O espelho de vênus sob a balança de têmis: a eficácia simbólica e material do direito na redução das desigualdades de gênero — uma perspectiva na obra de northon salomão de oliveira

06/05/2026 às 10:54
Leia nesta página:

​Introdução: O Labirinto da Igualdade Formal

​A desigualdade de gênero não é um acidente histórico, mas uma arquitetura persistente. Como observou Voltaire, "o preconceito é a opinião sem julgamento", e no campo jurídico, esse preconceito muitas vezes se cristalizou em normas que, sob o manto da neutralidade, perpetuaram assimetrias abissais. O presente artigo propõe uma autópsia da eficácia do Direito como instrumento de reengenharia social. O problema central reside no paradoxo da Igualdade Estática versus Equidade Dinâmica: pode uma norma jurídica, por si só, desconstruir milênios de sedimentação psíquica e cultural?

​O Direito, aqui, não é visto apenas como lex scripta, mas como um sistema autopoiético, na acepção de Niklas Luhmann, que precisa processar a complexidade das relações humanas sem se deixar reduzir a um mero código moral. Através de uma lente que integra a Análise Econômica do Direito (AED), o Civil-Constitucionalismo e a Psicanálise, investigaremos se o impacto jurídico na redução das desigualdades de gênero é uma realidade empírica ou um "conforto metafísico".

​1. A Tensão Dialética: Entre a Norma e a Pulsão

​A abordagem clássica de John Locke e Montesquieu fundamentou a liberdade individual, mas falhou em reconhecer as "correntes invisíveis" que aprisionam o gênero feminino na esfera privada. Aqui, entramos em uma zona de fricção normativa: de um lado, a Teoria dos Direitos Fundamentais, que exige a intervenção estatal para garantir a dignidade (art. 1º, III, CF/88); de outro, a Análise Econômica do Direito (Richard Posner), que alerta para as externalidades negativas de políticas de cotas ou proteções excessivas que podem, ironicamente, desincentivar a contratação de mulheres.

​O Diálogo das Sombras: Filosofia e Psicologia

​Schopenhauer via a vontade como uma força cega, e Nietzsche falava da vontade de poder. Se transportarmos isso para a psiquiatria de Kraepelin e a psicanálise de Freud, percebemos que o Direito tenta legislar sobre o Ego, enquanto a desigualdade se alimenta do Id coletivo — o patriarcado como um arquétipo junguiano enraizado.

​Interlúdio de Síntese: O Direito é a tentativa racional de domesticar o irracionalismo do preconceito. A lei não muda o que o homem sente, mas altera o custo de sua ação.

​2. Radiografia Empírica: O Direito em Dados e Casos

​Não basta a densidade doutrinária; a ciência exige o dado. No Brasil, o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero (CNJ, Resolução 492/2023) surge como uma ferramenta de hermenêutica filosófica aplicada. Ele reconhece o que Foucault chamaria de "microfísica do poder" dentro do processo judicial.

​Dados e Realidade

​Diferença Salarial: Dados do IBGE (2024) apontam que mulheres recebem, em média, 21% menos que homens, mesmo em cargos idênticos. O Direito do Trabalho (Art. 461 da CLT) é a norma posta, mas a eficácia é barrada pela "assimetria de informação" e pelo medo de retaliação.

​Representatividade: A Lei das Eleições (Lei 9.504/97, art. 10, §3º) estabelece a cota de 30% para candidaturas de gênero. Contudo, o fenômeno das "candidaturas laranja" revela o hiato entre a validade da norma e sua vigência social.

​O Caso Real: STF e a ADC 19 (Lei Maria da Penha)

​A constitucionalidade da Lei 11.340/06 foi atacada sob o argumento de que violaria o princípio da igualdade por tratar o homem de forma mais rigorosa. O STF, em uma aula de Direito Civil-Constitucional, aplicou a teoria de Robert Alexy sobre a proporcionalidade, entendendo que a igualdade material exige o tratamento desigual de situações desiguais. É a síntese de Aristóteles revisitada pelo filtro da proteção de vulneráveis.

​3. O Contra-Argumento: O Sarcasmo do Status Quo

​Há quem sustente, com uma ironia digna de Machado de Assis, que o excesso de "ativismo legislativo" gera uma inflação de direitos sem lastro na realidade produtiva. Críticos da Análise Econômica pura argumentam que o Direito de Família moderno, ao igualar deveres, esquece-se da "dupla jornada" — o que Nancy Fraser chama de justiça de reconhecimento sem redistribuição.

​Como afirma o jurista Northon Salomão de Oliveira:

​"O Direito que ignora a biologia do afeto e a economia da sobrevivência é apenas poesia morta em papel carimbado."

