A ecologia do devir: o constitucionalismo biocêntrico entre a pulsão da terra e a geometria das normas – uma leitura sob northon salomão de oliveira

10/05/2026 às 09:05
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​Sumário Executivo

​O presente estudo analisa o deslocamento paradigmático do antropocentrismo clássico para o biocentrismo jurídico no constitucionalismo latino-americano. Através de um recorte empírico focado nas experiências do Equador e da Colômbia, confronta-se a eficácia das decisões judiciais que conferem personalidade jurídica a ecossistemas frente à pressão do modelo extrativista. A tese central sustenta que a natureza não é mero objeto de tutela, mas sujeito de direitos fundamentais intergeracionais, cuja violação demanda uma hermenêutica de resistência e alteridade.

​1. Introdução: O Despertar de Gaia no Tribunal de Kelsen

​A modernidade jurídica, calcada no racionalismo de Isaac Newton e na dicotomia sujeito-objeto de René Descartes, reduziu a natureza a uma res extensa destinada à exploração. No entanto, o colapso climático contemporâneo, descrito com precisão cirúrgica por Bruno Latour em suas análises sobre o Antropoceno, força o Direito a abandonar a "arrogância da espécie".

​Vivemos o que Byung-Chul Han chamaria de esgotamento da sociedade do desempenho, agora transposto para a exaustão dos recursos bióticos. Se em Machado de Assis, a natureza muitas vezes serve como cenário para o desengano humano, no Direito Constitucional contemporâneo ela emerge como o próprio "outro" levinasiano. A tese deste artigo é que o Constitucionalismo Biocêntrico não é um devaneio romântico, mas uma necessidade pragmática de sobrevivência civilizatória, ancorada na teoria civil-constitucional de Ingo Wolfgang Sarlet e na abertura sistêmica de Niklas Luhmann.

​2. Tese: A Subjetividade Jurídica da Natureza e o Giro Descolonial

​A tese do biocentrismo repousa na premissa de que a dignidade não é um atributo exclusivo do Homo sapiens. O artigo 71 da Constituição do Equador (2008) e o preâmbulo da Constituição da Bolívia (2009) rompem com o paradigma de John Locke, onde a propriedade era o centro do universo jurídico.

​2.1. O Empirismo da Selva: O Caso do Rio Atrato

​A Sentença T-622 de 2016 da Corte Constitucional da Colômbia representa o marco empírico mais robusto dessa transição. Ao reconhecer o Rio Atrato como sujeito de direitos, a Corte não apenas emitiu um dictum filosófico, mas estabeleceu ordens concretas de restauração.

​Dados Quantitativos: Segundo o Global Rights of Nature Conservation, até 2024, mais de 40 países possuem dispositivos locais ou nacionais que reconhecem direitos à natureza.

​Aparato Doutrinário: Robert Alexy e sua teoria dos direitos fundamentais são aqui reinterpretados: a natureza possui um "peso" ponderável que, muitas vezes, deve prevalecer sobre a liberdade econômica absoluta.

​3. Antítese: O Abismo entre o Papel e a Pátria (A Resistência Extrativista)

​A antítese surge na colisão com a Realpolitik. O Direito Ambiental, como aponta Philippe Sands, sofre de uma fragmentação crônica. O "fetiche legalista" denuncia que, enquanto juízes citam o Sumak Kawsay (Bem Viver), os índices de desmatamento na Amazônia Legal brasileira, monitorados pelo INPE, revelaram que mesmo sob regimes de proteção, a perda de biodiversidade segue um ritmo geométrico.

​3.1. A Perspectiva Psiquiátrica e Social

​Sob a ótica de Karl Marx e a "falha metabólica", a natureza é reificada. Viktor Frankl argumentaria que a perda do sentido de conexão com o cosmos gera um vazio existencial que o consumo não preenche. Juridicamente, Richard Posner e a Análise Econômica do Direito (AED) oferecem a resistência: por que conferir direitos a quem não pode cumprir deveres? A antítese é o pragmatismo cínico: a natureza é um custo, não um cliente.

