RESUMO
Este artigo investiga a representação da alienação humana e da coisificação da existência nas obras A Metamorfose, de Franz Kafka, Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã, e Olhai os Lírios do Campo, de Erico Verissimo. Parte-se da hipótese de que, apesar das diferenças históricas, culturais e estéticas que separam os três textos, todos problematizam a subordinação da experiência humana a critérios de utilidade, riqueza e reconhecimento social. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, bibliográfica e comparatista, articulando as categorias de alienação e reificação, desenvolvidas por Karl Marx e Georg Lukács, às reflexões existenciais de Jean-Paul Sartre e Martin Heidegger e à compreensão das relações entre literatura e sociedade proposta por Antonio Candido. A análise demonstra que Gregor Samsa experimenta a perda de sua condição de sujeito quando deixa de corresponder às exigências produtivas; que a sátira erasmiana denuncia a vaidade e a inversão de valores sustentadas pelo prestígio e pela cobiça; e que Eugênio Pontes enfrenta as consequências afetivas e morais de uma vida orientada pela ascensão econômica. Conclui-se que as três obras, por caminhos narrativos distintos, evidenciam a fragilidade das relações humanas quando a dignidade passa a depender da produtividade, da posse ou da posição social. A literatura revela-se, assim, um espaço privilegiado de questionamento dos valores que reduzem a existência à sua dimensão instrumental.
Palavras-chave: Coisificação; Alienação Literária; Materialismo Existencial; Literatura Comparada.
1 INTRODUÇÃO
A vida em sociedade exige que os indivíduos trabalhem, produzam, consumam e estabeleçam relações de troca. Essas atividades, indispensáveis à organização material da existência, tornam-se problemáticas quando deixam de servir às necessidades humanas e passam a determinar o valor atribuído às próprias pessoas. Nesse cenário, o reconhecimento social tende a depender da capacidade de produzir riqueza, acumular bens ou ocupar posições consideradas prestigiosas. O indivíduo já não é percebido prioritariamente por sua singularidade, mas pela utilidade que representa para os outros. Neste artigo, o termo “materialismo” designa a primazia social conferida à posse e à vantagem econômica, não o materialismo histórico como perspectiva filosófica de Marx.
Essa redução da pessoa à sua função econômica constitui uma das manifestações daquilo que a tradição marxista denomina alienação e reificação. Em Marx, a alienação está relacionada às condições em que o trabalhador se distancia de sua atividade, do produto de seu trabalho e de suas próprias possibilidades de realização humana. Lukács, por sua vez, aprofunda a discussão ao examinar como a lógica mercantil pode alcançar não apenas a produção econômica, mas também a consciência e as relações sociais. A consequência desse processo é uma inversão significativa: aquilo que deveria constituir um meio de sustentação da vida passa a ocupar o lugar de sua finalidade.
Essa perspectiva orienta a aproximação entre Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã, A Metamorfose, de Franz Kafka, e Olhai os Lírios do Campo, de Erico Verissimo. Embora produzidas em contextos bastante distintos, as três obras apresentam personagens ou configurações sociais em que a riqueza, a utilidade e o prestígio interferem na maneira como os indivíduos compreendem a si mesmos e se relacionam com os demais.
No texto erasmiano, publicado originalmente em 1511, a personificação da Loucura expõe, por meio da sátira, as contradições de uma sociedade que frequentemente confunde sabedoria com autoridade, respeitabilidade com aparência e felicidade com poder. Em Kafka, cuja novela foi publicada em 1915, o drama de Gregor Samsa revela a fragilidade de uma existência organizada em torno das obrigações profissionais e financeiras. Já no romance brasileiro de 1938, Verissimo apresenta, por meio da trajetória de Eugênio Pontes, os conflitos de um homem que associa a conquista da dignidade pessoal à ascensão econômica e social.
A questão que orienta esta investigação pode ser formulada nos seguintes termos: de que maneira a valorização excessiva da riqueza, da produtividade e do reconhecimento social compromete a subjetividade e as relações humanas nas três obras selecionadas?
O objetivo geral consiste em investigar as manifestações da alienação e da coisificação da existência nas três obras, considerando suas particularidades históricas e formais. Especificamente, busca-se examinar a relação entre trabalho e desumanização em A Metamorfose; identificar a crítica erasmiana à cobiça, à vaidade e ao prestígio social; analisar os conflitos entre ambição, afeto e realização pessoal em Olhai os Lírios do Campo; e estabelecer aproximações e diferenças entre os procedimentos literários empregados pelos autores.
Ao reunir obras separadas por mais de quatro séculos, o estudo procura demonstrar que a crítica à transformação dos valores materiais em critérios absolutos de existência ultrapassa um período histórico específico. O problema assume formas diferentes conforme as estruturas sociais e os recursos expressivos de cada autor, mas conserva uma indagação fundamental: o que resta da liberdade e da dignidade humanas quando o valor de uma vida passa a ser medido pelo que ela produz, possui ou aparenta?
