A Verdade Pragmática e a Ideologia nas Ciências

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CAVALCANTE, Elton Emanuel Brito1

Inês Araújo Lacerda, em Introdução à Filosofia da Ciência, reserva aos capítulos finais desse livro dois temas importantes: o Pragmatismo e O problema das relações entre ciência e ideologia nas diversas ciências. O que é ser pragmático? Como a ideologia permeia as ciências? Responder a esses questionamentos constitui-se no objetivo deste trabalho.

1. Pragmatismo

O que é a verdade? Pode-se chegar a ela? Como? E chegando-se a ela, o que fazer? Tais perguntas foram feitas por William James, maior expoente do Pragmatismo moderno. Mas qual era o contexto de tais perguntas?

Quando William James publicou, em 1907, Pragmatism, o mundo ocidental partia já para a terceira revolução industrial, na América o Fordismo e o Taylorismo criavam novos métodos de produção, o capitalismo financeiro unia-se ao industrial, a Inglaterra já não era absoluta em seu poderio econômico e bélico e o mundo preparava-se para o caos que seriam as duas grandes guerras e a depressão de 1929. Nesse emaranhado político e econômico, as idéias, as teorias e os debates eram intermináveis, e as escolas filosóficas e literárias não chegavam a um acordo. Cada qual trazia a sua noção de verdade. Para ilustrar isso, um exemplo da História da Literatura: por muito tempo, houve sempre uma escola literária que era hegemônica em um dado período histórico, isso não implicava, todavia, que divergências não existissem, mas era clara a tendência da maioria a aceitar uma escola como padrão. Durante quase duzentos anos o Barroco, por exemplo, foi o modelo a se seguir.

Entretanto, no final do século XIX e início do século XX, simplesmente houve uma fragmentação no conceito de escola: simbolismo, impressionismo, expressionismo, neorrealismo, neorromantismo, decadentismo, futurismo etc., surgiram e conviveram quase que simultaneamente, e os historiadores tentaram enquadrá-los em nomes como Vanguardas, Modernismo, Modernidade, etc. Entretanto, tal tentativa é vã quando se analisa escritores como Oswald de Andrade, por exemplo, pois fica sempre a dúvida: a que escola pertence? Como classificá-lo? E o que se dizer de Fernando Pessoa e seus heterônimos?

Parece que o objetivo não é a unidade, o todo, mas o fragmento, a parte.

Essa fragmentação também se deu na Ciência e na Filosofia. Diga-se de passagem que esta última sempre foi o local da polêmica e das idéias díspares. A ciência, por sua vez, buscou limitar-se mais ao concreto, a emitir parecer apenas quando tivesse certeza dos fatos relatados. Tal certeza, porém, passou a ser posta à prova, e é por isso que Boaventura de Souza Santos vai dizer que uma das causas da crise da Modernidade é justamente a instabilidade de um de seus mais importantes pilares: a ciência moderna.

Esta, a partir do final do século XIX, passou a ter um discurso incompleto: pregava a objetividade absoluta na pesquisa empírica, entretanto calava-se totalmente ante a perguntas que atormentam a humanidade há séculos, como: qual o porquê da existência? Ou para onde vamos? A Filosofia, a Teologia e a Religião, a Arte buscam responder, mas a Ciência por muito tempo simplesmente virara as costas para questionamentos como esses. E durante todo esse tempo, a metafísica foi por ela execrada.

Em acordo com esse viés cientificista, o Positivismo, o Pragmatismo, o Materialismo, o Evolucionismo etc. têm em comum esse caráter de negação de qualquer conhecimento que não seja a partir da experiência imediata.

O Pragmatismo percebeu que todas as teorias filosóficas e cientificas mais díspares, no fundo, estavam enquadradas em dois grandes gêneros: ou eram racionalistas/idealistas ou empiristas/realistas, e que a filosofia/ciência criam que a verdade estava ou em um daqueles gêneros isoladamente ou, no máximo, na síntese deles, como o fez Kant.

Entretanto, com uma leitura mais acurada, percebia-se também que tanto racionalistas como idealistas terminavam por desembocar na Metafísica, além disso os debates eram abstratos e muitas vezes inacessíveis para aqueles que não fossem especialistas no assunto. E era isso que William James tanto criticava, pois a noção de verdade terminava por se distanciar dos problemas reais do homem; ora, o mundo se preparando para a guerra, e a filosofia dissertando sobre temas que não ajudavam em nada na solução dos problemas concretos e imediatos das pessoas. Por outro lado, muitos homens tidos como práticos negavam o real valor da teoria e do pensamento abstrato, como era o caso de muitos homens de negócio; para estes um martelo era útil, um carro era útil, uma agulha era útil, um chapéu, idem etc., entretanto, teorias como a da relatividade, a dos quanta, a da evolução etc. eram coisas tidas como inócuas.

