Por mais que Israel deseje, a justiça não é e nunca será igual à vingança.

A parábola bíblica é bem conhecida e já ganhou várias versões cinematográficas. O pequenino Davi se oferece para enfrentar o campeão inimigo armado apenas com uma funda em combate singular. Apesar de todas as expectativas estarem contra ele, Davi vence o gigante Golias e põe fim a guerra. 
 

"Golias parou e gritou às tropas de Israel: 'Por que vocês estão se posicionando para a batalha? Não sou eu um filisteu, e vocês os servos de Saul? Escolham um homem para lutar comigo.

Se ele puder lutar e vencer-me, nós seremos seus escravos; todavia, se eu o vencer e o puser fora de combate, vocês serão nossos escravos e nos servirão'.

E acrescentou: 'Eu desafio hoje as tropas de Israel! Mandem-me um homem para lutar sozinho comigo'."

Ontem Israel bombardeou Gaza diversas vezes com jatos e helicópteros de guerra para vingar a morte de jovens israelenses encontrados numa cova rasa perto de Hebron:http://oglobo.globo.com/mundo/israel-comeca-bombardear-faixa-de-gaza-13086917Qualquer semelhança entre este ataque e a história de Davi e Golias é puro abuso ideológico.

Israel tem armas maiores, melhores e mais mortais do que as usadas pelos seus inimigos palestinos. Nenhum Golias invencível se apresenta diante de Israel ameaçando sua existência. O que vimos ontem foi uma população praticamente desarmada ser uma vez mais brutalmente atacada sem qualquer razão plausível. Os verdadeiros assassinos dos jovens israelenses estão entre os mortos e feridos pelas bombas e mísseis despejados por Israel em Gaza? Quantos  inocentes palestinos tem que ser mortos para satisfazer a sede de sangue dos militares israelense?

Um crime foi cometido. O castigo é necessário e admitido pelos padrões de justiça em qualquer tempo, lugar e cultura, mas deve atingir apenas a pessoa dos responsáveis. Uma punição que atinge  inocentes nunca é justa, exceto se os padrões de justiça forem tão distorcidos quanto aqueles que os nazistas utilizavam nos territórios ocupados durante a II Guerra Mundial (para cada alemão morto, dezenas de homens da população local eram alinhados e imediatamente fuzilados). Ao invés de procurar, processar e punir os autores dos homicídios dos garotos enterrados próximo a Hebron, Israel preferiu cometer outros crimes alimentando a espiral de injustiças. Os militares israelenses querem o fim da guerra ou apenas alimentar o conflito?

A força descomunal de Israel em relação aos palestinos é evidente. Sua disposição de usar a força bruta sem qualquer medida de justiça também. Isto equipara os israelenses não a Davi e sim a Golias. A certeza de vitória decorrente do tamanho e do melhor armamento controla o imaginário e a conduta do personagem bíblico tanto quanto parece controlar as estratégias das Forças de Defesa de Israel. A fraqueza moral dos israelenses neste momento não deriva apenas de sua disposição de praticar injustiças para remediar injustiças, como se a justiça não fosse uma negação da injustiça e da vingança, mas de sua disposição de ignorar sua própria história mítica.

Golias, o gigante bem armado, cai diante do jovem e frágil Davi porque a justiça e a paz têm que triunfar sobre a força bruta e a injustiça. Esta é a lição moral que os autores do texto podem ter pretendido ensinar aos judeus. Israel também cairá porque se equipara cada vez mais a Golias do que a Davi? Isto é o que veremos.



Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria