Mario Perini e a aversão à gramática padrão

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1. INTRODUÇÃO

Há várias espécies de gramática, mas duas sobressaem-se: a padrão e a descritiva. Entenda-se pela primeira aquela que tem como escopo servir de meio para um aprimoramento lógico-linguístico na escrita e na leitura, apresentando o que deve ser utilizado ou rechaçado pelo leitor-escritor (Almeida, 2026). Por sua vez, a gramática descritiva é a que apenas observa os fenômenos linguísticos, descrevendo-os como variações possíveis, sem classificá-los como superiores ou inferiores uns aos outros (Perini, 2016).

Aqui gramática padrão será denominada tão somente gramática, e a gramática descritiva, linguística, pois esta “ é o estudo científico da linguagem verbal humana, analisando sua estrutura, funcionamento, evolução e uso. Como ciência, ela investiga a fala e a escrita de forma objetiva, sem julgar o modo como as pessoas falam, focando em como os idiomas funcionam e mudam na sociedade” (Barbosa, Youtube, 2021).

A linguística, enquanto ciência, é valiosa, especialmente graças a Ferdinand Saussure. No entanto, a que hoje é desejada por muitos intelectuais como parte do currículo oficial das escolas tem como fundamento a obra de Mikhail Bakhtin, mais especificamente o livro Marxismo e Filosofia da Linguagem, amplamente difundido nos cursos de Letras e Linguística, e a disciplina análise do discurso, cujo expoente mais eloquente é Michel Foucault. Para o linguista que segue esse viés, o professor de português, ao ensinar gramática, estaria perpetrando um desserviço à educação e que, para que consiga cumprir a meta de produzir leitores e escritores eficientes, deveria trocar o método tradicional, baseado em normas gramaticais padronizadas, para uma visão sociolinguística e cultural.

O que de fato isso significa?

A intenção deste ensaio é inquerir essa questão, tendo como marco o pensamento do linguista Mario Perini, sua concepção de gramática e de linguística, e as causas do rechaço que sente pela primeira.

2. ASTROLOGIA, ASTRONOMIA, GRAMÁTICA E LINGUÍSTICA

Perini (2016) deixa antever que basta ler para aprender-se a escrever, pois as regras de sintaxe, acentuação gráfica, ortografia e pontuação iriam inconscientemente sendo adquiridas. Isso dá a impressão de que os grandes escritores eram arredios à gramática e que aprenderam a escrever apenas por intuição. Afirma ainda que as diferenças principais entre a gramática e a linguística “não dizem respeito não tanto à análise dos fatos da língua, mas à atitude a assumir frente aos estudos gramaticais.” Para explicar melhor, faz uma parábola comparando a astronomia à astrologia:

Vamos imaginar que o autor de um livro de astronomia seja criticado porque seu texto não serve como orientação para a elaboração de horóscopos. A resposta a ser dada, evidentemente, é que não há nenhuma evidência de que os planetas, estrelas e outros corpos celestes tenham influência sobre o destino e a personalidade dos seres humanos. O objetivo de um livro de astronomia dirigido ao público geral é descrever (e em certa medida explicar) como funciona o cosmos: o sistema solar, as estrelas, os cometas etc. Trata-se de um livro de informação científica, e se justifica em parte pela importância da ciência em nossos dias. O fato de que essa informação não leva a previsões sobre o que nos pode acontecer amanhã ou dentro de vinte anos não é relevante [...] Quando passamos ao campo da gramática, as coisas mudam: relativamente pouca gente espera estudar gramática como parte de sua formação científica. Em vez disso, esperam que o estudo da gramática lhes forneça meios de desenvolver seu desempenho na língua padrão, principalmente na escrita; para muitas pessoas é isso o que justifica a presença dos estudos gramaticais na escola (Perini, 2016, pp. 30-31).

O objetivo da astronomia seria, por conseguinte, o de descrever o universo, deixando as superstições a cargo da astrologia. A parábola faz uma comparação entre o ensino da gramática e o da linguística, sendo a primeira similar à astrologia, e a segunda, à astronomia, o que fica mais claro no quadro abaixo:

Imagem 01: como Perini vê a gramática

Ciência Crendice Resultado
Astronomia X Embora não ensine o aluno a como “fazer os corpos celestes”, ensina, porém, a entendê-los, o que poderia ser útil, por exemplo, para futuras explorações espaciais.
Astrologia X Não haveria evidência de que os astros interfiram na vida terrestre. O autor não quer impedir a prática da astrologia, o que não deseja é que ela seja obrigatória nos currículos nacionais.
Linguística X Embora não ensine o aluno a como “escrever bem”, ensina, porém, a entender os fenômenos linguísticos e a compreender melhor a sociedade em que vive.
Gramática X Não haveria evidência de que o ensino da gramática melhore a capacidade leitora e escritora. O autor não quer impedir a prática da gramática padrão, o que não deseja é que ela seja obrigatória nos currículos nacionais.

