O Triunfo do Vazio: Por que cultuamos quem nada tem a dizer?
Basta abrir qualquer rede social no Brasil hoje para se deparar com o mesmo espetáculo: uma dancinha repetida à exaustão, uma polêmica fabricada em poucas horas, um rosto que não diz nada de relevante mas que, ainda assim, acumula milhões de seguidores, contratos publicitários milionários e um poder de pauta que ultrapassa o de instituições inteiras. Vivemos a era da subcelebridade instantânea — pessoas que não construíram uma obra, um conhecimento ou uma contribuição social perceptível, mas que se tornaram, por mecanismos puramente algorítmicos, as vozes mais ouvidas do país. É um fenômeno tão banal no cotidiano que já nem causa estranhamento. Deveria.
O Brasil assiste, em tempo real, à ascensão de um ecossistema de fama descolado de qualquer mérito. Não se trata de talento artístico consolidado, nem de conhecimento técnico, nem de luta social relevante. Trata-se, na maioria dos casos, de futilidade embalada em produção audiovisual eficiente: bastidores de nada, treta programada, estética de consumo rápido. E, no entanto, esse "nada" performático rende milhões, movimenta o mercado publicitário e dita comportamento de consumo de uma nação inteira. É este cenário — cada vez mais consolidado e naturalizado — que merece ser questionado com seriedade.
Uma opinião que precisa ser dita sem meias palavras
Defendo, sem hesitação, que essa hipervalorização de figuras vazias de conteúdo é prejudicial ao debate público brasileiro. Não é um exagero moralista, é uma constatação prática: quando o espaço de atenção coletiva — que é finito — é sequestrado por futilidades e polêmicas artificiais, o que se perde é a capacidade da sociedade de discutir, com profundidade, os problemas que de fato moldam a vida das pessoas. Economia, educação, saúde pública, segurança, meio ambiente: todos esses temas exigem tempo de tela, exigem debate qualificado, exigem repertório. E é exatamente esse tempo, essa atenção, que está sendo drenado para alimentar o culto ao irrelevante.
O resultado é duplo e igualmente grave. Primeiro, satura-se o debate público com ruído: a cada nova polêmica de subcelebridade, o noticiário, os trending topics e as conversas cotidianas são tomados por um assunto que, em uma semana, será esquecido e substituído por outro igualmente descartável. Segundo, e mais preocupante, rebaixa-se o nível cultural médio do cidadão comum, que é condicionado, dia após dia, a consumir conteúdo cada vez mais raso, cada vez mais imediato, cada vez mais desprovido de qualquer exigência intelectual. Não é uma acusação aos indivíduos que consomem esse conteúdo — é uma crítica a um sistema que foi desenhado, deliberadamente, para premiar o vazio.
O contraste que incomoda: quem fala o que importa não é ouvido
O mais revoltante nesse cenário não é apenas a existência da futilidade — entretenimento leve sempre existiu e sempre terá seu espaço legítimo. O que choca é a assimetria brutal entre quem produz conteúdo relevante e quem produz ruído. Cientistas brasileiros que dedicam a vida a pesquisas que podem mudar a saúde pública do país têm fração mínima do alcance de um vídeo de treta. Professores que se esforçam para popularizar conhecimento complexo em linguagem acessível lutam por milhares de visualizações enquanto uma dancinha alcança dezenas de milhões. Ativistas que denunciam violações de direitos, que cobram políticas públicas, que mobilizam causas urgentes, são sistematicamente invisibilizados diante do algoritmo que privilegia o espetáculo raso.
Essa inversão de prioridades tem consequência concreta: enquanto quem tem repertório é relegado a bolhas de nicho, quem nada tem a dizer pauta capas de revista, contratos publicitários de grandes marcas e até programas de televisão de horário nobre. O critério de relevância pública deixou de ser a contribuição social ou intelectual e passou a ser, exclusivamente, a capacidade de gerar engajamento — métrica que não distingue admiração de indignação, aprendizado de escândalo. Para o algoritmo, tanto faz: tudo que retém o olhar por mais alguns segundos é lucro.
O algoritmo e a publicidade: o vazio como produto altamente rentável
É preciso nomear com clareza os agentes que sustentam esse ecossistema, porque nada disso acontece por acaso. As redes sociais são desenhadas — em sua arquitetura mais profunda — para maximizar tempo de tela, e a fórmula mais eficiente para isso não é a informação de qualidade, é a emoção crua: indignação, comparação, fofoca, escândalo. Conteúdo raso é mais barato de produzir, mais fácil de consumir e mais viral de compartilhar do que qualquer análise complexa sobre política econômica ou reforma educacional. O algoritmo não tem compromisso com a verdade, com a profundidade ou com o interesse público; tem compromisso com a permanência do usuário na plataforma.
