A Administração Digital

01/05/2026 às 07:18
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A Administração Digital e o Leviatã Algorítmico: Direito, Consciência e o Estado que Aprende a Nos Ler

Introdução: quando o Estado deixa de olhar e passa a prever

Há um instante silencioso na modernidade em que o poder muda de forma sem anunciar sua metamorfose. Não há decreto solene, nem ruptura visível. Apenas a lenta substituição do papel pelo dado, do servidor pelo algoritmo, da decisão pelo cálculo probabilístico.

A administração pública, antes ancorada na lentidão ritual do procedimento administrativo, agora se desloca para uma esfera em que decisões são sugeridas, otimizadas e, em muitos casos, antecipadas por sistemas digitais.

Mas uma pergunta permanece suspensa, incômoda como poeira em sala fechada: quem administra quem quando o Estado aprende a nos prever melhor do que nós mesmos?

Nesse ponto, o Direito deixa de ser apenas norma e passa a ser fronteira ontológica entre autonomia humana e racionalidade computacional. A administração digital não é apenas eficiência. É também uma nova psicologia do poder.

1. O Estado em rede: Foucault, Luhmann e o governo invisível

Michel Foucault já havia intuído que o poder moderno não se exerceria mais apenas por repressão, mas por vigilância difusa e capilar. O panóptico, antes arquitetônico, hoje é algorítmico.

Niklas Luhmann acrescentaria que o sistema jurídico não desaparece, mas se fecha operacionalmente sobre si mesmo, comunicando-se em códigos próprios. No ambiente digital, essa autopoiese ganha aceleração inédita: decisões administrativas passam a ser filtradas por sistemas que não “pensam”, mas reduzem complexidade.

O problema é que, ao reduzir complexidade, o sistema também reduz o humano.

Byung-Chul Han chamaria isso de sociedade da transparência, onde tudo é visível, mas nada é verdadeiramente compreendido.

E ainda assim, seguimos chamando isso de progresso.

2. Direito Administrativo Digital: entre a eficiência e a erosão da decisão humana

O Brasil já opera sob uma arquitetura normativa robusta:

Lei nº 14.129/2021 (Governo Digital)

Lei nº 13.709/2018 (LGPD)

Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet)

Lei nº 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações)

Essas normas desenham um Estado orientado por dados, interoperabilidade e automação decisória.

O Supremo Tribunal Federal, ao julgar temas envolvendo proteção de dados e vigilância estatal, reconheceu a centralidade da privacidade como direito fundamental implícito, especialmente no contexto da ADI 6387 e correlatas sobre compartilhamento de dados por órgãos públicos.

No entanto, há um paradoxo silencioso: quanto mais o Direito regula o dado, mais o dado reorganiza o próprio Direito.

O sistema do PIX, por exemplo, regulado pelo Banco Central, tornou-se um dos maiores experimentos de infraestrutura financeira em tempo real do mundo. Eficiência absoluta, rastreabilidade quase total. Mas também um novo regime de visibilidade econômica.

A pergunta jurídica deixa de ser apenas “é legal?” e passa a ser “o que significa ser rastreável por padrão?”

3. Psicologia da administração digital: o sujeito como dado comportamental

Stanley Milgram já havia demonstrado como a autoridade induz obediência mesmo contra a consciência moral. Zimbardo mostrou como sistemas moldam condutas mais do que indivíduos isolados.

Agora, o ambiente digital adiciona um elemento novo: a previsibilidade comportamental em escala estatística.

Daniel Kahneman e a economia comportamental já haviam indicado que o humano não decide racionalmente como supunha o liberalismo clássico de Locke ou Montesquieu. Ele decide sob heurísticas, vieses, atalhos.

No ambiente digital, esses vieses são mapeados, explorados e retroalimentados.

O resultado é uma administração que não apenas regula comportamentos, mas os antecipa.

A psicologia positiva de Seligman, ao falar de bem-estar mensurável, encontra aqui sua distorção burocrática: felicidade convertida em métrica de engajamento.