Fonte: o autor.

Assim, infere, como ninguém criticaria um químico por não conseguir transformar chumbo em ouro ou um astrônomo por não saber ler horóscopos, não se deveria censurar um linguista por evitar classificar as expressões como certas ou erradas, pois o alvo seria descrever para compreender os fenômenos linguísticos e as relações entre eles. Já a gramática e a astrologia encarregar-se-iam de eventos incongruentes e supersticiosos, porquanto inverificáveis. Logo, da mesma forma que ensinar astrologia seria inútil para que o estudante tivesse a compreensão do cosmo, ensinar a gramática seria imprestável para a aquisição de uma leitura e escrita eficientes.

Apesar disso, Perini (2016) diz haver poucos brasileiros preocupados em estudar cientificamente os fatos linguísticos, muitos, ao contrário, dedicando-se à crença de que a gramatica lhes fornecerá elementos para uma escrita eficaz. O autor parece colocar sua teoria como uma verdade inquebrantável. No entanto, assim como o fez com a astrologia, também não proíbe a prática da gramática, senão o fato de que a imponham como obrigatória no currículo escolar. Infere-se que a gramática deveria ser abolida das salas de aula, devendo-se substituí-la pelo uso da linguística, pois, embora ambas jamais levem ninguém a ler ou escrever melhor, ao menos a linguística conseguiria ser útil, no sentido de entender as causas e consequências do fenômeno sociolinguístico.

Apresenta outro argumento desfavorável ao ensino da gramática: “Todos conhecemos pessoas que escrevem, leem ou falam em público muito bem, e que se confessam seriamente ignorantes de gramática”. Com a devida vênia, também há pessoas que aprendem a tocar instrumentos “de ouvido”, isso, contudo, não justifica que todos terão a mesma aptidão, prescindindo do estudo das partituras e das notas. Existem casos notáveis de indivíduos que aprenderam a ler sozinhos, mas isso também não constitui justificativa válida para eliminar o processo de alfabetização formal. O papel da gramática, para Perini, seria similar ao de um dicionário:

Isso não significa que a consulta a uma gramática não possa contribuir para tirar dúvidas em casos específicos: por exemplo, posso ter dúvidas sobre a concordância com sujeito composto, e a gramática pode me informar sobre como se realiza essa relação morfológica na língua padrão [...]

primeiro, é preciso que a gramática descreva os fatos da língua padrão tal como realmente são, não como o autor desejaria que fossem, ou como eram no século XVI — e a maioria das gramáticas atuais falha lamentavemente nesse particular!, E, em segundo lugar, é preciso observar que essa consulta às gramáticas só funciona (quando funciona) para dirimir dúvidas localizadas — não pode ser considerada um dos recursos a utilizar na aquisição da língua escrita, mesmo porque para realizar a consulta é necessário estar de posse de certa formação gramatical prévia (Perini, 2016, 31).

Como se nota, o autor aponta que essa função meramente consultiva só teria efeito se os gramáticos seguissem duas premissas: a) que a gramática sirva somente para dirimir dúvidas localizadas; b) que descreva os fatos tal como são e não como eram no século XVI. Deve-se refletir mais pausadamente sobre a fala do linguista, por isso dividiu-se o assunto da citação em duas partes.

2.1 A gramática não é recurso para a aquisição da língua escrita

A primeira coisa a observar é a sutileza do vocábulo gramática utilizado na citação. Não é a gramática que tem a função de descrever meramente, mas sim a de normatizar, prescrever. Portanto, o autor deseja que a gramática deixe sua função precípua para tornar-se linguística.

