A carta, o poema e a canção

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Elton Emanuel Brito Cavalcante - UNIR 1

Maria Célia da Silva - UNIR 2

RESUMO: Sandra Nitrini afirma que a Literatura Comparada é uma disciplina indisciplinada, pois tudo nesta pode ser objeto de análise, mas, devido a essa imensidão de possibilidades, fica-lhe difícil definir o objeto específico. O fato é que, embora seja árido defini-la, a literatura comparada é usual desde o ensino fundamental até as grandes análises acadêmicas. Tendo em vista isso, o objetivo deste artigo é analisar as semelhanças entre três textos bastante populares na literatura nacional: A Carta de São Paulo aos coríntios, o soneto de Camões sobre o amor e a canção Monte Castelo, da banda Legião Urbana. Nos três há um fio condutor comum, a questão do amor, porém esse toma conotações distintas: o que leva a tais conotações? Por que em Renato Russo, compositor da canção Monte Castelo (a qual traz em seu corpo cópia literal do texto de Camões), pode-se dizer que o amor tratado por ele no texto é distinto do amor descrito pelo poeta português? Responder a essas questões é, de certa forma, analisar o contexto de três épocas distintas: a de autoritarismos durante o Império Romano; a do renascimento cultura de Camões; e, por fim, a de um tempo de liberdades excessivas e de redemocratização, momento da canção Monte Castelo. Assim, pode-se dizer que a noção de amor é conseqüência dos interesses econômicos e políticos de um determinado período histórico.

PALAVRAS-CHAVE: Amor sensual; amor fraternal; amor carnal.

RESUMEN: Sandra Nitrini dice que la Literatura Comparada es una disciplina indisciplinada, porque todo esto puede ser objeto de análisis, pero debido a la multitud de posibilidades, es difícil definir su objeto específico. El hecho es que, aunque árido definirlo, la literatura comparada es usual desde la escuela primaria a los grandes trabajos académicos. Ante esto, el objetivo de este artículo es analizar las similitudes entre tres textos muy populares en la literatura nacional: la carta de Pablo a los Corintios, el soneto de Camões sobre el amor y Monte Castelo, cancion de la banda Legião Urbana. En los tres casos hay un hilo común, la cuestión del amor, pero esto tiene connotaciones diferentes: lo que lleva a tales connotaciones distintas? ¿Por qué Renato Russo, compositor de la canción Monte Castelo (canción que trae en su cuerpo copia literal del texto de Camões), se puede decir que el amor para él en el texto tratado es distinto del amor descrito por el poeta portugués? Responder a estas preguntas es, en cierto sentido, analizar el contexto de tres épocas distintas: el período de autoritarismo durante el Imperio Romano, la cultura renacentista de Camões, y, por último, un tiempo excesivo de las libertades y la democratización, el tiempo de la canción Monte Castelo. Por lo tanto, se puede decir que la noción de amor es una consecuencia de intereses económicos y políticos de un período histórico particular.

PALABRAS CLAVE: Amor sensual, amor fraternal, amor carnal.

1. Introdução

A literatura comparada é, como diz Sandra Nitrini em seu livro Literatura comparada, uma “disciplina indisciplinada”, e isso porque não tem um objeto bem definido e delimitado como têm, por exemplo, a teoria ou a crítica literárias. Assim, valem como métodos de análise para o comparativismo atual desde o tradicionalismo francês até os cultural studies modernos. Sobre tal posicionamento, o Relatório de Bernheimer assim apregoa:

Estudos valiosos usando modelos tradicionais de literatura comparada ainda estão sendo produzidos, naturalmente, mas estes modelos pertencem a uma disciplina que, por volta de 1975, já se sentia cercada e na defensiva. O espaço de comparações hoje envolve comparações entre produções artísticas comumente estudadas por diferentes disciplinas; entre várias construções culturais daquelas disciplinas. Entre tradições culturais ocidentais, tanto erudita quanto popular, e aquelas das culturais não ocidentais, entre produções pré e pós-contato cultural dos povos colonizados... (Apud Nitrini, 2010, p. 191).

A literatura comparada fica, pois, a se confundir e a ter pontos de intersecção com quase todos os ramos do saber humano. É muito abrangente o seu objeto de estudo.

