A dialética do esclarecimento e o domínio cultural

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Elton Emanuel Brito Cavalcante 1

Maria Célia da Silva2

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RESUMO: Uma das maneiras mais poderosas de submissão é a ideológica. E é a razão o grande mecanismo de formação de ideologias. Adorno e Horkheimer perceberam isso e se dispuseram a analisar não as causas da razão, como o fizeram empiristas e racionalistas, mas em entender os objetivos mais profundos da capacidade humana de esclarecimento. Dirão que, ao mesmo tempo que o esclarecimento é uma tentativa de vitória sobre as forças da natureza e sobre os temores humanos, é, também, uma forma de enclausurar o homem, não este ou aquele pertencentes a uma classe social, mas a humanidade em geral. O objetivo deste trabalho é, pois, relacionar esse esclarecimento com as formas de domínio moral, cultural do homem moderno, buscando explicar até que ponto as sociedades ocidentais, de acordo com Adorno e Horkheimer, são prisioneiras daquilo que elas acreditam ser o grande instrumento de libertação: a Razão instrumental, ou seja, o tecnicismo científico.

PALAVRAS-CHAVE: Esclarecimento. Dialética. razão instrumental.

1. Introdução

O pensamento de Theodor Adorno e Max Horkheimer é conseqüência dos conflitos sociais e, também, das teorias filosóficas do século XIX, e, dentre estas, o marxismo, o positivismo, o darwinismo e o historicismo foram as mais significativas. Todas podem ser classificadas como “cientificismo”, doutrina que põe os valores científicos como principais senão as únicas formas de conhecimento. Os autores aludidos acima, ao publicarem o livro, “A Dialética do Esclarecimento”, em 1947, fazem uma sondagem de toda a sociedade ocidental com intuito de identificar as mais profundas relações de poder, logo em seguida criticam o papel da técnica na sociedade industrial.

Ambos os autores eram oriundos da escola de Frankfurt e tinham “como principais pressupostos a crítica ao racionalismo enquanto ideologia da humanidade e a crítica aos sistemas que reproduzem essa ideologia e controla a sociedade, numa tendência marxista que se misturou com a influência freudiana e weberiana”. (FERREIRA, p.332, 2008).

O marxismo, na época, estava sendo posto em prática na URSS e isso causava pavor às sociedades capitalistas. Os regimes totalitários de direita, nazismo e fascismo, surgiram como maneira de defesa do capital, e este, protegendo-se, criara uma indústria bélica poderosa; e forjara o mito de que os judeus eram uma raça inferior, todavia a verdade por trás desse mito era o fato de que durante milênios os judeus que migraram para a Europa conseguiram acumular riquezas e, no interregno entre as guerras mundiais, eram, muitos deles, proprietários de grandes bancos, empresas, fábricas etc., ou seja, detentores do grande capital e, por isso, responsabilizados pelas crises econômicas que assolaram a Alemanha, e com a quebra da Bolsa de Nova York em 1929 essa situação agravou-se. O povo alemão, humilhado pelas grandes potências, via-se desempregado e faminto, por isso era imprescindível uma reação econômica, e esta, conscientemente ou não, veio por meio de políticas autoritárias e críticas da conduta judia. A indústria bélica e a guerra foram as medidas imediatas, seguidas do extermínio dos judeus, pois assim sobrariam mais postos de trabalho.

Percebendo o genocídio, muitos intelectuais de origem judia migraram da Alemanha para os EUA, Adorno e Horkheimer estavam nesse grupo. A escola de Frankfurt, criada antes da segunda guerra mundial, tinha em ambos uma liderança audaz, pois os dois filósofos estudavam as conseqüências positivas e negativas da burguesia, revelando também a origem do antissemitismo. O caos provocado pela guerra levou-os a crer que a Modernidade estava em colapso e que a crise capitalista não era apenas mais uma, mas, talvez, a definitiva.

No entanto, ao aprofundarem os estudos, Adorno e Horkheimer perceberam que o irracionalismo da guerra talvez fosse mais racional do que se poderia pensar, afinal a barbárie e o medo das forças naturais sempre acompanharam a humanidade, e foi isso que os levou a ver que o capitalismo moderno já aparecia em gérmen no período homérico, sendo descrito nas duas grandes epopéias da época: a Ilíada e a Odisséia. Para contornar o medo e se manter vivo, o homem utilizou-se da astúcia e, em seguida, do comércio. A astúcia e o capitalismo acompanham o homem desde sempre. Aos atos violentos ou antiéticos praticados em nome do Estado era necessário encontrar um discurso que os confirmasse e legalizasse. Desta forma, as barbáries eram justificadas por meio de rituais e instituições criadas pelo próprio Estado ou pelo poder dos patriarcas dos clãs: o sangue derramado em sacrifícios foram pré-requisitos para garantir uma colheita farta ou o sucesso em uma empreitada.

Os mitos e tabus eram criados em nome da defesa da tribo ou do Estado. Sobre isso, o pensamento de Adorno e Horkheimer fora influenciado por Weber e Freud. O primeiro demonstrou que a burguesia ao assumir o poder econômico necessitava de uma religião mais flexível aos bens materiais. A ética protestante é a do acúmulo de riquezas, a do bem viver, a do trabalho como forma de evolução social. O cristianismo católico, por sua vez, pregava aquilo que interessava ao regime feudal. Tornou-se vital substituí-lo. Assim, ao assumir o poder, a burguesia tentou mudar a maneira de pensar do homem europeu, criou ideologias, novos mitos e ritos para que as idéias proliferassem. Não é à toa que é nesse período que se deu o surgimento das primeiras escolas de ensino médio destinadas a um público pertencente ao equivalente, hoje, às classes médias. Da Reforma e da Contrarreforma surgiram escolas que induziam seus alunos a fazer aquilo que agradava ao pensamento da Santa Sé ou dos bispos protestantes. Os jesuítas, por exemplo, de um lado, pregavam o autocontrole, a fuga dos prazeres carnais e a disciplina; de outro lado, os puritanos alardeavam também a disciplina, voltada, porém, para a conciliação entre matéria e espírito. É esse conflito que vai acirrar ainda mais o dualismo vivido pelo homem do Renascimento: ciência ou religião, corpo ou espírito? O Barroco é, nesse sentido, um embate também entre ideologias pertencentes ao antigo regime e ao novo, entre feudalistas e burgueses.

