O eco de uma pesquisa Datafolha, recém-saída da "Folha de S.Paulo", ainda ressoa. 59% dos brasileiros anseiam por ser seus próprios patrões, por essa flexibilidade tão elogiada na Economia Gig.
Mas a crônica do Brasil de 2025 é mais complexa do que essa simples estatística. Ela exige lentes analíticas afiadas, e, ironicamente, é nesse ponto que a "esquerda" brasileira, e em certa medida global, tropeça em sua própria miopia, presa a paradigmas que não enxergam o hoje.
Tenho afirmado que o desafio de compreender as complexas dinâmicas do século XXI exige uma constante atualização das lentes analíticas.
Contudo, uma falha recorrente em diversas análises contemporâneas, notadamente naquilo que se convencionou chamar de "esquerda", reside na persistente aplicação de paradigmas oriundos do "breve século XX" para decifrar fenômenos que, por sua natureza, transcendem tais categorias.
Essa abordagem anacrônica compromete a profundidade e a relevância da crítica, resultando em uma leitura simplificada de realidades multifacetadas como a da Economia Gig.
Pois a mesma pesquisa Datafolha, publicada na sexta-feira, 20 de junho de 2025, que revela o desejo de autonomia, também aponta um paradoxo: 67% preferem a carteira assinada, mesmo com salário menor.
Aqui reside o ponto cego da análise monocular, a qual venho, paulatinamente criticando: a complexidade da escolha, o desejo que convive com a necessidade de segurança, a aspiração por liberdade que esbarra na fragilidade do desamparo social.
A crítica aos modelos econômicos e políticos do presente, por exemplo, muitas vezes se ancora em referências como o confronto entre capital e trabalho ou a imaginação revolucionária de pensadores do passado.
Embora historicamente ricas, essas referências se mostram inadequadas para captar a complexidade do século XXI, marcado pela globalização digital, pela fragmentação ideológica e pela emergência de novos atores econômicos, como corporações transnacionais e plataformas tecnológicas – as mesmas que estruturam a "gig economy".
A insistência em paradigmas do passado ignora a reconfiguração do poder, que opera por redes descentralizadas e mecanismos financeiros, em vez de conflitos ideológicos explícitos e coerção tradicional.
Essa limitação se manifesta na análise de fenômenos híbridos, como a midiatização da política e a financeirização da economia.
A ascensão de figuras políticas que combinam neoliberalismo radical com populismo digital exige uma análise que vá além de dicotomias clássicas do século passado, como "fascismo" ou "neoliberalismo puro".
Tais conceitos, sem a devida adaptação, simplificam fenômenos em que o poder global se deslocou de Estados-nação para estruturas transnacionais, como fundos de investimento e organismos multilaterais, que exercem influência sem a necessidade de ocupação física ou coerção explícita.
Os objetivos de uma fração da população não se encaixa perfeitamente na greve sindical operária de outrora; ela se dá na intersecção entre a precarização algorítmica e a individualidade do prestador de serviço.
A falta de contextualização histórica é outro ponto crítico.
O século XXI é definido por fragmentação ideológica, declínio de movimentos de massa tradicionais e emergência de novas formas de poder, como o tecnocapitalismo e o controle financeiro global.
Ignorar essas mudanças leva à repetição de erros do passado, que reduziram a realidade a binômios simplistas sem considerar a pluralidade de forças em jogo.
Propostas de união entre tradições políticas do século XX, por exemplo, demonstram essa desconexão. As condições que viabilizaram essas tradições foram erodidas pela globalização, precarização do trabalho e crise climática.
A análise deve considerar como as lutas populares se reorganizam em um mundo de gig economy ou em contextos de crise ecológica, que exigem novas mobilizações.
A ascensão de movimentos identitários, feministas ou ambientalistas, que desafiam as categorias tradicionais de esquerda e direita, também é frequentemente negligenciada.
A caracterização de figuras políticas atuais como representantes de um "fascismo delirante" é uma das contradições mais evidentes dessa abordagem.
A sugestão de que tais figuras visam destruir apenas a dimensão social do Estado, preservando outras funções, implica uma bipartição do Estado capitalista em uma parte "ruim" (o social) e outra parcialmente benéfica.
Essa dicotomia é problemática, pois o Estado capitalista opera de forma integrada, e políticas focadas na desregulação e redução do gasto público reconfiguram o Estado como um todo, priorizando interesses de mercado sobre soberania ou bem-estar social.
