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O Rio chega aos seus 450 anos de fundação. Sinceramente, no auge dos meus 66 anos de puro carioca da gema, sem querer dar uma de estraga festa, não sei o que há pra comemorar, a não ser as belezas naturais e a hospitalidade,  irreverência, calor humano e  alegria do carioca.  Que o Rio continua lindo, do centro à Zona Sul, do Leme ao Pontal e da subida do Alto à Grumari, também não há dúvida. 

Em contrapartida a cidade não é tão maravilhosa assim em sua maior parte. A entrada da cidade pela Avenida Brasil ou pela Linha Vermelha nada tem a ver com o célebre 'Samba do Avião' do genial Tom Jobim. O cheiro de mangue assusta  e a mal acabada Avenida Brasil também. Até ultrapassar os túneis de entrada para Zona Sul, não se vê a beleza tão decantada em prosa e verso sobre a cidade. Quem passa, por exemplo, pela entrada da Favela do Jacarezinho, na Avenida Dom Helder Câmara, se constrange pela degradação e pobreza do local. Lembra os países mais pobres e sofridos da África. Assusta qualquer turista ou carioca.

O Rio completa 450 anos e hoje é também uma das mais violentas cidades do mundo -não que não haja violência em Paris, Londres ou Moscou-, onde cidadãos e policiais podem ser as próximas vítimas das balas perdidas e certeiras, em qualquer hora, em qualquer lugar. O que comemorar numa cidade em que crianças são vítimas de balas perdidas, onde bandidos atacam policiais com fuzis de guerra, circulando em morros e favelas, onde os tiroteios são diários e onde um turista alemão, ao lado da esposa, é vítima de um latrocínio, à luz do dia, morto à facadas, em pleno centro da cidade, numa terça-feira de carnaval, gerando péssima repercussão em mídias sociais de todo mundo. Como carioca me senti um fracassado anfitrião, apesar de todos os constantes esforços das autoridades e seus agentes em busca de melhores níveis de segurança e mesmo sabendo que a polícia não é onipresente. Tive pena da viúva do turista. Veio ver a alegria da maior festa popular do mundo e levou de volta, para seu país, o corpo sem vida do marido. Profundamente triste e lamentável. 

O que comemorar quando um jovem estudante de biologia, de 24 anos, é morto brutalmente num assalto num ponto de ônibus em Botafogo, Zona Sul do Rio, ao retornar da faculdade á noite? O que comemorar, nos 450 anos da cidade maravilhosa, quando uma jovem, ao retornar da noite de réveillon, na orla de Copacabana, é morta na manhã do dia primeiro de janeiro, num assalto já próximo de sua residência na Baixada Fluminense ? A dor e o luto também poderiam se abater sobre minha família. Poderia ter sido uma de minha filhas, porém a lei penal brasileira continua protegendo e beneficiando bandidos e bandidos-mirins e desprotegendo a sociedade.

Não, essa cidade não é tão maravilhosa assim. Uma cidade para ser maravilhosa, em seu sentido amplo, em toda a sua essência, tem que proporcionar qualidade de vida.  Não há mobilidade urbana, há embates mortais em torcidas organizadas de futebol, mijões deseducados nos blocos de carnaval, motoristas imprudentes e estressados, carros demais em congestionamentos de trânsito, gente porca sujando as ruas, entupindo boeiros e galerias pluviais. Que cidade maravilhosa é essa? As belezas inigualáveis do Pão de Açúcar, do Cristo Redentor, do Jockey Club, da Pedra da Gávea, da Vista Chinesa, da Praia de Copacabana, da Barra da Tijuca e da Pedra do Arpoador não nos bastam.

Desculpem-me, nada tenho a comemorar nesses 450 anos do Rio, a não ser parabenizar algumas autoridades, alguns servidores e abnegados policiais e em especial o jovem prefeito Eduardo Paes, que ainda tentam, com resiliência, transformar o Rio de Janeiro numa cidade verdadeiramente maravilhosa. Que ao completar 500 anos, as próximas gerações possam relatar uma comemoração nem tão pessimista. Rio, este texto é só porque eu gosto de você. 


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