Freud também foi bem aceito por Adorno e Horkheimer. O psicanalista alemão escreveu sobre a relação entre o individuo e a sociedade, de como as forças sociais interferem na forma de pensar e agir das pessoas, causando-lhes traumas profundos em seus espíritos. A libido, por exemplo, é reprimida para que a população possa manter o equilíbrio entre a taxa de natalidade e a produção de alimentos; além do mais, controlar o sexo desenfreado tornou-se importante para a preservação dos grupos humanos primitivos, pois as orgias enfraqueceriam o espírito dos soldados durante as guerras; além disso, o sexo sem limites permite o nascimento de muitas crianças bastardas e, por isso, um peso a mais para o Estado. A moral e a religião estariam a trabalhar em conjunto para reprimir as forças naturais dos indivíduos e discipliná-los para o convívio social. A loucura, as manias e taras teriam nessa repressão a causa central. Portanto, seria também uma forma de poder, de controle político-ideológico do Estado.

Os discursos de Weber e Freud servem assim para justificar o pensamento de Adorno e Horkheimer, pois estes dizem que um mito ou tabu só podem ser quebrados com outro mais forte. O irracionalismo das religiões sobre as mentes da Idade Média foram vencidos com uma nova ética, uma objetiva e embasada na experimentação científica. Os autores se servem de dois excursos para exemplificar esse pensamento: o mito de Ulisses e a postura imoral de Juliette, personagem do romance do Marquês de Sade. Estas duas personagens ilustram o quanto o espírito do esclarecimento burguês se molda às necessidades e como, pela astúcia, as crises são vencidas. Estes dois exemplos serão trabalhados com mais profundidade nos capítulos seguintes deste trabalho.

O importante, neste momento, é notar que Adorno e Horkheimer colocam a culpa da grande crise européia do século XX não apenas na burguesia contemporânea, mas na tendência humana a aceitar o esclarecimento em sua vertente mais nociva, a razão instrumental, como única forma de saber e entendimento. Eles não são críticos da razão em si, mas de um tipo de racionalidade que, unida à técnica e à ciência, cria o mito do cientificismo, ou seja, que por meio da ciência pode o humano explicar tudo e prescindir de Deus e dos mitos.

2. O método

O método de análise usado por Adorno e Horkheimer para chegarem às conclusões expostas acima foi o histórico-dialético, e este transparece no próprio título do livro, “Dialética do Esclarecimento”. Dialética aí representa “as transformações constantes da vida social, de modo que a dialética defendida é aquela mais próxima da hegeliana, visto que para Hegel as transformações se davam no mundo das idéias” (FERREIRA, p. 333, 2008).

Hegel, por sua vez, retirou tal conceito de Heráclito, para quem há duas grandes forças que se chocam, Caos e Cosmos, ambos, no fundo, constituem-se em duas faces de uma mesma moeda, um necessita do outro. Caos é a desordem natural de todo sistema, a corrupção que leva o Ser à destruição; Cosmos seria o equilíbrio, as forças que ressurgem do Caos e que tentam reconstruir o todo. O movimento cíclico entre Caos e Cosmos, Heráclito denominou-o de “devir”. A evolução, se de fato há, é advinda desse movimento contínuo, do qual se pode conceber a ideia de “eterno retorno”.

O devir é inerente à matéria, a qual muitas vezes surge à mente como um fenômeno que engana os sentidos. Mesmo assim, Por trás do conflito eterno entre Caos e Cosmo há algo que não muda, um fogo etéreo, apreendido não pelos sentidos mas pela razão. Estudar a evolução das sociedades é perceber, então, que o que muda são as aparências, pois há algo imutável que transcende aos caprichos humanos.

Hegel partirá desse dualismo heracliteano para criar seu pensamento sobre tese, antítese e síntese. Dirá ele que as transformações dão-se primeiro no mundo das idéias e, depois, para o físico; os objetos são assim fenômenos cujo entendimento só pode ocorrer revirando-se o discurso histórico, os fatos devem ser estudados, mas as interpretações que se dão sobre eles são múltiplas, cabendo ao filósofo indagar-se o porquê de tantas interpretações e quais interesses elas ocultam. Os interesses seriam oriundos de desejos, que depois se concretizam.

Décadas depois de Hegel, Karl Marx vai lhe fazer uma crítica contundente, primeiro ele aceita algumas teses do filósofo idealista, pois para Marx há o confronto entre as forças antagônicas; todavia ele inverterá a ordem dada por Hegel. Marx afirma que as idéias são reflexos das transformações das forças produtivas, e é o mundo fenomênico que vai definir os conceitos e signos lingüísticos que usamos. Nesse sentido, Marx é empirista. O seu método de estudo é a análise dos discursos que a classe dominante, em dado momento, impõe às demais. E não é a História pode destruir o discurso ideológico, mas tão somente a transferência da forças produtivas ou a eliminação das classes sociais.

Assim, a título de exemplificação, pode-se comparar o pensamento de Hegel e Marx sobre um fenômeno histórico: as grandes navegações. Estas, explicadas pelo ponto de vista de Hegel, seriam fruto do contato do europeu medieval com outros povos e, por conseguinte, a noção de que o mar poderia ser vencido: houve uma mudança de mentalidade para, depois, as forças produtivas se adaptarem a essa nova forma de pensar. As Cruzadas obrigaram os homens a sair do ambiente supersticioso da Europa medieval e conhecer outras culturas e forma de agir no mundo. Este contato propiciaria o advento do desejo de riquezas, da percepção de que o catolicismo era apenas uma entre as tantas religiões e que a guerra em si não era santa, mas ideológica. Toda essa mudança levou os europeus a buscarem as riquezas orientais, o comércio floriu e, países como Portugal, que não tinham acesso a vias terrestres para chegar ao Oriente, começaram a desejar o progresso, sendo, pois, desafiados a enfrentar o Oceano Atlântico.

Marx, ao contrário, afirma serem as idéias já conseqüências da mudança material, ou seja, primeiro surge a burguesia comercial e, com esta, a necessidade de ampliação do comércio e do consumo; as técnicas empregadas surgem dessa necessidade e, por meio, delas vai-se superando as barreiras, principalmente as superstições e mitos. Mas essa superação não seria possível se as forças produtoras de riqueza, o capital, continuassem nas mãos dos nobres. O capital precisou intervir, fazendo com que houvesse uma aliança entre a figura do rei com a burguesia ascendente contra a nobreza e o clero. As terras deste último gradativamente foram sendo confiscadas e cada vez mais a nobreza de terra foi sendo empobrecida, passando a pertencer aos quadros administrativos e burocráticos do Estado para não sucumbir definitivamente. À medida que o capital mudava de mãos, o discurso ideológico também mudava. Assim, as Grandes Navegações seriam uma conseqüência da mudança da técnica medieval, manual e individualista, para a moderna, industrial e coletivista.

