Resenha do livro "Leituras em economia e administração", que se compõe de uma coletânea de artigos que discutem os desafios a serem enfrentados por todos os atores envolvidos com a competitividade da economia brasileira.

DESENVOLVIMENTO REGIONAL: UMA QUESTÃO MULTIDISCIPLINAR

ARAÚJO, Wilson Alves de. Desenvolvimento regional: conhecimento, cooperação e competitividade. In: _______ (Org.). Leituras em economia e administração. 1. ed. São Mateus, ES: Opção, 2008. p.  15-35.  

Aspectos introdutórios

O livro Leituras em economia e administração compõe-se de uma coletânea de artigos que discutem os desafios a serem enfrentados por todos os atores envolvidos com a competitividade da economia brasileira. Todavia, o livro em questão não pretende abarcar todas as dimensões do debate. Sua maior contribuição é abrir uma discussão mais qualificada para que os agentes econômicos e políticos brasileiros possam refletir sobre a prioridade de sua agenda nacional de desenvolvimento socioeconômico[2]{C}.

Diante da vasta quantidade de informações apresentadas no referido livro, neste escrito, delimitamos nosso olhar, análise, inferências e possíveis críticas, apenas ao artigo intitulado “Desenvolvimento regional: conhecimento, cooperação e competitividade”, de Wilson Alves de Araújo[3]{C}.

Almeja-se por meio desta escritura, mesmo que ainda com certa imaturidade intelectual, emitir juízes de valor acerca do tema norteador proposto para o artigo em questão. Todavia, em vista a amplitude de conteúdos abordados por Araújo, este estudo delimita-se apenas a um dado recorte de sua obra.

Não obstante, nossas deduções fundamentam-se em outras leituras – SEBRAE (2002), Vasconcellos (2011) e Quandt (1997) – e na palestra proporcionada pelo ilustre professor Jandir Ferrera de Lima[4]{C}, realizada recentemente no IV Seminário de Iniciação Científica na Faculdade do Sul da Bahia – FASB/Campus I.

Desenvolvimento regional: conhecimento, cooperação e competitividade

De forma precisa, fundamentada e contextualizada, Araújo, no referido artigo, nos apresenta uma série de conhecimentos a respeito de uma das áreas mais amplas e ricamente discutidas na atualidade: a ciência econômica – ciência social que tem como objeto de estudo a questão da escassez[5]{C}.

Logo nas primeiras linhas de sua explanação teórica, Araújo fornece a temática central de seu estudo:

[...] aborda a sustentabilidade de processos de desenvolvimento baseados nos aglomerados produtivos, especialmente nos arranjos produtivos locais e nas redes de empresas, centrando a discussão no conhecimento, cooperação, competitividade e na participação dos diversos atores envolvidos com o crescimento e desenvolvimento regional[6].

Diante do posto, nota-se que o autor opta por trilhar por uma linha de pesquisa voltada para o desenvolvimento econômico, com foco nos aglomerados produtivos, perpassando pelas várias configurações produtivas dos distritos industriais marshalianos até os arranjos produtivos locais.

Em uma breve retomada ao passado, Araújo diz que a passagem do século XX para o XXI foi o momento em que se evidenciou que o desenvolvimento não era um processo mecânico e rígido e sim uma articulação de iniciativas bem-estruturadas, fruto da adequada leitura das tendências futuras. Além disso, afirma ter sido após as duas últimas décadas do século passado, em que vigorou uma enorme descrença em torno das políticas de desenvolvimento, máxime as políticas industriais, que se deu início a implantação de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento produtivo e social, oriundo da emergente necessidade e importância que vieram a desempenhar com o decorrer do tempo.

A propositura para debater tais questões, fica a cargo de uma força de trabalho capacitada e inovadora frente às novas tecnologias, com regras próprias, provenientes do ritmo da globalização.

A globalização, processo que conduz a uma integração cada vez mais estreita das economias e das sociedades, tem como principais características o desenvolvimento e a difusão de novas tecnologias baseadas na pesquisa, inovação e, principalmente, ancoradas nos setores de semicondutores, telecomunicação e informática. Conjugado a essas mudanças tecnológicas, verifica-se um movimento de reestruturação comercial e produtiva, não mais no âmbito nacional, mas mundial. Este processo de forte internacionalização econômica é denominada de “globalização produtiva”[7]{C}.

