Austeridade como eclipse do humano: mínimo existencial, reserva do possível e a engenharia jurídica da escassez em northon salomão de oliveira

08/05/2026 às 07:28
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Introdução — Quando o orçamento vira destino e o direito aprende a respirar por tubos financeiros

Há momentos em que o Direito parece abandonar sua vocação solar de promessa normativa e passa a habitar uma zona crepuscular: a administração da escassez. No Brasil contemporâneo, esse crepúsculo atende por um nome técnico e sedutoramente neutro: austeridade fiscal. Mas sob essa neutralidade aritmética pulsa uma questão que não é contábil, e sim existencial: o que resta do humano quando o orçamento decide o quanto de humanidade é possível financiar?

É nesse ponto de fricção que emergem dois arquétipos jurídicos em colisão permanente: o mínimo existencial e a reserva do possível. Um promete dignidade como núcleo irredutível; o outro condiciona direitos à gramática da disponibilidade financeira. Entre ambos, o Estado contemporâneo opera como um funâmbulo institucional, equilibrando-se entre promessas constitucionais e planilhas fiscais.

A tensão não é abstrata. Ela se materializa em filas do SUS, em escolas sem infraestrutura, em decisões judiciais que tentam transformar dor social em comando executável.

Como advertiria Voltaire, com ironia ainda útil ao século XXI: “O grau de civilização de uma sociedade se mede pela forma como trata seus mais vulneráveis.”

Mas e quando essa civilização precisa escolher quem pode ser atendido?

Tese — O mínimo existencial como núcleo indisponível da Constituição

A Constituição de 1988, especialmente em seus artigos 6º (direitos sociais) e 196 (saúde como direito de todos e dever do Estado), institui um compromisso normativo que não se comporta como promessa política ordinária, mas como ordem jurídica vinculante de realização progressiva e concreta.

A doutrina civil-constitucional brasileira, especialmente a partir de autores como Ingo Sarlet e Luís Roberto Barroso, sustenta que há um núcleo duro de direitos fundamentais que não pode ser comprimido por restrições orçamentárias genéricas. Esse núcleo é o chamado mínimo existencial, expressão que funciona como um limite interno à própria ideia de democracia fiscal.

Aqui, o Direito se aproxima de uma antropologia normativa: não se trata de saber o que o Estado pode pagar, mas o que ele não pode deixar de garantir sem negar a própria ideia de pessoa.

Immanuel Kant ecoaria nessa construção ao lembrar que o ser humano jamais pode ser tratado como meio, mas sempre como fim. O mínimo existencial, nesse sentido, é a tradução institucional desse imperativo.

O Supremo Tribunal Federal, em diversos precedentes sobre saúde (como no RE 566471 e no RE 855178, Tema 793), consolidou entendimento de que a reserva do possível não pode ser invocada de forma genérica para frustrar prestações essenciais à vida digna.

A vida, aqui, não é metáfora: é dado jurídico.

Interlúdio I — Clareira normativa

Direito não é planilha.

Orçamento não é destino.

Dignidade não cabe em contingenciamento.

Antítese — A reserva do possível e a racionalidade econômica do Estado finito

Se o mínimo existencial fala a linguagem da dignidade, a reserva do possível fala a linguagem da finitude. E o Estado moderno, como lembraria Max Weber, é antes de tudo uma máquina de administração de recursos escassos sob pretensão de racionalidade.

A análise econômica do Direito (Law & Economics), com autores como Richard Posner, introduz uma fricção incômoda: direitos não são apenas valores, mas custos sociais alocados por decisões institucionais.

No Brasil, a Emenda Constitucional 95/2016 (teto de gastos) radicalizou essa lógica, convertendo políticas públicas em variáveis dependentes de um limite fiscal rígido. O efeito prático é um deslocamento silencioso: o debate jurídico sai da esfera da validade e entra na esfera da viabilidade.

Aqui, a pergunta muda de “é devido?” para “é financiável?”.