É devido a essa amplitude que o método de análise deste trabalho será uma mescla entre o comparatismo tradicional, que buscava fontes e influências, e o comparatismo atual, muito mais sociológico e abrangente, pois vê na teoria comparada um reflexo das transformações sócio-políticas e culturais. Como objeto de estudos, ter-se-á aqui a comparação temática e contextual de três textos famosos: a) o capítulo 13 da Carta de Paulo aos Coríntios, um dos sonetos de Camões sobre o amor e, por fim, a música Monte Castelo, composta por Renato Russo, integrante da Banda de rock Legião Urbana. O objetivo desta comparação é basicamente o de verificar como a temática, comum aos três textos, foi tratada de forma intrínseca e extrínseca.

2. A Carta de Paulo e Corinto

Corinto era uma cidade importante da Antiguidade, colonizada por gregos e logo depois dominada pelos romanos. Zona de intersecção entre Ocidente e Oriente, mesclava culturas e formas de pensar diversas, além de ser importante entreposto comercial. Era agitada e corrupta. Não foi à toa que Paulo foi para lá, pois via nela um alvo a ser combatido. Paulo era judeu de formação, perseguira e matara cristãos; convertera-se, porém, ao cristianismo e tornara-se um dos seus mais devotos fiéis, abandonando assim, boa parte da tradição judaica. Essa transformação talvez tenha se dado devido ao fato de Paulo, cidadão romano que era, ter tido uma forte influência, em sua formação educacional, do pensamento greco-romano. Em muitos momentos de sua obra, nota-se nítida influência do platonismo, e, como se sabe, as idéias de Cristo também não estão distantes do pensamento do filósofo grego.

A Carta é, assim, uma mescla entre judaísmo, cristianismo e platonismo, prevalecendo, talvez, os dois últimos. Pois, como é sabido, as pessoas para quem Paulo pregava estavam desgostosas com as religiões pagã e judaica. A fome e a miséria assolavam o império, deixando os cidadãos inseguros quanto à sua própria existência material e mais seguros quanto à possibilidade de um mundo outro, metafísico, transcendental, onde as virtudes morais e o ascetismo seriam os caminhos para lá chegar. O mundo das aparências e das essências de Platão vai, assim, sair da filosofia e ganhar, em forma de religião, as ruas.

E eram esses novos ideais que Paulo queria enraizar em Corinto, que, por sua vez, era uma cidade onde o paganismo resistia, e os rituais a Baco e Afrodite eram comuns. A prostituição e luxúria faziam parte da cultura local. Ao menos era essa a visão de Paulo. Por isso que ele resolveu levar a Igreja para lá, pois, de acordo com seu pensamento, era de lá que emanava o pecado, sendo, pois, o lugar onde mais se precisava pregar para salvar as almas.

É necessário, para se entender bem a Carta, algumas palavras sobre a estruturação da igreja cristã nascente. É de amplo conhecimento que os dois grandes líderes da Igreja foram Pedro e Paulo, o primeiro indicado diretamente por Cristo. Pedro, embora líder da Igreja, continuava muito atrelado aos ideais judeus. Não queria pregar o cristianismo para não judeus, sua intenção, ao que parece, era um projeto nacional, de libertação de seu povo, e a Igreja seria esse mecanismo, um mecanismo mais dinâmico e compatível às necessidades reais do povo judeu de outrora. Paulo, por sua vez, via nesse nacionalismo um perigo enorme, pois para ele o cristianismo tinha que atingir o centro do poder: Roma; de lá emanaria para todo o mundo. Pedro era prático; Paulo, um pensador. Ambos se completavam, ambos se irritavam mutuamente. Devido a essa postura, a Igreja quase que se dividiu, mas graças à quantidade abundante de ouro e prata conseguida por meio do dízimo nas colônias gregas, essa cisão foi repensada cautelosamente.

Essa possibilidade de cisão tornou a Igreja vulnerável em regiões inóspitas como a cidade de Corinto, tanto por causa dos hábitos locais como também pela corrupção dentro da própria Igreja: o peso cultural do materialismo naquela cidade transcendia o de uma igreja que pregava a bondade e a subserviência de um lado, e o ascetismo de outro.

A Carta é um apelo. Ei-la na íntegra:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjose não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciênciae ainda que tivesse toda a de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdadeTudo tolera, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor. (In Bíblia Sagrada).

O amor aí é uno. Os pré-socráticos acreditavam na existência deste, embora discordassem sobre qual a origem desse uno, viam claramente que por trás das aparências esconde-se uma essência (fogo, água, o indeterminado etc.). Mas é em Platão que as aparências vão ganhar status de inferioridade, vão passar a ser apenas uma parte inócua, um mero reflexo da existência real. O homem deveria dedicar-se à reflexão, pois só a Razão salvaria o homem de si mesmo; não é de admirar que o filósofo tenha tentado abolir a poesia subjetiva e liberal da pólis grega. Para Platão, a poesia devia ser um instrumento a serviço do Estado, um meio de educar, de moralizar e levar a condutas virtuosas.

