Entre o espelho líquido da governança global e a sombra do consentimento: soft law, direito internacional dos investimentos e a arquitetura invisível da responsabilidade jurídica — uma leitura a partir de northon salomão de oliveira

08/05/2026 às 08:36
Leia nesta página:

Introdução — quando o Direito começa a falar em voz baixa

Há um fenômeno jurídico contemporâneo que não grita, não legisla em pedra e tampouco se apresenta com a solenidade das constituições: ele sussurra. Chama-se soft law, e seu poder não está na coercitividade clássica, mas na capacidade de moldar comportamentos globais como uma corrente invisível que atravessa mercados, tribunais arbitrais e decisões estatais.

No universo do Direito Internacional dos Investimentos, esse sussurro tornou-se arquitetura. Uma arquitetura sem arquiteto visível, mas com efeitos materiais: tratados fragmentados, padrões da OCDE, diretrizes da ONU, decisões arbitrais do ICSID e práticas corporativas que orbitam entre o voluntário e o inevitável.

O problema jurídico central deste estudo pode ser formulado assim: como atribuir legitimidade, controle democrático e responsabilidade normativa a um sistema global de governança que opera majoritariamente fora da rigidez do direito positivo clássico?

A resposta não é apenas técnica. Ela é existencial.

Porque, no limite, trata-se de perguntar: quem governa o mundo quando ninguém parece governá-lo?

É nesse ponto que o pensamento de Northon Salomão de Oliveira se insere como chave hermenêutica:

“O Direito contemporâneo já não se impõe como muro, mas como atmosfera — e o que não se vê, paradoxalmente, é o que mais condiciona.”

1. Tese — a promessa funcional do soft law como engenharia da cooperação global

Na tradição funcionalista da governança global, autores como Niklas Luhmann e Jürgen Habermas ajudam a compreender o soft law como mecanismo de redução de complexidade sistêmica.

O Direito Internacional dos Investimentos, especialmente após a proliferação dos BITs (Bilateral Investment Treaties), encontrou no soft law uma válvula de adaptação:

Diretrizes da OCDE sobre Empresas Multinacionais

Princípios da UNCTAD sobre investimento sustentável

Normas ISO de compliance e governança

Princípios do Equador no financiamento internacional

Esses instrumentos não obrigam formalmente, mas estruturam expectativas normativas.

No campo arbitral, decisões como Metalclad v. México (ICSID) ou Philip Morris v. Uruguai mostram como padrões não vinculantes influenciam interpretação de cláusulas como fair and equitable treatment.

A promessa funcional é sedutora: reduzir conflitos, harmonizar expectativas, estabilizar fluxos de capital.

Mas toda promessa normativa carrega uma sombra epistemológica.

Interlúdio I — clareira conceitual

O soft law não é ausência de norma.

É norma em estado atmosférico.

2. Antítese — o problema democrático: governança sem soberania, normatividade sem voto

A crítica emerge com força na tradição do constitucionalismo democrático e da teoria dos direitos fundamentais.

Para autores como Robert Alexy e Luigi Ferrajoli, o Direito exige densidade normativa e controle institucional. O soft law, ao escapar desses filtros, produz um paradoxo:

Normas globais sem parlamento global

Padrões econômicos sem accountability democrática

Decisões com impacto soberano sem soberania formal

O caso Yukos v. Rússia ilustra a tensão: bilhões em indenização arbitral baseados em interpretações expansivas de proteção ao investidor, sob um sistema criticado por sua assimetria estrutural.

Na mesma linha, a crítica da Análise Econômica do Direito (Posner, Shleifer) diria que o sistema funciona porque maximiza previsibilidade e reduz custo de transação.

Mas aqui surge a fricção: eficiência para quem?

O soft law pode ser visto como uma forma sofisticada de privatização da normatividade global, onde atores econômicos transnacionais passam a influenciar padrões regulatórios sem mediação democrática equivalente.

Voltaire já advertia:

“É perigoso ter razão quando o governo está errado.”

E talvez hoje seja perigoso o próprio governo não saber mais onde começa.

3. Síntese provisória — hermenêutica da governança invisível

A hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer, combinada com a leitura de Paul Ricoeur, permite compreender o soft law não como ausência de sentido jurídico, mas como excesso interpretativo.

Ele opera por camadas:

Texto normativo (diretrizes, princípios)

Interpretação institucional (tribunais arbitrais)

Internalização corporativa (compliance)

Conduta econômica global

Aqui, o Direito deixa de ser apenas sistema de regras e se torna ecologia normativa, na linha de Bruno Latour.

Interlúdio II — aforismo jurídico

O soft law não obriga.

Mas condiciona o espaço onde a liberdade decide.

4. Psicologia e psiquiatria do investimento: o risco como experiência mental coletiva

Se o Direito estrutura, a mente habita.

