Bullying: uma deformidade no olhar

28/08/2026 às 18:15

Resumo:


  • A dignidade humana é inerente à pessoa, independente de suas capacidades, aparência ou posição social.

  • A cultura contemporânea muitas vezes reduz a imagem do outro a aspectos superficiais, gerando preconceitos e exclusão.

  • O respeito à dignidade humana envolve reconhecer a pessoa em sua totalidade, além de promover uma educação que forme a inteligência para compreender a realidade.

Resumo criado por JUSTICIA, o assistente de inteligência artificial do Jus.

Há uma dimensão da pessoa humana que precede qualquer avaliação sobre suas capacidades, sua aparência, seu desempenho ou sua posição social: sua dignidade.

O homem não se torna digno porque é admirado, competente, belo, inteligente ou bem-sucedido. Ele possui dignidade simplesmente porque é pessoa.

Entretanto, a cultura contemporânea parece ter dificuldade em reconhecer essa verdade elementar. A imagem do outro é frequentemente reduzida à aparência, ao desempenho, à popularidade ou àquilo que um determinado grupo considera aceitável.

Nesse contexto, a palavra deixa de ser instrumento de conhecimento e comunicação e passa a ser utilizada como instrumento de exposição, humilhação e exclusão. A ofensa, a ridicularização e o bullying tornam-se manifestações concretas de uma maneira deformada de olhar o outro.

A compreensão da dignidade humana alcança profundidade ainda maior quando se reconhece que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus.

Não se trata apenas de uma afirmação religiosa, mas de uma verdade fundamental sobre o que o homem é.

A dignidade humana, portanto, não é concedida pela sociedade, pela escola, pelo Estado ou pelo reconhecimento dos outros. Ela possui um fundamento anterior a todas essas realidades: a própria origem do homem em Deus.

1. A imagem humana e a perda da pessoa por trás dela

A imagem possui grande força na constituição da vida social. Por meio dela, o homem se apresenta e é percebido pelos demais. Contudo, existe uma diferença fundamental entre ver uma imagem e conhecer uma pessoa.

Vivemos em uma época em que a imagem deixou de ser apenas uma forma de representação e passou a constituir, muitas vezes, um verdadeiro ativo financeiro e social. A imagem pode gerar influência, visibilidade, prestígio, oportunidades profissionais e retorno econômico. O número de seguidores, as visualizações, as curtidas e o alcance de uma publicação passaram a funcionar, em determinados contextos, como indicadores de valor.

Essa transformação da imagem em medida de valor produz também uma consequência ao indivíduo: a frustração.

Isto porque ao confrontar sua realidade cotidiana com imagens cuidadosamente selecionadas da vida alheia, estabelece uma comparação injusta entre aquilo que vive e aquilo que o outro escolheu mostrar.

Quando alguém é reduzido à sua aparência, ao seu corpo, ao seu modo de falar, à sua dificuldade de aprendizagem, à sua condição econômica ou a qualquer outra característica exterior, ocorre uma espécie de redução da pessoa àquilo que nela é imediatamente perceptível.

O outro deixa de ser reconhecido em sua totalidade e passa a ser interpretado por uma característica isolada.

Essa redução favorece o preconceito. É nesse ponto que a ignorância pode assumir uma dimensão moral particularmente grave. Não se trata apenas de não saber alguma coisa. Trata-se de julgar aquilo que não se conhece e, pior ainda, julgar a pessoa a partir de uma percepção limitada.

O desconhecimento, quando não é acompanhado pela humildade intelectual, pode produzir falsas certezas. O indivíduo passa a tomar a realidade não como ela é, mas conforme aquilo que sua própria visão limitada lhe permite perceber.

No ambiente escolar, quando uma criança olha para um colega, não deveria enxergar somente um rosto, um corpo, uma nota, uma dificuldade, uma característica física ou uma condição social. Antes, deve aprender a reconhecer no outro alguém que possui uma dignidade que não pode ser retirada, diminuída ou ridicularizada.

O outro não é digno porque é inteligente, bonito, popular ou bem-sucedido. É digno por ser humano.

Há uma profunda questão antropológica nessa deformação do olhar, uma vez que o homem não observa a realidade de maneira absolutamente neutra. Sua inteligência, sua vontade, seus hábitos e suas disposições interiores interferem na maneira como interpreta aquilo que encontra. Por isso, uma pessoa pode contemplar o mesmo fato que outra e chegar a juízos completamente diferentes.

Quando a inteligência está submetida ao preconceito, à vaidade ou à superficialidade, corre-se o risco de medir a realidade pela própria deformação interior, ou seja, ao invés de corrigirmos nosso olhar para compreender o real, pretendemos adaptar o real ao nosso olhar.

Por isso, a educação precisa realizar o movimento contrário: formar a inteligência para que ela se submeta à realidade, e não obrigar a realidade a se submeter às limitações da inteligência.

Vale lembrar que ao afirmarmos que o homem foi criado à imagem divina não significa simplesmente que Deus possua forma corporal semelhante à humana, mas que o homem recebeu dons e capacidades que o distinguem das demais criaturas, especialmente sua inteligência e sua vontade livre, por meio das quais pode conhecer a verdade e amar o bem.

Por isso, desprezar deliberadamente uma pessoa significa não apenas ferir sua sensibilidade ou sua reputação. Significa agir contra a ordem própria da criação, recusando-se a reconhecer no outro aquilo que ele é.

2. O bullying e a dignidade da pessoa humana

A linguagem assume aqui uma importância especial. Ora, se o homem é imagem de Deus, a palavra dirigida a ele não pode ser tratada como algo sem importância. A linguagem possui poder de edificação, mas também pode ser instrumento de destruição.

