O presente artigo trata buscar os conceituar de amor e justiça e relacionar esses conceitos dentro do contexto da sociedade da informação. Traz para essa reflexão uma abordagem e perspectiva jusfilosófica e interdisciplinar, traçando esses conceitos.


      
Sumário
Introdução

1 Diversas formas de amor
2  Concepção grega de amor
3  Concepção filosófica de amor: amor platônico
4  Concepção cristã de amor: amor Ágape
5  Concepção de amor de amizade: Philia
6  Concepção de amor erótico: Eros
7  Concepção judaica de amor
8  Concepção espírita de amor
9  Concepção de justiça
10 O amor e a justiça na sociedade da informação

Conclusões
Referências


Resumo: O presente artigo trata buscar os conceituar de amor e justiça e relacionar esses conceitos dentro do contexto da sociedade da informação. Traz para essa reflexão uma abordagem e perspectiva filosófica e interdisciplinar, traçando esses conceitos desde a concepção grega até os dias atuais. A problematização vira em torno das seguintes indagações: Será que na atual, da sociedade da informação, conheceremos a justiça mediante a realização do amor? Ou será que, muito ao contrário não há relação entre esses conceitos, a justiça e o amor são coisas distintas. Afinal de contas, o que são esses conceitos? O que é o amor? O que é a justiça? É possível conceber a justiça sem amor? Como se constam as relações entre amor e justiça na sociedade atual, na denominada sociedade da informação? Será que a filosofia é capaz de responder alguma dessas reflexões? Essas são algumas das questões que o artigo traz a nossa reflexão.

ABSTRACT: This paper deals with conceptualizing the look of love and justice and relates these concepts within the context of the information society. Brings to this debate and philosophical approach and interdisciplinary perspective, tracing these concepts from the Greek conception to the present day. The questioning turns around the following questions: Does the current, information society, know the justice by making the love? Or is there no relationship between these concepts, justice and love, on the contrary are distinct. After all, what are these concepts? What is love? What is justice? It is possible to conceive of justice without love? As set out the relationship between love and justice in our society, the information society called? Does that philosophy is able to answer some of these reflections? These are some of the issues the article brings our reflection.

Palavras-chave: amor – justiça – sociedade da informação
Keywords: love – justice – the information society


Introdução

“O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas, rejubila com a verdade. Tudo desculpa tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará”.
                                                                                                               
                                                                                                                  Bíblia Sagrada. 1 Coríntios 13:4-8.