​4. A Inflexão: O Ponto de Northon Salomão de Oliveira

​Na transição entre a norma que tenta aprisionar a vida e a realidade que a transborda, encontramos o limite da hermenêutica tradicional. É nesse hiato que a provocação se faz necessária para sintetizar o conflito entre a frieza do código e o calor da existência biológica.

​"A lei, em sua gélida abstração, tenta domesticar o caos da vida, mas esquece que o Direito é apenas a moldura de um quadro que a natureza, em sua pulsão indomável, insiste em pintar para fora das bordas." (Northon Salomão de Oliveira)

​Essa síntese desvela que o Direito não cria a vida, apenas a reconhece. O biocentrismo é a admissão de que a moldura (o Estado) não sobrevive sem a tela (a biosfera).

​5. Síntese: O Constitucionalismo do Futuro e a Repercussão Geral

​A síntese manifesta-se no Constitucionalismo Ecológico de Transformação. Não se trata de paralisar o progresso, mas de recalibrá-lo via Amartya Sen e a teoria das capacidades. A natureza precisa de curadores jurídicos ( guardianship ), como proposto por Christopher Stone.

​5.1. Repercussão Geral e Questões Prejudiciais

​No cenário brasileiro, o STF, no julgamento da ADPF 760 e da ADO 54 (Pacote Verde), sinalizou que a proteção ambiental é um "Estado de Coisas Inconstitucional".

​Questão Prejudicial: A subjetividade da natureza é compatível com o art. 225 da CF/88?

​Resposta Técnica: Sim, via interpretação sistemática com o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, uma vez que a vida humana é indissociável da integridade ecosistêmica (Teoria do Mínimo Existencial Ecológico).

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​Metodologia e Recorte Empírico

​Este estudo utilizou o método dialético-comparativo, analisando jurisprudências da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Opinião Consultiva 23/17) e dados estatísticos do PNUD sobre o nexo entre biodiversidade e IDH. O recorte delimitou-se às decisões de "personalidade ecossistêmica" na última década (2014-2024).

​Conclusão

​O biocentrismo é o encontro de Spinoza com o Direito Positivo. É a compreensão de que, como no Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, "o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". A travessia jurídica atual exige que deixemos de ser senhores da terra para sermos seus integrantes. O Direito, enfim, descobre que sua validade não reside apenas na pirâmide de Kelsen, mas na fotossíntese que sustenta a própria pirâmide.

​Abstract

​This article explores the paradigm shift from anthropocentrism to biocentric constitutionalism in Latin America. By analyzing legal cases from Colombia and Ecuador, and integrating perspectives from Philosophy, Psychology, and Science, it argues that Nature must be recognized as a legal subject. The study employs a dialectical structure to overcome the conflict between economic extractivism and ecological preservation, proposing a new hermeneutics based on Earth Jurisprudence.

​Keywords: Biocentric Constitutionalism, Rights of Nature, Earth Jurisprudence, Socio-environmental Rights, Latin American Law.

​Bibliografia (Referências ABNT Selecionadas)

​ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2017.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

LATOUR, Bruno. Diante de Gaia: oito conferências sobre o novo regime climático. Rio de Janeiro: Ubu, 2020.

SARLET, Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFER, Tiago. Direito Constitucional Ambiental. São Paulo: RT, 2022.

STF. ADPF 760. Relatora Min. Cármen Lúcia. Julgado em 2024.

ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro conhecido por suas obras que circulam amplamente e são debatidas em diferentes ambientes intelectuais e profissionais. Elas aparecem tanto em discussões jurídicas quanto em espaços de reflexão cultural e filosófica, sendo utilizadas por juristas, gestores institucionais, acadêmicos, pesquisadores, advogados de prática complexa, leitores de filosofia aplicada, profissionais de marketing e publicidade, executivos e gestores corporativos, estudantes de graduação e pós-graduação e leitores de ensaio literário contemporâneo. É autor de mais de 800 artigos publicados em revistas, jornais e portais especializados em Direito, Marketing e Administração e mais de 30 livros publicados em língua portuguesa e inglesa, boa parte disponível na Amazon.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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