The Sopranos capturou a atenção e até a devoção da audiência mundial no início dos anos 2000. Com interpretações convincentes e enredos profundamente enraizadas na realidade social e etnicamente multifacetada norte-americana, essa série foi e ainda é considerada muito boa.
The Sopranos nem glorifica o crime organizado, nem inocenta a sociedade em que ele viceja. A séria se limita narrar a saga da família mafiosa, mostrando mostrar como as relações sociais entre seus membros e a sociedade como um todo acontecem ou podem acontecer. Nos EUA um pistoleiro mafioso experiente pode acabar surtando de medo de um bandido russo com treinamento militar. O chefe da família mafiosa é capaz de roubar o carro de um colega de escola da filha, de ser ludibriado por índios donos de cassinos, encher de porradas um judeu que não honrou um acordo forçado e defender vigorosamente a honra de Colombo. Isso para citar apenas alguns episódios.
Apesar dos métodos duvidosos (eventualmente criminosos) e da feroz defesa do predomínio dos interesses da familícia, The Bolsonaros não é inspirado em The Sopranos. Mas os personagens da saga brasileira tem personagens desgraçados e engraçados.
O zero 4 imita o pai, mas apresenta uma dificuldade de raciocinar e de se expressar muito maior do que Jair Bolsonaro. A agressividade de Renan não é encenada e em algum momento ele acabará preso por dar porrada em alguém.
O zero 3 é o cérebro internético da família, mas nas disputas internas de poder é sempre escanteado. Suspeito de gayzismo, Carlos sempre se vê obrigado a defender sua virilidade.
O zero 2 é o valentão covarde, que ameaçava todo mundo e corria de repórteres no Congresso. Quando o golpe desmoronou Eduardo fugiu do Brasil e não voltará com medo de ser preso.
O zero 1 parece o mais velhaco dos quatro filhos do seu Jair. Com a derrota do pai ele se encolheu e preservou o próprio mandato. Mas a estabilidade emocional dele é apenas encenada. Flávio desmaiou num debate e teve um ataque de nervosismo sorridente ao ser publicamente confrontado com a história das mensagens trocadas com Vorcaro.
O capo da família está preso em casa fazendo de conta que pode determinar o que acontecerá ou não no cenário político. Mas a influência de Jair Bolsonaro declinou muito nos últimos meses. No PL ele é considerado um peso morto, um zumbi do qual até a esposa fiel quer se livrar para poder tirar proveito do pequeno capital político que ela acumulou.
A famílícia está em declínio em todas as frentes: o bolsonarismo não conseguiu colocar uma canga no Judiciário, perdeu apoiadores no Congresso, viu a grana do Vorcaro secar e enfrenta agora uma verdadeira rebelião de pastores evangélicos. Mas a série The Bolsonaros tem sido mantida pela imprensa porque os jornóialistas de direita não têm nada de melhor para oferecer ao respeitável público. Lula avança cuidadosamente para a reeleição enquanto a oposição afunda no escândalo do Banco Master.
Não sei qual será o resultado da eleição de 2026. Mas acredito que é grande a probabilidade de em 2027 as redes de TV voltarem a exibir The Sopranos para desviar a atenção da população do fim trágico da saga Bolsonaro.