 
O presente artigo visa refletir sobre as concepções de amor e justiça na sociedade da informação. Objetiva, ainda, tratar de uma possível relação existente entre o amor e a justiça. Registre-se que o interesse sobre o tema não é novo. Do ponto de vista filosófico, nasceu como uma semente que brotou, e se impôs, com vigor, às nossas reflexões, a partir das aulas proferidas, durante o ano de 2004, no Programa de mestrado e doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Do ponto de vista do Direito nasceu do amor praticado na docência do ensino superior ministrado no Curso de Direito das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU. Do ponto de vista da crítica à sociedade da informação o presente artigo, surgiu como reflexão dos seguintes questionamentos: Será possível, na atual sociedade da informação praticar, amor e justiça? Como propor uma relação entre o amor e justiça? É possível relacionarmos os conceitos de bondade e justiça? Ou, de outro modo, pode haver justiça sem bondade? Sem amor? Quem vem antes: o amor ou a justiça? Será que o elemento que me permite distinguir o justo do injusto é somente amor? Será que é preciso, na atual sociedade em que vivemos amar a justiça, ou melhor, “amor” no valor “justiça” para podermos realizá-la? Será que a bondade complementa a justiça, humaniza-a? Ou melhor, é preciso amor no valor justiça? Com isto, queremos dizer que a justiça, sem amor, pode ser impiedosa (glacial/fria) senão, ela não será virtuosa? Será que a justiça nos nossos dias atuais, no sistema de força bruta que reina no mundo de hoje (da sociedade do consumo, da informação, mundo de guerras, terrorismo, indiferença, criminalidade, etc.), deve ser como repositório e protesto contra a violência e o egoísmo, ser caridosa?
É possível, na nossa sociedade da informação, conheceremos a justiça mediante a realização do amor? Ou será que, muito ao contrário não há relação entre esses conceitos, a justiça e o amor são coisas distintas. Afinal de contas, o que são esses conceitos? O que é o amor? O que é a justiça? Como são travadas e delineadas as relações entre amor e justiça na atual sociedade da informação? Será que a filosofia é capaz de responder alguma dessas reflexões? Essas são, enfim, algumas das reflexões que propomos a analisar nesse artigo. Para tal finalidade propormos, de início, analisar alguns conceitos que dizem respeito ao amor e a justiça a fim de contextualizarmos o tema na sociedade da informação.
Com efeito, na atual sociedade da informação , na era da tecnologia, das realidades virtuais e das grandes cidades impede-se um contato afetuoso, íntimo e empático entre as pessoas. As pessoas se isolam. Apesar de estarem próximas fisicamente, amargam uma profunda solidão. Nas relações humanas, parece carecer de amor e de justiça.
Desconfia-se de tudo, e uma pessoa das outras. Afasta-se do centro pessoal, das outras pessoas e tornam-se incapazes de criar harmonia e bem estar em suas relações. Isto baixa a autoestima. Traz infelicidade. A sensação é de ser insignificante, vazio, abandonado, um competidor, um mero produto, mera mercadoria. Na atual sociedade da informação o indivíduo preza pela sua autonomia, pelo individualismo e egoísmo.
Enfatiza-se a competição, a ambição, instrumentalizando nossos atos e relações. Certamente, isso provoca um distanciamento do presente, com a atenção sempre focada no futuro, em busca de sucesso, das aparências da sociedade de consumo.
Assim, o desenvolvimento dos centros urbanos criou o fenômeno da "multidão solitária” . Ou seja: as pessoas estão lado a lado, mas suas relações são de contiguidade, seus contatos dificilmente se aprofundam, sendo raro o encontro verdadeiro. Nesse contexto, desencantado com a vida, com a justiça e com as pessoas, os indivíduos, acabam conformando-se com uma vida apática, sem sentido e sem sonhos, quando não apela à violência.
Fala-se muito sobre sexo na internet seja uma tentativa de camuflar a impessoalidade fundamental dessas relações, na medida em que o contato físico simula o encontro amoroso . No entanto, não só as relações entre duas pessoas (na clássica relação amorosa) se acham empobrecidas nessa sociedade. O afrouxamento dos laços familiares lançou as pessoas num mundo onde elas contam apenas consigo mesmas. Não há convívio. Não há amizade. Não há amor. Não há caridade. Não há justiça. A família deve ser ainda o lugar da possibilidade do afeto, do amor. Ou, pelo menos, o sair dela não é garantia de ter o vazio de amor preenchido.
Se, por um lado, a internet  é algo mágico e que pode trazer grandes vantagens para o ser humano. Mas muitas vezes o péssimo uso da ferramenta acarreta em aborrecimentos e em casos mais extremos pode arruinar carreiras e vidas.
Qual deveria ser a dinâmica da coisa? Seguir pessoas que você conhece, gosta ou de alguma forma tem interesses comuns. Naturalmente você deveria ser seguido também por aqueles que te conhecem, gostam do que você escreve ou tem interesses na sua área de atuação. Até ai tudo seria perfeito, pessoas se respeitando, contribuindo uns com os outros e trocando conhecimento, histórias e vivências.
Eis que surgem os psicopatas  na internet. Uma personalidade psicopata não se restringe ao assassino em série. Um psicopata pode ser uma pessoa simpática e de expressões sensatas que não vacila ao cometer um crime quando lhe convém e faz sem sentir culpa pela sua ação. 
 Criam-se perfis falsos, seguem discriminadamente qualquer um para atacar, falar mal, atingir a honra e a moral daqueles que estão ali.
Ou seja, na sociedade da informação, a internet ajuda a aflorar o lado mais cruel das pessoas. Isso é até fácil de compreender, você tem como proteção uma máquina e pode se esconder por anos sem que ninguém saiba quem realmente você é. Com efeito, o fato de uma pessoa entrar em um espaço público para tentar arruinar outras pessoas é isso constitui-se um crime, e o criminoso merece arcar com as consequências.Vale sempre lembrar que certas atitudes devem ser levadas a sério. Enquanto não houver denúncia não há como ter punição.
Ocorre que, com os novos modos de apropriação das novas tecnologias, que se encontram na Internet, por exemplo, as redes sociais Facebook , Orkut , MySpace , Skype , novas fontes de informação, novos domínios da ciência; incluídos ou não, partícipes ou não da sociedade informação, do consumo, do conhecimento, os jovens não podem ficar abandonados à própria sorte, sem amor, nem justiça.
 A sociedade da informação, não pode ser um mundo sem lei, uma terra sem dono onde todos podem fazer o que bem entendem. Necessário se resgatar o amor e a justiça. Só o fato de se manter o anonimato, já não é boa coisa.
Além disso, o trabalho na sociedade da informação, estimulado pela competição e pelo individualismo, exige um ritmo exaustivo, mesmo para os que têm melhores chances, e mergulha a maior parte das pessoas no trabalho alienado, rotineiro, repetitivo, de onde é impossível extrair algum prazer ou estabelecer vínculos.
Ocorre que em nossa sociedade, o grau de violência, de abuso, de opressão encontrada nos leva a questionar a possibilidade da inexistência inclusive do próprio amor e da justiça. Do ponto de vista da política, a situação também não é das mais reconfortantes. Se considerarmos que todo regime autoritário subsiste em função da força e da opressão, o ambiente digital  que daí decorre é de medo e ódio e violência. Tornamos cada dia mais, anestesiados, indiferentes, distantes do amor e da possibilidade de socialização. Vemos o outro como um inimigo; o negamos para afirmar a nós mesmos, competindo por nossa destruição. O outro nos aterroriza e é, por nós, aterrorizado. Confiamos nesse outro? Em que medida? Se não confiamos, não o aceitamos como inteiramente outro e, portanto, não o amamos.
Por outro lado, se amamos, não competimos, compreendemos, aceitamos sua forma de ser do outro, respeitamos sua legitimidade de ser o que é e como é, coexistimos nos construindo mutuamente, permitindo que o outro nos provoque movimentos e, simultaneamente, levando-o a movimentar-se, construímos modos de vida pautados na cooperação. Não precisamos de motivos, de justificativas para amar, simplesmente amamos, porque nossa natureza assim é.
É comum encontrarmos, hoje, pessoas que se envergonham diante de emoções, diante do amor. Sentem-se ingênuos, ou denunciam a ingenuidade alheia. Também é comum encontrar aqueles que dizem amar seus companheiros, seus filhos, seus amigos, mas não os aceitam como são. Amam a si mesmos e àquilo que desejam que o outro seja ou se torne. Não amam, oprimem, e o fazem considerando fazê-lo para o bem do outro, para permitir a ele seu desenvolvimento, seu sucesso e sobrevivência futuros.
Declarar amor e agir com indiferença é extremamente comum, e justificável em nossa sociedade, na medida em que nossas formas de vida, por vezes, condenam a expressão de emoções, exigindo seu controle para uma boa aceitação social. Mecanismos sociais, medicamentos, formas de controle são desenvolvidos, tendo como fim aplacar as emoções e valorizar a razão. Tal postura é vista como a natural, como aquela que permite a sobrevivência de nossa espécie.
Distante de uma apologia do amor e da justiça, apesar de considerá-los fundamentais, é necessário refletirmos acerca das relações amorosas que se estabelecem, a partir de nossa coexistência real, não somente virtual, constituindo-se uma relação capaz, mas real, de provocar movimentação existencial e harmonia.
Nas redes sociais, as ligações entre as pessoas se tornam empobrecidas quando as convenções e a superficialidade dos contatos estabelecem relações impessoais e impedem o autêntico encontro amoroso. O amor, o casamento e a família até mesmo a justiça, vai perdendo sua tradição. Com isso, na atual sociedade da informação, as pessoas carecem das coisas do coração, da ternura, da intimidade e do amor. Mas afinal, o que é o amor? 