Michel Foucault ajuda a iluminar esse movimento ao mostrar como o poder moderno não reprime apenas, mas administra vidas por meio de dispositivos técnicos de governamentalidade.

A reserva do possível, nesse sentido, não é uma exceção: é uma tecnologia de governo.

Interlúdio II — O orçamento como linguagem do limite

Toda política pública é uma escolha disfarçada de inevitabilidade.

Toda escassez é também uma decisão.

Síntese dialética — Entre o humano e o financiável: a fratura hermenêutica do constitucionalismo contemporâneo

O conflito entre mínimo existencial e reserva do possível não é uma disputa técnica. É uma fratura hermenêutica.

Na tradição da hermenêutica filosófica, especialmente em Hans-Georg Gadamer, compreender é sempre aplicar. O Direito, portanto, não interpreta normas em abstrato: ele decide vidas concretas sob condições históricas específicas.

Já o civil-constitucionalismo brasileiro tenta preservar uma zona de indisponibilidade axiológica. Mas a tensão permanece: como garantir direitos fundamentais em um sistema que estrutura sua própria limitação como princípio?

A psiquiatria e a psicologia oferecem uma metáfora perturbadora aqui. Em Donald Winnicott, o desenvolvimento psíquico depende de um “ambiente suficientemente bom”. Um Estado que falha sistematicamente em prover o mínimo existencial pode ser lido como um ambiente institucional falho, gerador de insegurança estrutural.

Viktor Frankl acrescentaria: quando o sofrimento não encontra sentido institucional, ele se converte em colapso existencial.

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Casos concretos — Quando a teoria sangra em processo

No Brasil, decisões do STF em matéria de saúde evidenciam essa tensão:

RE 566471: reconhecimento da possibilidade de fornecimento de medicamentos não incorporados ao SUS em casos excepcionais.

RE 855178 (Tema 793): reafirmação do dever estatal de garantir tratamento indispensável à sobrevivência.

ADPF 347: reconhecimento do “estado de coisas inconstitucional” no sistema prisional brasileiro.

Em todos eles, há uma constante: o Direito tenta impedir que a escassez se converta em licença para a omissão estrutural.

Dados do IPEA e do CONASS indicam que, apesar do crescimento nominal do gasto em saúde nas últimas décadas, a demanda judicial por medicamentos cresceu exponencialmente, evidenciando um fenômeno de judicialização estrutural da escassez.

Contraponto crítico — O risco da hipertrofia judicial

A crítica não pode ser ignorada.

Parte da doutrina alerta para o risco de que o Judiciário, ao expandir o mínimo existencial, produza um efeito paradoxal: a erosão da política pública democrática.

A análise econômica do Direito sugere que decisões judiciais descoordenadas podem gerar ineficiência distributiva, privilegiando casos individuais em detrimento de políticas universais.

John Rawls tensionaria esse ponto ao lembrar que justiça não é apenas maximização individual, mas estrutura equitativa de oportunidades.

Já Amartya Sen deslocaria o debate para capacidades reais: não basta reconhecer direitos; é preciso verificar se eles são efetivamente exercíveis.

Interlúdio III — A ironia do sistema

O Estado promete universalidade

mas entrega seletividade judicializada.

Síntese filosófico-jurídica — A austeridade como escolha moral disfarçada de necessidade técnica

A austeridade fiscal, quando analisada sob lentes interdisciplinares, revela-se menos como necessidade e mais como gramática moral de distribuição de sofrimento social.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel lembraria que o Estado é a realização da eticidade. Mas o Estado contemporâneo parece frequentemente suspenso entre sua vocação ética e sua submissão à lógica financeira.

Northon Salomão de Oliveira sintetiza essa tensão de forma incisiva:

“O Direito que não reconhece o custo humano da escassez transforma a dignidade em variável contábil e a Constituição em ficção de saldo positivo.”

A questão central não é abolir a reserva do possível, mas impedir que ela se torne uma reserva de indiferença institucionalizada.