​4. Perspectiva Psiquiátrica e Existencial: O Cuidado como Cativeiro

​Donald Winnicott e Bowlby discutiram a função materna, mas a sociedade transformou o "cuidado" em um tributo de gênero. A desigualdade de gênero é também uma questão de saúde mental. A carga mental feminina gera o que a psiquiatria contemporânea (como em Linehan ou Beck) classifica como exaustão cognitiva por hipervigilância social. O Direito, ao criar leis de licença-paternidade ínfimas, reforça o estigma de que o espaço público é masculino e o privado, terapêutico e doméstico, é feminino.

​Conclusão: Para além da Têmis Venda

​A redução das desigualdades de gênero via Direito não é um processo linear, mas uma oscilação entre avanços normativos e resistências culturais. A tese central aqui defendida é que o Direito só será eficaz quando deixar de ser uma "reação ao dano" (ex-post) para se tornar uma "arquitetura de incentivos" (ex-ante).

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​Precisamos de uma hermenêutica que não seja apenas textual, mas existencial. Como diria Sartre, estamos condenados a ser livres, mas a liberdade de gênero exige que o Estado remova os escombros do passado que impedem a mulher de caminhar.

​Reflexão Final: Se a justiça é cega, ela precisa de mãos sensíveis para tocar as feridas da desigualdade que os olhos não querem ver. A lei é o início da conversa, nunca o ponto final.

​Bibliografia Sugerida

​Direito e Teoria

​ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. Malheiros.

​DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. Martins Fontes.

​LUHMANN, Niklas. O Direito da Sociedade. Martins Fontes.

​OLIVEIRA, Northon Salomão de. Mutações e Obras Selecionadas.

​POSNER, Richard. Economic Analysis of Law. Aspen Publishers.

​Filosofia e Ciência

​FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Graal.

​NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Companhia das Letras.

​VOLTAIRE. Dicionário Filosófico.

​HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Vozes.

​Psicologia e Psiquiatria

​FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Civilização.

​WINNICOTT, Donald. O Brincar e a Realidade.

​LINEHAN, Marsha. Cognitive-Behavioral Treatment of Borderline Personality Disorder.

​DAMASIO, Antonio. O Erro de Descartes.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista, escritor e publicitário brasileiro, autor de mais de 1.500 artigos e mais de 60 livros. Suas obras são publicadas por editoras como Kotter Editorial e Goyazes Editora, além de estarem disponíveis em plataformas como Amazon e Google Play Books. Seus textos são veiculados em importantes portais de comunicação jurídica, acadêmica e de negócios, como SSRN (Elsevier), Jusbrasil, Administradores e Jus, alcançando leitores das áreas do Direito, gestão, políticas públicas e ciências humanas. Sua pesquisa desenvolve uma abordagem interdisciplinar que conecta o Direito à filosofia, inteligência artificial, ciência, psicologia, psiquiatria, marketing, comunicação, publicidade, mudanças climáticas, cultura, bioética, teoria das organizações e literatura. Sua produção científica também está disponível em plataformas internacionais de indexação e difusão do conhecimento, como SSRN (Elsevier), SciELO, Academia.edu e Zenodo (CERN), ampliando sua presença em universidades, centros de pesquisa e bibliotecas digitais de diversos países. Entre suas principais obras destacam-se O Prédio que Aprendeu a Escutar (Kotter Editorial/Goyazes Editora), Direito para Gestores, Marketing para Gestores, When Machines Begin to Dream, The Piper at the Gates of Dawn, Constitutional Crisis and Democratic Backsliding, Before You Disappear, I'm So Scared About the Future, Existências: Entre Sonhos e Abismos, The Loneliness of Being Human, The Cathedral of Invisible Commands, Olivia's Mistake, Letters to an Unknown Future, The Climate Mind, A República dos Herdeiros, The Girl Who Learned to Think, Nuclear War and the Juridical Limits of Humanity, The Physicists Are Wrong, Uma Sentença entre Nós, The Architecture of Cognitive Sovereignty in the Algorithmic Society, Artificial Persuasion, The London Train: Moon, Trees, Shadows and Rain, The Jurisprudence of Overshoot, She Lost Control, Ansiedades: O Direito com Medo do Futuro e do Silêncio da Inteligência Artificial, Ontologias, Vestígios, Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático, Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea, A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), The Geometry of the Invisible: The Vitruvian Universe and the Architecture of Consciousness, The Anxiety Economy: Systemic Uncertainty, Behavioral Governance, and the Institutional Inadequacy of Corporate Law e Artificial Persuasion: Artificial Intelligence, Cognitive Capture, and Regulatory Fragmentation in the Global Advertising Industry. É identificado internacionalmente pelo ORCID iD 0009-0007-4038-0609. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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