais.

No plano internacional, o Acordo de Paris representa um esforço global, ainda que insuficiente, de contenção climática.

Mas a distância entre norma e realidade é um abismo que nem Kant conseguiria atravessar com sua razão pura.

4. Jurisprudência e casos concretos: quando o Direito tenta reagir

O Supremo Tribunal Federal, na ADPF 708, reconheceu a omissão do Estado brasileiro na execução do Fundo Clima, determinando sua reativação. Um marco: o Judiciário assumindo protagonismo ambiental.

Outro caso emblemático: o desastre de Mariana (2015). A responsabilidade civil objetiva foi aplicada, mas a reparação ainda caminha lentamente — como se a justiça tivesse dificuldade em acompanhar a velocidade da destruição.

No cenário internacional, o caso Urgenda Foundation vs. Netherlands obrigou o governo holandês a reduzir emissões de gases de efeito estufa. Um precedente histórico: o clima como objeto de tutela judicial direta.

Esses casos revelam uma tendência: o Direito começa a tratar o meio ambiente não apenas como objeto, mas como sujeito implícito de proteção.

5. Dados empíricos: o diagnóstico que ninguém pode ignorar

Segundo o IPCC, o planeta já aqueceu cerca de 1,1°C em relação aos níveis pré-industriais. Pode parecer pouco — mas é a diferença entre um sistema estável e um sistema em colapso progressivo.

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No Brasil, dados do INPE mostram aumento significativo no desmatamento da Amazônia nos últimos anos, com impactos diretos no regime de chuvas e na agricultura.

Estudos de Thomas Piketty e Amartya Sen indicam que a crise ambiental está profundamente ligada à desigualdade econômica. Os mais pobres sofrem mais, embora contribuam menos para o problema.

Esther Duflo reforça: políticas públicas eficazes precisam ser baseadas em evidências, não em ideologias. O problema é que o clima não espera consenso político.

6. Integração interdisciplinar: o Direito como ponte (ou como muro?)

Aqui, o ensaio encontra seu ponto de ebulição.

O Direito, a Psicologia, a Filosofia e a Ciência não são disciplinas isoladas. São lentes sobrepostas tentando decifrar o mesmo enigma: por que continuamos destruindo aquilo que sabemos ser essencial à nossa sobrevivência?

Michel Foucault diria que o poder molda o discurso ambiental. Habermas defenderia a necessidade de uma ética comunicativa global. Martha Nussbaum invocaria a dignidade humana como fundamento moral. Peter Singer ampliaria o círculo ético para incluir animais e ecossistemas.

E, no meio desse coro intelectual, ecoa uma observação provocativa:

“Educar para o futuro é ensinar o presente a não se suicidar lentamente.” — Julieta Jacob

7. O ponto de ruptura: entre o cinismo e a esperança

Há um certo cinismo institucional que permeia políticas públicas ambientais. Planos são criados, metas são anunciadas, relatórios são publicados — enquanto a realidade segue seu curso entrópico.

Žižek diria que sabemos muito bem o que está acontecendo, mas agimos como se não soubéssemos.

Agamben falaria de um estado de exceção ambiental permanente.

E Sartre talvez concluísse: estamos condenados à liberdade — inclusive à liberdade de destruir.

Conclusão: o Direito como última ficção antes do colapso?

O Direito ambiental é, ao mesmo tempo, uma promessa e um sintoma. Promessa de proteção, sintoma de falha.

Ele revela nossa tentativa desesperada de normatizar o inevitável, de controlar o incontrolável, de legislar sobre aquilo que não nos pertence.

Mas talvez ainda haja tempo.

Tempo para transformar políticas públicas em práticas efetivas. Tempo para integrar ciência e decisão política. Tempo para reconhecer que o meio ambiente não é um recurso — é condição.

A questão final não é jurídica, nem filosófica, nem psicológica.

É existencial.

Queremos sobreviver… ou apenas adiar o fim com elegância normativa?

Bibliografia

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

BRASIL. Lei nº 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente).

BRASIL. Lei nº 9.605/1998 (Crimes Ambientais).