Os pragmatistas negam ambas essas posturas. Nesse sentido, a atualidade das idéias pragmatistas deve-se “ao enfoque contextualista, relativista, e historicista predominantes na ciência e no trabalho filosófico hoje praticados. Discute-se a pluralidade, o holismo, relativiza-se o predomínio da objetividade, poliemiza-se contra o realismo, o idealismo, o positivismo e o materialismo, discute-se a alternativa metodologia da hermenêutica (no sentido de interpretação das tradições, das idéias e dos textos); a busca da certeza cedeu lugar às asserções sujeitas à revisão permanente.” (ARAÚJO, p. 145).

Perceba-se que a palavra “relativista” aparece duas vezes e que passa a ser diretamente ligada à hermenêutica. A verdade não mais estará na coisa em si (e não importa se esta é ideal ou empírica), mas nas relações. O pragmatismo é um retorno ao relativismo e, de certa forma, ao ceticismo antigos. Pode a verdade em si ser alcançada pela mente humana? Para William James, a verdade está naquilo que pode ser útil para a coletividade, e busca das coisas em si (as essências e formas, tratadas pelos metafísicos) nunca traz nada de útil para a humanidade, pois esse em si é inalcançável. Os vários conceitos de cultura, por exemplo, são todos relativos no tempo e no espaço, são porém úteis, pois cada um desses conceitos traz um aspecto novo e importante para a melhora do homem, seja no campo da moral, seja no campo da troca de experiências ou na aceitação do outro como igual.

Ou seja, a verdade está naquilo que pode ser útil, não no sentido do utilitarismo comum que se confunde a um materialismo vulgar, pois para este o pensar teórico é uma “tremenda perda de tempo”. O pragmatismo não vê assim, pois as teorias podem ter um cunho extremamente útil, o que não podem é fugir dos reais problemas humanos. Ele é um “instrumento teórico e programático. Se não soubermos o que fazer com as verdades de nossas experiências, não estaremos preparados para a vida produtiva em comunidade, não poderemos sequer produzir atos de fala validáveis.” (idem, p. 145).

Em suma, a verdade está no útil, e este não é apenas aquilo que pode ajudar uma determinada classe social ou um grupo específico, mas tudo o que é benéfico à Humanidade – seja uma teoria ou uma ferramenta mecânica.

2. O problema das relações entre ciência e ideologias nas diversas ciências

O homem é formado pela “doxa”, pela opinião. O racionalismo sempre levou à conclusão de que ela é falsa. O empirismo, por sua vez, diz que ela é verdadeira, mas deve ser analisada, revirada para que de lá se tire a verdade.

A ciência, por muitos séculos, foi considerada como neutra dentro dos assuntos políticos e sociais. Tanto marxistas como capitalistas usavam-na indiscriminadamente. Os positivistas acreditavam que até mesmo as ciências humanas poderiam chegar ao grau de objetividade e neutralidade das ciências exatas, tanto que Comte criara uma física social.

Os neomarxistas, por sua vez, foram além e passaram a crer que mais importante que estudar a doxa é entender o canal pelo qual ela se difunde. A linguagem passou a ser estudada, analisada e hoje se sabe o quanto ela, entre as classes sociais, pode ser um instrumento de preconceito e dominação, afinal cada classe social tem a sua forma de se expressar e entender o mundo, e as formas distintas de expressão (ou variantes lingüísticas) podem ser consideradas “erros” pela linguagem padrão. Esta, para os neomarxistas, representa a variante da classe dominante, estando assim carregada de preconceitos e ideologias que impedem as classes operárias de se emancipar. Louis Althusser, por exemplo, vai, em “O Aparelho Idológico do Estado”, colocar a escola como uma ferramenta não de emancipação das classes sociais menos abastadas, mas de perpetuação da dominação.