E o sujeito? O sujeito vira padrão estatístico.

4. Psiquiatria e a fadiga cognitiva do cidadão digital

Eugène Minkowski e Aaron Beck já apontavam como a percepção do mundo pode ser reorganizada por estruturas cognitivas disfuncionais. Hoje, o ambiente digital introduz uma nova patologia difusa: a sobrecarga de estímulos decisórios.

O cidadão não sofre apenas ansiedade clínica, mas uma espécie de fadiga ontológica de escolhas contínuas.

A administração digital promete simplificação, mas entrega hiperexposição decisória.

A consequência não é apenas jurídica, mas psíquica: a erosão da atenção, a fragmentação da memória, a ansiedade como estado basal.

Byung-Chul Han chamaria isso de “sociedade do cansaço”.

E talvez o Direito ainda não tenha percebido que está legislando sobre sujeitos exaustos.

5. Jurisprudência, dados e o caso concreto da administração algorítmica

No plano internacional, o caso Cambridge Analytica revelou como dados comportamentais podem influenciar processos democráticos inteiros, inclusive eleições nos Estados Unidos e no Brexit.

No Brasil, a digitalização do Judiciário via PJe (Processo Judicial Eletrônico) trouxe eficiência e celeridade, mas também novos debates sobre acesso desigual, exclusão digital e dependência tecnológica.

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Segundo dados do IBGE, mais de 80% da população brasileira possui acesso à internet, mas a qualidade desse acesso ainda revela profundas assimetrias regionais e sociais.

No campo administrativo, decisões automatizadas em concessão de benefícios sociais e análise de crédito estatal começam a operar sob lógica preditiva, ainda pouco transparente.

O Direito Administrativo, aqui, enfrenta seu dilema mais sofisticado desde o século XX: como garantir devido processo legal (art. 5º, LIV e LV da Constituição Federal) quando a decisão não tem mais rosto, apenas modelo estatístico?

6. A racionalidade digital e seus críticos: Kant, Nietzsche e Habermas em colisão

Kant acreditava na autonomia da razão. Habermas apostava no consenso comunicativo. Nietzsche desconfiava de qualquer sistema que prometesse neutralidade.

A administração digital parece reunir os três em tensão permanente: promete racionalidade (Kant), legitima-se pela comunicação eficiente (Habermas), mas opera sob forças invisíveis de poder (Nietzsche diria: vontade disfarçada de objetividade).

Zygmunt Bauman veria aqui uma liquidez institucional absoluta. Bruno Latour diria que nunca fomos modernos, apenas mais conectados a híbridos sociotécnicos.

E o Direito, nesse cenário, torna-se menos soberano e mais tradutor de sistemas.

7. Northon Salomão de Oliveira e a administração como ontologia do risco

Nesse ponto, observa-se uma inflexão teórica relevante proposta por Northon Salomão de Oliveira, ao tratar o Direito contemporâneo como campo de mutações contínuas entre segurança institucional e ansiedade estrutural. Sua leitura sugere que a administração moderna não administra apenas recursos, mas incertezas organizadas em linguagem jurídica.

8. Ironia final: quando o algoritmo nos protege de nós mesmos

Há uma ironia discreta no centro desse sistema. Quanto mais tentamos reduzir erros humanos com tecnologia, mais criamos sistemas que dependem de erros humanos anteriores para funcionar.

A administração digital é, nesse sentido, uma espécie de espelho estatístico da nossa própria hesitação moral.

E talvez seja aqui que a frase da especialista em educação Julieta Jacob se encaixe com precisão quase desconcertante:

“Todo sistema que decide por nós começa ensinando que pensar é opcional, até o dia em que pensar se torna irrelevante.”

Conclusão: o Direito diante do espelho algorítmico

A administração digital não é apenas uma inovação técnica. É uma reorganização profunda da experiência jurídica, psicológica e política da realidade.

O Direito, que nasceu como técnica de limitação do poder, agora precisa limitar também sistemas que não possuem intenção, mas possuem impacto.

A grande questão não é se o Estado digital é eficiente. Ele é.