Na Carta, há o uno, mas ele não é nem a Razão (ciência) nem a Fé pura, é o Amor, e este não admite partes, pois estas são ilusões que devem ser banidas. Concorda, porém, com Platão quanto aos objetivos da poesia: “Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.” Está implícita aqui uma visão de que o universal, o essencial, é o que deve ser buscado, e como a poesia lida como o lirismo e a subjetividade, cessará ela também, pois o seu ponto alto é justamente a ambiguidade, o múltiplo e o variado, ou seja, as “partes”, e estas não admitem a perfeição.

Um historiador, entretanto, poderá entender que tais partes referem-se à cisão da Igreja, e que Paulo prega a unidade político-religiosa apenas. É justo. Mas o conceito de Amor na Carta parece transcender essa querela. O amor, aqui, é a caridade pura, é uma forma estóica de se comportar perante a existência, é saber que o outro e o eu são um só, que o eu não existe sem o outro, que toda a existência caminha para o Uno absoluto e eterno: Deus. Nesse sentido, Paulo destoa do racionalismo platônico quando diz: “Havendo ciência, desaparecerá.” A ciência, isto é, a razão, é deixada para trás. Não é ela que atingirá o absoluto, nem mesmo as sutilezas das diversas línguas, muito menos as profecias, nem mesmo a fé (as diversas religiões); o Amor é a compreensão de que estamos unidos, atados, não importa a distância ou o tempo, a cultura ou a forma de pensar, se estamos vivos ou mortos, sãos ou doentes: somos apenas o reflexo, a ilusão, a parte de algo mais profundo que nos une em um só. Esse panteísmo é tipo dos gregos.

Paulo prepara o mundo para a Idade Média, para um dualismo profundo entre corpo e mente, matéria e espírito. E com os medievais, o espírito prevalecerá. O amor aqui não é o carnal, sensual. É o amor puro, a caridade, a solidariedade, a compaixão, todas as virtudes quem levam ao Supremo. São justamente o sensualismo e a depravação de Corinto que Paulo irá combater, daí colocar no espírito, na reflexão, a fonte de toda a sua moral.

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3. O Soneto

Amor é um fogo que arde sem ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luiz V. de Camões faz uma releitura de algumas idéias da carta de Paulo. Entretanto, o contexto dessa releitura é outro, as idéias que movem o mundo distinguem-se em muito das do apóstolo. Antes de tudo, Camões escreve em um mundo onde os ideais da burguesia comercial começam a se destacar: as grandes navegações, a Reforma e a Contrarreforma, o Humanismo e o Classicismo em toda a Europa, a ciência experimental já dando seus primeiros passos com Bacon, o Iluminismo despontado. Neste sentido, o homem passa a ser “a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são”, no dizer de Protágoras; há, pois, uma preocupação com as coisas mundanas e materiais, do sensualismo ao bem-viver. O homem redescobre as belezas do mundo greco-romano e começa a questionar muitos dogmas cristãos. Mas o mais interessante é o retorno aos ideais pagãos tão combatidos por Paulo e pelo Cristianismo. É como se, de certa forma, ardesse o desejo de uma nova Corinto, menos pecadora, é verdade, mas tão materialista e mundana como a de outrora.

É nesse contexto que o soneto de Camões deve ser lido. O amor aqui não é mais a caridade, nem o Todo que se deixa entrever nas partes. Ao contrário, é justamente o Amor enquanto sentimento humano, impossível de se definir como quase tudo que pertence a essa espécie; é o amor caracterizado por uma ambiguidade e que tem o poder de atordoar os sentidos. “É dor que desatina sem doer.” O amor agora é sensual, erótico e está ligado ao ideal pregado pelos renascentistas. Não é bom nem mau. Nisso está implícito a filosofia budista do Yin-Yang, cuja essência é a de afirmar que não há bom totalmente bom e mau totalmente mau: o mundo é feito desse jogo dialético entre as partes.