1 Diversas formas de amor

                                     “O amor sempre foi para mim a maior das questões... ou talvez a única”.
                                                                                                                                             Stendhal

Embora o amor seja tão velho quanto à humanidade, embora seja ambivalente, acompanhado em diversas formas, e especialmente, de seu contrário o ódio, sua emergência e feição na sociedade da informação mudaram. Preso a uma tela de computador, de televisão, de Ipê, de Smartfone, ou de vídeo games, as pessoas de hoje, cada vez mais se afastam do contato real com o outro e não tem mais oportunidade para desenvolver o contato pessoal e especialmente afetivo . Quando nos referimos ao amor, não nos referimos apenas às naturais e inevitáveis paixões. Trata-se de algo mais abrangente. 
Pois, o que se aborda é nossa capacidade de conviver com os nossos semelhantes, com vínculo de cuidado, de aprender a respeitá-los como são; o aprendizado de uma doação de si para o outro e vice-versa. 
As muitas dificuldades que às várias concepções sobre o que é o amor, oferece em conjunto a uma suposta unidade de significado, ocorrem não só nos idiomas modernos, mas também no grego e no latim. O grego possui várias palavras para amor, cada qual denotando um sentido diferente e específico. No latim  encontramos a palavra amor, dilectio, charitas, eros, quando se refere ao amor personificado numa deidade.
Na língua portuguesa  a palavra amor (do latim amor) presta-se a múltiplos significados.
A língua latina , por exemplo, tem vários verbos que correspondente à palavra "amor". Amare é a base para a palavra ao amor, como ela ainda está em italiano hoje. Os romanos utilizaram-lo tanto num sentido afetuoso, bem como em um sentido romântico ou sexual.
   A partir deste verbo viria amans, um amante, amator, amante profissional, muitas vezes como acessório a noção amante, amicae, namorada, muitas vezes, também a ser aplicada aos eufemisticamente para uma prostituta. O substantivo correspondente é amor, que também é usado no plural para indicar "amores" ou "aventuras sexuais". Esta mesma raiz também produz amicus, “amigo”, e amicitia, “amizade” (muitas vezes, baseada no benefício mútuo, e correspondendo às vezes mais de perto a "dívida" ou "influência").
Cícero  escreveu um tratado chamado Da Amizade (De Amicitia), que discute a noção com alguma profundidade.
Ovídio  escreveu um guia para namoro chamado Ars Amatoria (A Arte de Amar), que aborda em profundidade tudo, desde assuntos extramaritais para proteção excessiva dos pais. A palavra pode, assim, apresentar várias significações: afeição, compaixão, misericórdia, ou ainda, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido, etc.
O conceito mais popular de amor envolve, de modo geral, a formação de um vínculo emocional com alguém, ou com algum objeto que seja capaz de receber este comportamento amoroso e enviar os estímulos sensoriais e psicológicos necessários para a sua manutenção e motivação. É tido por muitos como a maior de todas as conquistas do ser .
Assim, fala-se do amor, das mais diversas formas: amor físico, amor platônico, amor-paixão, amor materno, amor à vida. É o tipo de amor que tem relação com o caráter da própria pessoa e a motiva a amar (no sentido de querer bem e agir em prol). Amar também tem o sentido de gostar muito, sendo assim possível amar qualquer ser vivo ou objeto.
O amor, certamente servirá de amparo e estímulo, ajudando-os a suportar e enfrentar dificuldades, ao mesmo tempo em que lhe servirá de ânimo para o relacionamento pacífico, solidário e harmonioso.

2 Concepção grega de amor

                                                                      “O amor é o Alpha e o Ômega de toda virtude”.
                                                                                                                           André Comte-Sponville

A concepção grega está assentada no Eros platônico. Eros começa por ser pobre. Mas, sumamente engenhoso e ativo, ele encontra sempre meio de transcender e de se transcender até atingir o mundo das ideias, designadamente o belo, o verdadeiro e o bem. Ascende “gerando beleza”. Ascende, deixando atrás de si – e abaixo de si – um mundo de troféus e de despojos, de aspirações satisfeitas e de imperfeições superadas, de aparências e de ilusões que foram dando progressivamente lugar a realidades autênticas e a formas e ideias verdadeiras.

3 Concepção filosófica de amor: amor platônico

                   “O que não temos o que não somos o que nos falta, são esses os objetos do desejo e do amor”.
                                                                                                                               Platão. Banquete. 200e.
    