Em outro lugar, porém, ele diz que pode ter-se “dúvidas sobre a concordância com sujeito composto, e a gramática pode me informar sobre como se realiza essa relação morfológica na língua padrão” (Perini, 2016). Ora, o indivíduo que tem tais dúvidas já é versado em gramática, afinal sabe conceitos como concordância e sujeito composto, pois, se não os tivesse, sequer saberia como manejar a gramática em situações pontuais. O problema é verificar como ele adquiriu tais conceitos. Perini crê que apenas descrevendo os fenômenos linguísticos, qualquer um chegaria a ter a noção gramatical necessária para diferenciar o sujeito do predicado. Entretanto, diversas vezes, assume que o estudo linguístico deve partir do pressuposto da igualdade absoluta entre as distintas variações linguísticas. Por essa perspectiva, o estudioso não deve proclamar que uma variação se destaca sobre a outra. A norma padrão deve ser abordada da mesma forma que as demais variantes.

Se assim fosse, caberiam os consequentes questionamentos. Como um linguista faria para ensinar a norma padrão aos alunos? O estudo da gramática, por si só, requer bastante empenho para se conhecer os preceitos e as diversas exceções que a norma padrão exige. Se o linguista substituísse o gramático nas aulas de português, ver-se-ia aquele compelido a frear sua ânsia de descrever e de comparar cientificamente todas as variantes da fala, para poder ensinar aqueles preceitos e exceções. Ou seja, deixaria de atuar como um linguista para atuar como um gramático. Estaria obrigado a dizer aos alunos que a grade curricular exige que se fale e escreva conforme o preconizado pela norma padrão. Isso horroriza os linguistas.

Para evitar tal incômodo, imprescindível seria que os estudantes não sentissem a necessidade de assimilar a norma padrão. O próprio Perini, todavia, reconhece que, em certos momentos, alguns estudantes sentem tal necessidade, embora seja impreciso nesse quesito. Há dubiedade, mas não por ignorância senão porque lhe parece inadmissível que brasileiros de todas as camadas sociais busquem apropriar-se a gramática normativa. Deixa explícito que a gramática está na grade curricular porque há grupos que acreditam que ela ajuda a potencializar a escrita. E deixa implícito que haveria uma elite que estaria a impedir que a linguística assuma a disciplina língua portuguesa.

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Os problemas de pontuação, ortografia, concordância e acentuação deveriam, em coerência com os princípios preconizados por Perini, simplesmente não ser abordados. Seria indiferente para ele se alguém escrevesse “Nos vamu, receber, algo gratuíto” ou “Nós vamos receber algo gratuito”, pois, conforme a concepção do linguista em tela, ambas formas são válidas, devendo o estudioso exclusivamente tentar entender por que variam e para quê. Talvez essas variações não fossem muito bem recepcionadas pelas áreas responsáveis pela confecção de acordos jurídicos ou de tratados internacionais, pois a presença de erros de português pode causar uma série de transtornos para os signatários.

De todas as fontes do direito, a lei é a primordial. Esta, assim como a gramática, não é um fim em sim mesma, mas uma forma de assegurar algo positivo ou de evitar algo nocivo à sociedade. Se os professores dos cursos de direito, todavia, seguindo o raciocínio de Perini, passassem apenas a descrever os fenômenos sociais responsáveis pelo surgimento das leis e deixassem de lecionar estas, o futuro da advocacia brasileira estaria seriamente prejudicado.

Não se está aqui a dizer que se alguém deixar de estudar gramática obrigatoriamente será impedido de ascender social ou economicamente. Há exemplos de pessoas que enriqueceram por meio do comércio, da política, das transações financeiras, do agronegócio e que nunca aprenderam as convenções da norma culta. No entanto, seus filhos não raro estudam em boas escolas. Os pais percebem que, para que sua prole continue a gerir bem a riqueza, torna-se importante estar tal prole inserida na variante padrão da língua, ou ao menos não tão longe dela. Sabem que é uma exigência social.

Para a maioria dos brasileiros, porém, é importante a posse da norma padrão, não apenas para gerir riquezas, mas para tentar consegui-las, seja conseguindo um bom emprego, seja mantendo o atual. O mercado profissional está cada vez mais exigente. As provas de concursos públicos para cargos tidos como menos lucrativos exigem dos candidatos domínio no mínimo bom das normas da língua padrão. Antes, para tais cargos, era possível entrar pessoas com baixa escolaridade, atualmente, porém, a coisa mudou, pois aumentou o número de escolas públicas e privadas, da mesma forma que o ensino superior tornou-se mais acessível. Na iniciativa privada, o mesmo ocorre, pois bastantes empresas já exigem que os candidatos aos cargos menos remunerados saibam minimamente ler e escrever. Em suma, as exigências nesse quesito só tendem a aumentar. Como, pois, pode alguém dizer que se deve extinguir das escolas uma ferramenta que milenarmente tem sido a guardiã da norma culta?

