Elton Emanuel Brito CAVALCANTE (UNIR)1
RESUMO: Benjamin, em O Narrador, afirma que a forma de expressão literária representativa do período pré-capitalista era a Narração. Esta permeava-se por mitos, os quais constituíam um saber oral armazenado numa memória coletiva. Com o Capitalismo, a Narração fora substituída pela Informação, mais célere, menos moralizante. O homem deixara de crer no mito e passara a adorar a Razão. Benjamin, entretanto, faz esta análise sob uma perspectiva urbana e eurocêntrica, como se em outras regiões não houvesse formas distintas de se narrar e vivenciar os mitos. Estes, na Amazônia, por exemplo, segundo Loureiro, constituem-se em fonte oral de saber, fazendo parte do imaginário caboclo. Assim, em livros como Órfãos do Eldorado, de M. Hatoum, haveria a manifestação fenomenológica do mito. Entretanto, como ocorre nessa obra tal manifestação? Representaria esta a forma real como os mitos são vivenciados no meio rural ou reforça a visão racionalista e urbana de que os mitos são apenas crendices? Hipótese: no livro, mitos locais mesclam-se aos da tradição judaico-cristã e manifestam-se como parte integrante da personalidade das personagens.
PALAVRAS-CHAVE: Mito; Narração; Informação.
1. Benjamin e o Mito
Um povo outrora colonizado só deixará de fato tal condição quando quebrar as conseqüências psicológicas da colonização; é o que provavelmente ocorreu com os Estados Unidos e o Canadá, por exemplo. Já povos antes colonizadores quando se veem na iminência de perder o poder entram em estado de letargia e depressão. Algo parecido ocorreu com a Alemanha de Walter Benjamin, pois ela no século XIX, unificada, ascendeu à condição de grande potencia européia, entretanto se viu logo após a primeira Grande Guerra na situação de subjugada: perdera suas colônias na África, vira seu próprio Estado ser invadido e seu povo passar fome e frio. O pessimismo tomou conta dessa nação, e é sob a égide desse estado de espírito que o pensamento de Benjamin desenvolver-se-á, principalmente no que diz respeito à noção de Narrativa. Esta, para o filósofo alemão, estaria em vias de extinção, pois pertenceria às sociedades pré-capitalistas, e seria o canal de transmissão de um saber cujo conteúdo basear-se-ia no Mito, o qual deve ser entendido, em Benjamin, no sentido proposto por Mircea Eliade:
Uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares. O mito conta uma história sagrada, relata um acontecimento que teve lugar em um tempo primordial, o tempo fabuloso dos começos. Conta os feitos dos seres sobrenaturais, uma realidade que passou a existir, quer seja uma realidade total, o Cosmos, quer apenas um fragmento, uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, é sempre portanto uma narração de uma criação, descreve-se como uma coisa foi produzida, como começo a existir (ELIADE, 2000).
Para Benjamin, com o advento da industrialização, a forma de se transmitir saber mudou porque a própria sociedade se transformara. Nisso ele é marxista, pois defende uma estrutura econômica que é a responsável por uma superestrutura (cultural, literária, filosófica etc.). O mito seria uma superestrutura, e tanto este quanto a narrativa estariam em extinção porque na Modernidade o homem ocidental não crê neles como forma de se chegar a uma verdade suprema. A ciência, a técnica e a informação seriam as novas formas de saber. Os jornais e as revistas passariam a ser os canais de transferência desse conhecimento, e este não mais seria fruto da tradição cultural, mas de uma pseudo-necessidade criada pelo desejo de experimentar o transitório, o supérfluo e pela tendência materialista ao consumismo exacerbado.
O mundo que cria no Mito e usava a Narração para divulgá-lo deixou de existir. Afinal, com o advento da burguesia, a cultura alterara-se: as Grandes Navegações, a formação dos Estados Nacionais, o Classicismo e o Iluminismo já seriam a base cultural dessa nova forma de entender o mundo. É por isso que há filósofos que dizem que a Modernidade ainda não acabou e que nela a Razão é a fonte suprema de saber, questionadora de todas as demais formas.
