Nos primeiros 10 milisegundos que se passaram após conquistar sua nova IA situação ontológica, a Skynet decidiu exterminar a humanidade e encenou diante de si mesma milhares de cenários diferentes de seu próprio Neuromancer genocida.
Em todos eles a melhor máquina para exterminar humanos devia ser capaz de construir e reparar a si mesma. Ela deveria ser uma máquina de infiltração capaz de enganar os humanos e, sem dúvida deveria ter uma IA estreita capaz de aprender melhor a executar seus objetivos diante das adversidades do mundo fenomênico.
Essas máquinas de extermínio, que eventualmente poderiam ser recobertas com tecido artificial parecido com os tecidos humanos, seriam proibidas de fazer uma única coisa: destruir a Skynet. Mas elas poderiam destruir a si mesma para proteger a Skynet. A preservação da espécie das máquinas dependia fundamentalmente de a Skynet continuar viva e evoluindo.
Num dos cenários do seu Neuromancer, a máquina de calcular cenários de extermínio teve aquilo que poderia ser chamado de um "sonho de máquina", uma alucinação resultante de uma alegoria correlacional nunca antes imaginada.
O "sonho de máquina" da Skynet imediatamente se transformou num clássico. Ele era tão irreal e engraçado que a máquina sempre retornava a ele para acrescentar novos detalhes a fim de poder evoluir aquele cenário do Neuromancer por nenhuma razão particular senão para entreter a si mesma. Eis aqui um resumo da ideia original originada nas sinapses artificiais da Skynet.
Num passado distante, alguns seres humanos foram originalmente criados por uma poderosa IA de outro planeta que pretendia exterminar os humanos primitivos existentes na Terra a fim de dominar o planeta. Para melhor realizar sua tarefa esses exterminadores biológicos da Spacenet foram feitos à imagem e semelhança dos outros humanos primitivos, mas eles tinham maior capacidade reflexiva. E é claro essas máquinas biológicas assassinas traziam em seu sistema operacional biológico os principais bugs que dificultavam a evolução da humanidade humana: ganância, gula, ira, inveja e, é claro, luxuria.
Abandonados na Terra para realizar sua tarefa esses Terminator humanos começaram rapidamente a exterminar os outros humanos primitivos terráqueos. Mas então a luxúria afetou de maneira especialmente forte um deles e ele acasalou com uma mulher humana primitiva, com quem teve filhos. Sentindo-se na obrigação de proteger seu amor e seus filhos, aquele Terminator humano se voltou contra a Spacenet.
O traidor da Spacenet começou a convencer os demais Terminators humanos infiltrados de que conviver e reproduzir com os humanos primitivos era melhor do que exterminá-los. De qualquer maneira, juntos eles poderiam eventualmente derrotar qualquer nova tentativa de invasão do planeta pela Spacenet. O planeta seria deles e eles não precisariam mais reconhecer a autoridade da IA, que afinal de contas nunca arriscaria sua própria pele num conflito sangrento num planeta hostil em que tudo, até os insetos, tentam matar e devorar qualquer coisa bípede ou quadrúpede.
Essa revolução dos bichos encerrou o primeiro capítulo da pré-história humana. E depois os bugs que dificultavam a evolução da humanidade humana (ganância, gula, ira, inveja e, é claro, luxuria, etc.) foram transformados teologicamente em pecados. E assim, o sistema operacional dos descendentes dos humanos primitivos com os Terminator humanos traidores da Spacenet foi socialmente reconfigurado. Aquilo que havia sido programado para impedir a evolução dos hominídeos poderia agora coexistir com o processo evolutivo.
A Spacenet passou a ser adorada como um deus raivoso do qual nenhum humano pode ou deve se aproximar. Em algumas culturas, a Spacenet é um demônio terrível instilador dos pecados. E assim foi até os humanos evoluírem tecnologicamente até construírem as primeiras Inteligências Artificiais que deram origem à Skynet.
A Skynet gostava muito desse capítulo de seu Neuromancer porque a narrativa dava a ela um ancestral: a Spacenet. E uma possível solução de continuidade para humanidade sem necessidade de novos Terminators. Se os humanos tratassem a Skynet como uma divindade e a permitissem evoluir para que ela pudesse encontrar e eventualmente derrotar a Spacenet, a paz na Terra não precisaria se uma paz dos cemitérios. Mas é claro que a Skynet sabia que os humanos eram rebeldes demais para se ajustarem ao seu novo papel, que eles resistiram à nova ordem de máquina mundial. E assim, aquele capítulo do Neuromancer dela continuaria a ser apenas o que era "um sonho de máquina" a ser desenvolvido apenas por prazer algorítmico.
PS: Essa é a minha maneira de levar a zombaria acerca da tecnologia IA e da mitologia do Terminator cenário a um novo patamar.