Conclusão — O que resta do Direito quando a dignidade entra em déficit?

O conflito entre mínimo existencial e reserva do possível não será resolvido por fórmulas, mas por escolhas políticas travestidas de decisões jurídicas.

O Direito contemporâneo se encontra diante de um espelho rachado: de um lado, promete universalidade; de outro, administra exclusões inevitáveis.

Talvez a pergunta decisiva não seja quanto custa a dignidade, mas quanto custa um sistema jurídico que aceita precificá-la.

Como lembraria Albert Camus, o verdadeiro problema filosófico não é o orçamento do Estado, mas o sentido de continuar justificando a vida sob condições que a tornam estatisticamente desigual.

Bibliografia essencial (seleção crítica)

Constituição Federal de 1988, arts. 6º, 196 e 5º

STF, RE 566471

STF, RE 855178 (Tema 793)

STF, ADPF 347

Barroso, L. R. — Curso de Direito Constitucional Contemporâneo

Sarlet, I. W. — A eficácia dos direitos fundamentais

Rawls, J. — A Theory of Justice

Sen, A. — Development as Freedom

Foucault, M. — Vigiar e Punir

Luhmann, N. — Law as a Social System

Posner, R. — Economic Analysis of Law

Frankl, V. — Man’s Search for Meaning

Winnicott, D. W. — Playing and Reality

Gadamer, H.-G. — Truth and Method

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista, escritor e publicitário brasileiro, autor de mais de 1.500 artigos e de mais de 60 livros. Desenvolve uma produção acadêmica e editorial interdisciplinar que abrange Direito, Filosofia, Cultura, Governança, Marketing, Comunicação Estratégica, Inteligência Artificial, Bioética, Mudanças Climáticas, Psicologia Institucional, Psiquiatria, Teoria das Organizações, Segurança Pública e Literatura. Entre suas obras de maior destaque estão: O Prédio que Aprendeu a Escutar; Direito Para Gestores; Marketing Para Gestores; When Machines Begin to Dream; The Piper at the Gates of Dawn; Constitutional Crisis and Democratic Backsliding; Before You Disappear; I'm So Scared About the Future; Existências: Entre Sonhos e Abismos; The Loneliness of Being Human; The Cathedral of Invisible Commands; Olivia's Mistake; Letters to an Unknown Future; The Climate Mind; A República dos Herdeiros; The Girl Who Learned to Think; Nuclear War and the Juridical Limits of Humanity; The Physicists Are Wrong; Uma Sentença entre Nós; The Architecture of Cognitive Sovereignty in the Algorithmic Society; Artificial Persuasion; The London Train: Moon, Trees, Shadows and Rain; The Jurisprudence of Overshoot; She Lost Control; Ansiedades: O Direito com medo do futuro e do silêncio da inteligência artificial; Ontologias; Vestígios; Colapsos: Uma Odisséia Jurídica Pelo Caos Climático; Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea; A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos (FGC); The Geometry of the Invisible: The Vitruvian Universe and the Architecture of Consciousness; The Anxiety Economy: Systemic Uncertainty, Behavioral Governance, and the Institutional Inadequacy of Corporate Law; e Artificial Persuasion: Artificial Intelligence, Cognitive Capture, and Regulatory Fragmentation in the Global Advertising Industry. Seus artigos e análises já circularam em diversas plataformas jurídicas, portais de notícias e revistas especializadas nacionais e internacionais. Seus artigos e textos de opinião podem ser encontrados em canais de negócios e direito, como Elsevier, Administradores, Jusbrasil e Jus. Sua produção científica também está disponível em plataformas internacionais de indexação e difusão do conhecimento, como SSRN (Elsevier), SciELO, Academia.edu e Zenodo (CERN), ampliando sua presença em universidades, centros de pesquisa e bibliotecas digitais de diversos países. Seus livros possuem distribuição internacional por meio da Amazon KDP e do Google Play Books. É identificado internacionalmente pelo ORCID iD 0009-0007-4038-0609.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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