O confronto entre Marx e Hegel ainda hoje perdura. No entanto, tanto um quanto outro aceitam a razão como mola central de todo o saber humano e pouco questionam as conseqüências do seu uso. É basicamente isso que Adorno e Horkheimer farão: não procurarão encontrar as causas das idéias racionais, como o fizeram empiristas e racionalistas, pois o objetivo deles é entender de que forma a humanidade usa a razão, qual o real objetivo dela e quais métodos utiliza para alcançar esses objetivos.

Razão, é importante apontar, não é sinônimo de esclarecimento, pois há alguns tipos de razão: a prática ou instrumental e a teórica ou filosófica; ambas, de certa forma, formam o esclarecimento, que pode ser bom ou ruim, o que vai depender do tipo de razão usado e em que grau. Desta forma, o termo “Esclarecimento”, no livro A Dialética do Esclarecimento,

aparece como sinônimo de ‘Iluminismo’ ou ‘Ilustração’, ou até do conjunto de modelos de desenvolvimento racionais que vigoram nas diversas esferas sociais, um sistema instrumentalizado que se mantém enquanto uma ideologia minando qualquer outra perspectiva de ação e pensamento que não seja a racional. (FERREIRA, p. 333, 2008).

A noção de Esclarecimento, como a descrita acima, surge no final da Idade Média e ganha força a partir do Humanismo. O homem passa a ser a “medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são”. Protágoras, ao afirma tal frase, quer dizer que as coisas que existem e as que não existem só o são ou não pela perspectiva humana. Dessa forma, atingir a coisa em si não é possível, somente cabendo ao homem buscar o fenômeno, ou seja, o intuito é estudar como a coisa se deixa apreender pela razão. Isso, além de relativizar o saber, permite um ceticismo quanto a tudo que seja metafísico ou sobrenatural, pois o que se apreende não é a coisa em si, mas a aparência dela. Protágoras, e os sofistas em geral, pouco estavam interessados na busca de uma verdade essencial, tal como o fazia Sócrates, mas em utilizar o discurso para fundamentar e defender, de maneira convincente, seus próprios pontos de vista. A retórica toma, assim, papel de relevo na doutrina sofística.

O antropocentrismo de Protágoras coloca o homem no centro das atenções, todavia faz implicitamente um questionamento sobre a possibilidade de este atingir a verdade das coisas. A ciência moderna precisou desses ceticismo e relativismo para ressurgir. É meio paradoxal, mas ela negou a Escolástica e toda forma de se fazer filosofia intuitiva e abstrata, direcionando-se para uma pesquisa empírica que tenta descrever minuciosamente o objeto, por isso Roger Bacon foi criticado pelos seus contemporâneos, pois o discurso teórico da filosofia da ciência moderna preconizava o ceticismo enquanto na prática os cientistas estavam eufóricos com a possibilidade de chegar a verdades supremas sobre as coisas.

O discurso científico precisava destruir o pensamento idealista platônico, que perdurou durante toda a Idade Média, e trazer à tona as idéias de Aristóteles sobre a natureza das coisas, pois estas, segundo Aristóteles, para serem entendidas devem ser testadas, medidas, experimentadas. Francis Bacon, seguindo essa nova perspectiva, lança o “Novum Organum”, livro fundamental para a ciência moderna, porque nele as bases da indução e da análise estão consolidadas. A nova mentalidade punha a filosofia, a religião, a metafísica e os mitos como digressões desnecessárias ao progresso.

Essa mudança de mentalidade é, para Adorno e Horkheimer, conseqüência direta do esclarecimento, o qual molda-se as situações para garantir a conservação seja de um grupo seja de toda a humanidade.

3. O discurso

O discurso capitalista burguês renovou-se em todos os aspectos: na religião surgiu o protestantismo, na forma de saber, a tecnologia; na forma de comerciar, o mercantilismo; na forma de fazer artes, o classicismo; na política, o absolutismo etc.

Entretanto, o espírito medieval não se extinguiu, prova disso foi o colapso das mentalidades durante o Barroco. A técnica científica pregava o progresso, a religião a aceitação passiva da morte. Devido a isso, tornou-se imprescindível tentar entender as causas da razão, suas origens, sua forma profunda de entendimento, e justificar a existência dos seres naturais e sobrenaturais, da física e da metafísica. Esse papel coube a René Descartes. A metafísica deste, o discurso sobre a alma, por exemplo, é a tentativa racional de provar que há vida além da morte, ou seja, que se existem idéias inatas é por que há algo existente antes do próprio homem. Descartes, no fundo, fez aquilo que a religião tivera feito na Idade Média: deu um acalento para que a humanidade pudesse continuar vivendo tranquilamente sua vida. Acalentado o espírito, podia o homem dedicar-se exclusivamente à ciência e à matemática.

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O racionalismo cartesiano teve, no entanto, um perigoso rival, o empirismo. As idéias, para este, não são inatas, originam-se da experiência cotidiana no contato com as coisas. O empirismo fundamenta o individualismo e o materialismo.

A grande síntese entre racionalismo e empirismo será realizada por Kant. Ele consegue demonstrar que existem idéias inatas, havendo também conceitos surgidos da experiência. Ambos os sistemas se complementam e a razão, assim justificada, seria a responsável por levar o homem à “paz perpétua”. Com Descartes, Locke e Kant as bases da ciência e técnicas modernas estavam lançadas.

Adorno e Horkheimer insinuam que tanto empirismo como idealismo são tentativas de superar uma crise da filosofia burguesa. O pensamento de Descartes, Locke, Hume e Kant têm em comum a tentativa de consolidar a razão instrumental. O discurso racional está em suas teorias, e os autores modernos não podiam questionar as conseqüências da racionalidade.

A ciência para se preservar, necessitava de uma justificativa absoluta, desde o campo teórico-experimental até o filosófico. Pois se o antropocentrismo colocara o homem no centro do mundo, tirava deste a explicação aceita pela maioria: a do criacionismo. As pessoas estavam confusas, afinal como a ciência explicaria as origens do universo e do homem, e como apontar o fim deste? Dizer que o corpo é pura matéria e que o homem se extingue em absoluto com a morte é filosofia que poucos suportam e que pode gerar suicídio coletivo. Não foi à toa que em meados do século XIX as teorias evolucionistas começaram a proliferar, primeiro com Lamarck, depois com Darwin. A evolução e a seleção natural davam ao homem a certeza de que este estava caminhando para a perfeição, mas nada falavam sobre o pós-morte, coisa esta trabalhada por filósofos como Descartes, Kant e Hegel.