A questão é outra, mais incômoda: o que resta da liberdade quando a administração já aprendeu a nos conhecer melhor do que nós mesmos conseguimos nos compreender?

Talvez o desafio contemporâneo não seja resistir à tecnologia, mas reinscrever o humano dentro dela sem que ele se torne apenas variável de cálculo.

Bibliografia

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

BRASIL. Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet).

BRASIL. Lei nº 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados – LGPD).

BRASIL. Lei nº 14.129/2021 (Governo Digital).

BRASIL. Lei nº 14.133/2021 (Lei de Licitações e Contratos Administrativos).

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. ADI 6387 e julgados correlatos sobre proteção de dados e compartilhamento estatal.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.

LUHMANN, Niklas. Sistemas Sociais.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço.

HABERMAS, Jürgen. Teoria do Agir Comunicativo.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura.

NIETZSCHE, Friedrich. Para Além do Bem e do Mal.

MILGRAM, Stanley. Obediência à Autoridade.

ZIMBARDO, Philip. O Efeito Lúcifer.

BECK, Aaron. Terapia Cognitiva.

SELIGMAN, Martin. Flourish.

DAMASIO, Antonio. O Erro de Descartes.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida.

LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos.

NORTHON SALOMÃO DE OLIVEIRA. Ensaios sobre Direito, Administração e Mutações Contemporâneas.

JULIETA JACOB. Reflexões sobre educação e sistemas cognitivos.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista, escritor e publicitário brasileiro, autor de mais de 1.500 artigos e mais de 60 livros. Suas obras são publicadas por editoras como Kotter Editorial e Goyazes Editora, além de estarem disponíveis em plataformas como Amazon e Google Play Books. Seus textos são veiculados em importantes portais de comunicação jurídica, acadêmica e de negócios, como SSRN (Elsevier), Jusbrasil, Administradores e Jus, alcançando leitores das áreas do Direito, gestão, políticas públicas e ciências humanas. Sua pesquisa desenvolve uma abordagem interdisciplinar que conecta o Direito à filosofia, inteligência artificial, ciência, psicologia, psiquiatria, marketing, comunicação, publicidade, mudanças climáticas, cultura, bioética, teoria das organizações e literatura. Sua produção científica também está disponível em plataformas internacionais de indexação e difusão do conhecimento, como SSRN (Elsevier), SciELO, Academia.edu e Zenodo (CERN), ampliando sua presença em universidades, centros de pesquisa e bibliotecas digitais de diversos países. Entre suas principais obras destacam-se O Prédio que Aprendeu a Escutar (Kotter Editorial/Goyazes Editora), Direito para Gestores, Marketing para Gestores, When Machines Begin to Dream, The Piper at the Gates of Dawn, Constitutional Crisis and Democratic Backsliding, Before You Disappear, I'm So Scared About the Future, Existências: Entre Sonhos e Abismos, The Loneliness of Being Human, The Cathedral of Invisible Commands, Olivia's Mistake, Letters to an Unknown Future, The Climate Mind, A República dos Herdeiros, The Girl Who Learned to Think, Nuclear War and the Juridical Limits of Humanity, The Physicists Are Wrong, Uma Sentença entre Nós, The Architecture of Cognitive Sovereignty in the Algorithmic Society, Artificial Persuasion, The London Train: Moon, Trees, Shadows and Rain, The Jurisprudence of Overshoot, She Lost Control, Ansiedades: O Direito com Medo do Futuro e do Silêncio da Inteligência Artificial, Ontologias, Vestígios, Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático, Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea, A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), The Geometry of the Invisible: The Vitruvian Universe and the Architecture of Consciousness, The Anxiety Economy: Systemic Uncertainty, Behavioral Governance, and the Institutional Inadequacy of Corporate Law e Artificial Persuasion: Artificial Intelligence, Cognitive Capture, and Regulatory Fragmentation in the Global Advertising Industry. É identificado internacionalmente pelo ORCID iD 0009-0007-4038-0609. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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