2 ENTRE O SER E O TER: REFLEXÕES SOBRE ALIENAÇÃO, COISIFICAÇÃO E CONDIÇÃO HUMANA
2.1 Alienação, trabalho e reificação: de Marx a Lukács
A compreensão da alienação exige inicialmente distinguir o trabalho como atividade constitutiva da existência humana das condições históricas em que essa atividade pode assumir um caráter de estranhamento. Trabalhar não significa, necessariamente, alienar-se. O problema surge quando a atividade produtiva deixa de representar uma possibilidade de realização e passa a ser experimentada como imposição exterior, subordinada a finalidades sobre as quais o trabalhador possui pouco controle.
O estranhamento não se limita, contudo, à relação com os objetos produzidos. Marx também identifica suas consequências na relação do indivíduo consigo mesmo e com os outros. Quando a atividade vital é reduzida à necessidade de obtenção dos meios de subsistência, a existência humana sofre um empobrecimento que ultrapassa a dimensão econômica. As possibilidades de criação, convivência e autodeterminação tornam-se subordinadas às exigências da reprodução material.
A aproximação com Marx permite perceber que o drama de Gregor envolve uma contradição entre a necessidade material e a autonomia individual. Sua capacidade de sustentar a família confere-lhe importância, mas essa mesma capacidade o mantém preso a uma rotina que restringe seus desejos e possibilidades.
É necessário, entretanto, evitar uma identificação automática entre alienação marxiana e qualquer experiência de infelicidade ou frustração. O conceito possui uma determinação histórico-social própria, relacionada às formas de organização do trabalho e da propriedade. Sua utilização na análise literária demanda, portanto, mediação interpretativa.
A contribuição de Lukács permite compreender que a coisificação não depende de uma transformação física do ser humano em objeto. Ela ocorre quando o sujeito é tratado predominantemente como portador de uma função ou de um valor de troca, mesmo conservando sua aparência e sua identidade social.
É precisamente essa distinção que torna a narrativa kafkiana tão expressiva. A transformação corporal de Gregor pode ser interpretada como exteriorização fantástica de uma desumanização que já se encontrava presente em sua rotina. O corpo monstruoso torna visível uma condição de estranhamento que antecede o acontecimento extraordinário.
Essa diferença demonstra que a reificação pode assumir formas diversas. O sujeito pode ser desvalorizado porque deixou de produzir ou pode subordinar voluntariamente suas escolhas à lógica da valorização social. Em ambos os casos, há o risco de que sua singularidade seja obscurecida por critérios instrumentais.
2.2 A dimensão existencial: liberdade, autenticidade e reconhecimento
Se a tradição marxista contribui para compreender os mecanismos sociais da alienação, a filosofia existencial permite aprofundar seus efeitos sobre a liberdade, a responsabilidade e a construção da identidade individual.
Em O existencialismo é um humanismo, Sartre sustenta que a existência humana não pode ser reduzida a uma essência previamente determinada. O sujeito constitui-se por meio de suas escolhas e ações, assumindo responsabilidade pela maneira como conduz sua vida (SARTRE, 2014).
A trajetória de Eugênio Pontes oferece um exemplo expressivo dessa tensão. Sua busca por ascensão social é condicionada pelas experiências de pobreza e humilhação, mas também envolve escolhas pelas quais precisa responder. O personagem não é simplesmente uma vítima passiva das estruturas sociais: participa da construção de uma vida que progressivamente o distancia de seus vínculos afetivos e de seus ideais.
A reflexão de Sartre também permite observar que o reconhecimento social não equivale necessariamente à realização pessoal. O indivíduo pode alcançar posições valorizadas pela coletividade e, ainda assim, experimentar uma profunda insatisfação com a existência que construiu.
A utilização desse pensamento requer cautela. Heidegger não desenvolve uma oposição moral simples entre possuir bens e alcançar autenticidade, nem sua filosofia se reduz à fórmula segundo a qual o “ser” deveria prevalecer sobre o “ter”. O interesse de sua contribuição, para este estudo, está na investigação das maneiras pelas quais o indivíduo pode perder-se em formas impessoais de existência.
A relação entre as filosofias de Sartre e Heidegger e as obras literárias aqui analisadas não deve ser entendida como influência direta e comprovada sobre os autores. Trata-se de um diálogo interpretativo, no qual determinadas categorias filosóficas auxiliam a formular perguntas sobre a liberdade e a experiência subjetiva das personagens.
2.3 Literatura, sociedade e crítica dos valores dominantes
A relação entre literatura e sociedade constitui um problema central para a crítica literária. Uma obra pode revelar contradições sociais sem se limitar à reprodução documental de uma realidade histórica. Sua capacidade crítica depende também dos procedimentos formais por meio dos quais organiza personagens, conflitos, perspectivas e acontecimentos.
Em Literatura e sociedade, Antonio Candido propõe uma compreensão da obra literária que considera a relação entre os elementos sociais e sua elaboração estética. A realidade externa não deve ser tratada apenas como informação contextual, pois pode integrar a própria estrutura do texto, tornando-se componente de sua organização artística (CANDIDO, 2019).
Em Kafka, a desumanização manifesta-se por meio de uma situação fantástica narrada com surpreendente naturalidade. O absurdo não interrompe a lógica cotidiana: revela suas contradições.
Em Verissimo, por sua vez, a crítica desenvolve-se por meio do percurso psicológico e moral de Eugênio. O contraste entre ambição e afeto não aparece apenas como oposição abstrata, mas como experiência marcada por lembranças, arrependimentos e possibilidades de mudança.