Entretanto, a confiança na razão era tamanha que não se podia visualizar os estragos que ela fazia. É claro que as teorias socialistas, marxistas, realistas e naturalistas já prenunciavam o caos, porém o espírito burguês via nessas teorias apenas o sofrimento alheio, isto é, das classes operárias, e tal sofrimento, pensava-se, era parte essencial para o progresso. Este período coincide com as escolas literárias românticas, realista e naturalistas.

No instante em que as camadas mais abastadas começaram a sofrer também, veio a grande reflexão, e esta consolidou-se a partir do século XX com as duas grandes guerras, Crise de 29, Revolução Russa. Os totalitarismos proporcionarma a mais profunda crise do capitalismo. O homem passou a meditar sobre sua própria existência e a do outro. As escolas literárias deste momento são o simbolismo, o decadentismo e, logo em seguida, as Vanguardas.

O pessimismo e as tendências surrealistas, negativas da cultura e da tradição punham a burguesia em xeque. Marinetti, no seu Manifesto Futurista, chega a pedir a destruição de tudo o que for racional, pois a lógica era a da velocidade, a da guerra, a da negação de toda a cultura universal. Ele apoiou o fascismo e via na guerra a grande limpeza que o mundo necessitava. Os narcóticos passam a ser fonte de inspiração de poemas. Os simbolistas fogem da realidade e se trancam em torres de marfim, tentando voltar desesperadamente a um estado de misticismo e religiosidade há muito perdido. A burguesia está em crise profunda, já não mais crê tanto assim nos valores científicos e, de certa forma, volta a um misticismo para poder resistir às mudanças sociais.

Os intelectuais vão, de maneira quase unívoca, dizer que a grande culpada é a razão.

No entanto, Adorno e Horkheimer vão, de certa forma, amenizar a culpa da burguesia e razoa contemporâneas ao afirmar que o esclarecimento já tinha suas raízes na Antiguidade, a burguesia apenas o aprofundou ao extremo.

Esse extremismo configura-se na razão instrumental, a técnica, em prol da modificação da natureza, criando, portanto, o mito da ciência deusificada.

4. A crise da ciência e da técnica

A crença cega na técnica e na ciência tornou o homem descrente dos mitos tradicionais e o levou a criar o mito da ciência moderna. Por trás de toda a civilização, os mitos perduram sob formas heterônimas. Os mitos tradicionais e os modernos têm, para Adorno e Horkheimer, o importante papel de fazer com que o homem não sinta medo perante as forças da natureza. Por esse aspecto, o mito antigo já é uma forma de esclarecimento: ele

é usado para designar o processo pelo qual os sujeitos se libertam do medo de uma natureza desconhecida, à qual atribuem poderes ocultos para explicar seu desamparo em face dela. Por isso mesmo, o ‘esclarecimento’ de que falam não é exatamente, como no Iluminismo, ou na Ilustração, um movimento filosófico de uma determinada época, mas um processo pelo qual , ao longo da história, os homens se libertam das potências míticas da natureza (FERREIRA, p. 333, 2008).

O esclarecimento, portanto, não é típico do mundo moderno e da burguesia atual; suas raízes se estendem desde os primórdios e é a luta pela autoconservação humana. Os sacrifícios humanos na Antiguidade atestam isso, afinal eles eram a técnica de que os antigos dispunham para burlar os deuses mitológicos, pois ao se matar alguém e oferecê-lo a um deus qualquer a intenção era fazer uma espécie de negócio, no qual o deus cumpriria a sua parte se aceitasse a oferenda.

Adorno e Horkheimer veem no sacrifício o princípio da troca burguesa, uma tentativa de comércio e de superar as forças da natureza. A isso eles denominaram astúcia. Portanto, o sacrifício humano não era uma irracionalidade, como se diz atualmente, mas um evento calculado para se obter um fim específico, era a arma contra a qual o homem lutava contra a natureza e, também, contra os deuses, representantes simbólicos dela.

A Ilíada é o exemplo dado. Ela canta a ação de guerreiros e servia de inspiração para os povos gregos, e usava o mito como pano de fundo. Entretanto, o mito que nela aparece já não é o oral cantado pela tradição, é um organizado, sistematizado para um propósito social: a expansão territorial. A guerra de Tróia representou uma tentativa de unificação do povo grego e, principalmente, uma batalha comercial entre egeus e troianos; a cidade de tróia era importante entreposto comercial, zona de interseção entre Oriente e Ocidente; tê-la era sinônimo de poder. Assim, a guerra marcava dois pontos importantes: tentativa de unificação das nações gregas e expansão imperialista.

Finda a guerra, a tradição oral encarregou-se de mitificar os heróis, pois serviam como modelo de bravura ou covardia, o que devia ser copiado e o que devia ser expurgado. Homero, ao sistematizar a tradição, põe o mito a trabalho das forças comerciais, pois este passa a ser usado como força que luta menos contra as intempéries da natureza e mais contra os outros povos a conquistar. Agamenon, ao sacrificar sua filha para garantir que os ventos soprem com força suficiente para movimentar os navios rumo a Tróia, age diferente daqueles que usavam o sacrifício para garantir colheita farta ou proteção contra enchentes e terremotos; a intenção dele é, pela astúcia, ludibriar as forças da natureza, por meio dos mitos, para dominar e expandir o império. E essa astúcia continua, camuflada ou não, nos tempos contemporâneos. A epopéia homérica traz em si o gérmen do capitalismo moderno.

O protótipo mais claro de burguês, porém, aparece na Odisséia. Ulisses é o símbolo da astúcia, deixa que Agamenon e Aquiles meçam forças, enquanto ele, sorrateiro, mantém-se a distância; só foi à guerra quando as possibilidades de dizer não esgotaram-se. Ele age como um capitalista moderno, se se arrisca é por necessidade. O auge de sua astúcia é o embuste do Cavalo de Tróia: contam os relatos que o se seguiu após a entrada dos gregos nos muros da cidade foi assassinato, estupro, e roubalheira. Essas atitudes são escamoteadas para que o brilho guerreiro e a pilhagem não sejam vistas como coisas más. Agindo assim, parece ao povo comum que as atitudes dos soldados gregos foi agradável aos deuses e que o retorno como heróis seria certo.

Ulisses, entretanto, no retorno à sua terra natal, ofende Possêidon, e este, encolerizado, nega-lhe o retorno a casa. No entanto, em momento algum, Ulisses prostra-se pedindo perdão ao deus; a sua autoconfiança é suprema. Ele parece estar numa batalha intelectual, de paciência, contra as forças da natureza, e a cada vitória demonstra o quanto a astúcia humana pode superar o domínio do mito e dos deuses.