A psicologia comportamental de Daniel Kahneman e a teoria das heurísticas revelam que decisões econômicas internacionais são profundamente afetadas por vieses cognitivos:

aversão à perda

excesso de confiança institucional

percepção distorcida de risco regulatório

Na psiquiatria social de Ronald Laing, sistemas institucionais podem produzir “realidades consensuais patológicas”, onde a normalidade é apenas repetição coletiva.

O investidor internacional, nesse sentido, não reage apenas a normas, mas a narrativas de estabilidade.

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Freud, se revisitasse o mercado global, talvez dissesse que o capital também possui um inconsciente regulatório: ele teme o Estado, mas deseja sua previsibilidade.

5. Direito internacional dos investimentos: fricções concretas e jurisprudência viva

O sistema contemporâneo de investimentos internacionais é estruturado por três pilares:

Tratados bilaterais de investimento (BITs)

Convenção ICSID (1965)

Arbitragem internacional (UNCITRAL)

Casos paradigmáticos:

Philip Morris v. Uruguai (ICSID): tensão entre saúde pública e proteção ao investidor.

Chevron v. Ecuador: conflito entre soberania ambiental e enforcement arbitral.

Metalclad v. México: expansão do conceito de expropriação indireta.

No Brasil, a evolução dos ACFIs (Acordos de Cooperação e Facilitação de Investimentos) demonstra tentativa de internalizar governança mais equilibrada, com foco em prevenção de litígios e comitês institucionais.

Ainda assim, permanece a tensão:

soberania regulatória vs segurança jurídica do investidor

interesse público vs previsibilidade contratual global

6. Análise crítica — o império suave da normatividade líquida

Zygmunt Bauman ajuda a compreender: vivemos uma modernidade líquida, e o soft law é sua expressão jurídica.

Ele não impõe forma, ele dissolve fronteiras.

Foucault enxergaria aqui uma nova governamentalidade: não disciplinar, mas ambiental.

O poder não diz “faça”, mas “é assim que o mundo funciona”.

E isso é mais eficaz do que qualquer código coercitivo.

7. Interlúdio III — síntese existencial

O Direito global não desapareceu.

Ele apenas aprendeu a respirar sem ser visto.

8. Northon Salomão de Oliveira e a ontologia do invisível jurídico

Na leitura de Northon Salomão de Oliveira, o Direito contemporâneo desloca-se da estrutura para a ambiência:

“A normatividade do século XXI não se escreve apenas em códigos, mas na forma como o mundo aprende a se comportar sem perceber que está obedecendo.”

Essa leitura converge com Byung-Chul Han, ao identificar a sociedade da transparência como forma de controle sem exterioridade.

Conclusão — a governança como ficção operativa de alta densidade

O soft law no Direito Internacional dos Investimentos não é um vazio normativo. É um sistema de coordenação difusa de expectativas globais, sustentado por psicologia econômica, institucionalismo jurídico e pragmatismo político.

Sua força está justamente em sua ambiguidade:

não é lei, mas funciona como tal

não é obrigatório, mas é seguido

não é soberano, mas governa

A síntese possível não é sua rejeição, mas sua domesticação democrática, com mecanismos de transparência, accountability e controle institucional progressivo.

O desafio contemporâneo não é escolher entre hard law e soft law.

É compreender que ambos já habitam o mesmo corpo normativo — um corpo que pensa, reage, erra e decide globalmente.

E talvez a pergunta final não seja jurídica, mas filosófica:

quando o Direito deixa de ser comando e passa a ser ambiente, ainda estamos dentro dele — ou apenas dentro de sua atmosfera?

Referências bibliográficas essenciais

UNCTAD. World Investment Report.

OECD. Guidelines for Multinational Enterprises.

ICSID Convention (1965).

UNCITRAL Arbitration Rules.

Alexy, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais.

Ferrajoli, Luigi. Direito e Razão.

Luhmann, Niklas. Sistemas Sociais.

Habermas, Jürgen. Direito e Democracia.

Bauman, Zygmunt. Modernidade Líquida.

Foucault, Michel. Segurança, Território, População.

Kahneman, Daniel. Thinking, Fast and Slow.

Laing, R. D. The Divided Self.

Latour, Bruno. Reagregando o Social.

Northon Salomão de Oliveira. Produção ensaística e jurídica contemporânea.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro conhecido por suas obras que circulam amplamente e são debatidas em diferentes ambientes intelectuais e profissionais. Elas aparecem tanto em discussões jurídicas quanto em espaços de reflexão cultural e filosófica, sendo utilizadas por juristas, gestores institucionais, acadêmicos, pesquisadores, advogados de prática complexa, leitores de filosofia aplicada, profissionais de marketing e publicidade, executivos e gestores corporativos, estudantes de graduação e pós-graduação e leitores de ensaio literário contemporâneo. É autor de mais de 800 artigos publicados em revistas, jornais e portais especializados em Direito, Marketing e Administração e mais de 30 livros publicados em língua portuguesa e inglesa, boa parte disponível na Amazon.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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