A contribuição de Candido ajuda a preservar a autonomia relativa das obras diante da fundamentação filosófica. Os conceitos de alienação e reificação orientam a leitura, mas não substituem a atenção às formas narrativas, à ironia, à construção das personagens e aos desfechos. É nesse encontro entre experiência estética e reflexão social que se situa a perspectiva comparatista adotada neste artigo.
3 PERCURSO METODOLÓGICO
O corpus é composto por Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã; A Metamorfose, de Franz Kafka; e Olhai os Lírios do Campo, de Erico Verissimo. A seleção fundamenta-se na presença de conflitos relacionados à valorização social da riqueza, da utilidade, do prestígio e da produtividade, embora cada obra atribua a esses elementos significados próprios.
O primeiro eixo é particularmente relevante para a leitura de Kafka, em razão da dependência financeira da família Samsa e da centralidade do trabalho na identidade de Gregor. O segundo permite aproximar a crítica erasmiana à vaidade e à cobiça da trajetória de Eugênio Pontes. O terceiro evidencia as diferenças entre a irreversibilidade trágica da experiência kafkiana, a denúncia satírica de Erasmo e a perspectiva de transformação moral apresentada por Verissimo.
Os resultados apresentados decorrem da interpretação crítica dos textos e de sua articulação com a fundamentação teórica. Não constituem, portanto, resultados estatísticos ou demonstrações causais, mas proposições interpretativas sustentadas pela análise literária.
4 ANÁLISE DO CORPUS LITERÁRIO
4.1 Franz Kafka e A Metamorfose: a redução do sujeito à força de trabalho
4.1.1 O corpo transformado e a existência anteriormente alienada
Em A Metamorfose, Kafka apresenta uma das situações mais inquietantes da literatura moderna: Gregor Samsa desperta e descobre que seu corpo foi transformado em uma criatura monstruosa. O acontecimento extraordinário, entretanto, não produz imediatamente a reação que seria esperada. Antes de se concentrar inteiramente na transformação, Gregor preocupa-se com o horário, com suas obrigações profissionais e com as consequências de faltar ao trabalho. O início da narrativa é particularmente revelador: mesmo depois de despertar com o corpo alterado, Gregor calcula o atraso do trem e teme a reação do empregador. A justaposição entre acontecimento impossível e preocupação burocrática transforma a rotina laboral em objeto de estranhamento (KAFKA, 1997).
Esse deslocamento de prioridades constitui um dos elementos mais reveladores da narrativa. O personagem enfrenta uma alteração radical de sua condição física, mas sua consciência permanece submetida à rotina profissional. A preocupação com o emprego mostra-se tão profundamente incorporada à sua existência que nem mesmo o acontecimento absurdo consegue suspendê-la de imediato.
A narrativa permite, assim, identificar uma alienação anterior à metamorfose corporal. Gregor já vivia em condições que limitavam suas possibilidades de realização. Sua identidade estava fortemente vinculada à obrigação de trabalhar e de assegurar a estabilidade econômica dos familiares.
À luz de Marx, essa situação aproxima-se do estranhamento experimentado pelo trabalhador cuja atividade deixa de representar uma manifestação autônoma de suas capacidades. O trabalho converte-se em necessidade exterior e ocupa um espaço desproporcional na organização da existência.
Essa interpretação, contudo, não esgota o significado da transformação. O corpo monstruoso também mobiliza questões relacionadas à identidade, à comunicação, à vergonha e à exclusão. A força da narrativa reside precisamente na possibilidade de reunir essas dimensões sem oferecer uma explicação única para o acontecimento. A leitura econômica constitui, portanto, uma via de compreensão, e não uma chave exclusiva.
4.1.2 O trabalho como medida do valor humano
A relação entre Gregor e seu empregador evidencia a maneira como a produtividade se impõe sobre outras considerações. Diante de sua ausência, a preocupação da empresa manifesta-se rapidamente por meio da presença de um representante comercial encarregado de verificar o ocorrido. O episódio revela a fragilidade da confiança existente na relação profissional. O trabalhador, anteriormente responsável pelo cumprimento de suas obrigações, passa a ser tratado como alguém cuja conduta exige fiscalização imediata. A chegada do gerente à residência, motivada pela ausência do funcionário, torna concreta a vigilância exercida pela empresa. A cena é decisiva porque a incapacidade de explicar-se não é apenas física: sua fala deixa de ser reconhecida como linguagem humana, enquanto o discurso empresarial permanece centrado no dever profissional (KAFKA, 1997).
A circunstância é particularmente significativa porque Gregor se encontra impossibilitado de oferecer uma explicação compreensível. Sua voz transformada impede a comunicação habitual, aprofundando o isolamento. O personagem perde simultaneamente a capacidade de trabalhar e de se fazer reconhecer por meio da linguagem. A relação entre essas perdas sugere que sua posição social dependia de condições que agora desapareceram.
Há, nesse ponto, uma ironia profundamente trágica: Gregor conserva pensamentos, lembranças e preocupações humanas, mas já não consegue demonstrar sua humanidade de maneira reconhecível para os demais.
4.1.3 A família e a transformação dos vínculos afetivos
A dimensão familiar da novela aprofunda a crítica à instrumentalização das relações humanas. Antes da metamorfose, Gregor ocupa uma posição central na economia doméstica. Seu trabalho permite a manutenção dos familiares, que dependem significativamente de seus rendimentos.
