Perícia médica em ações de saúde: como funciona e por que importa

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Introdução

A perícia médica judicial é o exame técnico realizado por um profissional de saúde nomeado pelo juiz para esclarecer questões clínicas dentro de um processo. É a prova mais robusta disponível para demonstrar se um tratamento, medicamento ou procedimento é necessário, adequado e seguro para o paciente.

Em ações contra planos de saúde ou contra o SUS, a perícia tem um papel cada vez mais central. Após a ADI 7.265 do STF, ficou claro que a prescrição isolada do médico assistente não basta para fundamentar decisões judiciais sobre tratamentos de alto custo ou fora do rol da ANS. A prova precisa ser técnica, estruturada e produzida com contraditório.

Muitos pacientes não sabem como a perícia funciona, quem participa, o que o perito analisa nem como se preparar para ela. Este artigo explica essas questões de forma prática, para que você entenda o papel da perícia no seu processo e saiba como ela pode fortalecer o pedido de acesso ao tratamento.

Leia também: negativa de medicamento de alto custo pelo plano de saúde, medicamento de alto custo: o que é, quem tem direito e como conseguir e medicamento em falta no SUS.

O que é a perícia médica judicial?

A perícia médica judicial é um meio de prova previsto no CPC (arts. 156 e 465 a 480) em que um profissional de saúde com conhecimento técnico especializado é nomeado pelo juiz para examinar uma questão clínica relevante ao processo. O perito produz um laudo com suas conclusões e o apresenta ao juiz e às partes.

Na judicialização da saúde, a perícia costuma responder a perguntas como: o tratamento prescrito é necessário para aquele paciente? Existe alternativa terapêutica eficaz disponível no rol da ANS ou na rede pública? O medicamento solicitado é seguro e apresenta evidência científica para a indicação prescrita? Qual o risco de não iniciar o tratamento?

A diferença entre a perícia e outros elementos de prova, como relatórios médicos ou pareceres do NatJus, é que ela é produzida dentro do processo com participação direta das partes. Isso confere ao laudo pericial maior peso probatório e legitimidade processual.

Quem participa da perícia e como funciona o processo?

A perícia médica judicial envolve três figuras principais: o perito, os assistentes técnicos e as partes, que participam por meio de quesitos.

O perito é o profissional nomeado pelo juiz. Deve ser médico, de preferência com especialidade relacionada à doença ou ao tratamento em discussão. Ele não é escolhido por nenhuma das partes, o que reforça a imparcialidade da análise. Seu papel é responder aos quesitos formulados pelo juiz e pelas partes, examinar a documentação clínica e, quando necessário, avaliar pessoalmente o paciente.

Os assistentes técnicos são profissionais de confiança indicados por cada uma das partes. O paciente pode indicar um médico que o acompanha ou outro especialista de sua confiança. A outra parte (o plano de saúde, o Estado ou o município) também pode indicar o seu. Os assistentes acompanham o trabalho do perito, podem estar presentes na avaliação e apresentam pareceres próprios concordando ou discordando das conclusões do laudo.

Os quesitos são as perguntas que o juiz e as partes formulam para que o perito responda. A qualidade dos quesitos é decisiva: perguntas bem formuladas direcionam a análise para os pontos que realmente importam ao processo. Perguntas genéricas resultam em respostas vagas.

O CPC garante às partes o direito de se manifestar sobre o laudo do perito (art. 477), formular quesitos suplementares e apresentar o parecer do assistente técnico. Todo esse procedimento compõe o chamado contraditório na prova pericial, que é o que diferencia a perícia de outros documentos técnicos produzidos sem participação das partes.

Qual a diferença entre a perícia e o parecer do NatJus?

A diferença é estrutural. A perícia é produzida com contraditório pleno. O parecer do NatJus, não.

O NatJus (Núcleo de Apoio Técnico ao Judiciário) é um serviço vinculado ao CNJ que emite pareceres técnicos para auxiliar juízes em processos de saúde. Esses pareceres são elaborados por profissionais que analisam a documentação dos autos e consultam a literatura científica. São úteis como orientação, mas possuem limitações processuais importantes.

No NatJus, em regra, as partes não formulam quesitos. Não há assistente técnico acompanhando a análise. O paciente não é examinado pessoalmente. Nem sempre é possível saber quem assinou o parecer ou verificar eventuais conflitos de interesse do profissional responsável. O parecer tem natureza opinativa e não vincula o juiz.

Na perícia, o cenário é diferente: o perito é nomeado pelo juiz e identificado nos autos, as partes formulam quesitos, indicam assistentes técnicos, acompanham o exame e se manifestam sobre o laudo. Esse conjunto de garantias faz com que a perícia tenha peso probatório superior ao parecer do NatJus.

A VII Jornada de Direito da Saúde do CNJ reconheceu que a existência de parecer do NatJus pode tornar possível dispensar a perícia quando há evidências científicas claras e a condição médica do paciente não é ponto controvertido. Porém, quando a própria condição clínica está em discussão ou quando o parecer é desfavorável, a perícia se torna ainda mais necessária.

Quando é importante pedir a perícia médica em ação de saúde?

A perícia é especialmente importante quando o caso envolve questão clínica complexa, divergência técnica ou parecer desfavorável do NatJus.

As situações mais comuns em que a perícia pode fazer diferença são: quando o plano de saúde ou o SUS nega o medicamento alegando existência de alternativa terapêutica e o paciente já tentou essa alternativa sem resultado; quando o parecer do NatJus é contrário ao tratamento solicitado e o juiz indica que pretende segui-lo; quando o medicamento é prescrito em uso off-label (fora da indicação da bula) e há necessidade de demonstrar evidência científica para aquele uso específico; quando a doença é rara e o juiz não tem familiaridade com o quadro clínico nem com o tratamento indicado; e quando a operadora contesta a prescrição médica com argumentos técnicos que exigem resposta no mesmo nível.