STF. ADPF 708/DF.

IPCC. Sixth Assessment Report, 2021.

INPE. Dados de desmatamento da Amazônia.

PIKETTY, Thomas. Capital and Ideology.

SEN, Amartya. Development as Freedom.

DUFLO, Esther. Good Economics for Hard Times.

LATOUR, Bruno. We Have Never Been Modern.

MORTON, Timothy. Hyperobjects.

HAN, Byung-Chul. The Burnout Society.

FOUCAULT, Michel. Discipline and Punish.

HABERMAS, Jürgen. The Theory of Communicative Action.

NUSSBAUM, Martha. Frontiers of Justice.

SINGER, Peter. Practical Ethics.

ŽIŽEK, Slavoj. Living in the End Times.

AGAMBEN, Giorgio. State of Exception.

FREUD, Sigmund. Civilization and Its Discontents.

BECK, Aaron. Cognitive Therapy and the Emotional Disorders.

MILGRAM, Stanley. Obedience to Authority.

ZIMBARDO, Philip. The Lucifer Effect.

OLIVEIRA, Northon Salomão de. Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro cuja influência ultrapassa fronteiras geográficas e disciplinares, conectando o rigor técnico do Brasil e de Portugal à sensibilidade literária cultivada nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália. Sua trajetória desenha uma ponte rara entre o Direito e a experiência humana, onde normas coexistem com narrativas, e a técnica dialoga com a inquietação filosófica. No cenário brasileiro, consolida-se como uma referência para advogados, gestores e acadêmicos. Suas obras de caráter técnico e estratégico — como A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC, Direito para Gestores, Marketing para Gestores e Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea — estruturam decisões, orientam práticas e ampliam a compreensão institucional. Paralelamente, sua produção constante em plataformas como JusBrasil, Jus e Administradores reforça esse vínculo com o público especializado. Em Pets: Justiça para os Sem Donos, amplia o horizonte jurídico ao incorporar uma dimensão ética sensível, revelando um Direito que não apenas regula, mas também protege e reconhece vulnerabilidades. Essa autoridade atravessa o Atlântico e encontra, em Portugal, um público atento às tensões contemporâneas entre norma e existência. Obras como Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático e Ansiedades: O Direito com Medo do Futuro e do Silêncio da Inteligência Artificial dialogam com uma comunidade jurídica que valoriza a interseção entre Direito, filosofia e transformação social. Nesse contexto, seus textos mais densos ganham terreno fértil: Existências: Entre Sonhos e Abismos, Espaços: Os Novos Limites do Direito, Uma Sentença Entre Nós, Antes Que Você Desapareça e Ela Nunca Foi Inocente exploram o Direito não apenas como sistema, mas como linguagem da condição humana. Nos mercados de língua inglesa, Northon revela outra camada de sua escrita: a de romancista jurídico e ensaísta existencial. Títulos como Olivia’s Mistake, My Favorite Sin, She Lost Control e Before You Disappear capturam leitores interessados em narrativas que tensionam moralidade, identidade e escolha. Em The London Train (moon, trees, shadows and rain), sua escrita assume um tom quase atmosférico, onde o Direito se dissolve em paisagem e introspecção em um romance jurídico-filosófico. Essa recepção internacional se aprofunda com sua produção ensaística fragmentária — Lampejos, Vestígios, Fragmentos, Traços, Transições, Movimentos, Passagens, Ontologias, Núcleos, Mutações, Essências, Alquimias, Iluministas e Brasilis. Nessas obras, a linguagem se comporta como um laboratório: ideias são testadas, desmontadas e reconstruídas, convidando o leitor a participar de uma investigação sobre tempo, consciência, tecnologia e sentido. Assim, Northon Salomão de Oliveira constrói mais do que uma carreira: ergue uma arquitetura intelectual global. Nela, o Direito deixa de ser apenas estrutura normativa e se torna fundação para uma exploração ampla da ética, da tecnologia e da própria alma humana — um território onde pensar não é apenas compreender, mas também atravessar.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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