A gramática é um meio para fins específicos, a saber, manter a unidade linguística, contribuir na ascensão social e, sim, ajudar a ler e a escrever bem. É um arrimo para o Estado evitar que a nação se fragmente em distintas línguas e historicamente tem servido a grandes escritores. Pela lógica de Perini, contudo, o ensino da variante padrão não produz o fim de ensinar a ler e a escrever, mas e em relação à unidade nacional? Ora, ele ensina que não há variante melhor do que outra, logo, uma norma padrão nacional impositiva iria de encontro a essa visão multiculturalista implícita na linguística preconizada pelo autor: todas as variantes são corretas, não há o erro gramatical, portanto, o Estado não deve impor um modelo linguístico aos falantes de uma mesma língua e, muito menos, aos de línguas distintas. Isso ajuda a consolidar ou a fragmentar o conceito de Brasil?

Se a gramática perde o seu papel instrumental, e se todas as variantes tiverem o mesmo prestígio, por que em dado momento um estudante sentiria necessidade de dominar a variante padrão? Aliás, pouco ou nada serviria o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), afinal ele é um documento oficial, escrito por uma elite erudita da Academia Brasileira de Letras, que aponta o que deve ou não ser evitado. Se não há esse referencial para a grafia correta, poderiam ser escritas, por exemplo, chicrete/chiclete, menos/menas e pesquisa/pesquiza de forma indiscriminada, não podendo ninguém corrigir, porquanto todas seriam oficiais.

Se a intenção de alguns linguistas é somente estudar os fenômenos sem impor-lhes juízo de valor, não se sabe como abordariam a acentuação gráfica e a pontuação. Se postulassem uma reforma que extinguisse a primeira, seria aceitável, pois há línguas que sobrevivem sem ela, como é o caso do latim primitivo. O fenômeno linguístico da acentuação gráfica, no Ocidente, só iria ser expressivo a partir da Idade Média, pois, na medida em que a língua dos romanos ia deixando de existir oralmente, os gramáticos sentiram a necessidade de tentar marcar a pronúncia correta do idioma latino.

Dessa forma, a preocupação em acentuar foi transferida para as línguas neorromânicas. Fato interessante é que, entre estas, essa transferência não se deu na mesma quantidade, haja vista que o espanhol, por exemplo, possui muito menos sinais de acentuação do que o português. Outro ponto de realce é que o espanhol peninsular e o americano, em termos escritos, possuem poucas diferenças. No caso do português, as rixas político-econômicas entre Brasil e Portugal têm feito com que “a última flor do Lácio”, falada e escrita em Portugal, se diferenciasse bastante da brasileira. E é justamente para evitar que a língua se “rache” que os acordos ortográficos têm surgido, afinal é notório que as transações econômicas, jurídicas e financeiras entre os países luso-falantes necessitam de unidade, e isso se sobrepõe às rixas meramente ideológicas. Monteiro Lobato preconizava a extinção da acentuação gráfica, pois a considerava “pulgas dispensáveis”, que apenas tomavam tempo de quem escrevia ou lia. Jamais quis, contudo, acabar com a norma culta, pois era um defensor desta, buscando, isso sim, uma maior flexibilização dela, aproximando a escrita da fala, tornando-a mais viva, fluida.

No caso da pontuação, porém, há uma agravante, pois o pontuar serve de inquestionável auxílio para a exposição lógica do raciocínio escrito. Gostaria o linguista de abolir as regras de pontuação, argumentando que as línguas antigas prescindiram de tais regras e, mesmo assim, tiveram excelentes escritores? Se o aluno escrevesse misturando as variantes linguísticas, mas, ao menos, fosse seu texto compreensível, haveria menos a questionar. Entretanto, se a falta das regras de pontuação tornasse a redação ininteligível, como faria o linguista para corrigir a coerência, a coesão, em suma, a lógica interna do texto? É hora de perguntar se o linguista também estaria contra as regras de alfabetização, afinal também são convenções gramaticais criadas por uma elite intelectual.