Em ações envolvendo medicamentos de alto custo, a perícia permite ao perito examinar com profundidade o quadro do paciente, a literatura científica disponível, as alternativas tentadas e os riscos da não realização do tratamento. Tudo isso é apresentado em formato técnico, respondendo a perguntas objetivas, o que facilita a decisão do juiz.

O pedido de perícia pode ser feito a qualquer momento do processo, mas o ideal é que seja requerido já na petição inicial ou logo após a contestação, especialmente quando se sabe que a parte contrária contestará a indicação médica.

O que o paciente deve saber sobre quesitos e assistente técnico?

Os quesitos são as perguntas apresentadas ao perito. Eles definem o que será analisado e, por consequência, o que constará no laudo. Quesitos bem formulados conduzem a respostas claras e úteis ao processo. Quesitos genéricos geram laudos vagos e pouco conclusivos.

Em ações de saúde, os quesitos devem abordar pontos como: qual é o diagnóstico do paciente e quais exames o confirmam; qual é o tratamento prescrito e qual sua fundamentação científica; se existem alternativas terapêuticas disponíveis na rede pública ou no rol da ANS; se essas alternativas já foram tentadas e, em caso afirmativo, por que falharam; qual o risco clínico de não realizar o tratamento solicitado; e se o medicamento possui registro na Anvisa para a indicação prescrita ou se o uso é off-label com evidência científica.

O assistente técnico é o profissional indicado pelo paciente para acompanhar a perícia. Ele pode ser o próprio médico que acompanha o tratamento ou outro especialista. O assistente não substitui o perito nem interfere no laudo, mas produz um parecer próprio que é juntado aos autos e pode confirmar ou divergir das conclusões do perito.

A indicação do assistente técnico é um direito do paciente e, quando bem exercido, fortalece a prova. Ter um profissional de confiança acompanhando o exame pericial e analisando tecnicamente o laudo garante que nenhum ponto relevante passe despercebido.

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O juiz é obrigado a seguir o laudo da perícia?

Não. O juiz não está vinculado ao laudo pericial, conforme o art. 479 do CPC. Ele pode formar sua convicção com base em outros elementos do processo, desde que fundamente a decisão.

Na prática, porém, o laudo pericial tem grande influência. Quando o perito é especialista na área, responde aos quesitos de forma objetiva, fundamenta suas conclusões em evidência científica e o laudo é coerente com os demais elementos dos autos, é raro que o juiz se afaste das conclusões periciais.

Se o juiz discordar do laudo, precisa justificar por que adotou posição contrária. Ele pode, por exemplo, acolher o parecer do assistente técnico de uma das partes ou determinar a realização de uma segunda perícia (art. 480 do CPC), caso considere o laudo insuficiente ou inconclusivo.

Para o paciente, a melhor estratégia é garantir que a perícia seja feita com rigor: quesitos bem elaborados, documentação clínica completa nos autos e assistente técnico atuante. Quanto mais sólido o laudo, mais difícil será para qualquer parte do processo desconsiderá-lo.

O que fazer se o laudo pericial for contrário ao paciente?

Um laudo pericial desfavorável não encerra automaticamente a possibilidade de obter o tratamento. Existem caminhos processuais para questionar as conclusões do perito.

O primeiro recurso é o parecer do assistente técnico. Se o assistente indicado pelo paciente discordar das conclusões do perito, ele pode apresentar um parecer fundamentado apontando as inconsistências do laudo, os dados clínicos que não foram considerados e os estudos científicos que sustentam a prescrição.

O segundo recurso são os quesitos suplementares. O paciente, por meio de seu advogado, pode requerer que o juiz autorize a formulação de novas perguntas ao perito, direcionadas especificamente aos pontos de divergência identificados no laudo.

O terceiro recurso é o pedido de nova perícia. O art. 480 do CPC permite que o juiz determine a realização de segunda perícia quando a primeira for considerada insuficiente ou inadequada. Essa possibilidade não é comum, mas existe e pode ser utilizada quando houver fundamento técnico claro para questionar a análise original.

Em todos esses cenários, o fundamento da impugnação deve ser técnico, não emocional. Laudos periciais são contestados com evidência científica, dados clínicos objetivos e argumentação lastreada em medicina baseada em evidências, nunca com mera discordância subjetiva.

Conclusão

A perícia médica judicial é o instrumento probatório mais robusto em ações de saúde. Ela se diferencia de relatórios médicos e pareceres do NatJus porque é produzida com contraditório, com participação das partes e com rigor processual. A qualidade da perícia depende diretamente dos quesitos formulados, da documentação disponível nos autos e da atuação do assistente técnico. Saber como a perícia funciona permite ao paciente participar de forma ativa da produção da prova que pode definir o acesso ao tratamento.

Se este artigo foi útil, leia também: negativa de medicamento de alto custo pelo plano de saúde e medicamento de alto custo: o que é, quem tem direito e como conseguir.

Fonte: TSA | Tenorio da Silva Advocacia

Sobre o autor
Evilasio Tenorio da Silva Neto

Advogado especialista em Direito Médico e da Saúde (LLM) e Direito PcD. Fundador da TSA | Tenorio da Silva Advocacia. Membro da Comissão de Saúde da OAB/PE e do Instituto Miguel Kfouri Neto.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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