A visão monista e unitária de Paulo, inspirada na filosofia platônica, não tem mais vez num mundo que caminha cada vez mais para o individualismo. O Amor não é uno porque o mundo a que ele agora pertence é transitório e cético – quanto a isso a leitura de Montaigne, que nesse período publicara seus “Ensaios”, é bastante esclarecedora: “o homem desconfia de tudo, até do seu poder de chegar a uma verdade universal.” Enquanto Paulo buscava o imutável, aquilo que é absoluto e igual a si sempre, Camões canta o devir, o momento, o ser e não ser de Heráclito. Por mais que a Inquisição tenha percebido essa postura nos textos de Camões (basta recordar que “Os Lusíadas” esteve na lista do Índex), ela não teve como destruir a nova forma de conceber e entender o mundo. Nem a Contrarreforma, nem a Companhia de Jesus conseguiriam frear a nova concepção sobre a vida e o universo. O heliocentrismo de Copérnico, por exemplo, foi um golpe duríssimo nas concepções metafísicas e religiosas medievais.

Mas Camões, ainda atrelado a muitos valores medievais, pergunta: “Mas como causar pode seu favor/ Nos corações humanos amizade,/ Se tão contrário a si é o mesmo Amor?” A pergunta leva a questionar esse amor, e por conseguinte a nova forma de interpretar o mundo, indagando se é nele que a humanidade deve colocar suas esperanças, em algo que leva a irreflexão e pode quebrar a paz que a verdadeira amizade pode trazer.

De certa forma, quase 500 anos depois desse poema, o brasileiro Renato Russo vai fazer um questionamento similar ao de Camões.

4. A Canção

Monte Castelo

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal,
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem.
Todos dormem. Todos dormem.
Agora vejo em parte,
Mas então veremos face a face.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

Esta canção é da década de oitenta do século XX e se situa num agitado contexto sócio-político; de um lado, as Diretas-Já: o euforismo cada vez maior com a liberdade de expressão; de outro, a abertura política ao mercado internacional, o que propiciou um contato com novas culturas, principalmente a norte-americana.

Com a liberdade, pressões sociais surgiram para que os jovens fossem tratados de maneira justa (surgiu o ECA), os homossexuais organizaram-se e foram às ruas protestar exigindo direitos sociais (surgiu a Parada Gay); o sexo foi pregado aos quatro cantos (a pornografia tomou conta da mídia); a polícia foi vista como autoritária e insolente (o crime organizado prosperou); a escola passou a ser identificada como o “aparelho ideológico do Estado” (a educação retrocedeu) etc. Em suma, tudo o que lembrava a Ditadura foi questionado e tratado como nocivo. O exército passou a ser o grande inimigo nacional e os jovens assumiram o poder...

É nesse mundo confuso e de transição (como o de Camões) que os poetas e compositores vão tentar fazer a população refletir sobre o poder que terá em suas mãos e, consequentemente, a grande responsabilidade. Engenheiros do Havaí, Titãs, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, entre tantos outros, vão fazer críticas abertas a tudo e todos. Entretanto, a banda que talvez mais represente a geração de 80 é a Legião Urbana. Esta banda canta num pessimismo pequeno-burguês, canta a depressão assim como os poetas do Ultrarromantismo a cantavam. É a voz rouca de um juventude sem rumo, com muita liberdade, mas sem limites morais; canta também a nova condição social em que as cidades se encontram: os divórcios cada vez mais comuns levando os jovens à angústia e drogas (Pais e Filhos); a agressividade dos grandes centros urbanos (Faroeste Caboclo) o Amor (Monte Castelo). Sobre esta última, pode-se dizer que ela tenta fazer uma síntese entre Paulo e Camões. Inicia-se, afinal, fazendo referência à Carta:

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal,
Não sente inveja ou se envaidece.

O pensamento aqui é de um amor puro, idêntico a si mesmo e que se aproxima da noção de caridade. É o amor que reconhece a verdade, pois ele é a única verdade, e jamais se envaidece. O ascetismo e religiosidade estão presentes nesse fragmento. O eu-lírico chama a atenção da juventude, como que a clamar para o bom-senso e que o verdadeiro amor não deve se envaidecer.

Logo em seguida, porém, a citação é literal de Camões:

O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Lembra aqui o dualismo de Gregório de Mattos quando este ficava indeciso entre o material e o espiritual, o carnal e o divino. O amor agora é o sensual de Camões, é o conceito mais próximo do amor praticado nas grandes metrópoles e seguido com sofreguidão pela geração de 80. É bom lembrar que o sexo pelo sexo dos anos oitenta é justamente a consequência dessa impossibilidade de definir o Amor enquanto paixão, e de visualizar o amor enquanto caridade, enquanto reflexo do Deus supremo.