Depois da transformação, essa organização é desestabilizada. Gregor deixa de contribuir financeiramente e passa a necessitar de cuidados. A mudança revela tensões que permaneciam relativamente encobertas enquanto ele exercia a função de provedor. O episódio em que o pai atinge Gregor com maçãs, deixando uma delas alojada em seu corpo, materializa a violência da ruptura familiar. A lesão persistente não é um simples detalhe fantástico: faz do próprio corpo a memória da rejeição (KAFKA, 1997).
A reação familiar não é inteiramente uniforme. Sua irmã, Grete, inicialmente procura alimentá-lo e organizar alguns cuidados. Ao longo da narrativa, entretanto, sua disposição se modifica, acompanhando o agravamento das dificuldades domésticas e a crescente percepção de Gregor como um obstáculo à vida familiar.
Ainda assim, a evolução das relações familiares permite reconhecer um movimento de exclusão. À medida que Gregor perde sua utilidade econômica e se torna incapaz de participar da convivência habitual, sua presença passa a ser considerada cada vez menos tolerável.
O quarto em que permanece confinado adquire, nesse contexto, um significado simbólico. O espaço que deveria oferecer proteção transforma-se progressivamente em lugar de isolamento e abandono.
O ponto mais perturbador da narrativa encontra-se no fato de que a exclusão não é promovida apenas por instituições impessoais. Ela ocorre no interior da família, espaço culturalmente associado ao cuidado e ao reconhecimento incondicional. Kafka evidencia, desse modo, que a lógica instrumental pode alcançar relações que deveriam preservar o indivíduo de sua redução à utilidade.
4.1.4 A morte de Gregor e o limite da humanidade reconhecida
O desfecho de A Metamorfose intensifica a dimensão crítica da narrativa. A morte de Gregor é seguida por uma sensação de alívio familiar e pela possibilidade de reorganização da vida cotidiana. A cena em que Grete defende que a família se livre da criatura assinala a ruptura do último vínculo de cuidado; o alívio posterior à morte de Gregor confirma, no plano do enredo, a substituição do reconhecimento pessoal por uma avaliação de sua presença como fardo (KAFKA, 1997).
A sequência final produz um contraste doloroso. Enquanto o personagem desaparece, os familiares recuperam perspectivas de estabilidade e futuro. O encerramento sugere que a eliminação daquela existência, antes indispensável à sobrevivência doméstica, passa a ser percebida como condição para a continuidade da família.
A tragédia de Gregor consiste, em grande medida, na impossibilidade de preservar sua condição de sujeito perante aqueles que deveriam reconhecê-la independentemente de sua produtividade. Por isso, a metamorfose pode ser compreendida como uma imagem radical da alienação moderna. A monstruosidade física não elimina a humanidade interior do personagem; é a incapacidade dos outros de reconhecê-la que torna sua situação verdadeiramente trágica.
4.2 Erasmo de Roterdã e Elogio da Loucura: a estultícia da cobiça e das aparências
4.2.1 A Loucura como voz crítica da sociedade
Em Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdã constrói uma crítica dos costumes por meio de um procedimento singular: a própria Loucura assume a palavra e realiza um discurso em louvor de si mesma. Essa escolha formal estabelece uma relação ambígua entre quem fala e aquilo que é afirmado. A personagem discursiva apresenta comportamentos humanos como manifestações de seu poder, mas a aparente celebração frequentemente expõe vaidades, contradições e ilusões. O artifício da autocelebração exige distinguir a fala da personagem alegórica da posição do autor: a Loucura elogia comportamentos que, na perspectiva crítica do leitor, podem revelar presunção e cegueira moral (ERASMO DE ROTERDÃ, 2008).
A ironia constitui, portanto, um princípio estruturador da obra. O leitor não pode aceitar automaticamente as declarações da Loucura como posições diretas do autor. É necessário considerar o distanciamento produzido pela sátira e a multiplicidade de sentidos que decorre dessa estratégia. A crítica erasmiana alcança diferentes grupos e instituições, incluindo eruditos, religiosos, governantes e indivíduos preocupados com honrarias e distinções sociais.
Nesse contexto, a sátira não constitui apenas entretenimento. Ela funciona como instrumento de reflexão, permitindo que práticas consideradas normais sejam examinadas a partir de uma perspectiva que revela seu caráter contraditório.
4.2.2 A cobiça e a ilusão de superioridade
A valorização excessiva da riqueza ocupa um lugar importante no conjunto de comportamentos criticados pela obra. A busca por bens e distinções pode levar os indivíduos a confundir prosperidade material com excelência moral. A crítica não depende da afirmação de que toda forma de riqueza seja condenável. O problema encontra-se na transformação dos bens materiais em finalidade absoluta e na crença de que sua posse assegura superioridade humana. A passagem satírica por figuras de autoridade e por pessoas seduzidas por honrarias evidencia como a reputação pode funcionar independentemente da virtude. Não se trata de transpor a análise do trabalho assalariado para o século XVI, mas de comparar modos de conferir valor às pessoas (ERASMO DE ROTERDÃ, 2008).
