O Homem, ao considerar-se realmente humano, conceitua-se interdependente. Em sua relação com o meio ambiente depara-se com sua responsabilidade com o mesmo. Sua responsabilidade é constituída de elementos essenciais que o tornam partícipe na construção...

O Homem, ao considerar-se realmente humano, conceitua-se interdependente. Em sua relação com o meio ambiente depara-se com sua responsabilidade com o mesmo. Sua responsabilidade é constituída de elementos essenciais que o tornam partícipe na construção de uma harmonia universal. O ser humano não é o maior nem o melhor dos seres. Apenas um ser singular e de grandes habilidades racionais. Não desprezo desta forma possíveis habilidades de raciocínio que outros animais possam ter. Porém, esta forma de pensar a relação com o meio ambiente e todas as suas criaturas é recente. Por vezes, em nossa história, a natureza foi tida como um lugar oculto, cheia de mistérios insolúveis e habitat de deuses que tinham o controle sobre nossas vidas. Nela, o homem encontrava sua pequenez, pois não conseguia explicar.

Nossa civilização, em especial a Ocidental, sob formas baconianas e cartesianas de pensar as relações, conduziu-nos a caminhos nunca antes trilhados pela humanidade. A um progresso nunca antes imaginado por nossos ancestrais. A tecnologia e a ciência tornaram-se imperativos de nosso existir, acentuando cada vez mais nossa ambição, sempre latente e agora presente incentivada pelo progresso. Esta mudança comportamental e existencial gerou no seio dos povos ocidentais uma espécie de crise de identidade sem precedentes, onde nossos referenciais humanos e naturais encontram-se profundamente abalados. Há um corte, um elo quebrado na relação homem-natureza. Uma espécie de parto forçado, onde o cordão umbilical encontra-se preso por tênue fio. O homem perdeu sua noção criatural de existência e caminhou em direção a uma noção mecânica do ser, construída por si próprio, mas inicialmente não atribuída a ele. Seu desapego à natureza e sua afeição desmedida à razão e à técnica o embruteceram. Impulsionado pelo pensamento cartesiano e sua idéia mecanicista do ser, o ser humano embrenhou-se por caminhos depredadores e exploradores da natureza. A idéia de que o ser humano tem o direito de dominar o mundo e nele explorar as riquezas, tornou-se a base mestra para se projetar um progresso sem limites. Toda ciência e tecnologia se guiaram por esta premissa, sem muitos questionamentos sobre suas conseqüências. A natureza passou a ser uma espécie de matéria inerte, sem voz e sem vida. Apenas escrava dos desejos e prostituições humanas.

O pensamento ocidental sobre a natureza

O pensamento ocidental sempre entendeu a natureza como um inimigo a ser vencido. Seus mistérios sempre causaram medo e superstições. O ser humano nunca aceitou direito as manifestações da natureza como algo não possível de ser conhecido ou vencido. Ao perceber que poderia utilizar a sua razão para conhecer estes mistérios, resolveu explorá-los como uma forma esquisita de vingança. Hoje, deparamo-nos com um ambiente degradado e agredido. Boquiabertos, assistimos o extermínio de espécies animais e vegetais, olhamos rios sem peixes com sua água totalmente poluída, a possibilidade de privatização da água, como sendo um bem de consumo capitalista, florestas dizimadas para produção de madeira e pecuária, pessoas passando fome, em péssimas condições sanitárias, poluição atmosférica, alimentos contaminados com venenos agrícolas, a ameaça nuclear da bomba atômica. Enfim, encontramo-nos em meio a um caos ambiental gerado por nós mesmos. Uma crise de proporções totalmente desconhecidas.

Autores colocam as raízes dessa crise ambiental e humana em que estamos imersos no pensamento de Bacon que, desejando criar condições para que o ser humano tivesse melhores condições de vida, confere-lhe o domínio sobre o meio ambiente.

Expressando em seu mais alto grau a tendência renascentista a uma revisão do conceito de natureza, Bacon faz ‘respeitável’ a idéia do domínio, convertendo-la em um dos fundamentos da nova mentalidade: é um empenho da sociedade que rechaça, finalmente, a pesada herança judaico-cristã, e também as conseqüências da queda e da expulsão do paraíso terrestre, ou seja, a perda, junto com a inocência original, da serena relação com a natureza (LA TORRE, 1993, pg. 31)

Descartes, por sua vez, com a máxima “penso, logo existo”, sintetiza a visão antropocêntrica por excelência. Para a racionalidade ocidental esta afirmação torna-se a mola propulsora para guiar as atitudes racionais. Essa supervalorização do logos fez com que suas mentes se tornassem o centro do mundo antropocêntrico, ocasionando um desligamento dos sentidos corporais e da intuição, propriamente característica feminina. Consequentemente houve um desaprendizado de nossa relação com o meio ambiente. As relações de interdependência homem-natureza passaram por um esfriamento. A natureza é considerada um objeto, em detrimento de sua condição de “ser vivo”.

A divisão entre espírito e matéria levou à concepção do universo como um sistema mecânico que consiste em objetos separados, os quais, por sua vez, foram reduzidos a seus componentes materiais fundamentais, cujas propriedades e interações, acredita-se, determinam completamente todos os fenômenos naturais. Essa concepção cartesiana da natureza foi, além disso, estendida aos organismos vivos, considerados máquinas constituídas de peças separadas (CAPRA, 1982, pg. 37).

Conforme La Torre (1993), para Descartes, a natureza está organizada de tal forma a ser sempre útil ao homem. É este seu dono e senhor. Portanto, poderia usufruir da natureza tudo o que ela pudesse dar. A natureza, destituída de sua real condição, é entregue ao ser humano como uma escrava ao seu senhor. Este a prostitui incansavelmente com seus atos degradantes. Há uma mudança radical de paradigmas na relação homem-natureza. De uma relação de submissão a uma natureza cheia de mistérios e segredos, onde suas leis eram pouco conhecidas, para uma relação de dominação e exploração de seus recursos e um campo aberto para experimentos científicos e técnicos.


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