Migração e direitos humanos

01/05/2026 às 09:34
Leia nesta página:

“Cartografias do Exílio: Northon Salomão de Oliveira e o Direito que Respira nas Fronteiras Invisíveis da Migração”

Introdução: quando o direito perde o passaporte da humanidade

Há um instante em que o Direito deixa de ser código e se torna geografia emocional. Esse instante ocorre nas fronteiras. Não aquelas desenhadas em mapas, mas as que se erguem dentro do corpo humano: medo, fome, trauma, esperança.

Migração não é apenas deslocamento territorial. É um rasgo na narrativa biográfica. Um ser humano atravessando fronteiras legais, psíquicas e simbólicas, enquanto o Estado tenta decidir se aquilo que chega é sujeito, estatística ou ameaça.

O Direito Internacional dos Direitos Humanos promete universalidade. Mas a prática cotidiana revela uma fricção: quem pertence ao universal quando o universal bate à porta sem documentos?

E então surge a pergunta que incomoda juristas, filósofos e psiquiatras ao mesmo tempo:

o ser humano migra, ou é expulso da própria ideia de pertencimento?

Como lembraria Voltaire, com sua lâmina luminosa e irônica: “o senso comum não é tão comum assim.”

Desenvolvimento: o humano como litígio ambulante

1. O Direito e a arquitetura das travessias

A Lei de Migração brasileira (Lei nº 13.445/2017) substitui a lógica de segurança nacional por uma gramática de direitos humanos. Em teoria, o estrangeiro deixa de ser suspeito estrutural para tornar-se sujeito de direitos.

O art. 3º é quase uma pequena revolução civilizatória: dignidade, não criminalização da migração, igualdade de tratamento.

Mas o papel jurídico, como diria Montesquieu, não respira sozinho: ele depende das instituições que o interpretam. E aqui começa o descompasso.

O Supremo Tribunal Federal, ao julgar temas relacionados à proteção de migrantes e refugiados, tem reiterado a centralidade da dignidade da pessoa humana como vetor interpretativo do sistema constitucional (art. 1º, III, CF/88). No plano internacional, o caso Hirsi Jamaa vs. Itália (CEDH, 2012) condenou a devolução sumária de migrantes no mar, reconhecendo violação à proibição de expulsões coletivas.

Ainda assim, a fronteira continua sendo o lugar onde o direito hesita.

E hesitação, em matéria humana, costuma custar vidas.

2. A mente em deslocamento: psicologia do desenraizamento

Se o Direito descreve o migrante como sujeito normativo, a psicologia o reconhece como sujeito fraturado.

Freud já intuía que o “estranho” não é externo, mas íntimo: o unheimlich. O migrante, nesse sentido, é aquele que carrega o estranho dentro de si como mala permanente.

Erik Erikson ajuda a compreender a migração como ruptura da identidade psicossocial. A perda de referência cultural gera uma espécie de “limbo identitário”.

Em contextos extremos, Viktor Frankl, em sua logoterapia, lembraria que o ser humano pode suportar quase tudo, desde que encontre sentido. Mas a migração forçada frequentemente destrói exatamente isso: o sentido narrativo da vida.

Estudos da UNHCR (2024) indicam que mais de 110 milhões de pessoas estão deslocadas globalmente. Entre elas, índices elevados de transtorno de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade são recorrentes, especialmente em populações submetidas a deslocamentos forçados prolongados.

O migrante, sob a lente clínica, não é apenas alguém que atravessou fronteiras. É alguém que atravessou versões de si mesmo que já não existem.

3. Psiquiatria e o trauma da mobilidade forçada

A psiquiatria moderna, de Kraepelin a Bessel van der Kolk (em leituras contemporâneas do trauma), reconhece que experiências de deslocamento forçado podem reconfigurar circuitos neuroemocionais.

A chamada “síndrome do refugiado” não é categoria formal única, mas um mosaico clínico: insônia, dissociação, hiperalerta, somatizações.

Bleuler, ao estudar a esquizofrenia, falava da fragmentação da associação psíquica. Metaforicamente, o migrante forçado vive algo próximo disso: uma fragmentação não patológica, mas histórica.

O trauma não é apenas memória. É uma arquitetura neurológica de sobrevivência.

E o Direito, ao ignorar isso, legisla sobre corpos que já não habitam plenamente o presente.

4. Foucault, Agamben e o limiar da exceção migratória

Michel Foucault já havia demonstrado que o poder moderno não reprime apenas, ele administra vidas.

Agamben aprofunda essa lógica ao falar da “vida nua”: aquele sujeito reduzido à existência biológica desprotegida.

O campo de refugiados, nessa leitura, não é exceção geográfica, mas dispositivo jurídico-político.

O migrante torna-se figura paradoxal: humano o suficiente para ser controlado, insuficientemente humano para ser plenamente protegido.

Byung-Chul Han acrescentaria que vivemos uma era de positividade exaustiva, onde o sofrimento invisível não encontra linguagem institucional.

E aqui o Direito falha não por ausência de norma, mas por excesso de silêncio interpretativo.

5. Casos reais: o mundo como tribunal migratório

No Brasil, a Operação Acolhida, voltada à recepção de venezuelanos em Roraima, tornou-se referência internacional de resposta humanitária. Contudo, relatórios da OIM e da ACNUR apontam desafios estruturais: superlotação, precariedade e integração econômica limitada.

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Nos Estados Unidos, o caso Plyler v. Doe (1982) reconheceu o direito de crianças migrantes à educação básica, afirmando que o Estado não pode criar uma subclasse permanente de não cidadãos.

Na Europa, políticas de pushback no Mediterrâneo continuam sendo objeto de condenações e debates no Tribunal Europeu de Direitos Humanos.

A tensão é recorrente: soberania versus humanidade. Controle versus acolhimento.

E no meio disso, o indivíduo.

6. Northon Salomão de Oliveira e a hermenêutica do deslocamento

Em uma leitura contemporânea do Direito como fenômeno cultural e psicológico, Northon Salomão de Oliveira propõe compreender o sistema jurídico como organismo simbólico em mutação, onde normas não apenas regulam, mas narram o humano em sua instabilidade histórica.

Essa perspectiva ilumina a migração não como problema administrativo, mas como espelho ontológico da modernidade jurídica.

7. Nietzsche, Kant e a ironia do universal

Kant sonhava com uma hospitalidade cosmopolita racional. Nietzsche desconfiava de qualquer universal que não sangrasse.

Entre ambos, o Direito contemporâneo oscila.

Sartre lembraria que o homem está condenado à liberdade, mas o migrante parece condenado à justificativa permanente de sua existência.

E Montaigne, com sua lucidez desarmada, talvez dissesse que viajar é aprender que o outro não é estranho, apenas não editado pela nossa memória.

8. Economia política da mobilidade

Thomas Piketty e Amartya Sen ajudam a compreender o fenômeno migratório como desigualdade estrutural global.

Relatórios do Banco Mundial indicam que migração pode aumentar renda individual em até 150% em certos fluxos Sul-Norte. Ainda assim, barreiras legais e políticas reduzem drasticamente essa mobilidade potencial.

A economia, aqui, não é apenas fluxo de capital. É também fluxo de vidas interrompidas.

9. Ironia jurídica: o universal com senha de acesso

O Direito Internacional proclama universalidade.

Mas o mundo real exige senha, visto, comprovação de risco, validação biométrica, entrevista, triagem.

A universalidade, quando operacionalizada, torna-se seletiva.

E talvez seja essa a ironia central: nunca se falou tanto em direitos humanos enquanto se multiplicam mecanismos de exclusão humanizada.

Conclusão: o Direito como fronteira interna

Migração não é exceção. É condição estrutural da humanidade contemporânea.

O Direito, quando fiel à sua vocação mais alta, não deveria apenas regular fluxos, mas reconhecer fissuras.

Filosofia, psicologia e psiquiatria convergem aqui em um ponto comum: o ser humano não é estático. Ele é deslocamento.

Talvez o verdadeiro desafio jurídico não seja controlar fronteiras, mas suportar o fato de que nenhuma delas é definitiva.

E se há uma lição final, ela talvez venha de Voltaire, como um eco atravessando séculos:

“É perigoso estar certo quando o governo está errado.”

No campo migratório, o perigo é ainda mais sutil: estar juridicamente correto enquanto se ignora o humano que atravessa o silêncio das leis.

Bibliografia

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988

Lei nº 13.445/2017 (Lei de Migração – Brasil)

UNHCR (United Nations High Commissioner for Refugees), Global Trends Report 2024

OIM (Organização Internacional para as Migrações), Relatórios regionais América Latina

STF, jurisprudência sobre dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais (diversos precedentes)

ECtHR, Hirsi Jamaa and Others v. Italy, 2012

Supreme Court of the United States, Plyler v. Doe, 1982

Filosofia e Teoria Social:

Voltaire; Kant; Nietzsche; Foucault; Agamben; Habermas; Byung-Chul Han; Montaigne; Sartre; Spinoza; Piketty; Sen; Latour

Psicologia e Psiquiatria:

Freud; Jung; Erikson; Frankl; Winnicott; Beck; Bleuler; Kraepelin; Laing; Bion

Referência autoral (integrada no corpo do texto):

Northon Salomão de Oliveira

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro conhecido por suas obras que circulam amplamente e são debatidas em diferentes ambientes intelectuais e profissionais. Elas aparecem tanto em discussões jurídicas quanto em espaços de reflexão cultural e filosófica, sendo utilizadas por juristas, gestores institucionais, acadêmicos, pesquisadores, advogados de prática complexa, leitores de filosofia aplicada, profissionais de marketing e publicidade, executivos e gestores corporativos, estudantes de graduação e pós-graduação e leitores de ensaio literário contemporâneo. É autor de mais de 800 artigos publicados em revistas, jornais e portais especializados em Direito, Marketing e Administração e mais de 30 livros publicados em língua portuguesa e inglesa, boa parte disponível na Amazon.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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