A capacidade de gerar inovações tem sido identificada consensualmente como fator chave do sucesso de empresas e nações. Tal capacidade é obtida através de intensa interdependência entre os diversos atores, produtores e usuários de bens, serviços e tecnologias, sendo facilitada em ambientes socioeconômicos comuns, através das interações tecnológicas que, no seu conjunto, definem as diferenças específicas entre países e regiões.

Um dos propulsores do desenvolvimento econômico no Brasil é justamente o arranjo produtivo local ou cluster, termo criado pelo professor Michael Porter, entendido como concentração setorial e geográfica de empresas. Dentre as suas características mais importantes tem-se o ganho de eficiência coletiva, entendida como vantagem competitiva das economias externas locais e da ação conjunta[8]{C}.

O conceito de Arranjo Produtivo Local (APL), no Brasil, constitui uma adaptação do conceito italiano de sistemas produtivos e inovativos locais, que sugere uma grande articulação entre as instituições envolvidas.

O SEBRAE{C}[9]{C} define os Arranjos Produtivos Locais da seguinte forma:

[...] aglomerações espaciais de agentes econômicos, políticos e sociais, com foco em um conjunto específico de atividades econômicas e que apresenta vínculos e interdependência. Por meio desses vínculos, origina-se um processo de aprendizagem que possibilita a introdução de inovações de produtos, processos e formatos organizacionais, gerando maior competitividade para as empresas integradas ao arranjo. A formação de APL encontra-se associada a trajetórias históricas de formação de vínculos territoriais (regionais e locais), a partir de uma base social, cultural, política e econômica comum.

Além do mais, as articulações entre os agentes locais nas aglomerações produtivas não são suficientemente desenvolvidas para caracterizá-las como sistemas. Logo, exigem a participação e a interação de empresas com suas variadas formas de representação e associação e, também, da contribuição das diversas outras instituições públicas e privadas voltadas para a formação e capacitação.

O formato clássico das aglomerações produtivas são os chamados distritos industriais, também designados de clusters marshalianos, especialmente sua vertente contemporânea, os distritos da Terceira Itália, por terem merecido certo destaque na literatura de geografia-econômica. 

O economista inglês Alfred Marshall, daí a expressão marshalianos, foi o primeiro autor a reconhecer na Inglaterra do final do século XIX, a importância das economias externas para o desempenho econômico das firmas. Seu dinamismo inovativo decorre do fato de conceber um tipo de arranjo institucional específico e localizado, capaz de estabelecer o aprendizado coletivo interativo que, por sua vez, é alimentado e induzido no tempo pelo próprio processo de competição entre as firmas do distrito.

As relações horizontais dentro do distrito industrial, segundo Araújo, possibilita o processo de aprendizagem coletiva e o desenvolvimento de novos conhecimentos, mediante a combinação entre concorrência e cooperação.

Em conformidade com as questões abordadas no IV Seminário de Iniciação Científica/FASB – evento em que foram apresentados diversos estudos, pesquisas e dados ligados à temática central do mesmo, “Desenvolvimento regional: saberes e sociedade”, proporcionando aos presentes contribuições enriquecedoras acerca das estratégias econômicas da região – especialmente, no que tange as informações fornecidas por Jandir F. de Lima, evidencia-se que o desenvolvimento regional no Extremo Sul da Bahia, em cidades como Teixeira de Freitas, Alcobaça, Medeiros Neto, entre outras, está fadado nos próximos anos – caso não mude as estratégias, propostas, a forma de governança e construção de capital, enfim, a base econômica local – a um crescimento mínimo em comparação a outras localidades dotadas de economias criativas, como Terra Rocha/PR, cidade conhecida internacionalmente como a terra do bordado. 

De acordo com Lima o desenvolvimento regional consiste basicamente em duas coisas:

[...] é um processo e um estágio. [...] é um processo multidisciplinar, que envolve bem mais do que as opiniões dos economistas, envolve também a opinião dos geólogos, envolve também ação dos assistentes sociais, ação dos advogados e assim por diante. Por isso que toda análise ligada ao desenvolvimento regional é uma análise ligada à questão multidisciplinar[10].

Portanto, o desenvolvimento regional não deve ser visto como uma linha de pesquisa centralizada exclusivamente na Economia. Como questão multidisciplinar precisa ser explorada, acolhida e discutida por todas as áreas do conhecimento, para que haja o seu pleno desenvolvimento e manejo.

No Brasil, os Arranjos Produtivos Locais (APL) são considerados estratégias de grande importância para o desenvolvimento local e regional, são o foco de políticas governamentais e contribuem para a dinamização da estrutura produtiva das regiões que os acolhem.

