Por que a educação vai tão mal?

~~O Brasil tem 2,5 milhões de trabalhadores na educação, dedicados ao ensino básico e ao superior. São dados da Sinopse Estatística da Educação Básica e do Censo da Educação Superior, ambos de 2013. No ensino superior são 367.282 professores: 25,36 em tempo parcial e 25,78 são horistas. Isto é, mais ou menos metade dos professores não se dedica com exclusividade; pois, ou têm aulas picadas aqui e ali (horistas) ou têm outros empregos mais lucrativos (parciais). Do total, 46 mil professores do ensino superior têm apenas a graduação. A notícia boa é que, na rede pública de ensino, o número de mestres cresceu 90% e de doutores, aproximadamente, 136%. Na hora H, o título nada conta; porém, as horas estudadas para obtê-lo sim. Em números absolutos, se pensarmos que o Brasil tem 250 milhões de habitantes, cerca de um por cento da população se dedica à educação formal. Parece e é uma porcentagem elevada, então, por que não dá certo o ensino de qualidade? Comprova-se a péssima remuneração pelos próprios índices: metade dos professores no ensino superior tem a educação ou como segundo emprego, menos atrativo (parciais), ou têm tantas aulas que não sobram tempo e energia para ler, estudar, investigar, inovar. Se é assim, o professor não aprende e se não-apreende, é óbvio, transforma-se em mero extensor, comunicador de dados e do conhecimento apostilado em sinopses e em manuais. Do latim “educare”, educar obriga em revelar. Não há educação com mera reprodução do conhecimento.
No Brasil, metade dos professores do ensino superior não revela o conhecimento – porque pouco se pesquisa –, relegando-se à condição de extensores do conhecimento. Professores, nesse ritmo de trabalho, não expandem o conhecimento, somente relevam o que outros dizem ser a verdade. Obviamente, não se faz ciência e nem se aprofunda o conhecimento com verdades pré-conjugadas. Na Espanha, por exemplo, advogado não dá aulas e professores de direito não são promotores ou juízes; lá, professores são “só” professores e não transformam a educação em bico, como se faz aqui. Como a educação não é atrativa – a não ser pelo status que confere a médicos e advogados –, o sujeito se arrasta daqui para lá. Este “lá” pode ser outro emprego e assim ele vive de subempregos, à espera de um concurso melhor. Quase sempre, o “lá” fica por lá mesmo, e o que se vê são milhares de professores desmotivados, passivos como reprodutivistas. Nesse ritmo, o professor releva sua condição operária (da socióloga Simone Weil) e não se revela como condutor do conhecimento mínimo que faria a educação avançar. A diferença mais notável entre relevar (deixar passar: lesse-faire, lesse-passe) e revelar (abrir a Caixa de Pandora dada a Prometeu: ícone do trabalho e do conhecimento) está na ação. Quem age, revela; quem releva, mal-age ou age pouco: reage.
Não há conhecimento reativo; nem mesmo as vacinas contra o Ebola. Do mesmo modo, pode-se dizer que a educação não precisa de resiliênsia (comum ao sacerdócio), mas sim de resistência política. O conhecimento se faz com indução e dedução e não por inação ou reação. A dedução decorre de postulados e princípios anteriores, ou seja, de um conhecimento prévio, mas autenticado. A indução se produz com perguntas e indagações que o conhecimento prévio não responde de forma satisfatória e isto leva a novas pesquisas; partindo-se do quase-zero (Gaston Bachelard). Neste caso, o conhecimento se produz com a insatisfação, curiosidade, “dúvida metódica” (do filósofo René Descartes), aplicando-se o método do desconforto (serendipidade, bricolagem, consiliência). O conhecimento se adquire com prazer (diria Epicuro – o filósofo do jardim) e não carregando pedras, como Sísifo: apesar de ter sido o mais genial dos mortais. Por tudo isso, o problema do professor no Brasil não é cognitivo: não precisamos de mais inteligência, não temos déficit de aprendizagem. Nosso problema está na miséria em forma de salário e que destina o cérebro a pensar, diuturnamente, em outras formas de ganhar a vida. Precisamos de mais dias para os professores.
 


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