Essa visão simplista ignora a complexidade das reformas neoliberais, que subordinam o Estado ao capital global, não apenas atacando o social, mas erodindo a capacidade de decisão nacional.
Associar movimentos contemporâneos a um fascismo que "nunca se exauriu" é outro equívoco.
O fascismo histórico dependia de nacionalismo exacerbado, militarismo e controle estatal totalitário, características ausentes em ideologias que defendem desregulação econômica e redução do Estado.
Embora a retórica possa ser polarizante, a agenda é frequentemente mais próxima do neoliberalismo radical do que do fascismo clássico.
O que se observa, em muitos casos, não é o fascismo de outrora, mas uma simbiose com elementos do inconsciente coletivo, possivelmente uma transmutação da "banalidade do mal", onde indivíduos comuns cometem atrocidades por conformismo ou obediência acrítica.
O fenômeno rotulado como fascismo pode ser uma mutação contemporânea desse mal, combinando neoliberalismo extremo, populismo digital e apelo emocional, mas essa complexidade raramente é explorada, mantendo-se uma visão anacrônica.
Outra omissão significativa é a falta de consideração sobre a possível intenção de utilizar o domínio via eleição democrática para subjugar o patrimônio estatal aos interesses de conglomerados financeiros transnacionais.
A ascensão de certas figuras, por processos eleitorais legítimos, pode servir como veículo para transferir ativos estatais a fundos de investimento ou bancos que priorizam lucros sobre soberania nacional.
Essa omissão enfraquece a crítica, pois ignora como a democracia pode ser instrumentalizada para fins que transcendem dicotomias ideológicas, refletindo uma visão limitada das dinâmicas de poder contemporâneas, onde agentes transnacionais exercem influência sem recorrer a métodos autoritários explícitos.
A redução da complexidade das dinâmicas econômicas e políticas a uma dicotomia entre "céu e inferno" — capitalismo opressivo e utopia idealizada — subestima a capacidade humana de elaborar teorias mais nuançadas, que transcendam as dualidades do século XX.
Ao tratar o capitalismo como "delirante" e o fascismo como sua expressão inevitável, desconsideram-se formas emergentes de organização econômica, como economias colaborativas, verdes ou baseadas em tecnologia descentralizada, que desafiam as categorias tradicionais.
Essa abordagem ignora a diversidade de atores políticos contemporâneos, como movimentos identitários, ambientalistas ou ciberativistas, que não se alinham às tradições do século XX.
Também não se considera como a financeirização da economia, onde a especulação em mercados globais gera lucros sem produção real, cria uma nova forma de exploração, que substitui a coerção física por dependência econômica.
Essa redução binária limita a análise, que não captura a complexidade de um sistema onde corporações transnacionais e fundos de investimento exercem poder maior que Estados, moldando políticas nacionais sem ocupação territorial.
Uma lacuna significativa é a ausência de referência a modelos econômicos que desafiam as dicotomias tradicionais, como o "capitalismo planificado" de algumas nações asiáticas.
A consolidação desse modelo, simbolizada por eventos históricos específicos no final do século XX, marcou um ponto de inflexão global, redefinindo o equilíbrio de poder. Sob esse modelo, integrou-se o dinamismo capitalista de mercados livres com um sistema político centralizado, demonstrando que pragmatismo econômico e controle estatal podem coexistir. Ignorar esse modelo significa não considerar como o capitalismo planificado reconfigura as relações entre Estado, mercado e sociedade no século XXI.
A ascensão de tais modelos redefiniu as dinâmicas globais, influenciando desde cadeias de suprimento até tecnologias de ponta, mas a análise permanece focada em narrativas locais, sem conectar essas realidades a um contexto mais amplo.
A dinâmica do poder global transformou-se profundamente nas últimas décadas, reconfigurando os mecanismos de dominação e exploração econômica, uma realidade que muitas análises não captam.
Se no século XX os conflitos eram marcados por guerras físicas e extermínios explícitos, a lógica contemporânea opera por uma sofisticada rede de controle econômico, financeiro e ideológico.
Essa nova forma de dominação não pode ser compreendida pelos paradigmas do passado, pois os métodos de controle diferem, e os agentes de poder não dependem exclusivamente de Estados, mas de estruturas transnacionais.
A ascensão de líderes que defendem a redução do papel social do Estado e a desregulação econômica extrema reflete uma adaptação a esse modelo.
O objetivo não é apenas reconfigurar políticas públicas, mas integrar economias locais aos fluxos globais de capital, consolidando uma exploração que dispensa a repressão tradicional.
No século XX, o poder econômico estava ligado ao domínio territorial e ao controle direto de recursos. Hoje, o controle se dá pela dependência dos mercados financeiros globais e pela fragilização das economias nacionais.
Corporações transnacionais não precisam ocupar territórios; elas estruturam sistemas onde Estados cedem à pressão de investidores, adaptando políticas para atender interesses privados.
As políticas que reduzem o papel regulador do Estado e eliminam políticas sociais criam um ambiente onde apenas os detentores de capital prosperam, enquanto a maioria fica refém das oscilações econômicas globais.
Essa lógica de submissão ao mercado financeiro difere da exploração direta do século XX, pois induz nações a adotarem voluntariamente práticas que beneficiam grupos econômicos globais, erodindo a soberania nacional.
A financeirização, onde a especulação em mercados globais gera lucros sem produção real, é uma força central no século XXI, mas é frequentemente ignorada em análises centradas em dicotomias passadas.
A redefinição do Estado é outro aspecto negligenciado. No século XX, o Estado era o centro da organização política, exercendo controle por burocracia ou força militar.
Hoje, ele se tornou, em muitos contextos, um gestor do mercado, cedendo espaço a corporações e investidores internacionais.
O neoliberalismo reflete esse modelo, transformando o Estado em um agente do mercado, orientado para maximizar lucros e desregular.
A não abordagem dessa mudança falha em reconhecer como o poder opera por mecanismos sutis, que dispensam repressão brutal.
Essa nova governança reforça a dominação global de interesses privados, reduzindo a autonomia de indivíduos e comunidades. O Estado, em vez de ser abolido, é cooptado para servir ao mercado, uma dinâmica que explica a agenda de certas figuras políticas muito melhor do que a etiqueta de fascismo.
A exploração contemporânea não visa eliminar populações fisicamente, mas torná-las economicamente irrelevantes.
Privatização extrema, redução de direitos trabalhistas e enfraquecimento de serviços públicos são instrumentos políticos para consolidar essa dominação, justificados por discursos de eficiência.
Essa lógica difere da colonização ou extermínio do século XX, pois opera por marginalização financeira e precarização, criando dependência sem intervenção militar.
As contradições em análises que persistem em paradigmas do século XX decorrem de sua incapacidade de dialogar com as transformações do século XXI, de incorporar modelos econômicos emergentes e de reduzir fenômenos complexos a dicotomias simplistas.
A análise de figuras políticas atuais é problemática, pois projeta categorias históricas inadequadas, ignora as especificidades de ideologias contemporâneas, omite a instrumentalização democrática para submeter o patrimônio nacional a conglomerados financeiros e falha em reconhecer que o fenômeno não é o fascismo clássico, mas uma simbiose com elementos do inconsciente coletivo, possivelmente uma transmutação da "maldade humana".
A omissão da nova lógica de dominação global, baseada em controle econômico e financeiro, evidencia a limitação de uma visão incapaz de captar a pluralidade de forças que moldam o mundo atual.
O século XXI exige uma análise crítica que vá além das dicotomias de esquerda e direita, reconhecendo que o embate central é entre formas de controle e possibilidades de autonomia.
Negligenciar a reconfiguração do poder global, a sofisticação de modelos econômicos híbridos, as manipulações democráticas e a nova racionalidade de exploração, significa perder a oportunidade de oferecer uma crítica relevante.
Uma análise robusta deve incorporar dinâmicas de poder, tecnologia e subjetividade, superando as lentes binárias do passado e enfrentando os mecanismos sutis que perpetuam a exploração sob novas formas.
A ascensão de novos modelos e a redefinição do poder global destacam a necessidade de repensar as relações internacionais, garantindo que a soberania e os direitos fundamentais não sejam dissolvidos na lógica fria do mercado.
Somente assim é possível construir uma resistência eficaz, capaz de enfrentar os desafios do presente e do futuro, e enxergar, de fato, o hoje que se constrói nas ruas e telas do Brasil da Economia Gig.