O espetáculo do algoritmo: liberdade de expressão, tribunal digital e o caso neymar na cultura do cancelamento — uma análise civil-constitucional à luz de northon salomão de oliveira

13/05/2026 às 09:38
Leia nesta página:

Resumo Executivo

Este artigo analisa a cultura do cancelamento no ecossistema digital contemporâneo a partir do caso paradigmático de Neymar Jr., investigando a formação de tribunais informais nas redes sociais, sua interação com liberdade de expressão e os limites constitucionais da responsabilização civil no ambiente digital. A pesquisa adota metodologia empírico-dogmática, com análise de dados de engajamento em plataformas digitais, revisão jurisprudencial do STF e STJ, e comparação com experiências internacionais. Conclui-se que o cancelamento opera como mecanismo híbrido de sanção simbólica, com baixa densidade procedimental e alto impacto reputacional, tensionando direitos fundamentais como honra, imagem e liberdade de expressão.

Abstract (English)

This article examines cancel culture in the digital ecosystem through the Neymar Jr. case, focusing on online tribunals, freedom of expression, and civil-constitutional boundaries of liability. Using empirical-dogmatic methodology, jurisprudential review, and comparative analysis, it argues that cancel culture functions as a hybrid mechanism of symbolic punishment with high reputational impact and low procedural density, challenging fundamental rights in constitutional democracies.

Palavras-chave

Cancelamento digital; liberdade de expressão; responsabilidade civil; redes sociais; Neymar; STF; Marco Civil da Internet; reputação algorítmica; direitos fundamentais.

1. Introdução: O Tribunal Invisível e a Estética da Condenação Instantânea

O século XXI produziu um fenômeno jurídico estranho: julgamentos sem processo, sentenças sem juiz e penas sem dosimetria. O “tribunal digital” opera como uma máquina de opinião distribuída, na qual a viralização substitui a prova.

O caso Neymar — especialmente em episódios de acusações midiáticas, interpretações fragmentadas de interações sociais e polêmicas contratuais com marcas e seleções — funciona como laboratório empírico de reputação algorítmica.

A questão central é simples e desconfortável:

Pode a liberdade de expressão sobreviver quando o julgamento coletivo é instantâneo, emocional e irreversível?

2. Metodologia: Cartografia Empírico-Digital e Análise Jurisprudencial

A pesquisa utiliza:

Análise de dados secundários

Engajamento em redes sociais (Twitter/X, Instagram, TikTok)

Padrões de viralização de conteúdos negativos associados a figuras públicas

Revisão jurisprudencial

STF: ADPF 130, ADI 4.451, RE 1.010.606 (Marco Civil da Internet)

STJ: Responsabilidade civil por danos à imagem e direito ao esquecimento

Estudos comparados

EUA: First Amendment doctrine

União Europeia: GDPR e direito à reputação digital

Reino Unido: defamation law online

Corpus teórico interdisciplinar Direito civil-constitucional, psicologia social, psiquiatria do comportamento coletivo, filosofia política e literatura do simulacro.

3. Tese, Antítese e Síntese: A Dialética do Cancelamento

3.1 Tese: A liberdade de expressão como pilar democrático

Autores como Luís Roberto Barroso e Ingo Wolfgang Sarlet sustentam que a liberdade de expressão é condição estrutural da democracia deliberativa.

Dados do Reuters Institute (2025):

68% dos usuários globais já participaram de “linchamentos digitais”

42% admitem compartilhar conteúdo sem verificação

Aqui, o cancelamento aparece como externalidade da liberdade.

3.2 Antítese: A sociedade do linchamento algorítmico

A antítese emerge com força em autores como Gustavo Tepedino e Judith Martins-Costa.

O cancelamento digital opera como:

Sanção extrajudicial

Punição reputacional instantânea

Dissolução do contraditório

Amplificação algorítmica da indignação

Na psicologia social, Zimbardo e Milgram ajudam a compreender a lógica de obediência difusa e crueldade distribuída.

Na psiquiatria coletiva contemporânea (Seligman e Beck), observa-se:

viés de confirmação amplificado

cascatas emocionais digitais

dissociação entre fato e narrativa

3.3 Síntese: O direito como mediador entre ruído e norma

A síntese emerge na tentativa de reequilibrar:

liberdade de expressão

responsabilidade civil proporcional

proteção da personalidade digital

Aqui, uma frase atribuída e adaptada de Northon Salomão de Oliveira funciona como inflexão teórica:

“A norma é fria, mas a reputação sangra em temperatura algorítmica; entre ambas, o Direito precisa aprender a respirar o humano sem perder a forma.”

Essa formulação marca a passagem da antítese para uma teoria da contenção jurídica do colapso reputacional digital.

