O presente artigo tem como objetivo introduzir a discussão da magia do dinheiro responsável por induzir o senso comum à desconfiança no modelo educacional como garantia de futuro, convivência e respeito à diferença.

A questão talvez seja estabelecer como chegar a considerações como essa, em que a educação também se torna capaz de favorecer às condições da desigualdade entre esclarecidos e ignorantes, entre identidades onlines e multidões de desconectados, contrariando perspectivas garantidoras de futuro, de convivência e de respeito à diferença.

É perceptível, no senso comum, desconfianças provocativas do tipo “escola não dá futuro”, que, ao invés de estudar, seria melhor optar por jogar futebol ou seguir carreira artística. Não que todos os esportistas e artistas possam ser enquadrados como iletrados, sem escolaridade ou desprovidos de educação. Não se trata disso.

Uma explicação muito simples para o que ocorre nesse particular nos remete ao fato de que o mesmo senso comum superestima como raro e único o que assiste ou ver acontecer através da magia do dinheiro que cerca minorias do esporte e da arte.

No final, essa supervalorização desemboca em desconfianças de que educação não dá futuro, de que apenas alguns poucos lucram e no mais: que nos comportamos como reféns de um discurso de que a escola que temos dispõe de uma solução mágica para tudo.

Porém, no terreno das opções pessoais e dos valores socialmente compartilhados, o dever de observar quem realmente merece razão (se os que confiam na educação ou os que não escondem a decepção com a escola que temos) não deixa de ser uma preocupação menos nobre àqueles mais resistentes a um senso comum também refém da autopreservação de seus próprios preconceitos.

De fato, se existe a disposição de fundar uma nação inteira com base em uma cultura do conhecimento racional, objetivo e verdadeiro, transmitida pela educação escolar, parece imperativo desdizer os argumentos que insinuam que o modelo adotado de educação fracassou ou que não garante futuro.

A questão problema parece ser exatamente saber por onde começar essa tarefa: se confrontando esses que desconfiam do modelo educacional adotado; ou, se reunindo os que confiam, a fim de envolvê-los em uma revolução que independeria da própria magia do dinheiro.

Por outra parte, na intermediação entre a propaganda e a pátria do futuro, essa magia do dinheiro, na contramão de uma revolução sem capital, faz aumentar a desconfiança em receituários mágicos, enriquecidos pela aparência, pela virtualidade, pela distância da realidade.

Em resumo, na sociedade atual, o noticiário dos cachês e das contas de nomes milionários da arte e do esporte faz aumentar as provocações e desconfianças do senso comum contra o modelo educacional e suas perspectivas de futuro, de convivência e de respeito à diferença.

Contudo, em paralelo ao tema da (des)confiança em questão, parece passar despercebido que o empenho orçamentário da política oficial de bolsas, vigente no país, pode significar uma variante inquestionável da defesa de que a educação também dá dinheiro, além do retorno financeiro garantido a outras minorias igualmente invejáveis.



Informações sobre o texto

A problematização do modelo educacional adotado por nossas sociedades tem assumido diferentes perspectivas, talvez poucas contribuições tenham sido no sentido de discutir as condições impostas por esse modelo, mas, antes, de propor reformas, remendos ou ajustes em uma realidade flagrantemente comprometida por uma espécie de autopreservação de preconceitos.

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