Amor platônico é uma expressão usada para designar um amor ideal, alheio a interesses ou gozos. Um sentido popular pode ser o de um amor impossível de se realizar, um amor perfeito, ideal, puro, casto. Segundo Platão  é aquele que prescinde de toda sensibilidade para alegra-se com as belezas intelectuais ou espirituais e com a essência da mesma.
Trata-se, contudo, de uma má interpretação da filosofia de Platão, quando vincula o atributo "platônico" ao sentido de algo existente apenas no plano das ideias. Porque Ideia em Platão não é uma cogitação da razão ou da fantasia humana. É a realidade essencial. O mundo da matéria seria apenas uma sombra que lembraria a luz da verdade essencial.
Assim, a expressão amor platônico é uma interpretação equivocada do conceito de Amor na filosofia de Platão. O amor em Platão é falta, ausência. É o desejo por algo que não se possui. Ou seja, o amante busca no amado a ideia - verdade essencial - que não possui. Nisto supre a falta e se torna pleno, de modo dialético, recíproco.
Em contraposição ao conceito de Amor na filosofia de Platão está o conceito de paixão. A paixão seria o desejo voltado exclusivamente para o mundo das sombras, abandonando-se a busca da realidade essencial. O amor em Platão não condena o sexo, ou as coisas da vida material.
A obra de Platão que trata do amor é o diálogo Banquete (Simpósio ou Do amor)  .
Esse diálogo reproduz uma festa descrita por Platão em que vários convidados, entre eles Sócrates competem pela elaboração do melhor discurso/elogio/panegírico sobre o amor. Sócrates é o mais importante dentre os homens presentes. Ele diz que na juventude foi iniciado na filosofia do amor por Diotima de Mantinea, que era uma sacerdotisa. Diotima lhe ensinou a genealogia do amor e por isso as ideias de Diotima estão na origem do conceito socrático-platônico do amor.
Segundo Joseph Campbell , "não é por acaso que Sócrates nomeia Diotima como aquela que lhe deu as instruções e os métodos mais significativos para amar/falar. A palavra falada por amor é uma palavra que vem das origens".
No Banquete há, no entanto, várias passagens significativas obre a concepção do amor. Diferentemente do conceito de amor platônico, quando se fala do amor em Platão estamos nos referindo ao pensamento deste filósofo sobre o amor. A noção de amor é central no pensamento platônico. Em seus diálogos, Sócrates dizia que o amor era a única coisa que ele podia entender e falar com conhecimento de causa. Platão compara-o a uma caçada (comparação aplicada também ao ato de conhecer) e distinguia três tipos de amor: o amor terreno, do corpo; o amor da alma, celestial (que leva ao conhecimento e o produz); e outro que é a mistura dos dois. Em todo caso o amor, em Platão, é o desejo por algo que não se possui.
O discurso de Aristófanes, outro personagem na obra Banquete, é extremamente interessante, pois traz a ideia do mito da unidade originária entre os sexos, que carrega a metáfora da recuperação de uma unidade perdida através da unificação dos amantes.
A temática do amor, no entanto, é comum não somente nessa obra platônica, mas a quase todos os filósofos gregos, entendido como um princípio que governa a união dos elementos naturais e como princípio de relação entre os seres humanos.
Depois de Platão, entretanto, só os platônicos e os neoplatônicos consideraram o amor um conceito fundamental. Em Plutarco o amor é a aspiração daquilo que carece de forma (ou só a tem minimamente) às formas puras e, em última instância, à Forma Pura do Bem.
Em As Enéadas, Plotino  trata do amor da alma à inteligência. No pensamento neoplatônico, o conceito de amor tem um significado fundamentalmente metafísico ou metafísico-religioso.
Do ponto de vista filosófico, o amor é um princípio que governa a união dos elementos naturais é um princípio de relação entre os seres humanos, que os une. O amor, para ocorrer, não importando os níveis: se social, afetivo, paternal ou maternal, fraternal - que é o amor entre irmãos e companheiros - deve obrigatoriamente ser permitido. O que significa ser amor permitido? Bem, de fato quase nunca se pensa sobre isso porque passa tão despercebido que se atribui a um comportamento natural do ser humano ou de outros seres vivos.
Amor entendido como um sentimento de reciprocidade capaz de dar início e alargar as relações de afetividade entre duas ou mais pessoas ou seres que estão em contato e que por ventura vêm a nutrir um sentimento de afeição ou amor entre si. A permissão ocorre em um nível de aceitação natural, mental ou físico, no qual o ser dá abertura ao outro sem que sejam necessárias quaisquer obrigações ou atitudes demeritórias ou confusas de nenhuma das partes. A liberdade de amar, quando o sentimento preenche de alguma forma a alma e o corpo e não somente por alguns minutos, dias ou meses, mas por muitos anos, quiçá eternamente enquanto dure e mais nas lembranças e memórias.
Podemos perguntar ao ser amado: Por que você me ama? A resposta poderia ser: Porque você permitiu. Essa indagação remete ao mais simples mecanismo de reciprocidade e lealdade, se um pergunta ao outro a razão de seu sentimento de amor em direção a ele, a resposta só poderia ser essa. A razão do sentimento de amor, em direção à outra pessoa, recaí na própria pessoa amada, que em seus gestos, palavras, pensamentos e ações conferem permissão a que a outra pessoa ou ser - podendo até ser um animal de estimação - o dedicasse aquele sentimento de amor.
Nesse sentido, o amor pode ser considerado como um nível ou grau de responsabilidade, utilidade e prazer com que lidamos com as coisas e pessoas que conhecemos. Contudo, o amor pode ser entendido de diferentes formas, e pode ser tomado como um sentimento, dessa forma é abstrato, sem forma, sem cor, sem tamanho ou textura. É por si só, o sentimento em excelência; o que quer dizer que é o sentimento primário e inicial de todo e cada ser humano, animal ou qualquer outro ser dotado de sentimentos e capacidade de raciocínio natural.
Nesse sentido é Lévinas  quem assevera:

“A responsabilidade pelo próximo é, sem dúvida, o nome do que se chama amor ao próximo, caridade, amor em que o momento ético domina o momento o momento passional” (LEVINÁS, 2005, p. 143).

Além do cuidado, da responsabilidade pelo próximo, da ética  do amor, o desejo de cuidado está ligado ao desejo de expansão, à presença simultânea das semelhanças e diferenças. O sentimento de amor mais legítimo que podemos conceber parte sempre de uma doação sem necessidade de submissão; de tolerância sem necessidade de omissão; de compartilhar sem necessidade de abandonar, e de autoabandono. Amar é somar, multiplicar e dividir, nunca subtrair.
Mas será que todos carecem de amor? Será que todos querem ou conseguem reconhecer esse sentimento em si e nos outros, não importando idade ou sexo? O amor é afinal vital para nossas vidas como o ar? O fato é que, sem amor a criatura não sobrevive, conquanto o amor equilibra e traz a paz de espírito quando é necessário. Mas há também aqueles que não sabem amar. Não tem capacidade de afeto .

4 Concepção cristã de amor: amor Ágape

“Se alguém te bate numa face oferece a outra. Se alguém tomar o teu manto, deixa levar também a túnica. Dá a quem te pedes e, se alguém tirar o que é teu, não peças de volta”. 
                                                                                                                                              Bíblia Sagrada. Lucas 6, 29-30.


Termo amplamente usado pela cristandade representa o amor de caridade. É o amor que dá sem precisar receber. Na ágape, não se ama por que se é alegre, se é alegre por que se ama. É o amor, ao contrário do Eros, que sobra que transborda. É um amor desinteressado. É o amor baseado na fé. Para a concepção judaico-cristã a concepção do amor, não partirá nem do mundo nem do homem. Partirá de Deus, Transcendência absoluta. Ele próprio relação amorosa, em si, por si e para si, e que, sendo livre, também por Amor cria para fora de si uma realidade – o Mundo. O amor humano, fundado no amor divino, será pluridirecional e pluridimensional será ativo e será histórico, será concreto e terá na imitação do próprio Deus, designadamente através de Cristo – imitatio Christi – o seu grande motor. 
Do entrelaçamento das duas concepções – helênica (grega) e judaico-cristã – é feita a história do amor no Ocidente até os nossos dias, pelos menos, até aos chamados “tempos modernos”, com o predomínio ora de uma ora de outra, segundo as condições socioculturais, das épocas respectivas.

5  Concepção de amor amizade: Philia

                                                          “Ninguém tem maior amor do que aquele dá a vida pelos amigos”.
                                                                                                                                            Bíblia Sagrada. Jo 15,13.