As grandes marcas, por sua vez, são coautoras dessa engenharia da superficialidade. Ao decidirem investir milhões em publicidade com influenciadores cujo único mérito é a audiência massiva — independentemente do conteúdo que produzem — essas empresas validam e financiam diretamente o círculo vicioso do vazio. É um ciclo perfeito e cruel: quanto mais fútil e polêmico o conteúdo, maior o engajamento; quanto maior o engajamento, maior o valor publicitário; quanto maior o valor publicitário, mais incentivo há para que se produza ainda mais futilidade. O "nada" deixou de ser irrelevante para se tornar, paradoxalmente, um dos produtos mais rentáveis da economia digital brasileira.
O novo pão e circo: uma cortina de fumaça bem financiada
Não é exagero recorrer à velha metáfora romana do "pão e circo", porque ela nunca esteve tão atual. Antigamente, o poder distraía as massas com espetáculos grandiosos para afastá-las da participação política. Hoje, essa distração não precisa nem ser organizada por um poder central: ela é terceirizada para algoritmos e patrocinada por marcas, operando de forma ainda mais eficaz porque parece espontânea, escolhida livremente por cada usuário.
Esse excesso de popularidade em torno de figuras vazias funciona como uma cortina de fumaça moderna. Enquanto a atenção coletiva se concentra em quem usou o quê, quem brigou com quem, qual dancinha viralizou esta semana, discussões estruturais que exigiriam pressão popular organizada — reformas necessárias, fiscalização de gastos públicos, políticas de saúde e educação — seguem tramitando sem o escrutínio que mereceriam. Um cidadão que passa horas diárias consumindo conteúdo raso tem, inevitavelmente, menos tempo, menos energia cognitiva e menos repertório crítico para acompanhar e cobrar seus representantes. A alienação não é mais imposta por censura; ela é induzida por engajamento.
Antecipando a crítica: "é só entretenimento"
É previsível — e já ouço — o contra-argumento de que essas personalidades cumprem apenas um papel de entretenimento leve, e que nem tudo precisa ser sério ou profundo. Esse argumento merece resposta, não descarte automático, porque contém uma verdade parcial: entretenimento é legítimo e necessário, faz parte de qualquer sociedade saudável. O problema levantado neste texto nunca foi a existência do entretenimento em si.
O problema é a desproporção. É o monopólio da atenção pública por conteúdos que não agregam absolutamente nada além de distração momentânea, em detrimento de vozes que discutem o que realmente afeta a vida do cidadão brasileiro. É a desconexão total entre quem domina a conversa nacional e quem enfrenta, na prática, os desafios reais do país. Ninguém propõe o fim do entretenimento leve — propõe-se o fim do seu monopólio absoluto sobre o espaço público, um monopólio que hoje deixa pouquíssimo espaço residual para ciência, educação e ativismo social terem o alcance que merecem.
O que fazer: dieta midiática e responsabilidade das marcas
A saída começa por uma mudança de postura do próprio público. Assim como existe uma preocupação crescente com dieta alimentar, é hora de o brasileiro adotar uma verdadeira dieta midiática: consumir conscientemente, questionar por que determinado conteúdo está sendo entregue, buscar ativamente vozes que agreguem conhecimento e não apenas entretenimento vazio, e sobretudo perceber que cada segundo de atenção dedicado é, também, um voto de valor que sustenta ou desmonta esse ecossistema.
Mas a responsabilidade não pode recair apenas sobre o indivíduo, que já enfrenta um sistema desenhado contra sua atenção. As marcas que financiam esse ecossistema precisam assumir responsabilidade social pelas escolhas que fazem. Investir em publicidade não é um ato neutro: é um voto de confiança e um financiamento direto de determinado tipo de conteúdo. Marcas que escolhem, deliberadamente, apoiar produção de qualidade — educativa, cultural, socialmente relevante — ajudam a reequilibrar um ecossistema hoje inteiramente capturado pela lógica do engajamento vazio.
Uma tese que precisa ser reafirmada com vigor
Dar palco a quem nada tem a dizer não é um detalhe inofensivo da cultura digital contemporânea — é um empobrecimento real e mensurável da sociedade brasileira. Cada minuto de atenção coletiva desperdiçado em futilidade é um minuto a menos dedicado a compreender, debater e cobrar soluções para os problemas que de fato determinam a qualidade de vida da população. O culto ao vazio tem custo, e esse custo é pago coletivamente, na forma de um debate público mais raso, de cidadãos menos informados e de causas urgentes que seguem esperando a atenção que merecem.
É hora de reverter essa lógica. O verdadeiro poder de relevância — aquele que decide quem fala, quem é ouvido e o que pauta a agenda nacional — precisa voltar a pertencer ao cidadão comum e às causas que efetivamente transformam sua vida real. Não há nada de romântico ou nostálgico nessa exigência: é, simplesmente, uma questão de sobrevivência para a qualidade da democracia e da cultura brasileira nos próximos anos.