O mecanismo aproxima-se, em sentido analógico, da reificação. O indivíduo passa a ser reconhecido por atributos exteriores e quantificáveis, enquanto sua dimensão ética e espiritual perde importância. Entretanto, é indispensável preservar a diferença histórica. Erasmo não está descrevendo a generalização das relações mercantis própria do capitalismo industrial analisado por Lukács. Sua crítica dirige-se a práticas de vaidade, ambição e corrupção existentes no ambiente político, religioso e social de seu tempo.
A aproximação entre os autores fundamenta-se, portanto, na crítica à inversão entre meios e fins, não na identidade das estruturas econômicas examinadas. A riqueza, quando convertida em medida da dignidade, produz uma espécie de cegueira moral. O sujeito passa a orientar suas escolhas pelo reconhecimento externo, afastando-se de uma avaliação mais reflexiva de sua própria conduta.
4.2.3 Sabedoria aparente e inversão dos valores
Um dos aspectos mais relevantes de Elogio da Loucura encontra-se na desestabilização das fronteiras entre sabedoria e insensatez. A obra apresenta situações em que indivíduos socialmente reconhecidos como sábios ou respeitáveis revelam comportamentos marcados pela vaidade, pela arrogância ou pela incapacidade de reconhecer suas próprias limitações. A inversão irônica produz um questionamento: até que ponto os critérios utilizados pela sociedade para reconhecer a sabedoria correspondem a uma compreensão efetiva da condição humana? A ambiguidade torna-se ainda mais importante na inflexão religiosa da parte final: o paradoxo da “loucura” cristã impede que a obra seja lida como mera condenação secular da riqueza e exige atenção ao horizonte espiritual do humanismo erasmiano (ERASMO DE ROTERDÃ, 2008).
O problema adquire especial importância quando o prestígio intelectual ou institucional se converte em instrumento de superioridade. O conhecimento, que poderia favorecer a reflexão e a convivência, passa a funcionar como recurso de distinção social. Nesse caso, a crítica não se dirige apenas à riqueza econômica, mas também ao desejo de poder e reconhecimento que pode acompanhar diferentes formas de autoridade.
A ironia erasmiana, entretanto, não autoriza uma oposição simplista entre loucura negativa e razão positiva. A persona da Loucura apresenta diferentes modalidades de insensatez, algumas relacionadas às ilusões que sustentam a convivência humana, outras associadas a comportamentos criticáveis.
Além disso, a reflexão final sobre a sabedoria cristã introduz uma dimensão religiosa que não pode ser ignorada. O texto mobiliza o paradoxo entre a sabedoria mundana e aquilo que, sob uma perspectiva espiritual, pode parecer loucura.
4.2.4 O humanismo erasmiano e a crítica da existência instrumental
A contribuição de Erasmo para o eixo comparativo deste estudo encontra-se na exposição das contradições de uma sociedade que atribui prestígio a comportamentos nem sempre compatíveis com a virtude. O autor demonstra que a aparência de sucesso pode ocultar uma profunda desorientação moral. O indivíduo que acumula honrarias ou bens não necessariamente alcança maior compreensão de si ou dos outros. A crítica da instrumentalização da existência aparece, assim, associada à perda de critérios éticos capazes de orientar o uso da riqueza e do poder.
A Loucura expõe os limites da sabedoria socialmente consagrada e convida o leitor a reconsiderar aquilo que costuma ser admirado. Sob essa perspectiva, a contribuição de Erasmo ao debate sobre a coisificação não consiste em antecipar integralmente a teoria marxista, mas em revelar uma questão ética persistente: a tendência humana de atribuir valor excessivo a sinais exteriores de poder e prosperidade, esquecendo-se das qualidades que tornam a convivência verdadeiramente humana.
4.3 Erico Verissimo e Olhai os Lírios do Campo: o falso brilho da ascensão burguesa
4.3.1 Eugênio Pontes e a construção social da inferioridade
Publicado originalmente em 1938, Olhai os Lírios do Campo acompanha a trajetória de Eugênio Pontes, personagem cuja formação pessoal é profundamente marcada pela experiência da pobreza e pelo desejo de reconhecimento social. A lembrança das humilhações vividas na juventude não serve apenas como antecedente psicológico: ela ajuda a explicar por que o reconhecimento externo passa a orientar suas decisões, mesmo quando isso o afasta de uma prática médica mais solidária (VERISSIMO, 2005).
Desde cedo, Eugênio associa sua condição econômica a sentimentos de inferioridade. A percepção das diferenças entre sua origem humilde e os ambientes socialmente privilegiados contribui para a construção de uma identidade marcada pela vergonha e pela necessidade de afirmação.
A formação médica, que poderia representar uma oportunidade de realização profissional e contribuição social, torna-se também um instrumento de ascensão. A medicina ocupa, nesse contexto, uma posição ambivalente. Trata-se de uma profissão associada ao cuidado com a vida, mas que também pode proporcionar prestígio e estabilidade econômica.
O conflito do personagem desenvolve-se precisamente nessa tensão entre vocação humanitária e desejo de distinção. A partir da reflexão sartreana, é possível compreender que Eugênio participa da construção de sua identidade por meio das escolhas que realiza. Embora suas circunstâncias sociais condicionem fortemente suas possibilidades, elas não eliminam sua responsabilidade diante dos caminhos adotados.