Philia é o termo que se encontra na própria definição de filosofia. Segundo Diógenes Laécio, em sua Vida e Doutrina dos filósofos Ilustres, foi Pitágoras, no século VI a. C, que teria introduzido o termo. No entanto, o local clássico da discussão sobre o significado da palavra philia encontra-se no diálogo platônico deniminado Lysis, que tem como subtítulo precisamente: “sobre a amizade” – plilia. Lysis é um diálogo aforètico, ou seja, é inconclusivo sobre uma definição final sobre a amizade.
Nesse diálogo, Platão nos mostra a importância da reflexão filosófica sobre a amizade do ponto de vista da experiência e de nosso entendimento sobre a natureza humana, especiamente, sobre a sua dimensão ética. Platão reflete sobre os vários aspectos da concepção de amizade. Será que a amizade é um sentimento recíproco? É possível sentir amizade por alguém que não nutre esse sentimento por nós? Se desejamos a amizade de alguém, será porque temos interesse? Nesse sentido, a amizade seria um sentimento egoísta? Será que o indivíduo é feliz sem ter amigos?
Será que podermos ser amigos das pessoas que são muito diferentes de nós? Ou somente somos daqueles que são como nós? Será que a amizade depende da sinceridade?
Em obra famosa, Platão, no discurso de Protágoras  sobre Prometeu e a criação do homem (322d), Platão apresenta o grande sofista dizentdo que vendo que os homens não conseguiam viver em sociedade devido ao conflito, Zeus encarrega Hermes de dar-lhes o senso de justiça e os laços de amizade (philia) que são fundamentos da cidade. Philia seria assim um princípio central da vida social. É o amor de amizade, sentimento de achegamento por se ter algo em comum. Capacidade de manter uma relação recíproca. Amigos, irmãos. É o amor baseado nas emoções. É um conceito, sobretudo político, pressuposto da própria possibilidade da vida em comum.
Por sua vez, Aristóteles, na obra Ética a Nicômaco (Livro VIII-IX) , define a amizade como sendo um sentimento de afeição recíproco, que une os membros da comunidade, considerando-os hetairos – ou seja: “aquele que pertence ao grupo”.
A amizade é o laço de afeição que une os irmãos e os companheiros, em um sentido de irmão. Em uma sociedade, ou em uma união qualquer, mesmo familiar, a quebra desses laços gera a tirania, a relação baseada no exercício da força, em que um indivíduo subjulga o outro, o rei os seus suditos, o marido sua esposa, o pai o seus filhos, um irmão o outro.
A ruptura mais forte desses laços de amizade corresponde à própria definição aristotélica de tragédia, ou seja, “a violência entre os membros de uma família ou clã”, como nos casos de Édipo, Orestes ou Ifigênia. Aristóteles, que dá uma importância central na sua ética a amizade, conclui, no livro IX, da obra Ética a Nicômaco, que a philia é necessária para a vida feliz. Há, portanto, uma sabedoria na amizade.

6 Concepção de amor: Eros


“Nele está o bem que todo espírito deseja. Nele, o repouso a que todo mundo aspira. Nele está o amor; nele o prazer também. Nele, ó, minha alma guiada ao mais alto céu! Você poderá reconhecer nele a Ideia da Beleza, que neste mundo eu adoro”.  
                                                                                                                             Joachim Du Bellay, L' Olive
   
Eros é um amor muito especial: o amor-paixão. Os psicanlistas gostam de conceiturar eros como sendo a pulsão de vida, dominada pela sexualidade. É no sentido mais forte e mais verdadeiro do termo, o amor que sentimos quando estamos apaixonados.
Deus grego do amor, também conhecido como Cupido, Amor em latim, que apesar de sua excepcional beleza ser altamente valorizada pelos gregos, seu culto tinha modesta importância. Era filho de Afrodite e seu companheiro constante e com seu arco ele disparava flechas de amor nos corações dos deuses e dos humanos. Sua mãe havia sentido ciúme de Psiquê, cuja beleza causava tumulto por onde ela passasse. A deusa ordenou que ele fizesse com que Psiquê se apaixonasse por alguma pessoa de nível muito baixo. Ele a encontrou enquanto ela dormia e, como acabou acordando-a ao tocá-la com uma de suas flechas, ficou tão maravilhado por sua beleza que, acidentalmente, aranhou a si mesmo com a flecha e se apaixonou por ela. Levou-a dali para bem longe, para um maravilhoso palácio e ia visitá-la todas as noites. Sem nenhuma ajuda visível, todos os desejos de Psiquê eram cumpridos .
Durante muito tempo, ela não havia olhado para o seu amado, pois este lhe tinha proibido de olhá-lo, uma vez que ele queria que o amasse, como humano, e não como um deus. Mas a curiosidade finalmente se apoderou dela e uma noite, enquanto ele dormia, ela ascendeu uma lâmpada e segurou-a por cima dele para vê-lo. Mas uma gota de óleo quente caiu em seu peito que, sem pronunciar uma palavra, abriu suas belas asas e voou pela janela afora. O palácio e tudo o que ele continha desapareceu. Psiquê vagou dias e noites procurando-o, enquanto ele estava preso no quarto da mãe por causa de sua ferida. Afrodite, irritada com Psiquê por ter conquistado seu filho, deu-lhe uma imensa punição. Recuperado ele dirigiu-se a Zeus e pediu o perdão para sua amada e que a casasse com ele, tornando-a imortal. Então Hermes foi enviado para apanhar Psiquê e levá-la ao Olimpo. Quando ela lá chegou, Zeus deu-lhe um copo de néctar de ambrósia divina para beber, tornando-a assim imortal e unindo-os para sempre .