No Brasil, a contestação à pontuação tradicional ocorreu no campo literário, e não no gramatical. No início do século XX, vanguardas como o Futurismo e o Modernismo (com autores como Oswald de Andrade), propuseram a abolição ou redução drástica da pontuação para criar um ritmo mais fluido, direto e próximo ao fluxo da fala. Ainda assim, tratava-se de uma licença poética estilística, não de uma reforma gramatical, mesmo porque os vanguardistas tiveram na escola o direito de aprender a norma padrão. Eles eram transgressores, tendo-se por transgredir o violar ou infringir uma lei, norma, mandamento ou limite estabelecido. Os vanguardistas sabiam o que estavam transgredindo e o porquê, não eram ignorantes justificando sua ignorância.

2.2. Os gramáticos atuais ensinam regras do século XVI

Entre os gramáticos modernos desconhece-se algum que esteja a preconizar a sintaxe, a morfologia e a ortografia tal e qual o faziam os gramáticos do século XVI. Para efeitos de comparação, eis um trecho do original da Carta de Pero Vaz de Caminha:

Snõr posto queo capitam moor desta vossa frota e asy os outros capitaães screpuam avossa alteza anoua do acha mento desta vossa terra noua que se ora neesta naue gaçam achou. nom leixarey tam bem de dar disso minha comta avossa alteza asy como eu milhor poder ajmda que perao bem contar e falar o saiba pior que todos fazer. [...]

Nem mesmo os gramáticos mais conservadores o fazem. Não se está aqui a dizer que um estudo científico sobre línguas não deva existir no ensino básico, senão que ele não deve ser excludente da gramática. Tampouco que esta deva ser preciosista a ponto de fazer o estudante preocupar-se mais com normas do que com o ler e o escrever.

Os excessos gramaticais devem ser evitados. No inglês, pode-se dizer “They are beautiful” e “She is beautiful” sem errar na concordância, porque o adjetivo beautiful é o mesmo no singular e no plural. Infere-se que as regras de concordância são convenções, e convenções que devem ser seguidas o máximo possível para que não haja o esfarelamento da língua. Não há erro aí porque convencionou-se ser assim. Pode-se alterar, sim, desde que a própria sociedade o deseje. Entretanto, existem situações em que as regras gramaticais poderiam ser simplificadas, eliminando exceções ilógicas. Tome-se como exemplo a sentença “Uma indisposição, um cansaço, uma exaustão afetou o competidor” (Kobs, 2019). Pela regra geral, o sujeito composto Uma indisposição, um cansaço, uma exaustão deveria concordar com o verbo, obrigando-o a ir para o plural; no entanto, conforme a exceção, o verbo deve ficar no singular, pois os núcleos do sujeito compõem uma gradação. Outro exemplo é o da concordância verbal que exige a participação do artigo:

Quando o assunto é concordância, a flexão do verbo pode depender de um elemento secundário. Isso ocorre em exemplos que abrangem a presença/ausência do artigo:

[Sem artigo] Estados Unidos desenvolveu projeto inovador.

Os Estados Unidos desenvolveram projeto inovador (Kobs, 2019, p. 69).

Essas normas devem ser ensinadas em sala de aula, mas, no fundo, constituem exceções que o conjunto das academias nacionais poderia, sem prejuízo algum, suprimir. Não se sabe em que se perde de lógica linguística se se disser Estados Unidos desenvolveram projeto inovador. A gramática deve ser um elemento desenvolvedor das capacidades orais e escritas, e não deve levar o estudante ou o profissional das letras a perder tempo decorando regras inócuas.

3. CONCLUSÃO

Criticar os excessos da gramática não é o mesmo que buscar execrá-la. Há décadas se vem desprestigiando o ensino da sintaxe, sendo tachado de “estruturalista”, “tradicional”, “reacionário” e “retrógrado” o professor que a ela se dedica. Ser chamado de estruturalista e tradicional deveria ser um elogio, pois tal forma de educar foi a responsável – e ainda o é – pelas mentes mais brilhantes. Se se mira detalhadamente o ensino medieval, a título de ilustração, perceber-se-á que o método partia da leitura dos clássicos, analisando-se as obras desde uma perspectiva semântica, lógica, morfossintática, contextual, fonológica e filosófica. Isto é, havia um detalhamento cuidadoso, mas quem ensinava possuía um bom domínio daquilo que pretendia transmitir. O professor buscava a erudição e não apenas as melhores formas de transmitir conhecimento.