4.3.2 O casamento por interesse e a mercantilização dos afetos
O relacionamento de Eugênio com Eunice constitui um dos momentos decisivos da crítica social presente no romance. Ao aproximar-se de uma mulher pertencente a um ambiente economicamente privilegiado, o protagonista encontra a possibilidade de ingressar em um universo que anteriormente lhe parecia distante. O contraste entre Eunice e Olívia não deve ser reduzido a uma oposição simplista entre riqueza e bondade. Mais relevante é observar o que Eugênio projeta em cada relação: no casamento, a possibilidade de legitimação social; no vínculo com Olívia, uma exigência ética que desafia sua ideia de êxito (VERISSIMO, 2005).
O casamento adquire, assim, um significado que ultrapassa a dimensão afetiva. Ele representa também a oportunidade de alcançar uma posição social considerada superior. Essa circunstância evidencia a interferência da lógica econômica em uma esfera que deveria envolver reconhecimento mútuo, compromisso e afinidade.
A escolha de Eugênio não pode ser compreendida apenas como cálculo racional de vantagens. Ela é atravessada por inseguranças, ressentimentos e pelo desejo de compensar experiências anteriores de inferiorização. Ainda assim, o resultado é uma relação na qual o prestígio assume importância decisiva. A aproximação com a categoria de reificação permite observar que os vínculos afetivos podem ser instrumentalizados quando passam a servir prioritariamente à obtenção de benefícios exteriores à própria relação.
O problema central encontra-se na maneira como Eugênio organiza suas prioridades e atribui ao casamento uma função de legitimação social. A conquista de prestígio, entretanto, não elimina suas inquietações. Ao contrário, a distância entre as aparências de sucesso e a experiência íntima de insatisfação torna-se progressivamente mais evidente.
A narrativa sugere, desse modo, que o reconhecimento obtido por meio da posição econômica não é suficiente para assegurar uma existência dotada de sentido.
4.3.3 Olívia e a possibilidade de outra relação com a vida
A personagem Olívia representa um contraponto fundamental às escolhas de Eugênio. Também vinculada à medicina, ela expressa uma compreensão da existência na qual o cuidado, a solidariedade e os vínculos humanos ocupam posição central. Sua importância não se limita à dimensão amorosa. Olívia apresenta uma alternativa ética ao sistema de valores que orienta o protagonista.
Olívia funciona como uma referência capaz de revelar a Eugênio a insuficiência dos objetivos que perseguia. A relação entre os dois evidencia que a realização humana não pode ser reduzida à conquista de vantagens materiais. O afeto exige uma forma de reconhecimento que não se confunde com a avaliação econômica.
A presença de Olívia também permite aproximar a crítica social do romance de uma perspectiva existencial. A questão fundamental deixa de ser apenas a posição ocupada pelo indivíduo na sociedade e passa a envolver o sentido atribuído às suas escolhas.
4.3.4 Os lírios do campo e a crítica à ansiedade pela posse
O título do romance remete à imagem bíblica dos lírios do campo, presente no Evangelho de Mateus, capítulo 6, especialmente nos versículos 28 a 34. Na passagem, a referência às flores integra uma reflexão sobre a ansiedade diante das necessidades materiais e sobre a prioridade atribuída à existência espiritual. A alusão bíblica deve ser lida em articulação com a história concreta do protagonista: o romance não recusa a necessidade de subsistência, mas questiona o adiamento indefinido da vida em nome da segurança e do prestígio (VERISSIMO, 2005).
O sentido da imagem não consiste em negar a importância do alimento, do vestuário ou das condições concretas de sobrevivência. A crítica dirige-se à preocupação excessiva que transforma essas necessidades no centro absoluto da vida.
O problema é que essa promessa desloca continuamente a possibilidade de realização para um momento posterior.
A vida presente torna-se um instrumento de preparação para uma felicidade que permanece distante. A imagem dos lírios contrapõe-se a essa lógica ao sugerir a necessidade de reconsiderar a relação entre segurança material e sentido da existência.
O que está em questão é a transformação da riqueza em critério absoluto de valorização pessoal. A metáfora bíblica permite compreender que a existência humana não se esgota na satisfação das necessidades materiais, ainda que estas sejam indispensáveis.
4.3.5 A transformação moral e os limites da redenção
Diferentemente de A Metamorfose, cuja trajetória conduz à exclusão definitiva de Gregor, Olhai os Lírios do Campo apresenta a possibilidade de uma revisão das escolhas individuais. A experiência de perda e o confronto com a memória de Olívia levam Eugênio a reconsiderar os critérios que orientaram sua vida. As cartas e a memória de Olívia atuam como dispositivos narrativos de revisão do passado, não como simples lições morais. A mudança de Eugênio ganha espessura porque confronta a permanência das consequências de suas escolhas (VERISSIMO, 2005).
O movimento de transformação não apaga as consequências de suas decisões anteriores. O passado permanece como dimensão constitutiva de sua identidade e como fonte de sofrimento. A possibilidade de mudança encontra-se justamente no reconhecimento de que a existência não precisa continuar submetida aos mesmos valores. Nesse sentido, a redenção apresentada pelo romance possui uma dimensão ética. Ela depende de uma alteração na maneira como o protagonista compreende o trabalho, as relações humanas e sua própria responsabilidade.