O que ocorre com os outros heróis de guerra mostra que o castigo de alguma forma chegou a eles. Agamenon é morto pela própria esposa, Aquiles age com brutalidade e é vencido na parte mais baixa de seu corpo, antes da morte tem que se arrastar humilhado e os egeus, depois de tanta empreitada, não conseguem a unificação da Grécia. O único a ter um “final feliz” é o astuto e equilibrado Ulisses. Os vinte anos que ele passou longe da família tornaram-no mais experiente e no retorno usa a astúcia para dominar os seus inimigos, logo em seguida retoma o reino e a esposa fiel.

A Odisséia torna-se, pois, um grito de vitória do homem sobre o mito e as forças da natureza, sobre os deuses e sobre outros homens. E é por meio dela que os homens devem se guiar. O que Adorno e Horkheimer querem mostrar é que antes da Ilíada e da Odisséia, os mitos e a religião oficial eram crenças profundas, inquestionáveis, e que eram os deuses obedecidos. Entretanto, tanto a religião quanto o mito já eram forma de esclarecimento, pois continham em si a forma que a humanidade tinha para entender e modificar as coisas. Com a sistematização dos mitos na Ilíada e na Odisséia, estes já não aparecem como essenciais, o homem já os questiona, e isso por que historicamente era um período onde a técnica e a filosofia já estavam se desenvolvendo em prol de um progresso material, econômico, comercial. O esclarecimento dos mitos abriu passagem para um esclarecimento mais objetivo: o da filosofia antiga.

O esclarecimento pode, porém, retroceder se a situação presente assim o exige. O Império Romano é um bom exemplo disso. A lógica e a ciência romanas prevaleceram durante boa parte da Antiguidade, seu racionalismo é uma espécie de fusão entre o militarismo espartano e o pensamento requintado ateniense; suas cidades são populosas e o império cobre todo o Mediterrâneo. Os romanos conseguiram aquilo que os egeus, na batalha de Tróia, tanto ansiavam: uniram a parte ocidental e oriental do Mediterrâneo fazendo assim uma unificação política, comercial e financeira. Tudo em Roma era medido, seu esplendor anunciava a luxúria que seria uma das causas de sua derrocada. Os mitos romanos eram usados muito mais para influenciar o povo do que uma crença efetiva nas forças da natureza.

Mas, e mesmo com toda a racionalidade, o Império caiu, o que levou a Europa ocidental a um retrocesso literário, econômico e político. O esclarecimento, entretanto, teve que se moldar a nova forma social. A aceitação de mitos de massa poderosos era necessária para que a população do antigo império e os bárbaros invasores não se aniquilassem mutuamente; é nesse sentido que o catolicismo toma a direção dos destinos europeus. O discurso mitológico retornou forte e eloqüente. Os deuses gregos e nórdicos foram substituídos pelos cristãos, pois era necessário para a autoconservação tanto do capital quanto do próprio homem.

Mil e quinhentos anos de Idade Média foram contestados quando a humanidade, ao menos a parte ocidental, teve novamente um avanço técnico-científico: o Humanismo e o Renascimento caracterizam bem esse período. O comércio floresceu, o homem individualizou-se, o ateísmo ressurgiu, as preocupações mundanas e materialistas passaram novamente a prevalecer. O esclarecimento logo impôs nas mentalidades o desejo de reatar as forças contidas no antigo Império Romano. Desta maneira, houve uma nova unificação comercial, os feudos foram aniquilados para dar passagem a comerciantes cada vez mais ávidos de lucros. As guerras de reconquista logo em seguida tornaram-se guerras de expansão. Esse expansionismo precisava da pseudoirracionalidade dos mitos: o Sebastianismo em Portugal é bom exemplo disso. A nova Europa necessitava de uma maneira diferente de viver, carecia de exemplos para moldar a conduta das massas, e estes foram encontrados nos clássicos gregos e romanos, não à toa justamente nos “ilustrados” do período: Cícero, Protágoras, Sócrates, Homero etc: era o espírito burguês renascendo das cinzas.

O ateísmo e ceticismo de outrora renasceram, o materialismo e o desejo de consumo, principalmente de coisas exóticas, povoou a Europa. A atitude meio ímpia de Ulisses, por exemplo, é comum a muitos iluministas, pois estes tentaram destruir os mitos, a metafísica e as religiões, colocando-os como meras superstições sem valor. O homem iluminista primeiro coloca-se como a medida de todas as coisas, depois usa a técnica e a ciência para modificar a natureza e transformá-la em mercadoria. Acredita-se então que a mente e astúcia humanas poderão trazer para a vida cotidiana a noção universal do paraíso bíblico.

5. A “nova Idade Média”

As várias revoluções industriais tiveram um peso marcante na modificação do pensamento das pessoas; as máquinas, os inventos, os remédios levaram muitos a crer que com a ciência todos os problemas humanos seriam solucionados.

No entanto, fica implícito no discurso de Adorno e Horkheimer, que ao homem não lhe é dado a força para negar um mito sem substituí-lo por outro. Os mitos antigos e medievais foram renegados, todavia outros surgiram, e o principal deles: a crença na ciência e no materialismo como valores supremos e universais.

Se os mitos tradicionais tinham na oralidade sua forma central de divulgação, sendo, portanto, representantes ideológicos de uma mundo rural e campesino; o mito moderno, por sua vez, será urbano e terá na imprensa jornalística e na mídia em geral sua forma de massificação. Os esclarecimentos filosófico, artístico, religioso, mitológico etc. serão rejeitados como irracionalidade. Entretanto, e aí está a grande contradição, a grande dialética, é que a racionalidade ao extremo (figurada na técnica científica) já é em si uma forma de irracionalidade, pois esta é inerente ao humano. Essa irracionalidade é ideológica, e a aceitação dela é imposta como verdade suprema e as massas aceitam-na sem questionar.

A razão criticada por Adorno e Horkheimer, por conseguinte, é a instrumental (a técnica):

A lógica proposta pela razão técnica é fria e quantificadora, tendo sido hipertrofiada pelo desenvolvimento do industrialismo e do homem capitalista, se disseminando por todas as esferas da modernidade. O efeito desse fenômeno é o fim do pensamento, a desvalorização da filosofia, e o desenvolvimento da lógica utilitarista e imediatista. Assim, a razão técnica utiliza o numero como arma, que mantém o pensamento preso à mera imediatidade, tal como se faziam nas guerras e no nazi-fascismo (FERREIRA, p. 333, 2008).