7  Concepção judaica de amor

                                                                                            "Amarás teu próximo como a si mesmo”
                                                                                                                                                               Torah


Em hebraico Ahava é o termo mais comumente usado tanto para o amor interpessoal como para o amor de Deus. Outros termos relacionados, mas são desiguais Chen (carência) e Hesed, que basicamente combina o significado de "carinho" e "compaixão", e às vezes é prestado em Inglês como "Bondade amorosa".
O Judaísmo emprega uma ampla definição de amor, tanto entre os povos como entre homem e a divindade. Quanto à primeira, o Torah afirma: "Amarás teu próximo como a si mesmo" . No que diz respeito a este último, “o ser humano é ordenado a amar Deus com todo o seu coração, com toda a tua alma e com todo o seu poder" , tomada pelo Mishnah (um texto central Do judeu oral lei), para referir-se às boas ações, ou o desejo de sacrificar a própria vida ao invés de cometer certas transgressões graves, a sacrificar todos os seus bens e ser grato ao Senhor apesar da adversidade (Tractate Berachoth 9:5). A literatura Rabina diverge quanto ao modo como esse amor pode ser desenvolvido, por exemplo, pela contemplação das boas ações divinas ou testemunhando as maravilhas da natureza.
Quanto ao amor conjugal entre parceiros, este é considerado como um ingrediente essencial para a vida: "Ver a vida com a mulher que amo”  . O livro bíblico Cântico dos Cânticos é considerado uma parafraseada metáfora romântica do amor entre Deus e seu povo, mas em uma leitura mais simples encaixa-se como uma canção de amor.
O Rabino contemporâneo Eliyahu Eliezer Dessler  é frequentemente citado por sua definição de amor no ponto de vista judaico como "dar sem esperar nada em troca". Amor romântico por si só tem poucos ecos na literatura judaica, embora o Rabino Medieval Judah Halevi tenha escrito uma poesia romântica em língua árabe, em seus anos de juventude - mas ele parece ter lamentado isso mais tarde.

8  Concepção espírita de amor


"O amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, porque amar ao próximo é fazer-lhe todo o bem possível, que desejaríamos que nos fosse feito”.
                                                                                                                                                                         Allan Kardec


Allan Kardec  diz que "o amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, porque amar ao próximo é fazer-lhe todo o bem possível, que desejaríamos que nos fosse feito”. Nesse mesmo sentido, são as palavras de Jesus: "Amai-vos uns aos outros, como irmãos”. 
Desde todos os tempos e em todas as crenças o homem procurou sempre fazer prevalecer o seu direito pessoal. O sublime da religião cristã foi tomar o direito pessoal por base do direito do próximo . Contudo, frequentemente a justiça é representada com os olhos vendados e com uma balança na mão. Essa imagem significa que a justiça não faz discriminação de pessoas nem tem preferências afetivas, que ela é muito mais racional e, portanto, fria.
Ao contrário do amor, que se estabelece em uma dimensão essencialmente pessoal e de preferência afetiva. Já que o amor tem como caraterística uma força tendente a aproximar e a unir.

9 Concepção de Justiça

                                                                   “Viver honestamente, não prejudicar o outro, dar a cada um, o que é seu”.
                                                                                                                                                                           Ulpiano

Definir o que é a justiça deveria se constituir numa tarefa simples. Como fazer uma lição de casa que não demanda muito esforço. Especialmente para aqueles que operam, ou melhor, lidam e agem com o direito. Contudo, não é isso que ocorre. Pois, o chamado para pensar sobre uma definição, sobretudo o conteúdo, sobre o conceito significado e alcance da justiça exige de nós, um “effort de l'esprit”  .
Pensar numa definição de justiça é, certamente, uma dura e laboriosa tarefa. Para o intérprete do direito, talvez se constitua, num dos “Doze trabalhos de Hércules”  .
Para alguns estudantes do direito, possivelmente – definir a justiça; seja mesmo um verdadeiro suplício. Igual àquele imposto a Sísifo pelos irados deuses gregos. Conta-se que Sísifo, foi colocado no inferno, pois teria, injustamente, revelado o segredo dos deuses. Foi condenado por eles, a rolar sem cessar uma enorme pedra, até o alto de uma montanha; mas a pedra chegando ao cume, logo descia por seu próprio peso e Sísifo é assim, obrigado, eternamente, a subi-la, de novo. Num trabalho que nunca lhe dá descanso.
Pensamos que, talvez, essa seja a mesma pena imposta ao jurista. Qual seja; procurar eterna e incansavelmente, pela definição do que seja o justo.  Nesse sentido, Immanuel Kant, já profetizava na sua magistral obra Crítica a Razão Pura A 731, B 759, que essa tarefa é mesmo impossível, pois segundo Kant, a definição de justiça era incognoscível. Espantava-se ao constatar que “os juristas ainda procuram uma definição para seu conceito de Direito”  . De qualquer modo, é preciso fazer uma perspectiva histórica e adentrar no pensamento filosófico sobre o conceito de justiça que apresenta uma interessante evolução. Prescindindo da noção bíblico-teológica de justiça, é necessário ascender até a Grécia se quisermos seguir a sobredita evolução na cultura ocidental. Senão vejamos:
Num primeiro momento a palavra dikaiosyne, que nos escritores da idade clássica traduz o conceito de justiça, não aparece nem em Homero, nem em Hesíodo. Neles, o conceito de justiça é expresso por dois vocábulos:
Dike e Themis. O primeiro significa "decisão judicial", o 2º o "bom conselho", que inspira a decisão prudente. A partir do séc. VI a. C., começa a divulgar-se a palavra dikaiosyne, mas não tem o sentido jurídico que hoje damos ao termo justiça. Dikaiosyne significava propriamente um "princípio universal de ordem e harmonia" entre o fato e a norma que lhe diz respeito. Esse aspecto geral atinge a sua expressão máxima no sistema platônico. Essa noção geral manteve-se firme durante muitos séculos, embora se fosse paralelamente outro aspecto mais restrito.
Num segundo momento, o conceito começa a ser sistematizado a partir de Aristóteles, utilizando, aliás, elementos já existentes em germe na filosofia pré-socrática e, designadamente pitagórica. Consiste em sublinhar a índole social da justiça frisando que ela é primariamente correspondência entre dois termos contrapostos precisando estabelecer igualdade no que reciprocamente lhes é devido. Desse modo, passa-se de um princípio universal para uma virtude particular.
Assim, essas duas concepções coexistiram lado a lado durante séculos. Mas o aspecto universal foi-se gradualmente esquecido e hoje prevalece ordinariamente a noção de justiça em sentido estrito ou jurídico. A partir do século XIX, foi-se, no entanto, divulgando-se cada vez mais a expressão justiça social, em relação contra os abusos do capitalismo liberal. A justiça implica ainda num juízo de valor. Nesse sentido, o senso de injustiça nada mais é do que o sentimento de que algo está errado, não meramente com referência à nossa condição pessoal, mas com o mundo em geral.
Cabe aqui a indagação: há possibilidade de definirmos a justiça em termos descritivos? Entendemos que não, pois implica uma contradição, ou seja, se “justo” tiver o mesmo significado de “igual”, isto implica uma norma igualitária. Logicamente seria por isso incoerente para qualquer um considerar injustas tanto as normas igualitárias como as normas não igualitárias.                   
Evidentemente que estas definições não são aceitáveis. Pois, se não podemos ir do “ser” para o “dever ser” e dos fatos para os valores. Contudo, quando a expressamos em termos igualitários, não a estamos definindo, mas comunicando um juízo normativo, sob a capa verbal de definições, tendo como finalidade geral uma eficácia retórica.
Mas será que o sentimento de justiça é natural ou resulta de ideias adquiridas? É tão natural que nos revoltamos ante uma injustiça.  É certo que O progresso moral desenvolve a justiça, mas não a cria. Por isso, muitas vezes, entre os homens simples e primitivos encontramos noções mais exatas de justiça do que entre os de muito saber.
Mas afinal, no que consiste a justiça?
Num estudo etimológico da palavra justiça, o mesmo nos leva a descrever a justiça como um procedimento que deve estar de acordo com o clássico princípio do ‘ius’, que são: “viver honestamente, não prejudicar o outro, dar a cada um, o que é seu”. Ou ainda, "iustitia est constans et perpetua voluntas ius suum cuique tribuendi" ("justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o seu direito"). No dizer de Ulpiano , justiça é a vontade firme e constante de atribuir a cada um o seu direito. Entre os gregos, a justiça era uma das virtudes básicas do homem, juntamente com a sabedoria, a fortaleza e a temperança (Platão, A República). Segundo Cícero , é o estado de espírito mantido pela comum utilidade de atribuir a cada um a sua dignidade. Situa-se no campo das ações voluntárias, que devem ser praticadas com perseverança, firmeza e consciência.
Não devemos confundir Direito com Justiça. Pois o Direito é o instrumento utilizado para alcançá-la. Na prática, o que se atribui a cada um como fruto da justiça é o “direito”. Esses direitos são determinados pela lei humana e pela lei natural. Como os homens fizeram leis apropriadas aos seus costumes e ao seu caráter, essas leis estabeleceram direitos que podem variar com o progresso. Fora do direito consagrado pela lei humana, qual a base da justiça fundada sobre a lei natural?
O critério da verdadeira justiça é de fato o de se querer para os outros; aquilo que se quer para si mesmo, e não de querer para si o que se deseja para os outros. Porque, se a justiça consiste em dar a cada um o que é seu esse argumento poderia então ser entendido, como “dê-se ao pobre a pobreza, ao miserável a miséria e ao desgraçado a desgraça, que isso é o que é deles”. 
Nem era senão por isso que ao escravo se dava a escravidão, que era o seu, no sistema de produção em que a fórmula se criou. Mas bem sabeis que essa justiça monstruosa tudo pode ser, menos Justiça. Como não é natural que se queira o próprio mal, se tomarmos o desejo pessoal por norma ou ponto de partida, podemos estar certos de jamais desejar para o próximo senão o bem.
A noção de justiça deve caminhar, portanto, para o campo da felicidade, do amor ao próximo. Para que o homem alcance essa felicidade, não a deve buscar em curto prazo, mas sim, deve encarar essa busca como uma postura de vida – só assim será feliz. Desse modo a ética é o grande caminho para o encontro da justiça, da felicidade, do bem supremo.

10 Relação do amor com a justiça

                                                                                               “O que fazemos por coerção, não fazemos por amor”.
                                                                                                                                                                     Immanuel Kant

Habitualmente a justiça é representada com os olhos vendados e com uma balança na mão. Essa imagem significa que a justiça não faz discriminação de pessoas nem tem preferências afetivas, que ela é muito mais racional e, portanto, fria. Ao contrário do amor, que se estabelece em uma dimensão essencialmente pessoal e de preferência afetiva.
Para conceituarmos a justiça é preciso, no entanto, focar as atenções para os conceitos de Ágape (amor caridade), Philos (amor de amizade) e Eros (amor paixão) que são fundamentais, na vida de qualquer indivíduo, e devem ser desenvolvidos por todo aquele que tem consciência desse fato. Isoladamente, a justiça corre risco de esquecer muitos aspectos pessoais e muitas considerações que só o amor é capaz de descobrir. Por isso ela precisa do amor.
Enquanto a justiça busca dar a cada um, o que  lhe é devido (suum cuique tribuere)  , estabelecendo uma correlação razoável entre delitos e penas, o amor se caracteriza pelo perdão e pela gratuidade, pela doação.
A lógica do amor é a lógica da superabundância (emprestar sem nada esperar em troca; enquanto a lógica da justiça é a lógica da equivalência, da reciprocidade (dar a cada um o que é seu). A relação é, assim, frequentemente entendida com excludentes: é "o amor ou a justiça".
Allan Kardec diz que "o amor e a caridade são o complemento da lei de justiça, porque amar ao próximo é fazer-lhe todo o bem possível, que desejaríamos que nos fosse feito”. Tal é o sentido das palavras de Jesus: "Amai-vos uns aos outros, como irmãos”  . Em linguagem corrente, e até mesmo a um nível superior de reflexão, a fortiori quando os dois conceitos são apresentados como estando em conflito, não há, não pode haver, pontes entre a prática individual do amor ao próximo e a prática coletiva da justiça que estabelece a igualdade e equidade. Favoreça-se um ou outro, a ênfase incide na desproporção entre amor e justiça. Se compreendida isoladamente, a justiça corre risco de esquecer muitos aspectos pessoais e muitas considerações que só o amor é capaz de descobrir.
A presente autora, esteirada no pensamento de Paul Ricoeur  que demonstra a proporção, a ligação, e a dialética profunda, ainda a tensão viva e fecunda entre amor e justiça; entendem que emerge no momento da ação, e que ambos reivindicam, há uma dimensão conciliadora, entre esses dois conceitos; como, aliás, os autores entendem, que nessa relação: "o amor e a justiça", não há que se falar em exclusão dessas virtudes cardeais.
Nesse diapasão, os princípios são integradores, se complementam. Amor e justiça, ambos estão contidos numa economia da dádiva, que excede a ética de que se pretendem as figuras e pela qual se sentem responsáveis. A lógica da superabundância está constantemente a desafiar, sem nunca se ter tornado menos necessária, de uma lógica de equivalência.
Vejamos assim, algumas das diversas relações entre Justiça e o Amor:
1. O amor, ou amor ao próximo, já prefigurada na doutrina dos estóicos, mas erguida pelo cristianismo ao seu máximo valor, é uma virtude que, com a justiça, regula o procedimento moral do homem para com os outros seres e, especialmente, para com os outros homens;
2. A justiça, a que correspondem os deveres estritos é a obrigação social e diz respeito à ação, ao passo que a caridade, a que correspondem os deveres largos, é a obediência à obrigação individual e só tem em conta a intenção;
3. A justiça é obrigatória e exigível; o amor, porém, se é obrigatório em relação a quem a dá, não é exigível em relação a quem recebe;
4. A justiça é estrita e tem como regra o respeito da lei; o amor não conhece nem limite nem regra e ultrapassa as obrigações estritas da lei;
5. O amor supõe a justiça e completa-a; antes de exercer o amor é necessário saber respeitar a liberdade e os direitos alheios;
6. O amor briga muitas vezes com a justiça: a caridade para com umas pessoas gera, amiúde, a injustiça para com outras, como no caso do chefe de família que, por filantropia, dissipa em dádivas a herança dos filhos;
7. Sem amor, a justiça seria demasiado rígida e até iníqua: onde a justiça fica inativa – perante a miséria, por exemplo – o amor julga-se imperiosamente obrigada a intervir.
Há, portanto, uma complementaridade entre a lógica de superabundância e a lógica de reciprocidade, ou entre a concepção de amor e da justiça. O imperativo ético do amor necessita do ideal ético da justiça, assim como a justiça deve ser complementada pelo mandamento do amor. Trata-se aqui, de fundamentar a ética para além de sua funcionalidade legal, descobrindo no amor o móbil para a renovação constante das leis que visam ao ideal de justiça: uma tarefa de exprimir esse equilíbrio na vida cotidiana, no plano individual, jurídico, social e político é perfeitamente praticável.

