Introdução
A teoria liberal desenvolvida por Ludwig von Mises e Friedrich Hayek parte da premissa de que a liberdade individual, a economia de mercado e o Estado de Direito constituem os pilares fundamentais de uma sociedade próspera. Ambos os autores enxergam com desconfiança a expansão das funções do Estado, especialmente quando este assume a responsabilidade de redistribuir riqueza, planejar a economia ou direcionar benefícios a grupos específicos da população.
Para eles, embora tais políticas possam produzir ganhos políticos imediatos, seus efeitos de longo prazo tendem a enfraquecer os incentivos econômicos, ampliar a concentração de poder burocrático e comprometer as instituições próprias da democracia liberal.
Sob essa perspectiva, a experiência dos governos do Partido dos Trabalhadores pode ser analisada como um exemplo contemporâneo dos dilemas apontados pelos autores.
A visão de Mises e Hayek
Sob a ótica de Mises, programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, o Auxílio Gás e outras políticas assistenciais, representam formas de redistribuição que alteram os incentivos econômicos da sociedade.
Embora possam aliviar situações imediatas de pobreza, tais programas tendem, quando permanentes e amplamente expandidos, a reduzir os estímulos ao empreendedorismo, ao investimento e à produtividade, na medida em que transferem recursos do setor produtivo para mecanismos administrados pelo Estado. Em vez de criar riqueza, a política pública passa a redistribuí-la, reduzindo a capacidade de crescimento sustentável da economia, em contradição ao artigo 3º, inciso II, da Constituição Federal de 1988.
Hayek complementa essa crítica ao afirmar que nenhuma autoridade central possui conhecimento suficiente para administrar eficientemente uma sociedade complexa. Quanto maior o número de programas governamentais, subsídios, financiamentos públicos e regulações, maior também se torna o aparato burocrático responsável por decidir quem recebe benefícios, crédito ou incentivos. Aumenta o risco de captura do Estado por grupos organizados e amplia os riscos de corrupção.
Sob essa perspectiva, episódios como os escândalos revelados pela Operação Lava Jato podem ser compreendidos como manifestações dos incentivos criados por um Estado altamente intervencionista. A intensa participação governamental em grandes contratos públicos, financiamentos subsidiados, empresas estatais e obras de infraestrutura aumenta o valor econômico da influência política. Em vez de competir exclusivamente pela eficiência e inovação, empresas passam a ter incentivos para disputar acesso privilegiado aos centros de decisão do Estado, fenômeno que Mises e Hayek considerariam inerente à excessiva concentração de poder econômico nas mãos do governo.
Uma leitura semelhante pode ser aplicada ao recente caso do Banco Master. As investigações em curso suscitaram questionamentos acerca das relações entre grandes agentes do sistema financeiro, autoridades públicas e órgãos de fiscalização, além de levantarem dúvidas sobre a atuação dos mecanismos de supervisão estatal e a influência política em decisões regulatórias.
Ainda que as apurações permaneçam em andamento, o episódio reforçou o debate acerca dos riscos da proximidade entre poder econômico e poder político, justamente um dos problemas antecipados pela tradição liberal ao advertir que a concentração de competências regulatórias amplia os incentivos para a captura das instituições públicas por interesses privados.
Outro aspecto central da crítica liberal refere-se aos efeitos sociais das políticas assistenciais permanentes. Hayek sustenta que programas contínuos de redistribuição tendem a substituir redes espontâneas de solidariedade, associações civis, instituições comunitárias e iniciativas privadas por uma relação direta de dependência entre cidadão e Estado.
O fortalecimento dessa dependência reduz o capital social, enfraquece a responsabilidade individual e incentiva a percepção de que o bem-estar depende prioritariamente da ação governamental, e não da cooperação voluntária existente na sociedade civil.
Por fim, Hayek atribui importância central ao Estado de Direito. Para ele, uma sociedade livre depende da existência de leis gerais, abstratas e aplicáveis igualmente a todos os cidadãos, sem privilégios ou discriminações.
Políticas públicas direcionadas a grupos específicos, benefícios seletivos, subsídios favorecidos e decisões administrativas discricionárias afastam-se desse ideal ao substituir regras universais por tratamentos diferenciados definidos pelo governo.
Em sua concepção, quando o Estado deixa de atuar como garantidor de normas gerais para tornar-se distribuidor de vantagens particulares, enfraquecem-se simultaneamente a igualdade perante a lei e a confiança nas instituições democráticas, nos termos do artigo 5º, caput, da Constituição da República.
Conclusão
À luz do pensamento de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, os governos do PT podem ser interpretados como exemplo da ampliação progressiva das funções do Estado na economia e na vida social.
É bom que se diga que a função do Estado na economia é de agente normativo e regulador, não de protagonista, conforme consta no artigo 174 da Carta Política.
Programas de transferência de renda são vistos como instrumentos que, embora possam produzir efeitos sociais imediatos, tendem a reduzir incentivos à produtividade, ampliar relações de dependência em relação ao poder público e enfraquecer o capital social. Paralelamente, a expansão da intervenção estatal amplia o poder discricionário da burocracia, criando incentivos para a aproximação entre agentes públicos e grandes grupos econômicos.
Casos como a Operação Lava Jato e, mais recentemente, as controvérsias envolvendo o Banco Master, ainda sob investigação, são frequentemente utilizados por críticos liberais como exemplos dos riscos institucionais decorrentes dessa concentração de poder.
Sob essa ótica, a principal advertência de Mises e Hayek permanece atual: quanto maior a esfera de atuação do Estado na distribuição de recursos, na concessão de privilégios econômicos e na condução da atividade produtiva, maiores tendem a ser os riscos de captura regulatória, corrupção, enfraquecimento do Estado de Direito e erosão da igualdade perante a lei.
Referências
HAYEK, F. A. O Caminho da Servidão. 6. ed. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010
HAYEK, F. A. O uso do conhecimento na sociedade. 1945.
HAYEK, F. A. Os fundamentos da liberdade. 1. ed. São Paulo: Visão, 1983 [1960].
MISES, L. von. Ação humana: um tratado de economia. 1. ed. São Paulo: Instituto Ludwig vonMises Brasil, 2010.