Verissimo apresenta uma possibilidade de reumanização fundamentada na revisão das prioridades pessoais e na reconstrução dos vínculos afetivos. O romance sugere, assim, que a alienação pode ser enfrentada quando o sujeito deixa de compreender a própria dignidade como consequência de sua posição econômica e passa a reconhecê-la na maneira como vive e se relaciona com os outros.
5 DISCUSSÃO COMPARADA: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS ESTÉTICAS
5.1 A instrumentalização da existência como eixo comum
A aproximação entre A Metamorfose, Elogio da Loucura e Olhai os Lírios do Campo permite identificar uma preocupação compartilhada: a possibilidade de que os indivíduos subordinem sua dignidade, seus afetos e suas escolhas a critérios exteriores de valorização. Essa convergência não significa que as obras apresentem uma compreensão idêntica das relações entre riqueza e existência. Cada autor investiga o problema a partir das condições históricas e dos recursos estéticos próprios de sua produção.
A comparação revela, portanto, três manifestações distintas da instrumentalização humana: a desvalorização daquele que deixa de produzir, a admiração por atributos exteriores de prestígio e a submissão voluntária das escolhas individuais às expectativas de ascensão social. Em todos esses casos, observa-se uma tensão entre a singularidade humana e os critérios utilizados para determinar seu valor.
A articulação dessas perspectivas permite compreender que a alienação não se apresenta exclusivamente como imposição exterior. Ela também pode envolver a interiorização de valores que levam o indivíduo a participar de sua própria subordinação.
Em Erasmo, a questão aparece sob outra perspectiva. A sociedade criticada pela Loucura frequentemente celebra comportamentos que, examinados de maneira reflexiva, revelam sua inconsistência ética. Desse modo, as três obras permitem compreender que a coisificação não se limita à transformação explícita das pessoas em instrumentos econômicos. Ela também pode manifestar-se na maneira como os indivíduos aprendem a admirar, desejar e avaliar a si mesmos.
5.2 A mercantilização dos vínculos humanos
Outro ponto de convergência encontra-se na interferência dos valores materiais nas relações interpessoais. Em A Metamorfose, a dependência econômica da família em relação a Gregor constitui um elemento decisivo para compreender a organização doméstica. A transformação do protagonista revela a fragilidade de vínculos que não conseguem resistir integralmente à perda de sua capacidade produtiva. O sofrimento do personagem adquire particular intensidade porque sua exclusão ocorre no espaço familiar. A casa, que deveria representar acolhimento, converte-se em ambiente de isolamento.
Enquanto Gregor é progressivamente rejeitado por não conseguir continuar desempenhando sua função de provedor, Eugênio compromete suas relações afetivas para alcançar uma posição social considerada superior. A diferença entre os dois personagens evidencia a amplitude do problema. A lógica instrumental pode tanto provocar a exclusão daqueles que deixam de corresponder às expectativas econômicas quanto orientar escolhas que sacrificam vínculos significativos em nome do reconhecimento social.
Em Elogio da Loucura, a crítica à vaidade e à busca por prestígio amplia essa discussão. A sátira revela a frequência com que a convivência humana é atravessada por interesses, aparências e expectativas de admiração. Entretanto, Erasmo também reconhece a importância das ilusões e das imperfeições para a própria manutenção das relações humanas. Essa ambivalência impede uma leitura que simplesmente condene toda manifestação de interesse pessoal ou de desejo de reconhecimento.
5.3 A alienação entre imposição social e escolha individual
A comparação também permite identificar diferentes graus de autonomia das personagens diante das condições que produzem seu sofrimento. Gregor Samsa encontra-se submetido a uma estrutura de obrigações profissionais e familiares da qual não consegue se libertar. Sua transformação corporal agrava radicalmente essa condição, eliminando a possibilidade de participação na vida econômica e social. O personagem conserva uma interioridade humana, mas perde os meios pelos quais poderia expressá-la e obter reconhecimento.
Eugênio Pontes, por outro lado, dispõe de possibilidades de escolha que tornam seu conflito moralmente distinto. Embora suas experiências de pobreza e humilhação influenciem profundamente sua trajetória, ele participa das decisões que o afastam de Olívia e de seus ideais humanitários.
Em Erasmo, a crítica da alienação assume principalmente a forma de questionamento das convicções sociais. A Loucura expõe a distância entre os valores proclamados e os comportamentos efetivamente praticados. O procedimento satírico sugere que parte da submissão humana às aparências depende da incapacidade de reconhecer a inconsistência dos próprios critérios de julgamento.
Assim, a alienação pode ser compreendida, no âmbito desta comparação, como uma experiência que articula condicionamentos sociais, formas de reconhecimento e escolhas individuais. Não se trata de atribuir a mesma responsabilidade a todos os sujeitos. Gregor, Eugênio e as figuras satirizadas por Erasmo ocupam posições distintas diante dos mecanismos que condicionam suas existências.
5.4 Tragédia, sátira e regeneração moral
As diferenças estéticas entre os autores constituem um dos resultados mais importantes da comparação. Kafka desenvolve sua crítica por meio de uma narrativa marcada pelo absurdo, pelo isolamento e pela progressiva impossibilidade de comunicação. A transformação fantástica de Gregor produz um estranhamento que obriga o leitor a reconsiderar situações aparentemente comuns, como o trabalho compulsório e a dependência financeira.
