Por Marcelo Santos Milech
Vivemos um momento sem precedentes na história da civilização, marcado por uma preocupação global profunda: a terceirização do destino da nossa cultura, das estruturas sociais e do debate político para as mãos de um punhado de corporações e engenheiros de tecnologia. Concentrados majoritariamente no Vale do Silício e em polos asiáticos, um grupo restrito de programadores é responsável por alimentar os bancos de dados e definir os filtros éticos, morais e filosóficos das principais Inteligências Artificiais do planeta. Quando a sociedade global consome essas ferramentas de forma acrítica, ela passa a enxergar o mundo através da régua cultural desses poucos criadores. O maior risco atual não é a tecnologia em si, mas a homogeneização do pensamento humano e a perda da capacidade crítica de uma geração que se acostumou a buscar respostas prontas para os dilemas da própria vida.
Esse fenômeno macro se reflete diretamente nas estruturas profissionais, e o mercado jurídico é um dos laboratórios mais evidentes dessa transformação. Ferramentas de Inteligência Artificial Generativa prometem — e cumprem — uma velocidade inédita na redação de petições, análise de contratos e compilação de jurisprudência. Para a advocacia sênior, a IA estabeleceu-se como uma assistente ágil, uma ferramenta de otimização de tempo onde o profissional experiente atua como editor-chefe de sua própria produção. Contudo, sob a superfície dessa aparente eficiência, esconde-se uma armadilha geracional silenciosa: o atrofiamento do pensamento crítico da nova geração de advogados.
O amadurecimento técnico de um jurista nasce do atrito com os autos: o debruçar sobre a doutrina, o erro no cálculo de uma rescisão, a frustração diante de uma jurisprudência desfavorável e a subsequente necessidade de criar uma tese inédita. Ao terceirizarem a redação e a fundamentação jurídica integralmente para algoritmos que repetem médias estatísticas do passado, os profissionais recém-formados pulam a etapa mais importante do desenvolvimento cognitivo. O resultado é o surgimento de uma massa de profissionais que dominam a técnica de operar a máquina, mas perderam a capacidade de questionar o resultado por ela entregue.
A médio e longo prazo, a persistência desse cenário desenha consequências drásticas para o futuro do jovem advogado que abdica de pensar por si mesmo. O profissional que apenas usa a IA para o básico será inevitavelmente engolido pelo mercado, pois os escritórios não pagarão honorários ou salários dignos a um associado para fazer o que uma assinatura de software de baixo custo faz sozinha em segundos. Além disso, enfrentaremos um verdadeiro apagão de lideranças, já que a advocacia de ponta, a magistratura e o Ministério Público exigem a ponderação de nuances humanas que a matemática não alcança. Jovens que passam anos apenas copiando respostas sofrerão de uma incapacidade crônica de tomar decisões complexas sob pressão, gerando uma crise de sucessão institucional. Soma-se a isso a vulnerabilidade técnica extrema decorrente das chamadas alucinações dos algoritmos, que inventam dados falsos com tom confiante, induzindo o profissional sem senso crítico a cometer erros fatais e responder perante a OAB por manifesta negligência técnica.
Para impedir que a tecnologia transforme os novos advogados em meros reprodutores de dados, escritórios e instituições de ensino precisam adotar barreiras práticas de proteção ao intelecto. Os escritórios de advocacia devem instituir o fluxo da co-criação, proibindo estagiários e associados de iniciarem peças do zero na IA. O profissional deve ser obrigado a redigir o esqueleto lógico da petição, os argumentos centrais e os fatos com o próprio punho, deixando para a máquina apenas a fase final de polimento gramatical. Deve-se implementar também a cultura da auditoria humana de saída, onde o jovem precisa defender a peça diante do sócio sênior antes do protocolo, justificando as escolhas do algoritmo. Fora do ambiente técnico, torna-se indispensável o estímulo à dieta de informação tradicional, mantendo viva a leitura de acórdãos na íntegra, livros físicos e o debate oral como únicos exercícios capazes de manter a musculatura cerebral ativa.
Este cenário reforça a urgência do debate em torno do Projeto de Lei nº 2338/2023, que discute o Marco Legal da Inteligência Artificial no Brasil. A regulamentação estatal não é um freio à inovação, mas um imperativo de segurança jurídica e de soberania cultural. Exigir transparência e a chamada explicabilidade dos sistemas garante que a justiça brasileira e os direitos dos cidadãos não sejam pautados por vieses invisíveis de corporações estrangeiras de tecnologia. A inteligência artificial deve funcionar como o trator que acelera a colheita, jamais como o agricultor que decide o que plantar. Cabe à nossa geração de mentores a missão de impor o rigor técnico aos mais jovens, demonstrando que o verdadeiro valor da advocacia e o destino das nossas instituições jurídicas residem naquilo que a matemática jamais poderá replicar: a originalidade e a sensibilidade do pensamento crítico humano.