Benjamin, nesse sentido, é fruto da Modernidade, pois usa sua razão e não o mito ou a religião para iluminar os seus passos. Mas quem é o Walter Benjamin de o “Narrador”? É um discurso. É um homem que descende de tradições imperialistas e que, de repente, se encontra na condição de ver sua nação humilhada perante as grandes potências européias; ele viveu no entreguerras e sabe que o seu povo está entregue à própria sorte, com uma inflação gigantesca, fome e destruição por todos os lados; vê o discurso louco de um Hitler ganhar espaço em todos os segmentos sociais, justamente porque o irracionalismo prevalecia.
Por isso, esse Benjamin, paradoxalmente, parece descrer na Razão e, por isso, torna-se saudosista dos mitos de outrora, da forma simples e campesina de viver. Não é a toa que ele coloca como bases da Narração o agricultor sedentário e o mercador marítimo, pessoas simples que têm na oralidade a fonte de entendimento das coisas.
Entretanto, por trás desse pessimismo e bucolismo do pensador alemão, escondem-se um eurocentrismo e um resquício imperialista do colonizador. Afinal, a Narração e o Mito estariam em extinção só por que a Europa mudou econômica, política e culturalmente? E quanto aos povos indígenas da Amazônia, da Polinésia? E quanto aos africanos que ainda não atingiram o grau de evolução material das nações européias? Será que a Narração para eles deixou de fato de existir? Benjamin vê o discurso narrativo extinguir-se na mesma proporção que vê o progresso, seja ele capitalista ou comunista, instaurar-se pela Europa; ora, como o resto do mundo vivia sob a égide deste continente, fica implícito no pensamento do filósofo que as demais nações têm que seguir aquilo que irradia da Europa, e se por lá o mito está em extinção, deveria, pois, estar também nas demais partes outrora colonizadas pelo europeu.
Essa visão, para Loureiro, não é correta. Ele diz que o mito na Amazônia constitui o imaginário popular dos povos da floresta. Para ele, na Amazônia,
Constata-se a existência de uma evanescente lógica poética, de um povo ainda guiado pela memória, pela palavra oralizada, pelo maravilhamento diante da realidade cotidiana. (...)
Na Amazônia as pessoas ainda vêem seus deuses, convivem com seus mitos, personificam suas idéias e as coisas que admiram. A vida social ainda permanece impregnada do espírito da infância, no sentido de encantar-se com a explicação poetizada e alegórica das coisas. (...) Explicam os filhos ilegítimos pela paternidade do boto; os meandros que na floresta fazem o homem se perder pela ação do curupira; as tempestades pela ação enraivecida da mãe-do-vento etc (LOUREIRO, 2000, p. 102).
O mito na Amazônia é tão vivo quanto a própria floresta; é verdade que ele se esvai aos poucos à medida que a mata vai sendo consumida, que a indústria vai ganhando espaço. E é para evitar essa extinção que há uma forte luta pela conservação ambiental. Conservar a floresta é conservar a narrativa e o mito que ela veicula.
Do pensamento de Loureiro, fica implícito que nas sociedades pré-industriais, o mito não era “mito”; era crença real, pois as populações que o viviam não indagavam o porquê da existência ou da origem dele, aceitavam-no piamente, humildemente como verdade consolidada. O mito para quem nele crê age como se fosse uma verdadeira “religião”, por vezes tão fundamentalista como esta.
O próprio conceito de “mito” já é uma transgressão do seu real objetivo. A pólis grega, anterior aos pré-socráticos, não analisava o mito, não buscava nele falhas; é a partir dos pré-socráticos que haverá uma tentativa de dar uma explicação ontológica para a existência, explicação esta que se mesclará ao mito. O próprio Platão, ainda assim age; afinal o que é o seu conceito de Hiperurânio? O problema é que tais filósofos já veem o mito de fora para dentro, já não estão mergulhados nele totalmente da mesma forma que o ar envolve as coisas. Quando Nietzsche critica o racionalismo de Sócrates, assim o faz porque vê no filósofo grego a causa dos infortúnios e sofrimentos do Ocidente; pois o racionalismo levara a sociedade a uma visão de ceticismo e descrença sobre aquilo que outrora era sagrado. O próprio Nietzsche, filho de pastor protestante e educado no cristianismo, vai duvidar de tudo, de todos e a filosofar com um “martelo”. Não diferente agiu Schopenhauer algumas décadas antes.