Quando um jovem humilha sistematicamente outro, existe uma ruptura com uma verdade fundamental, pois aquele que está diante dele possui a mesma dignidade humana que ele possui.

O insulto, a injúria, a humilhação e a exposição pública procuram frequentemente retirar do outro aquilo que ele possui diante dos demais: sua honra, seu respeito e sua consideração social.

É por isso que até mesmo a proteção jurídica da honra e da imagem possui também uma dimensão profundamente humana. O Direito reconhece que existem aspectos da pessoa que não podem ser arbitrariamente violados.

No âmbito jurídico, a honra é protegida constitucionalmente. A Constituição Federal assegura a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem, garantindo indenização quando ocorre sua violação (artigo 5º, incisos V e X).

O Código Penal (artigos 138 a 145) também distingue os crimes contra a honra, entre eles a calúnia, a difamação e a injúria. A injúria possui uma característica particularmente importante para a reflexão pedagógica, uma vez que atinge a dignidade ou o decoro da própria pessoa.

Desde a entrada em vigor da Lei n. 14.811/2024, o bullying encontra previsão expressa no art. 146-A do Código Penal, que tipifica a intimidação sistemática, inclusive em sua modalidade virtual –cyberbullying.

Ocorre que o Direito sozinho não consegue produzir virtude. A lei humana pode ordenar a conduta exterior, mas não é capaz, por si mesma, de ordenar o coração do homem. Ela pode estabelecer limites, proibir a injúria, punir a violência e proteger a honra. Contudo, a verdadeira transformação moral exige que o homem reconheça interiormente o bem que deve praticar e o mal que deve evitar. É nesse ponto que a lei humana encontra seu limite e a Lei Divina revela sua profundidade. Não se trata apenas de impedir que o homem faça o mal ao outro, mas de formar nele uma disposição interior para amar o bem.

Neste sentido, a educação cristã pode ir além daquilo que o Direito consegue exigir. A lei estabelece limites ao determinar que não se deve injuriar; a moral aprofunda esse princípio ao ensinar que não devemos humilhar, porque o outro é digno de respeito; e a fé revela a razão última desse respeito: não devemos desprezar aquele que foi criado à imagem e semelhança de Deus.

3. A escola como lugar de restauração do olhar

A sociedade contemporânea, marcada pela exposição permanente, pela centralidade da imagem e pela velocidade de julgamentos, parece favorecer, em certa medida, uma cultura de tribunal social, na qual o indivíduo se sente autorizado a julgar e expor o outro como se essas fossem formas legítimas de correção, entretenimento ou afirmação de superioridade.

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A indignação passa a ser confundida com justiça, a exposição com correção e a agressividade com coragem. O problema é que, quando cada um se torna juiz e executor daquilo que considera errado, a convivência deixa de ser regida pela busca da verdade e do bem e passa a ser orientada pela força do grupo, pela aparência e pela capacidade de humilhar. Assim, aquilo que deveria causar escândalo — a degradação pública de uma pessoa — passa a ser consumido como espetáculo.

A escola adquire, portanto, uma grande responsabilidade que ultrapassa a transmissão de conteúdos. Ela precisa ensinar o aluno a ver.

Ver verdadeiramente significa aprender a ultrapassar a primeira impressão, o preconceito e a aparência. A criança precisa aprender que uma piada pode ferir, que uma palavra pode humilhar, que um apelido pode transformar-se em violência, que uma imagem compartilhada pode destruir a honra de alguém, que a liberdade não significa poder fazer tudo aquilo que se deseja. Sobretudo, aprender algo ainda mais elevado, o respeito pelo outro não nasce simplesmente do medo da punição, mas do reconhecimento de seu valor.

Essa formação é especialmente importante na infância, quando os hábitos morais ainda estão sendo construídos.

Uma boa educação não forma apenas crianças que sabem quais comportamentos são proibidos, mas crianças que começam a compreender por que determinadas ações são más.

Considerações Finais

O combate ao bullying exige, portanto, muito mais do que campanhas, cartazes e regras disciplinares. Exige uma mudança no modo como ensinamos a criança a olhar para o outro.

É preciso educar contra a superficialidade que reduz a pessoa à aparência, contra a ignorância que transforma desconhecimento em julgamento, contra a vaidade que necessita diminuir o outro para sentir-se superior, contra a cultura da exposição que transforma a intimidade e a fragilidade alheias em espetáculo.

A educação precisa devolver à palavra seu peso, à autoridade sua finalidade e à pessoa humana sua dignidade.

O homem não é aquilo que os outros dizem que ele é, sua aparência, sua nota, sua dificuldade, seu fracasso, o apelido que recebeu.

O homem é criatura de Deus, dotada de inteligência e vontade, criada à Sua imagem e semelhança. E é justamente por isso que nenhuma criança deveria aprender, dentro da escola, que pode encontrar no outro um objeto de desprezo.

Quando o professor interrompe uma humilhação, não está apenas mantendo a disciplina. Está ensinando uma verdade antropológica.

Quando ensina uma criança a pedir perdão por uma ofensa, não está apenas corrigindo um comportamento. Está formando sua consciência moral.

Talvez seja esse um dos pontos mais esquecidos pela educação contemporânea: antes de formar o aluno para uma profissão, para uma prova ou para uma determinada competência, é necessário ensiná-lo a ser verdadeiramente humano.

Porque somente quando aprendemos a reconhecer a dignidade daquele que está diante de nós podemos dizer que começamos, de fato, a compreender a nossa própria dignidade.

Sobre a autora
Fernanda Assaf

Advogada especialista em Direito Contratual pela PUC-SP. Pedagoga

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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