O mito era uma forma de prisão que foi trocada por outra, a da razão instrumental. A burocratização e o positivismo são as vertentes mais claras dela. Os sistemas totalitários se inspiram no racionalismo técnico e pragmático. Mas quando há um sistema como o nazismo, por exemplo, é na verdade uma forma de o esclarecimento se corrigir, pois os sistemas totalitários, por mais irracionais que pareçam, possuem a lógica da autoconservação, seja individual, seja do capitalismo. Conforme Pereira, Adorno e Horkheimer afirmam que:

O homem do esclarecimento é um homem que equivocadamente se considera livre, pois toda e qualquer forma de animismo, de particularismo ou dogma sucumbe diante do diagnóstico reacional e da mentalidade insistente em busca de verdades. Daí que o desencantamento do mundo é meta da razão instrumental, e com esse desencantamento esvaem todos os costumes e tradições, fé e religiosidade, vivências e experiências de vida que não são adequáveis aos moldes reacionais de observação e classificação (FERREIRA, p. 333, 2008).

O capitalismo, na Alemanha e na Itália, estava ameaçado de extinção, surgiu então para mantê-lo vivo os totalitarismos nazista e fascista, respectivamente. A matança de judeus, os campos de concentração, a loucura e a insanidade tinham uma lógica cruel, a da autoconservação do capital nos países citados.

Essa pseudoirracionalidade esteve presente também no período medieval, as Cruzadas foram guerras contra um inimigo forjado, pois à Europa em crise econômica era imprescindível um aquecimento econômico, pois as pestes e os conflitos internos haviam minado as economias. A pilhagem de outras terras era fundamental, mas ela só seria possível se um discurso ideológico movimentasse a fome e a miséria contra um possível responsável pelos fracassos na Europa. Assim, a destruição do infiel muçulmano tornou-se o ponto-chave da empreitada européia. Os europeus perderam quase todas as batalhas, mas o esclarecimento conseguira aquilo que no fundo se predispusera, isto é, reacendera o espírito comercial no continente, encaminhando-o para o Humanismo.

As duas grandes guerras foram, por essa ótica, uma fuga de uma espécie de “Idade Média” cultural e econômica pela qual alguns países europeus se encontravam. A Rússia era semifeudal durante a primeira guerra. A Alemanha, querendo participar ativamente dos lucros da colonização africana, impôs a primeira guerra, a conseqüência foi uma derrota humilhante. O povo alemão foi durante a primeira guerra e a crise de 29 humilhado de todas as formas, a fome e a irracionalidade tomaram conta dos alemães. Somente num ambiente de loucura é que se pode considerar são um louco. Foi isso o que aconteceu com Hitler, pois quanto mais o seu discurso era irracional para países como a Inglaterra e a França, mais soava como lógico e coerente para os alemães de então. O mito usado para o convencimento do povo, desta vez, não foi o religioso, mas sim o da ciência. A guerra era a forma vista por alemães para o não extermínio de seu povo e cultura.

O genocídio, o estupro de mulheres de outras nacionalidades, a pilhagem tudo foi justificado como necessário para a empreitada do novo povo eleito, ou seja, os de origem ariana.

O esclarecimento, ao mesmo tempo que leva o homem a desenvolver a tecnologia e inventar maravilhas, torna-o, paradoxalmente, cego para aquilo que é verdadeiramente humano.

6. A mídia burguesa

O positivismo, o materialismo, o existencialismo, o ateísmo etc. são tendências da razão instrumental, que ajudam a moldar a mentalidade por meio de ideologias midiáticas. A burguesia intensificou ao extremo o esclarecimento, criando uma sociedade materialista e burocratizada. A indústria cultural foi a responsável por solidificar essas ideologias. O discurso moderno rejeitou a narração tradicional, cujo conhecimento acumulado é fruto da tradição oral e coletiva.

A narração tradicional estaria em vias de extinção, e sua substituta seria a informação jornalística, cujos atributos são a efemeridade e superficialidade. Os mitos tradicionais, na nova configuração social, são vistos como algo pitoresco e longínquo, tratados como irracionalidade ou coisa de povos atrasados. Os filmes, os livros, os gibis etc. reproduzem a idéia de que a razão superou os mitos e lendas populares, e que a metafísica e religião são irracionalidades descartáveis.

A indústria cultural cria assim um perfil de gente liberal apta ao consumo. Ela, segundo Ferreira:

impede a formação de indivíduos autônomos e conscientes, capazes de decidir por conta própria os seus desejos e a suas vontades. (...) o próprio lazer é moldado pelas diretrizes culturais capitalistas, e a diversão torna-se uma extensão do trabalho, envolvendo relações de dinheiro, de interesses e de disputa. Tolhendo a consciência das massas e instaurando o poder da mecanização sobre o homem, a indústria cultural cria condições favoráveis para a implantação do seu tipo de comercio. Como exemplo, mencionam o cinema, que suscita o desejo e sugere, atreves das suas imagens um mundo irreal a ser cobiçado pelos indivíduos. Daí a comercialização da imagem ser alvo de forte crítica, na medida em que as expressões cinematográficas são construídas a partir de interesses econômicos de mercado. Dessa maneira, o cinema não se apresentaria mais como arte, não passando de um negócio (FERREIRA, p. 335, 2008).

O avanço tecnológico e o progresso industrial fizeram uma mudança radical nas artes em geral. Estas, segundo Adorno, pressionadas pelo cinema e fotografia, tiveram que se adaptar para não deixarem de existir. As artes sempre foram realistas, até mesmo aquelas que se julgavam idealistas partiam da realidade como fonte de inspiração. O mimetismo e a verossimilhança constituíam-se em ferramentas importantes para a pintura, por exemplo.

Com o realismo extremado da fotografia ou com a imagem em movimento do cinema, as artes plásticas se viram ameaçadas, por isso buscaram na abstração o refúgio. O movimento surrealista tornou-se o grande exemplo desse refúgio. A pintura surrealista foge à representação do real, visa a um discurso ilógico, numa espécie de transfiguração da realidade, aquilo que o inconsciente imagina ver em uma realidade atemporal. Ortega y Gasset, em A Desumanização da Arte, já alertava para isso, que a arte moderna estava tirando de si aquilo que era tipicamente humano e tornando-se algo mais próximo de um vazio existencial. Aqui no Brasil, Monteiro Lobato também fez uma duríssima crítica à arte moderna, ao chamá-la de paranóia. A arte moderna é devedora, como se sabe, de Freud.