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Outros neomarxistas, como Boaventura de Souza Santos, dirão que as Universidades perderam a sua razão de ser no momento em que o discurso utilitarista e neoliberal tomou conta da academia. Pois tal discurso não é neutro: está intimamente ligado aos interesses das grandes empresas. E estas financiam somente aquilo que lhe podem dar lucro. Quando essa visão pragmática é criticada dentro da própria universidade, há movimentos de defesa do capital, movimentos que difundem idéias na sociedade, levando-a a ficar contra os críticos do sistema.

Devido a esse discurso, o cientista aparece como um sábio dono de verdades absolutas e úteis aos cidadãos, ele torna-se uma imagem estereotipada na mídia: sempre de jaleco branco, em um laboratório (geralmente de Química ou Física) e a ser aquele homem que possui conhecimentos inacessíveis à maioria das pessoas, mas que, graças a uma autoridade a ele dada, tem quase o dever de alertar sobre os problemas que poderão prejudicar a paz social.

Esse discurso é uma forma de controle, o qual é trabalhado bem por Michel Foucault, pois este não se importa tão somente com o discurso impositivo de cima para baixo, mas como ele é difundido horizontalmente entre as pessoas comuns. O poder é fragmentado para conservar o poder. Ressalta-se aqui que Foucault não considera essa fragmentação como ruim, apenas a analisá sem dar o enfoque negativo que seus predecessores deram à noção de poder. Veja por exemplo, o ideal moderno de defesa das mulheres, defesa que está na própria constituição. Como este ideal é posto em prática nas diversas esferas da sociedade? Quem vigia? Somente o Estado? Não. Entretanto pergunta-se: esse vigiar é algo ruim para a sociedade? Sabe-se que é um poder que se difunde, mas ele emana de onde?

Algo parecido ocorre com a ciência, tanto que em alguns trechos do livro “Introdução à Filosofia da Ciência”, a própria autora defende a ciência, pois não vê o discurso científico nem o financiamento de pesquisas por meio de empresas como algo ruim para a sociedade.

Boaventura vê. Para este, o discurso científico moderno acabou por gerar uma crise no seio das universidades. Estas possuem, em seu eixo, ensino, pesquisa e extensão. Entretanto, a pesquisa tem sido limitada a interesses de um dado grupo social, reduzindo assim boa parte das universidades, tidas como periféricas, a apenas ensino e extensão. Assim, privatizá-las seria menos oneroso ao Estado. Mesmo as Universidades de prestígio (as que têm de fato pesquisa, ensino e extensão de ponta e verbas em quantidade suficiente) são obrigadas a direcionar suas pesquisas para os interesses dos grandes conglomerados econômicos. Pesquisas de cunho teórico ou nas áreas especificas das ciências humanas são sempre vistas com ressalvas, e quando as verbas vêm é à conta-gotas.

Esse domínio por parte do capital delimita a atuação não só das universidades como também da ciência em geral. Se os cursos de Filosofia, Sociologia, Letras, Pedagogia etc são sempre tidos como menos importantes pelo grande capital é por que se sabe, desde Hegel, que são as idéias que movem o mundo e não o contrário. Cursos de humanas que só ficam a revisar o que já foi dito, que não têm sequer livros em suficiência para fazer pesquisas, vão apenas reproduzir pensamentos que os grupos dominantes já sabem como neutralizar. Assim, o novo é impedido de vir dentro de uma universidade que valoriza somente uma ciência pragmática e que atende às expectativas de apenas uma parte da sociedade. Ao menos é o que pensa os neomarxistas citados alhures.

Bibliografia

ARAUJO, Inês Lacerda. Introdução à Filosofia da Ciência. Curitiba, PR UFPR, 1993.

SOUSA SANTOS, Boaventura de. Da ciência moderna ao novo senso comum. In: A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 4ª ed. São Paulo. Ed. Cortez. 2002.


  1. Mestrado em Estudos Literários – UNIR, 2012, e-mail: [email protected]

Sobre o autor
Elton Emanuel Brito Cavalcante

Doutor em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente - UNIR; Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Rondônia (2013); Licenciatura Plena e Bacharelado em Letras/Português pela Universidade Federal de Rondônia (2001); Bacharelado em Direito pela Universidade Federal de Rondônia (2015); Especialização em Filologia Espanhola pela Universidade Federal de Rondônia; Especialização em Metodologia e Didática do Ensino Superior pela UNIRON; Especialização em Direito - EMERON. Ex-professor da rede estadual de Rondônia; ex-professor do IFRO. Advogado licenciado (OAB: 8196/RO). Atualmente é professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia - UNIR.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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