A religiosidade foi combatida desde a época de Camões, embora, paradoxalmente, as religiões tenham ganhado grande espaço. As ideias pregadas por Paulo não são as do cristianismo nem as dos gregos, nem as dos romanos; pertencem a uma espécie de saber coletivo humano universal: o Budismo as prega, o Islamismo também, os mitos indígenas idem etc. O amor enquanto compreensão da pequenez humana e de que há um real sentido para a existência e que este permeia um viver puro e dedicado ao Bem Supremo constitui-se a verdadeira religiosidade, uma que beira à metafísica, uma que lembra a forma como Alberto Caeiro interpreta as coisas do mundo. É o que dizia Diógenes, “O homem precisa de muito pouco para viver.” Mas no mundo individualista de 80 (e de hoje) o homem necessita de tudo, é um ser que precisa ser famoso e rico, tem que ter potência sexual e belas mulheres; e estas nunca estiveram tão presas à vaidade e ao superficial.

O amor pregado, por exemplo, pela geração que antecede a da banda Legião Urbana, é o amor dos hippies das décadas 60/70, onde a noção de amor poderia ser traduzida no adágio popular: “ninguém é de ninguém.” A ideia de Amor aproxima-se do sexo e tem seu ponto máximo, talvez, quando John Lennon e Yoko Ono fizeram sexo ao vivo como forma de criticar a violência das guerras. “Faça amor, não faça a guerra.”

O amor assim passou a ter uma espécie de função social implícita, incentivada abertamente pela mídia que punha filmes românticos cada vez mais sensuais, e incentiva uma geração inteira a um sexo que lembra os bacanais tão combatidos por Paulo na Carta. O amor/sexo agora retornara a uma coletividade erótica, entretanto nunca as pessoas estiveram tão solitárias, e é por isso que os versos de Camões agora ganham um outro sentido na letra da banda: “É solitário andar por entre a gente;”
Uma solidão que leva à angústia. Quando o poeta diz “Estou acordado e todos dormem/ Todos domem./ Todos dormem.” Esse dormir pode ser entendido como a cegueira que a geração de 80 se encontrava quanto ao seu comportamento moral e social. Estes versos são os únicos realmente escritos por Renato Russo na canção Monte Castelo, e revelam o quanto uma mente esclarecida, que está além daquilo que sua geração pode pensar e vê, se sente só e desamparada.

Desamparo que não cessará se o homem não se direcionar ao Supremo de forma humilde e sincera, é o que insinua a canção quando faz um retorno a Paulo: “Agora vejo em parte,/ Mas então veremos face a face.” Tais versos retratam a angústia do eu-lírico em tempos modernos, sua solidão. Ele consegue vê aquilo que Paulo via, mas não sentia a tranquilidade de Paulo, a sua confiança; ao contrário, parece infeliz, pois só ele está “acordado”, só ele em seu grupo social está vendo aquilo que os outros não conseguem ver: que apesar do mundo material, embora ele veja ainda as partes, estará um dia face a face com o todo. E é citando Paulo que a canção se encerra.

A Carta vence o confronto com o soneto de Camões, mas o mundo da geração coca-cola estava apenas iniciando...

Referências

CAMÕES, Luiz Vaz de. Sonetos. In: Farol das Letras. www.faroldasletras.no.sapo.pt. Acesso em 11.03.2012.

MARA, lea. A intertextualidade na música Monte Castelo de Renato Russo. In: http://portfolioleamara.blogspot.com/2007/12/intertextualidade-na-msica-monte_14.html. Último acesso: 10.03.2012.

NITRINI, Sandra. Literatura Comparada: teoria e crítica. 3ª ed. São Paulo: Editora da USP. 2010.

RUSSO, Renato. Música Monte Castelo. www.letras.terra.com.br. Acesso em 11.03.2012

SÃO PAULO. Carta de Paulo aos Coríntios. In Bíblia Sagrada.


  1. Mestrando em Estudos Literários pela UNIR, 2012. E-mail: [email protected]

  2. Mestranda em Estudos Literários pela UNIR, 2012. E-mail: [email protected]

Sobre o autor
Elton Emanuel Brito Cavalcante

Doutor em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente - UNIR; Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Rondônia (2013); Licenciatura Plena e Bacharelado em Letras/Português pela Universidade Federal de Rondônia (2001); Bacharelado em Direito pela Universidade Federal de Rondônia (2015); Especialização em Filologia Espanhola pela Universidade Federal de Rondônia; Especialização em Metodologia e Didática do Ensino Superior pela UNIRON; Especialização em Direito - EMERON. Ex-professor da rede estadual de Rondônia; ex-professor do IFRO. Advogado licenciado (OAB: 8196/RO). Atualmente é professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia - UNIR.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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