Os estudos do inconsciente tiveram a preocupação, na arte, de fazer o pintor transcender do real e buscar uma arte pela arte não realista e longínqua dos problemas sociais e econômicos que assolavam a Europa. É por isso que tal arte, que tudo negava, nega a tradição, a burguesia, o comercio, a sintaxe, etc. – esta arte parecia meio superficial para alguns brasileiros, pois se lá na Europa ela era uma conseqüência direta da racionalização e da industrialização, no Brasil ela pareceria uma contradição, pois era justamente a industrialização e o racionalismo (principalmente o da experimentação constante – tão visado por Mario e Oswald de Andrade) que era incentivado pelos autores modernistas.

Neste aspecto, não se pode dizer que Mario de Andrade é mais “modernista” do que Monteiro Lobato. Este foi um dos maiores empreendedores do Brasil, e foi preso algumas vezes por exigir do governo Vargas a industrialização e o progresso tal como ocorria nos Estados Unidos. Na época de Monteiro, a literatura passava por uma espécie de neorrealismo, apontando os problemas e falhas do Brasil, eram críticas contra o capitalismo comercial (contra o coronelismo e o latifúndio, principalmente) e a noção de uma burguesia industrial e urbana cada vez mais se consolidava. Como então, aceitar uma crítica à burguesia industria (pois as vanguardas européias podem ser classificadas assim) em um país que caminhava para a industrialização?

A tentativa de fugir do realismo, para alguns, e entrar numa arte abstrata era vista como algo ruim nas artes plásticas, em se tratando de literatura era algo quase impensável. Mas a literatura burguesa precisa “vender”, necessitar dar algo novo e exótico ao seu público leitor.

O abstracionismo era uma saída viável. A literatura também tentou se enquadrar a essa nova realidade. A poesia até que conseguiu, mui disfarçadamente, mas o romance ficou a meio caminho. O romance descende diretamente da épica, e já há nesta os traços da burguesia contemporânea, como foi visto alhures, aquele, porém, é a representação literária da burguesia. Esta sempre foi objetiva, pragmática, positivista, por isso o romance buscou revelar o que está fora do sujeito, a intenção eram as peripécias dos heróis, as aventuras e o que delas poder-se-ia tirar de entretenimento. As novelas de cavalaria, as novelas de Cervantes, nesse sentido, podem ser classificadas como protótipos do romance moderno.

A partir do século XXI, influenciado pelo subjetivismo e intimismo freudiano, o romance volta-se para a análise psicológica de suas personagens. O realismo do cinema e o da fotografia fizeram o romance buscar dentro das personagens o novo e o extraordinário que tanto agradam ao público burguês.

Adorno, porém, afirma que esta postura não é uma abstração do real, o objeto, é verdade, não é mais a realidade externa, mas o grau de objetividade é o mesmo, senão maior, pois a forma como os autores tentam entender as armadilhas do inconsciente é a mesma do cientista psiquiatra em sua clínica, os métodos são semelhantes, ou seja, o romance deixou a arte pela arte e tornou-se um apêndice da ciência, deixou de entreter e incentivar a imaginação e para tornar-se pura informação. O romancista não seria mais um “contador de histórias”, mas um analista, um erudito que possui muita informação “atualizada” e que sabe como discorrer sobre ela em seus enredos, cada vez mais complicados e técnicos.

Ao analisar-se o interior das personagens tenta-se mostrar como as pessoas agem, e revelar as influências que a sociedade tem sobre elas. Por trás desse estudo, porém há uma ideologia perigosa aos totalitarismos em geral e excelente para o capitalismo liberal: a da quebra de tabus. O romance moderno busca transcender o tempo e as barreiras sociais, mostrando ao indivíduo o quanto as ideologias sociais são poderosos meios de manutenção dos status quo e do impedimento dos gozos materiais.

O discurso para as massas, é o da liberação total, afinal as personagens vítimas dessas análises surgem como vítimas de um sistema autoritário, seja ele o da religião ou dos costumes em geral, e a análise busca a superação da repressão. Tais romances unem-se a um discurso democratizante que surgia na Europa do início do século XX: o discurso feminista, o discurso a favor da aceitação dos públicos homoafetivos (iniciado, é verdade, ainda no século XIX), o discurso contra a exploração capitalista etc.

Esse discurso ideológico assume papéis diferentes em países capitalistas democráticos e países capitalistas totalitários, como a Alemanha nazista ou a Itália fascista, por exemplo.

Á época de Adorno e Horkheimer, o capitalismo estava dividido: na Inglaterra liberal, democrática, os textos literários visam a análise introspectiva, pois a ideologia liberal não estava contra o autoritarismo político, pois este já havia sido vencido séculos antes, mas contra a repressão sexual, contra as atitudes machistas, etc. Na Alemanha nazista, porém, houve uma supressão forçada desse discurso, o lirismo, a individualidade, e a subjetividade eram perigosos para o sistema econômico vigente. E supressão por que foi com Freud, escritor de língua alemã, que as tendências aos estudos do inconsciente floriram, ganhando relevo na literatura. A Alemanha nazista não via com bons olhos livros como o de Kafka, que trazem um discurso existencialista perigoso para um regime político que põe na objetividade da técnica científica sua essência de ser.

Os países democratas ou totalitários, porém, criaram mecanismos de divulgação de suas idéias com alto grau de eficiência, tanto o rádio como a TV forma manipulados para criar no público a impressão de verdade.

Adorno e Horkheimer, exilados nos EUA, perceberam que lá também o discurso burguês fazia o mesmo papel, que Hollywood fazia uma espécie de censura prévia sobre ao que se podia ou não assistir. Os desenhos animados, coisas aparentemente infantis, traziam no fundo uma visão antissemita, racista de um lado e incentivadora do consumo, de outro. Tal censura prévia já estava, para os autores, implícita no discurso de Kant:

Nas palavras de Kant, o esclarecimento ‘é a saída de homem de sua minoridade, da qual é o próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de ser servir de seu entendimento sem a direção de outrem’. ‘Entendimento sem a direção de outrem’ é o entendimento dirigido pela razão. Isso significa simplesmente que, graças a sua própria coerência, ele reúne em um sistema os diversos conhecimentos isolados. (...) O pensamento, no sentido do esclarecimento, é a produção de uma ordem científica unitária e a derivação do conhecimento factual a partir de princípios, não importa se estes são interpretados como axiomas arbitrariamente escolhidos, idéias inatas ou abstrações supremas. As leis lógicas estabelecem as relações mais gerias no interior da ordem, elas as definem. A unidade reside na concordância. O princípio da contradição é o sistema in nuce. O conhecimento consiste na subsunção a princípios. Ele coincide com o juízo que se inscreve no sistema. Um pensamento que não se oriente para o sistema é sem direção ou autoritário (ADORNO, HORKHEIMER, p. 71, 2006).