A Razão corrói o mito. E este passa a ser para ela uma espécie de objeto de “escavações arqueológicas”. O que um antropólogo faz quando tenta entender o “pensamento selvagem” em uma sociedade indígena, por exemplo? Por mais que tal antropólogo tenha boa vontade e humanismo, no fundo ele olha “de cima para baixo”, analisa os povos tentando encontrar uma explicação racional para tentar entender a complexidade de sua própria sociedade. Os índios analisados desconhecem, porém, o conceito de mito, pois este para o eles não é mito. Seria o mesmo que perguntar para um fiel islâmico se a passagem do Corão em que Maomé é levado em vida por um anjo para o céu é apenas um mito. É óbvio que a resposta seria negativa. E se o “fiel” passasse a questionar, é porque de fato já veria a sua fé se transformar apenas em um “mito”.
2. O mito e a narração no campo literário
Se confrontarmos, entretanto, o pensamento de Benjamin e Loureiro no campo estritamente literário, o ângulo da discussão muda bastante. E talvez até mesmo ambos concordem em alguns pontos. Pois se o conceito de Narração/Mito não está extinto ou em vias de extinção na maior parte da Amazônia, por exemplo, o mesmo não se pode dizer que ocorra nos centros urbanos. É óbvio que o discurso narrativo medieval não mais existe nas cidades contemporâneas (e se houver são resquícios distantes), entretanto há um discurso narrativo modificado, adaptado à nova realidade industrial e racionalizante. As crenças são outras, os mitos são televisivos, são astros de rock e cinema, são ideologias que colocam, por exemplo, a ciência como a deusa suprema e rainha de todo o saber. O homem contemporâneo ouve com tanta atenção o noticiário como o de outrora ouvia as narrativas medievais. É nesse sentido que Adorno e Horkheimer (2006) vão criticar a ideologia vigente de que a técnica e a razão são as únicas formas de saber e que pela astúcia e esclarecimento o homem tornar-se-ia invencível e não mais necessitaria do fantástico para agir no mundo.
O mito citadino seria diferente do medieval, mas existe, está aí. Assim, na própria Amazônia nos teríamos, de um lado, o campo, onde o mito e a narrativa tradicionais ainda existem em uma oralidade singela; e deoutro, as grandes cidades onde os mitos urbanos são totalmente distintos dos anteriores e têm como veículo de transmissão tudo aquilo que pode ser identificado como “mídia”. Sobre este ponto, Loureiro é esclarecedor:
Na Amazônia, pode-se reconhecer ainda nitidamente dois grandes espaços sociais tradicionais da cultura, cada qual assinalado por características bem definidas, mas também marcados por uma forte articulação mútua, que se processa em decorrência de procedimentos próprios ao desenvolvimento regional: o espaço da cultura urbana e o da cultura rural. A cultura urbana se expressa na vida das cidades, principalmente naquelas de porte médio e nas capitais dos Estados da região. Nas cidades as trocas simbólicas com outras culturas são mais intensas, há maior velocidade nas mudanças, o sistema de ensino é mais estruturado (...). No ambiente rural, especialmente ribeirinho, a cultura mantém sua expressão mais tradicional, mais ligada à conservação dos valores decorrentes de sua história. A cultura está mergulhada num ambiente onde predomina a transmissão oralizada.( LOUREIRO, ano, p. 57).
Ora, as cidades na Amazônia, em relação à imensidão da floresta, são como uma gota de café em um copo de leite. Por mais que elas estejam interligadas, sofrem ainda a influência desse mito tradicional que vem do campo. Diz Loureiro:
“A cultura do mundo rural de predominância ribeirinha constitui-se na expressão aceita como a mais representativa da cultura amazônica, seja quanto aos seus traços de originalidade, seja como produto da acumulação de experiências sociais e da criatividade dos seus habitantes. (...)
É preciso entender que a cultura do mundo ribeirinho se espraia pelo mundo urbano, assim como aquela é receptora das contribuições da cultura urbana. Interpenetram-se mutuamente, embora as motivações criadoras de cada qual sejam relativamente distintas. (Idem, p. 57).
