O artigo analisa a mentalidade na confecção das novelas brasileiras e as expectativas culturais

A novela Em Família terminou. Laerte morreu assassinado, Clara e Marina se casam, Cadu, Felipe e Neidinha viveram situações complicadas e todos tiveram finais felizes. Eis alguns dos fatos. A novela também demonstrou a situação de “incompatibilidade” (cultural) de Jairo e a família central da novela, o estupro de Neidinha e seu trauma, que quase a impediu de se relacionar com Theo – estupro no Brasil, infelizmente, ainda é comum –, o alcoolismo de Felipe trouxe esta questão delicada, mas que está presente na vida de milhões de brasileiros - infelizmente ainda há preconceito, isto é, o alcoólatra é visto como “vagabundo”, “imaturo”, e não como portador de doença que necessita de ajuda tanto da família como do Estado e sociedade.

A novela se baseou em tramas familiares cujos mortais contemporâneos vivenciam: homoafetividade e preconceito; dependente químico e imagem social [darwinismo social] de “fraco”, “incapacitado”, “imaturo”; diferenças comportamentais culturais entre classes sociais (Juliana e Jairo); neurose [de Laerte]; doença degenerativa [Selma]; miocardiopatia dilatada [Cadu]; Parkinson [Benjamin] etc.

Manoel Carlos, o autor da novela, sempre se preocupou com problemas sociais, de forma que a própria sociedade brasileira passasse a refletir sobre situações comuns na vida de todo mortal brasileiro, indiferentemente de classe social, etnia.

Porém, a novela Em Família não agradou o público brasileiro. Por quê? Para responder é fácil analisar a nova novela. "Império" tem a missão de resgatar a audiência do horário nobre da Rede Globo e o tema central será sobre “poder”, ou seja, poder tem sangue, morte, cobiça, artimanhas etc.

Nas últimas décadas, as novelas, em geral, em qualquer emissora televisiva, têm conteúdos violentos e sádicos. Como explosões, vinganças etc. Nada de novo, dirão alguns, mas as cenas ficaram mais dramáticas com os efeitos especiais, quase realísticas. Uma conduta humana que vem sendo explorada bastante é a sociopatia.

Manoel Carlos, talvez, esteja desatualizado com o novo público, que quer sangue, briga e tumultos sendo centralizações primordiais nas novelas. Questão social como Manoel de Carlos gosta de retratar, não são mais as centralizações das novelas, em qualquer emissora de TV. A novela Em Família foi “água morna” justamente por centralizar questões sociais, as emoções humanas comuns; a novela pecou, para os que querem explosões, sangue e briga.

Não é de se admirar a rejeição da novela Em Família no atual contexto brasileiro: revoltas populares contra certos governantes e as políticas públicas; milicianos; policiais e políticos corruptos; o vergonhoso desfecho das sentenças para os mensaleiros do PT; os altos salários (subsídios) e vantagens pecuniárias aos políticos, que podem chegar a R$ 100,00 (cem mil reais), por mês, enquanto 40 milhões de brasileiros tentam sobreviver com o Bolsa Família; as aposentadorias surreais dos políticos versus as aposentadorias dos idosos do INSS; as ações truculentas de policiais diante de manifestantes [pacíficos] contra os gastos da Copa e as ações [revide] dos black blocs aos policiais. Quanto às truculências policiais, a Anistia Internacional criou protesto contra as ações policiais brasileiras.

E o que dizer do trânsito brasileiro? As vias públicas se assemelham aos campos de guerras. A falta de respeito é visível, assim como as mortes ocorridas pelo desrespeito à própria vida e a vida do semelhante. Na loucura disfarçada de “liberdade” motoristas alcoolizados transitam alucinados pelas vias. O motorista suicida [embriagado] justifica sua embriaguez pela liberdade democrática. Não é de estultícia dizer que o trânsito terrestre é um segmento social, e os comportamentos dos usuários nas vias demonstram como a sociedade brasileira é psicologicamente.

Existe a realidade, que não pode ser escondida do público, mas, se o Brasil quiser atingir seus objetivos (art. 3°, da CF), os programas televisivos deveriam centralizar mais as questões sociais do que efeitos especiais e sensacionalismos [aguçar instintos]. 

Infelizmente, a mídia em si, em certos programas, ou a maioria dos programas, não enfatizam questões sociais com ideias voltadas [soluções] aos objetivos Constitucionais, que são da nação, pois a Constituição Federal de 1988 foi escrita pelo anseio popular.

Cada vez mais o sensacionalismo televiso ganha cores e efeitos especiais, os instintos são exaltados enquanto a civilidade é aviltado.

Diante dos acontecimentos vigentes, a novela Em Família apresentou-se como novela da década de 1930, sem, ou quase pouco, sadismo. A bandeira brasileira é verde, mas os corações brasileiros são vermelhos.


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