Conclusões

Na atual sociedade da informação, na era da tecnologia, das realidades virtuais e das grandes cidades impede um contato afetuoso, íntimo e empático entre as pessoas, carecemos de amor e de justiça. As pessoas se isolam. Apesar de estarem próximas fisicamente, amargam uma profunda solidão.Na atual sociedade da informação o indivíduo preza pela sua autonomia e liberdade pelo individualismo e egoísmo. As pessoas carecem das coisas do coração, como a ternura, a intimidade e do amor, mas quase sempre fracassam. Na atual sociedade urge o caminho da integração entre amor e justiça. Com efeito, a palavra amor, assim como a noção do conceito de justiça não são termos unívocos. A concepção de amor, vinda da filosofia grega, entendida como unidade perdida através da unificação dos amantes, como amizade, ou ainda como sentimento de afeição recíproco, amor/paixão ou finalmente, como caridade, é um conceito que apresenta enorme polissemia.
Por outro lado, a justiça, também apresenta um conceito polissêmico. O termo, também não é unívoco. Enquanto a justiça busca dar a cada um, o que  lhe é devido, estabelecendo uma correlação razoável entre delitos e penas, o amor se caracteriza pelo perdão e pela gratuidade, pela doação. Com efeito, ambos os termos apresentam diversas concepções ao longo da história.
Quanto ao conceito de amor, dentro destacam-se as concepções filosófica e religiosa: grega, cristã, judaica, espírita. Pode-se definir o amor como a totalidade dos sentimentos e desejos que estruturam o pensamento para a liberação de energia e de forças que guiam a ação na produção do bem e possibilitam a aquisição de qualidades, constituintes do crescimento do espírito. O amor, assim, deve ser visto como uma energia radiante expressa pelo nosso pensamento, alicerçado na vontade e no discernimento.
Por tudo isso, pode-se concluir que há uma relação entre o conceito de amor e justiça. Com efeito, as duas lógicas não são incompatíveis. É preciso nesse encontro de almas, do casamento das diversas concepções de amor: Eros, Philia e Ágape, unir a paixão, a amizade, a caridade – uma vez que sejamos capazes de uni-los, nos liberarmos do egoísmo, quando se ama verdadeiramente o outro para o bem dele e não mais para o nosso próprio bem.
Ao voltarmos à leitura de Platão, já compreenderemos porque é tão fácil se apaixonar e tão difícil, na vida de casal, continuarmos apaixonados. É preciso, na atualidade, no encontro de almas, do amor, do verdadeiro casamento de Eros, Philia e Ágape, do casamento da paixão, da amizade, da caridade – uma vez que sejamos capazes de uni-los, nos liberarmos do egoísmo, quando se ama verdadeiramente o outro para o bem dele e não mais para o nosso próprio bem. Diríamos mesmo que, a incorporação tenaz, passo a passo, de um grau suplementar de compaixão e generosidade em todos nossos códigos – código do amor e o código de justiça na sociedade da informação – que se constitui uma tarefa difícil e interminável. Mas, certamente, não impossível.
 Na atual sociedade da informação, praticando a apologia de um amor liberado do ego: um amor sem possessividade, sem pertencimento, sem fronteiras. Amando um pouco a si mesmo, ou amando melhor a si mesmo, amando um pouco o outro para o bem dele, um pouco menos para o nosso próprio bem. Na singularidade de cada encontro.             
A sociedade da informação, não pode ser um mundo sem lei, uma terra sem dono onde todos podem fazer o que bem entendem. Necessário se resgatar o amor e a justiça. Só o fato de se manter o anonimato, já não é boa coisa. A ausência da prática dos conceitos de amor e justiça na sociedade da informação acarreta infelicidade. Assim, na sociedade da informação, melhor, seria ficarmos então não com paradigma do amor/ausência platônico, mas com o amor de Santo Agostinho que concluiu que: “a única medida do amor, é amar sem medidas.”
Por isso, para que se concretize a justiça é preciso se realiza como uma decisão ética entre os homens para a felicidade, na sociedade da informação. O imperativo ético do amor necessita do ideal ético da justiça, assim como a justiça deve ser complementada pelo mandamento do amor. O amor deve inspirar a justiça humana na atual sociedade da informação, da mesma forma que a natureza divina inspira a natureza humana.

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Informações sobre o texto

Publicação anterior no Jusnavegandi: Artigo: Intuição e o conhecimento do Direito. LINHARES, Mônica Tereza Mansur. Intuição e o conhecimento do Direito . Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 17, n. 3195, 31 mar. 2012. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/21407>. Acesso em: 10 abr. 2015. http://jus.com.br/artigos/21407/intuicao-e-o-conhecimento-do-direito/3#ixzz3WweO8cOt

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