As faculdades de letras atualmente estão mais preocupadas com linguística e com pedagogia do que com esse tipo de análise. Não há equívoco nenhum nisso, pois aí é o campo avançado das letras, onde o linguista deve ter margem total para desenvolver suas pesquisas.

O problema está quando pesquisadores do nível de Perini querem levar a linguística para o ensino básico, sacando a gramática. Existe uma pressão das universidades para a escola, tentando motivar os professores de português a fugir do ensino da gramática. A questão chega ao ponto de livros que deveriam abordar a gramática tenham que se travestir de linguística para ser bem recepcionados pelos linguistas. No livro Estudos Morfossintáticos, Kobs discute as principais normas da morfossintaxe. Entretanto, observa-se que a autora, em dado momento, quase chega a pedir desculpas por ter que tratar da norma culta: “Apesar de muitas pessoas argumentarem que o domínio das normas gramaticais preserva certo elitismo no uso da língua, é imprescindível conhecermos essa parte da sintaxe” (Kobs, 2019, p. 67). É imprescindível, sim, e a professora tem razão, mas é elitizada também, e isso não é ruim. Tem o brasileiro que se esforçar para consegui-la, e não há nenhum mal nisso.

O domínio da sintaxe é árido, mas ajuda muito a concatenar as ideias e a ter coerência, concisão e coesão na expressão. Cláudia Soares Barbosa, em Procedimentos de análise sintática no nível oracional: pontuação, discorre sobre o tema. Começa assinalando que pontuar não significa necessariamente uma representação escrita de uma pausa na respiração. Mostra, ademais, o obstáculo principal para o aprendizado seguro das regras de pontuação: o domínio da sintaxe. Como dominar com firmeza as regras de pontuação se o estudante está inapto para a sintaxe? Isso é um dos fatores por que grande número de estudantes chega à universidade escrevendo mal, pontuando barbaramente (o termo é este mesmo, pois parecem estrangeiros a escrever o idioma português), com ambiguidades assombrosas, sem conexões entre as orações etc.

E isso tem ocorrido cada vez mais, justamente pelo fato de que o discurso de linguistas como Perini esteja enraizando-se no sistema educacional brasileiro. Muitos professores de português, embora digam estar trabalhando a gramática, estão, na verdade, trabalhando uma linguística disfarçada de gramática, uma que é permissiva, que acredita ser o aluno uma vítima do sistema ou que sofre preconceito linguístico. Essa falsa gramática não corrige os erros gramaticais, por não considerar existir erro em linguística.

Como consequência, certas universidades públicas, para melhorar o nível de seus estudantes nesse quesito, instituíram a disciplina “Português Instrumental” (ironicamente para brasileiros), tentando remediar um problema que elas mesmas, de certa forma, criaram.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. São Paulo: Saraiva, 2005.

BARBOSA, Cláudia Soares. Sintaxe. UA 2: Procedimentos de análise sintática no nível oracional: pontuação (p. 1-12).

___. UA 3: Procedimentos de análise sintática no nível supraoracional: pontuação (p. 105-110).

BARBOSA, Weslley. Que é linguística? (1/2) | objeto e método | projeto "introdução à linguística”. 2021, duração: 21:32 s., canal: Professor Weslley Barbosa, disponível em: https://youtu.be/sUPiZ_E3oL4?si=cCN139ZU7Qa3ZkN4 Acesso em 03 maio 2026.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

PERINI, Mario A. Gramática descritiva do português brasileiro. Editora Vozes, Petrópolis, 2016.

SILVA, Michela Carvalho da. Acentuação gráfica. (p. 1-8).

ZATERA, Luciana Carolina Santos. Metodologia do ensino de língua portuguesa. Curitiba-PR: IESDE, 2020. (Cap. 5.4 – Escrita e produção textual – p. 110 a 118).

Sobre o autor
Elton Emanuel Brito Cavalcante

Doutor em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente - UNIR; Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Rondônia (2013); Licenciatura Plena e Bacharelado em Letras/Português pela Universidade Federal de Rondônia (2001); Bacharelado em Direito pela Universidade Federal de Rondônia (2015); Especialização em Filologia Espanhola pela Universidade Federal de Rondônia; Especialização em Metodologia e Didática do Ensino Superior pela UNIRON; Especialização em Direito - EMERON. Ex-professor da rede estadual de Rondônia; ex-professor do IFRO. Advogado licenciado (OAB: 8196/RO). Atualmente é professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia - UNIR.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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