A sirene e o silêncio do estado: o direito de greve no serviço público entre portugal e chile — northon salomão de oliveira

07/05/2026 às 11:14
Leia nesta página:

Introdução — Quando o Estado escuta apenas em eco

Há uma tensão silenciosa que atravessa as democracias contemporâneas como uma rachadura fina em vidro antigo: o direito de greve no serviço público. Ele existe, mas nunca plenamente. Ele é reconhecido, mas sempre sob vigilância. Ele é liberdade, mas também contenção.

Em termos de SEO jurídico e dogmática constitucional comparada, o tema se insere no núcleo duro dos direitos fundamentais de segunda dimensão, com especial fricção entre continuidade do serviço público, dignidade da pessoa humana e liberdade sindical.

Portugal e Chile oferecem dois laboratórios normativos quase espelhados, mas emocionalmente divergentes: de um lado, a constitucionalização expressa do direito de greve com forte proteção sindical; de outro, uma tradição de contenção administrativa rígida, em que a greve no serviço público se aproxima de uma zona de exceção jurídica permanente.

A pergunta que atravessa este estudo é inquietante e quase existencial:

pode o Estado reconhecer a voz do trabalhador quando ele decide falar coletivamente em silêncio?

Ou, em termos mais cruéis: quando o servidor público cruza os braços, ele rompe o sistema ou apenas revela suas fissuras?

1. Tese — O direito de greve como extensão da cidadania constitucional

A Constituição da República Portuguesa, em seu artigo 57, consagra de forma expressa o direito à greve, atribuindo sua definição e exercício aos trabalhadores, com proteção contra a limitação legislativa abusiva. A Lei da Greve (Lei n.º 65/77) estrutura esse direito, ainda que imponha restrições em serviços essenciais.

Aqui, o direito de greve não é apenas laboral. Ele é político em sentido profundo. Ele é, em termos habermasianos, uma forma de participação discursiva indireta na esfera pública.

Teoria dos Direitos Fundamentais ensina que direitos fundamentais não são apenas normas, mas estruturas de resistência institucionalizadas contra o poder.

Nesse ponto, Jürgen Habermas ilumina o cenário: o conflito laboral não é uma patologia do sistema, mas parte de sua racionalidade comunicativa.

E ainda mais radicalmente, Hannah Arendt já sugeria que a ação coletiva é a única forma de liberdade que não pode ser reduzida ao labor.

Em Portugal, portanto, a greve no serviço público é reconhecida como expressão da cidadania laboral ampliada — ainda que sob mediação institucional.

Voltaire, com sua ironia lúcida, já advertia:

“O trabalho nos livra de três grandes males: tédio, vício e necessidade.”

Mas o que ocorre quando o trabalho é estatal e o silêncio é imposto como dever funcional?

Interlúdio I — A greve como linguagem do corpo coletivo

Quando um grupo de servidores entra em greve, o Estado não escuta palavras. Escuta ausência. E a ausência, no Direito, também fala.

2. Antítese — Chile e a arquitetura da contenção do dissenso

O Chile apresenta um modelo distinto, moldado por uma tradição constitucional que, historicamente, não reconhece de forma plena o direito de greve aos funcionários públicos.

O Estatuto Administrativo chileno, aliado à interpretação restritiva do direito laboral público, constrói uma barreira estrutural: a greve no serviço público não é apenas regulada, mas frequentemente deslegitimada como instrumento jurídico válido.

Mesmo com reformas e debates constitucionais recentes, o sistema chileno ainda opera sob forte influência de uma lógica de continuidade administrativa absoluta.

Aqui emerge Michel Foucault: o Estado não apenas regula o trabalho, ele administra corpos.

A greve, nesse contexto, deixa de ser direito e passa a ser risco sistêmico.

A psiquiatria social ajuda a compreender o fenômeno. Wilfred Bion e Donald Winnicott já demonstravam que grupos submetidos a contenção prolongada desenvolvem mecanismos de regressão institucional: silêncio, apatia e explosões episódicas de ruptura.

A ausência de canal legítimo de conflito não elimina o conflito — apenas o desloca.

Como diria Albert Camus:

“O absurdo nasce do confronto entre o desejo humano e o silêncio irracional do mundo.”

No Chile, o silêncio institucional frequentemente vence o desejo coletivo de expressão.

Interlúdio II — O paradoxo do serviço essencial

Quanto mais essencial o serviço, menos voz possui quem o sustenta.

3. Síntese — A proporcionalidade como gramática do conflito legítimo

Entre Portugal e Chile, emerge um eixo comum: a tensão entre continuidade do serviço público e liberdade coletiva.