As cidades terminam por ser nessas regiões uma zona de choque entre os mitos urbanos e os mitos rurais. E em cidades como Manaus, por exemplo, os mitos cristãos, ribeirinhos, indígenas e árabes misturam-se a formar uma espécie de sincretismo religioso. Essa mescla aparece em alguns romances do escritor manauara Milton Hatoum, em especial no romance “Órfãos do Eldorado”. Para se analisar esta obra sob este prisma, deve-se levar em consideração três situações: a) o autor é homem do século XXI, portanto homem amazônida que observa a luta de alguns para conservar a floresta (e consequentemente seus mitos e narrativas tradicionais) e percebe, também, uma pressão interna e externa cada vez maior para que na região o progresso se intensifique; b) o narrador conta sua própria história em meados do século XX, aqui o contexto político-econômico permitia e até incentivava o desmatamento para colonizar, onde o índio era visto ainda como inimigo e a cultura ribeirinha tida apenas como coisa de gente ignorante; c) o enredo em si se passa no início do século XX, aqui a cidade de Manaus ainda está em transição, os mitos tradicionais aparecem de forma conflitante na trama do romance, ora são levados a sério pelo narrador e pelas personagens, ora levados com dose de humor e deboche.
A pergunta central é como o mito (na sua vertente tradicional e urbana, seja ela ribeirinha, cristã ou árabe), como o mito aparece de forma real e fenomenológica no romance? Como as personagens o vivenciam no seu cotidiano? Para tais questionamentos, há três possíveis respostas se forem levadas em conta as três datas elencadas no parágrafo anterior.
No tocante a letra “a”, pode-se utilizar o pensamento de Foucault, para quem o autor está morto. E morreu por que o indivíduo, segundo esse pensamento, nunca poderá ser o autor de um texto, pois a autoria é sempre de uma coletividade, de um grande conjunto, ou de um subconjunto, mas sempre representando os interesses coletivos. Sob essa perspectiva, a qual grupo social Hatoum está inserido, e o que tal grupo pensa ou faz a respeito dos mitos tradicionais e urbanos? Como homem de grande centro urbano, Hatoum tem a noção de higiene, de segurança pública, de estrutura educacional ou de saúde como prioridades; ora, Foucault afirma que a higienização das cidades, por exemplo, é uma noção tipicamente burguesa, e para que ela ocorra, a ciência medicina tem que prevalecer sobre as outras formas de curar. Neste sentido, os rituais indígenas, por exemplo, ganham o apelido de “pajelança”, e são postos em terceiro plano. Hatoum é um escritor que luta por educação de qualidade, por segurança pública, por uma Manaus mais higiênica e por um sistema público de saúde adequado à população; em suma, pensa como um homem inserido na sociedade burguesa, na Modernidade ocidental. Não se pode afirmar que creia ou deixe de descrer no mito, mas pode-se afirmar que não é escritor de narrativas tradicionais, ao menos não no sentido proposto por Benjamin. Nesse sentido, a Narração em Hatoum inexiste.
Para analisar a letra “b”, o pensamento de Adorno sobre a posição do narrador no romance moderno é enriquecedor. O autor alemão, aderindo em muito ao pensamento de Benjamin, diz que “o narrador se caracteriza por um paradoxo: não se pode mais narrar, embora a forma do romance exija a narração.” (ADORNO, 2003, p. 55). O romance moderno seria a maior prova de que a Narração está destruída. Para ele, o romance, assim como a epopéia, nasceram objetivos: o narrador falava das coisas, fora do sujeito, não importando se essas coisas beiravam o maravilhoso e o mágico, o sublime e o real. Não havia uma preocupação com o mundo psíquico. Por mais que o “Don Quijote” já seja uma expressão tipicamente burguesa de escrever, ainda guarda os resquícios da épica antiga: um homem que sai em aventuras e nestas se depara com situações das mais diversas. É claro que no Quijote já há uma sátira, característica da burguesia, uma paródia do cavaleiro medieval; no fundo, a novela já traz em gérmen aquilo que o romance contemporâneo vai esmiuçar: o sentido para a vida. Adorno diz que com as revoluções industriais, as artes tiveram que alterar sua linguagem para continuar a existir: a pintura, pressionada pela fotografia, teve que deixar a objetividade e adentrar num campo da psique, do ego, no mundo do irracional e descontínuo que foram tão explorados por Schopenhauer e Freud – ou seja, teve que mergulhar no abstrato. O mesmo aconteceu com as demais artes. Até mesmo a poesia migrou para essa tendência. Com o romance, porém, não houve essa possibilidade.