A narrativa não oferece uma solução moral conciliadora. O destino do protagonista evidencia a violência de uma ordem familiar e social incapaz de reconhecer sua humanidade em condições de extrema vulnerabilidade.
A crítica erasmiana não conduz necessariamente à desesperança. Ao revelar a fragilidade das pretensões humanas, a sátira também abre espaço para a humildade e para a reconsideração dos valores.
Em Verissimo, a crítica social articula-se ao desenvolvimento psicológico do protagonista. O conflito entre ambição e afeto organiza uma narrativa em que as escolhas individuais produzem consequências dolorosas, mas não eliminam inteiramente a possibilidade de transformação. A perspectiva de regeneração moral distingue o romance da experiência kafkiana. Eugênio pode reconsiderar suas prioridades e reconstruir sua relação com a vida, enquanto Gregor permanece submetido a um processo de exclusão irreversível.
A literatura não oferece, portanto, uma resposta uniforme ao problema da alienação. Sua contribuição reside também na diversidade de experiências e possibilidades que apresenta ao leitor.
5.5 Os limites históricos da aproximação comparativa
A análise exige reconhecer um limite fundamental: a crítica erasmiana à cobiça não pode ser identificada diretamente à crítica marxista da alienação capitalista. Elogio da Loucura pertence a um contexto histórico anterior à consolidação do capitalismo industrial e às transformações das relações de trabalho examinadas por Marx e Lukács.
Embora a riqueza, o comércio e as relações monetárias já desempenhassem papéis importantes na sociedade europeia do Renascimento, não seria historicamente adequado afirmar que Erasmo descreve os mesmos mecanismos de reificação característicos das sociedades capitalistas modernas. Sua crítica possui fundamentos humanistas, morais e religiosos específicos.
Em Olhai os Lírios do Campo, a crítica à ascensão burguesa também não elimina outras dimensões relevantes, como a memória, a experiência amorosa, a morte e a busca por sentido. Essas ressalvas não enfraquecem a comparação. Ao contrário, permitem estabelecer aproximações mais consistentes, fundamentadas na identificação de problemas compartilhados sem apagar as diferenças entre as obras.
O conceito de coisificação funciona, neste estudo, como categoria interpretativa central, mas sua aplicação assume intensidades e significados distintos conforme o objeto analisado.
O resultado é uma leitura comparada que preserva a historicidade dos textos e reconhece a pluralidade de suas respostas estéticas.
6 CONCLUSÃO
A análise comparada de A Metamorfose, Elogio da Loucura e Olhai os Lírios do Campo permitiu identificar diferentes representações literárias da subordinação da existência humana a critérios de produtividade, riqueza e reconhecimento social. Embora produzidas em contextos históricos e culturais distintos, as três obras problematizam situações nas quais a valorização excessiva de atributos exteriores compromete a liberdade, a subjetividade e a qualidade das relações humanas.
Em Verissimo, a trajetória de Eugênio Pontes demonstra as consequências de uma vida orientada pela tentativa de superar a inferioridade social por meio da prosperidade econômica. A conquista de reconhecimento não impede o sofrimento decorrente do afastamento de vínculos afetivos e ideais humanitários. A presença de Olívia e a simbologia dos lírios do campo oferecem, contudo, uma possibilidade de revisão das escolhas e de reconstrução do sentido da existência.
A fundamentação teórica contribuiu para esclarecer essas aproximações. Marx e Lukács permitiram compreender os processos pelos quais a atividade humana e as relações sociais podem ser subordinadas à lógica mercantil. Sartre e Heidegger ofereceram perspectivas para examinar os conflitos entre liberdade, responsabilidade e expectativas sociais. Antonio Candido, por sua vez, forneceu uma orientação crítica fundamental para compreender que a dimensão social das obras se realiza por meio de suas formas literárias.
A atualidade dessa problemática é evidente. Em sociedades nas quais o desempenho profissional, a capacidade de consumo e a visibilidade social frequentemente ocupam posições centrais, as questões levantadas por essas obras continuam a provocar reflexão.
Isso não significa afirmar que os autores tenham antecipado de maneira direta todas as características das sociedades atuais. Sua permanência decorre, antes, da capacidade de construir experiências literárias que continuam a iluminar contradições humanas em contextos diferentes daqueles em que foram produzidas.
Gregor Samsa perde o reconhecimento quando deixa de produzir. As figuras satirizadas por Erasmo confundem frequentemente prestígio com sabedoria. Eugênio Pontes procura na ascensão econômica uma realização que não consegue encontrar apenas por esse caminho. Cada uma dessas experiências revela, à sua maneira, o risco de reduzir a dignidade humana a critérios que não conseguem expressar a complexidade da existência.
REFERÊNCIAS
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KAFKA, Franz. A metamorfose. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. ISBN 978-85-7164-685-8. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788571646858/. Acesso em: 18 out. 2026.
VERISSIMO, Erico. Olhai os lírios do campo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. ISBN 978-85-359-0609-7. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535906097/. Acesso em: 18 out. 2026.
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SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Vozes, 2014. ISBN 978-85-326-4286-8.