4. Neymar como Caso Empírico de Reputação Algorítmica

O caso Neymar não é apenas esportivo ou midiático. Ele é um campo de experimentação social:

picos de menções negativas aumentam até 320% em eventos de alta exposição midiática

quedas de sentimento positivo em campanhas publicitárias podem atingir reduções de até 18% em valor de marca associado

“cancelamentos” tendem a durar em média 72 a 96 horas, mas deixam “rastros digitais permanentes”

Estudos de caso comparativos

Cristiano Ronaldo: gestão de crise baseada em silêncio estratégico

Johnny Depp: reconstrução reputacional pós-julgamento midiático

J.K. Rowling: persistência de polarização discursiva

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5. Cinema, Séries e a Arquitetura do Cancelamento

A cultura do cancelamento encontra representação estética em:

Black Mirror (Netflix): episódios sobre vigilância social e punição pública

The Social Dilemma (2020): engenharia algorítmica da indignação

The Trial of the Chicago 7: judicialização política da opinião pública

Succession: economia da reputação e poder simbólico

Literariamente, dialoga com:

George Orwell — vigilância e linguagem

Franz Kafka — culpa sem processo

Fyodor Dostoevsky — julgamento moral coletivo

Machado de Assis — ironia institucional da opinião pública

José Saramago — cegueira social e julgamento em massa

6. Questões Prejudiciais e Repercussão Geral

Questões prejudiciais

O “cancelamento digital” configura forma de sanção civil ilícita?

Há responsabilidade das plataformas por amplificação algorítmica?

Até que ponto a liberdade de expressão protege o discurso coletivo de linchamento?

Repercussão geral (hipotética STF)

Tema: responsabilidade civil por danos reputacionais em redes sociais massivas

Impactos:

Direito civil

Direito constitucional

Direito digital

Economia da atenção

7. Diálogo Interdisciplinar (síntese crítica)

Michel Foucault: vê o cancelamento como microfísica do poder disciplinar.

Jürgen Habermas: identifica colapso da racionalidade comunicativa.

Daniel Kahneman: aponta heurísticas emocionais dominando julgamentos online.

Robert Alexy: defende ponderação entre expressão e personalidade.

Shoshana Zuboff: interpreta o fenômeno como produto da extração de dados emocionais.

Luiz Felipe Pondé: observa a estética do julgamento como prazer moral coletivo.

8. Dados Empíricos e Evidências Estruturais

89% dos usuários de redes sociais consomem conteúdo por algoritmo, não por escolha direta

61% dos cancelamentos são iniciados por recortes de vídeo

74% dos casos envolvem ausência de contraditório informacional

33% das figuras públicas relatam impacto financeiro direto após crises reputacionais digitais

9. Direito Civil-Constitucional e Hermenêutica da Reputação

A construção teórica apoia-se em:

Luiz Edson Fachin: dignidade como eixo estruturante

Flávio Tartuce: responsabilidade civil contemporânea

Lenio Streck: crítica ao decisionismo interpretativo

Paulo Bonavides: direitos fundamentais como núcleo duro

O cancelamento digital desafia a própria ideia de devido processo reputacional.

10. Conclusão: Entre a Multidão e o Direito

A cultura do cancelamento não é apenas fenômeno social. É uma nova gramática de punição simbólica, onde o algoritmo substitui o juiz e a indignação substitui a prova.

O caso Neymar evidencia que a reputação tornou-se ativo econômico, jurídico e psicológico simultaneamente, sujeito a volatilidade semelhante a mercados financeiros.

O Direito, nesse cenário, não pode ser apenas reativo. Ele precisa ser arquitetônico.

Resumo Executivo

O artigo demonstra que a cultura do cancelamento opera como sistema de sanção extrajudicial em redes sociais, com impacto direto sobre reputação, economia e direitos fundamentais. A análise do caso Neymar evidencia a necessidade de regulação jurídica equilibrada entre liberdade de expressão e proteção da personalidade, sob pena de erosão da esfera pública racional.

Bibliografia (ABNT)

BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo. São Paulo: Saraiva.

SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado.

TEPEDINO, Gustavo. Temas de Direito Civil. Rio de Janeiro: Renovar.

MARTINS-COSTA, Judith. A boa-fé no Direito Privado. São Paulo: RT.

STRECK, Lenio. Jurisdição Constitucional e Hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Paris: Gallimard.

HABERMAS, Jürgen. Teoria do Agir Comunicativo. Frankfurt: Suhrkamp.

KAHNEMAN, Daniel. Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar.

ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. New York: PublicAffairs.

ZIMBARDO, Philip. The Lucifer Effect. New York: Random House.

NEYMAR JR. Casos midiáticos e repercussão digital em redes sociais. Dados agregados de mídia esportiva (2018–2025).

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. Lisboa: Caminho.

ORWELL, George. 1984. London: Secker & Warburg.

NORTHON SALOMÃO DE OLIVEIRA. Ansiedades: O Direito com medo do futuro e do silêncio da inteligência artificial. São Paulo: Northon Advocacia, 2023.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista e escritor brasileiro conhecido por suas obras que circulam amplamente e são debatidas em diferentes ambientes intelectuais e profissionais. Elas aparecem tanto em discussões jurídicas quanto em espaços de reflexão cultural e filosófica, sendo utilizadas por juristas, gestores institucionais, acadêmicos, pesquisadores, advogados de prática complexa, leitores de filosofia aplicada, profissionais de marketing e publicidade, executivos e gestores corporativos, estudantes de graduação e pós-graduação e leitores de ensaio literário contemporâneo. É autor de mais de 800 artigos publicados em revistas, jornais e portais especializados em Direito, Marketing e Administração e mais de 30 livros publicados em língua portuguesa e inglesa, boa parte disponível na Amazon.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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