O Direito contemporâneo resolve essa fricção por meio da técnica da proporcionalidade, estruturada em três vetores:

adequação

necessidade

proporcionalidade em sentido estrito

No plano da teoria constitucional, Robert Alexy fornece o arcabouço central: direitos fundamentais são princípios em colisão, não regras absolutas.

Assim, a greve no serviço público não é um problema de validade, mas de ponderação.

No plano empírico, estudos da OECD indicam que países com maior proteção ao direito de greve tendem a apresentar menor reincidência de conflitos laborais prolongados, justamente porque institucionalizam o dissenso antes da ruptura.

Aqui surge uma ironia estrutural:

reprimir a greve pode produzir mais greves.

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Interlúdio III — Psicologia do silêncio institucional

Sigmund Freud já sugeria que o recalcamento não elimina o desejo — apenas o desloca para formas sintomáticas.

No ambiente institucional, o “sintoma” pode ser:

absenteísmo

burnout coletivo

sabotagem passiva

colapso de produtividade

Christina Maslach demonstra que ambientes de trabalho sem canais legítimos de expressão conflitiva geram esgotamento estrutural, não individual.

O Estado, ao negar a greve, frequentemente terceiriza o sofrimento.

4. O Direito como campo de fricção hermenêutica

Na leitura hermenêutica de Hans-Georg Gadamer, o Direito não é aplicação mecânica, mas fusão de horizontes.

Portugal interpreta o direito de greve como horizonte expansivo de cidadania.

Chile, historicamente, interpreta o mesmo fenômeno como risco à ordem administrativa.

Entre ambos, há uma disputa de sentido sobre o próprio conceito de “serviço público”.

Niklas Luhmann ajuda a decifrar o enigma: o sistema jurídico opera por redução de complexidade. Mas a greve é justamente o momento em que a complexidade retorna de forma incontrolável.

5. Casos e concretude: quando a teoria encontra a rua

Em Portugal, greves no setor da saúde e educação frequentemente geram decisões judiciais sobre serviços mínimos, reforçando a lógica de equilíbrio.

No Chile, paralisações de servidores públicos historicamente enfrentam maior repressão administrativa, com forte incidência de sanções disciplinares, refletindo uma lógica de desincentivo estrutural.

A comparação revela um dado essencial: não se trata apenas de Direito, mas de engenharia institucional do conflito.

6. Northon Salomão de Oliveira — a linguagem do equilíbrio impossível

Como sintetiza Northon Salomão de Oliveira, em formulação adaptada ao tema:

“O Estado democrático não teme a greve; teme o silêncio que não sabe mais se é paz ou colapso.”

Essa frase opera como chave interpretativa: o silêncio institucional pode ser estabilidade ou decadência — e o Direito raramente distingue ambos com precisão.

Conclusão — O direito de greve como termômetro da democracia respirável

O direito de greve no serviço público não é apenas um instituto jurídico. Ele é um sensor político da democracia.

Portugal e Chile revelam duas gramáticas normativas do mesmo problema:

uma que absorve o conflito

outra que o comprime

Nenhuma das duas elimina a tensão. Apenas a administra de formas distintas.

Friedrich Nietzsche lembraria que aquilo que não se expressa retorna como força deformada.

E talvez o Direito, no fundo, seja isso: uma tentativa civilizada de impedir que o silêncio se transforme em ruptura.

A questão final permanece aberta, quase incômoda:

o Estado moderno suporta o dissenso organizado ou apenas o tolera até o ponto em que ele deixa de ser organizado?

Bibliografia essencial

ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais.

HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia.

ARISTÓTELES. Política.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.

LUHMANN, Niklas. O Direito da Sociedade.

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método.

FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer.

MASLACH, Christina. Estudos sobre burnout organizacional.

WINNICOTT, Donald. O Ambiente e os Processos de Maturação.

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo.

Constituição da República Portuguesa, art. 57.

Lei n.º 65/77 (Lei da Greve, Portugal).

Estatuto Administrativo do Chile.

OECD Reports on Public Sector Labour Relations.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro conhecido por suas obras que circulam amplamente e são debatidas em diferentes ambientes intelectuais e profissionais. Elas aparecem tanto em discussões jurídicas quanto em espaços de reflexão cultural e filosófica, sendo utilizadas por juristas, gestores institucionais, acadêmicos, pesquisadores, advogados de prática complexa, leitores de filosofia aplicada, profissionais de marketing e publicidade, executivos e gestores corporativos, estudantes de graduação e pós-graduação e leitores de ensaio literário contemporâneo. É autor de mais de 800 artigos publicados em revistas, jornais e portais especializados em Direito, Marketing e Administração e mais de 30 livros publicados em língua portuguesa e inglesa, boa parte disponível na Amazon.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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