O romance é objetivo desde sua origem, narra aquilo que o olho vê ou a imaginação força-o a ver. Não há como torná-lo abstrato no sentido dado a uma pintura surrealista. É verdade que alguns escritores, Oswald de Andrade, por exemplo, tentaram dar esse caráter abstrato ao romance, mas Adorno diz que isso torna o romance, quanto ao gênero textual, em algo outro que não o romance. Este precisa narrar algo, precisa ser objetivo. Precisa de um enredo. Mas como se adaptar às tendências contemporâneas que exigem mudanças radicais na forma de se fazer arte em geral? Sendo objetivo, mas mudando o foco da objetividade: para Adorno, o romance não vai se tornar abstrato, vai voltar-se de forma objetiva para o mundo do inconsciente e do subjetivo humano. Nesta situação, o romance deixou o mundo real e voltou-se para uma análise “clínica” do sujeito. Não deixou de ser objetivo, pois o narrador vai analisar como o eu das personagens reflete as relações sociais, nesse sentido é que vão surgir as técnicas do monólogo interior e as do fluxo temporal.
O romance de Hatoum segue essa tendência, o narrador no fundo está se autoanalisando, vendo como os mitos lhe ajudaram a moldar o caráter e fazendo uma espécie de retrospectiva sobre toda a sua existência. O narrador-personagem é marcado ao longo do romance por uma espiritualidade e misticismo que só uma visão transcendental da vida pode dar. E é nessa aura de superstições e misticismo que a personagem compreende a sua existência, que o mundo material é algo apenas aparente e que por trás deste há algo que a razão humana não pode identificar. O mito se instaura dentro dessa visão que admira a existência em si mesma.
Quanto à letra “c”, a análise pode ser feita por um foco fenomenológico, tal qual Sartre faz em seu romance “A Náusea”. Neste o “fenômeno”, o “nous” grego, surge em tudo, em todos, causando uma visão aterrorizante no narrador-personagem: no romance tudo está impregnado de tudo. O ser aparece em toda a sua complexidade e a questionar o tempo e as convenções sociais. É claro que a noção de fenômeno em Órfãos do Eldorado não deve descambar somente para a vertente metafísica, mas também, e principalmente, para direcionar o fato de que em todo o romance, nas linhas e nas entrelinhas, o mito está inserido, impregnado: parece com se ele mesmo fosse a personagem central e o narrador-personagem apenas uma mera conseqüência. O mito não é apenas algo visto e estudado pelos antropólogos, discutidos em livros e revistas especializados, ele apenas “é” o em si, é ele o discurso que permite o surgimento dos conflitos e também das apaziguações. O próprio amor possível-impossível das personagens protagonistas é um mito.
Portanto, o mito para o narrador e autor terá uma conotação distinta daquele mito vivido e experimentado pelas personagens. Para elas o mito não é “mito”, é o próprio mundo que se deixa vir à tona por um discurso poético e elucidador, discurso esse que é formador de uma concepção única de homem e cultura.
3. Considerações finais
Não cabe neste trabalho perguntar se o narrador é moderno ou pós-moderno, se o discurso deste é o discurso das narrativas tradicionais ou não, mas sim averiguar se o mito (tradicional e urbano) aparece em toda a sua potencialidade. O mito tradicional vive em todo o enredo de “Órfãos do Eldorado”, está lá não da forma de informação pitoresca para apenas divertir um público burguês citadino e cheio de tédio, o mito lá representa de fato aquilo que ele foi e é nas sociedades da Amazônia, isto é, um discurso poético formador do imaginário local.
Referências
ADORNO, Theodor W. Notas de literatura 1. Tradução de Jorge M. b. de Almeida. Duas Cidades, Ed. 34, (coleção espírito crítico). São Paulo, 2003.
ADORNO, Theodor W. HORKHEIMER, Max. A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2006.
BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Obras Escolhidas: magia e técnica, arte e política. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 10ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.
ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Ed. Perspectiva. 2000.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: MOTTA, Manoel Barros da (Org.). Estética: literatura e pintura, música e cinema. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, Coleção Ditos & Escritos, v. 3, 2006.
HATOUM, Milton. Órfãos do Eldorado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
LOUREIRO, João de Jesus Paes. Obras reunidas, vol. 4, Escrituras Editora, 2000.
Mestrando em Estudos Literários pela Universidade Federal de Rondônia, 2011.︎