Em 1º de abril de 1933, o Partido Nazista organizou um boicote nacional aos estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus na Alemanha. Integrantes da SA foram posicionados diante de lojas, consultórios e escritórios, constrangendo consumidores e comerciantes. A mensagem era explícita: aqueles identificados como judeus deveriam ser economicamente isolados. O episódio não foi uma simples manifestação de preferência de consumo, mas o início de uma política sistemática de exclusão que, progressivamente, destruiria direitos, propriedades e vidas. A história registra esse acontecimento como um dos primeiros marcos públicos da perseguição nazista. E é precisamente por conhecer suas consequências que não podemos tratar com indiferença a reprodução de mecanismos de intolerância política.
No Brasil, apoiadores do candidato derrotado Flávio Bolsonaro protagonizam manifestações que merecem denúncia e reflexão. A organização de boicotes contra comerciantes identificados com Lula ou com seus apoiadores, a tentativa de constranger consumidores e a exposição de pessoas por suas convicções políticas revelam uma concepção profundamente autoritária da convivência democrática. O problema não é o direito de alguém escolher onde comprar. O problema é a transformação dessa escolha em instrumento de perseguição coletiva, em uma tentativa de fazer com que pessoas e empresas sejam economicamente punidas por não compartilharem da ideologia de determinado grupo político. É a velha lógica do inimigo interno, agora adaptada às redes sociais e às disputas contemporâneas.
O paralelo histórico é evidente em seu mecanismo: identifica-se um grupo considerado indesejável, atribui-se a ele uma condição de ameaça e mobiliza-se a coletividade para restringir sua participação na vida econômica. Na Alemanha de 1933, a propaganda nazista apresentava os comerciantes judeus como inimigos da nação. No Brasil de hoje, setores do bolsonarismo procuram transformar empresários, trabalhadores e consumidores associados a Lula em alvos de hostilidade. Os contextos, as estruturas de poder e as consequências históricas são incomparáveis em sua dimensão, mas a lógica de exclusão econômica merece ser denunciada sempre que a identidade política passa a funcionar como justificativa para constrangimento e perseguição.
A denúncia torna-se ainda mais grave quando a intolerância atravessa as portas das empresas e alcança os trabalhadores. Patrões que ameaçam demitir funcionários por votarem contra determinado candidato não estão simplesmente manifestando uma preferência política. Estão utilizando o poder econômico para tentar controlar a consciência e a liberdade eleitoral de quem depende do salário para sobreviver. É a política transformada em instrumento de coerção. É o empregador que, incapaz de convencer pelo debate, tenta impor sua vontade pela ameaça. O voto é livre e secreto. O emprego não pode ser convertido em instrumento de chantagem eleitoral. Quando um trabalhador precisa temer a demissão por sua escolha política, a democracia está sendo violentada justamente onde deveria ser protegida: na liberdade individual.
Essa postura revela uma contradição política profunda. Os mesmos setores que se apresentam como defensores da liberdade, da propriedade privada, da autonomia individual e do respeito aos contratos parecem dispostos a relativizar esses princípios quando o adversário é identificado com Lula ou com o campo progressista. A liberdade, nesse discurso, é reivindicada para os próprios apoiadores, mas negada aos demais. A propriedade é defendida quando pertence aos aliados, mas passa a ser objeto de pressão quando seu titular manifesta uma posição política divergente. E os contratos, que deveriam assegurar estabilidade às relações econômicas, são tratados como obstáculos descartáveis quando não atendem à vontade ideológica de determinado grupo. Não se trata de defesa da liberdade: trata-se de liberdade seletiva, subordinada à conveniência política.
E aqui cabe uma cobrança incontornável: se o bolsonarismo rejeita os rótulos de nazista e fascista, precisa demonstrar essa rejeição na prática. Não basta indignar-se com a comparação histórica, acusar os críticos de exagero ou afirmar que tais classificações são injustas. É necessário afastar-se de comportamentos que evocam mecanismos de exclusão, intimidação e perseguição política. Quem rejeita o fascismo precisa rejeitar também a tentativa de controlar o voto dos trabalhadores, de constranger comerciantes por suas convicções e de transformar adversários em inimigos econômicos. Não se pode exigir que a sociedade abandone determinados rótulos enquanto se toleram, dentro do próprio campo político, atitudes que alimentam a razão de sua existência.
O boicote nazista de 1933 não pode ser confundido com as disputas eleitorais brasileiras. A Alemanha nazista construiu um regime de perseguição racial, destruição institucional e genocídio. O Brasil, apesar de suas graves tensões políticas, permanece submetido a uma ordem constitucional democrática. Mas reconhecer essa diferença não significa ignorar o que aproxima os mecanismos de intolerância: a construção do adversário como inimigo, a tentativa de deslegitimar sua existência econômica e a mobilização de pressões coletivas para impor uma vontade política. A história não nos obriga a afirmar que os episódios são idênticos. Ela nos obriga a reconhecer que práticas de exclusão merecem resistência antes que sejam naturalizadas.
É preciso denunciar, portanto, a hipocrisia de quem invoca a democracia apenas quando ela favorece seus próprios interesses. Não existe liberdade verdadeira quando o comerciante é constrangido por sua posição política. Não existe democracia plena quando o trabalhador é ameaçado por seu voto. Não existe respeito à ordem jurídica quando contratos e relações profissionais são submetidos à intimidação de grupos que se consideram autorizados a decidir quem merece trabalhar, vender, comprar ou participar da vida pública. A democracia não é propriedade de Bolsonaro, de Flávio Bolsonaro, de Lula ou de qualquer outra liderança política. É um direito coletivo que exige o reconhecimento da liberdade do adversário.
A história não absolve aqueles que transformam a divergência em perseguição, a liberdade em privilégio e a política em instrumento de intimidação. O boicote aos comerciantes judeus na Alemanha nazista permanece como uma advertência sobre o que acontece quando a exclusão econômica é apresentada como uma causa legítima. Hoje, diante das tentativas de setores bolsonaristas de impor sua vontade por meio de boicotes organizados, ameaças de demissão e constrangimentos políticos, é necessário afirmar que a democracia não pode tolerar a intolerância como método. Quem pretende controlar o voto alheio, punir adversários econômicos e subordinar direitos à fidelidade ideológica precisa compreender que suas ações também serão julgadas pela memória coletiva. Novamente, a história não os absolverá.