A crítica a Kant é que neste já estavam as idéias de um domínio total do Estado, seja ele liberal ou não (desde que capitalista), o homem deveria estar sujeito a leis, ou princípios, que deveriam lhe guiar constantemente. Esses princípios seriam o de sua consciência, mas quem ou o que colocaria esses princípios na consciência humana, a moral, de preferência uma cristã. A moral usada por Hitler e pela indústria de Hollywood são distintas, mas a forma como são divulgadas são coerentes com a filosofia do Kant.

Adorno e Horkheimer escrevem que o pensamento de Kant encontra o maior exemplo em um escritor contemporâneo do filosofo alemão; o Marquês de Sade. Juliette, personagem central de um dos romances de Sade, tem uma moral devassa, faz orgias e todas as espécies e sua conduta é subversiva. Segundo Adorno e Horkheimer, ela tem a moral da ciência, pois o prazer que sente em destruir os símbolos religiosos é algo que já prenunciava Freud.

As orgias praticadas por Juliette não são naturais, porque para ela o conceitos de natural foi destruído pela civilização – o sexo, tão comum e normal aos animais – foi, com o tempo, sendo objeto de tabu; ela mesma, Juliette, sabe que seu prazer não está na orgia em sim, mas na satisfação de ver os mitos sendo destruídos. Ela é o símbolo da moral burguesa, objetiva, destruidora de ídolos – prenúncio de outro grande filósofo, Nietzsche. A moral de Juliette é a do capitalista que vê sua consciência sendo destroçada ao fazer um negócio ilícito, mas que mesmo assim prossegue, pois sabe que o “natural” não é a solidariedade, mas a guerra. É o espírito descrito na obra o Leviatã, de Thomas Hobbes.

Entretanto, enquanto marques de Sade contestava os mitos religiosos e pregava um liberalismo sem freios fazia já, segundo Adorno e Horkheimer, propaganda do novo estilo, da nova moral, do novo mito que surgia: o mito da ciência como salvadora da espécie humana. Pois só a racionalidade objetiva poderia livrar o homem das superstições e da morte. A sabedoria religiosa era fruto de uma irracionalidade que deveria ser evitada.

Sade lutava também contra o Antigo Regime, nisso ele tem muito em comum com Rousseau, Voltaire, por exemplo, pois todos os grandes filósofos do Iluminismo pregavam, cada um a seu modo, um individualismo que, cedo ou tarde, desembocaria no conceito de democracia. Esta também pode ser encarada como um mito, pois os filmes de Hollywood a pregam como o melhor de todos os sistemas políticos já existentes, e sempre fazem filmes sobre uma Idade Média obscura, sóbria, cheia de erros e amaldiçoada pela existência de monarquias e regimes feudais.

Mas como de fato provar que a Idade Média é o que a mídia diz, se os historiadores que dela tratam têm o esclarecimento burguês em si? Como dizer que o regime baseado no califado é por si só ruim? O que se alega é que eles impedem os direitos humanos fundamentais, no dizer do filósofo Norberto Bobbio, todavia a noção de “direitos humanos fundamentais” é fruto do esclarecimento, pois ela vem se moldando desde a Revolução Francesa e teve seu auge depois do holocausto durante a segunda guerra mundial. Só depois de o racionalismo, de a razão instrumental quase destruírem a civilização ocidental e parte da oriental é que se tem a vontade de levar liberdades e garantias para todos os povos.

Entretanto, e se esses povos se opuserem a tais liberdades. Talvez ocorra o mesmo que ocorreu no Iraque, Afeganistão: a guerra para levar a democracia. Os soldados que foram à guerra acreditavam, ou fingiam acreditar, naquilo que seu governo dizia. Os filmes, os romances colocavam sempre o muçulmano como um imprestável e bandido. Árabes e judeus, embora com línguas diversas, são em grande parte povos de origem semita.

E é contra esse antissemitismo que a contraideologia apresentada em A Dialética do Esclarecimento se insurge.

7. Considerações finais

Alguns comentaristas do livro “A Dialética do Esclarecimento” vão dizer que as idéias nele contidas são pessimistas e que seus autores só vêem o lado negro do capitalismo e do esclarecimento. Alegam que o esclarecimento pode não ser ruim na medida em que tudo o que é humano é conseqüência dele. Criticá-lo em toda a sua plenitude é criticar a essência do humano. O livro seria, assim, uma tentativa de moldar, “esclarecer” as massas para que o povo semita se autoconservasse. Nisso, o pensamento de Adorno e Horkheimer seria coerente. Entretanto estariam usando as mesmas armas que seus opositores (a burguesia esclarecida e a razão instrumental) para fins particulares, isto é, a tentativa de convencer os outros através de um discurso extremamente racional. E

Mas deve-se salientar que o pessimismo não era exclusivo desses dois autores, pertencia a toda uma geração ocidental, desconfiada com os destinos da humanidade. A guerra destrói esperanças antigas e faz renascer novas. O discurso dos autores alemães nega a razão instrumental, mas abre caminho para uma razão filosófica e um esclarecimento onde a espiritualidade prevaleça sobre a técnica, ao menos isso é uma interpretação possível que se lhe pode tirar dos textos.

Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor W. Notas de literatura 1. Tradução de Jorge M. b. de Almeida. Duas Cidades, Ed. 34, (coleção espírito crítico). São Paulo, 2003.

ADORNO, Theodor W. HORKHEIMER, Max. A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2006.

BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Obras Escolhidas: magia e técnica, arte e política. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 10ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.

FERREIRA, Walace. Uma análise revisionista de Adorno e Horkheimer em “A Dialética do Esclarecimento. CSOnline – revista eletrônica de ciências sociais. Ano 2, vol. 5, dezembro de 2008.


  1. Mestrando em Estudo Literários - UNIR. Porto Velho/RO, 2011, UNIR. E-mail: [email protected]

    2 Mestranda em Estudos Literários - UNIR, Porto Velho/RO, 2011, e-mail: [email protected]

Sobre o autor
Elton Emanuel Brito Cavalcante

Doutor em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente - UNIR; Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Rondônia (2013); Licenciatura Plena e Bacharelado em Letras/Português pela Universidade Federal de Rondônia (2001); Bacharelado em Direito pela Universidade Federal de Rondônia (2015); Especialização em Filologia Espanhola pela Universidade Federal de Rondônia; Especialização em Metodologia e Didática do Ensino Superior pela UNIRON; Especialização em Direito - EMERON. Ex-professor da rede estadual de Rondônia; ex-professor do IFRO. Advogado licenciado (OAB: 8196/RO). Atualmente é professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia - UNIR.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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