Nesse contexto torna-se relevante avaliar as possibilidades e os processos de formação de possíveis Arranjos Produtivos Locais nas regiões brasileiras. Além disso, é vital que se procure assegurar a qualidade e a disponibilidade de infraestrutura, de instituições de apoio, de recursos e de mão-de-obra em todo o território nacional[11]{C}.

Em suma, os Arranjos Produtivos Locais são um tipo de aglomerado produtivo e se definem como aglomeração de empresas, localizadas em um mesmo território, que apresentam especialização produtiva e mantêm vínculos de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre si.

Em face às modificações que vem ocorrendo no mercado, os Arranjos Produtivos Locais, vêm como instrumento de desenvolvimento econômico integrado, facilitam o acesso de micro, pequenas e médias empresas a programas de gestão empresarial, mercado, processo, produtos e linhas de financiamento, visando seu fortalecimento no mercado interno e externo. A APL facilita a troca de informação entre entidades de classe, governo e instituições de ensino e pesquisa, entre as empresas, o que aprimora suas vantagens competitivas, vislumbrando cenário de estratégias de crescimento e desenvolvimento e não mais de concorrência desleal.

 

REFERÊNCIAS BÁSICAS

 

ARAÚJO, Wilson Alves de (Org.). Leituras e economia e administração. 1. ed. São Mateus, ES: Opção, 2008. p.  15-35.

LATTES, Currículo do sistema de currículos. Wilson Alves de Araújo. Disponível em: < http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4755169T6&tipo=simples&idiomaExibicao=1 >. Acesso em: 20 nov. 2011.

LATTES, Currículo do sistema de currículos. Jandir Ferrera de Lima:
bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Nível 2. Disponível em: < http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4707400T8 >. Acesso em: 20 nov. 2011.

QUANDT, Carlos Olavo. Inovação, competividade e desenvolvimento regional: os desafios da reestruturação produtiva do Estado. Revista Paranaense de Desenvolvimento, Curitiba: IPARDES, n.91, p.9-32, maio/ago. 1997. Disponível em: < http://pucpr-br.academia.edu/CarlosQuandt/Papers/200935/Inovacao_Competitividade_E_Desenvolvimento_Regional_Os_Desafios_Da_Reestruturacao_Produtiva_Do_Estado >. Acesso em: 15 nov. 2011.

SEBRAE, Serviço Brasileiro de Apoio a Média e Pequena Empresa. Subsídios para a identificação de clusters no Brasil: atividades da indústria. Marcos Aurélio Bedê. São Paulo, 2002.

VASCONCELLOS, Marco Antonio Sandoval de. Economia: micro e macro. 4. ed. 9. reimpr. São Paulo: Atlas, 2011.

 

REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES

ARAÚJO, Wilson Alves de. Desenvolvimento econômico e arranjo produtivo local: uma relação necessária. Vila Velha, ES: Opção, 2010.

OLIVEIRA, Wilbett Rodrigues de. Iniciação aos estudos acadêmicos. 3. ed. Teixeira de Freitas, Unigraf, 2007.

SEBRAE, Serviço Brasileiro de Apoio a Média e Pequena Empresa. Infoentrevista Paraíso Bordados, de Terra Roxa. Disponível em: < http://www.sebraepr.com.br/portal/page/portal/PORTAL_INTERNET/PRINCIPAL2004/BUSCA_TEXTO?_dad=portal&p_cust=DEST&p_texto_id=2898 >. Acesso em: 20 nov. 2011.


[1] Graduanda do curso de Direito, X Período, na Faculdade de Sul da Bahia – FASB, Campus I. E-mail: dianacostasantos@hotmail.com.

[2] ARAÚJO, Wilson Alves de (Org.). Leituras e economia e administração. 1. ed. São Mateus, ES: Opção, 2008.

[3] Organizador da referida obra. Graduado em Economia, Especialista em Docência Superior e Mestre em Economia Empresarial. Atualmente é professor Assistente da Faculdade do Sul da Bahia - FASB. Diretor Financeiro desta IES. Com experiência profissional no Mercado Financeiro e atuação no setor Industrial. Na Educação Superior, além da docência exercida na área das Ciências Sociais Aplicadas, tem experiência em gestão de cursos de graduação, direção administrativa e financeira, desenvolvendo nas organizações o planejamento estratégico, com ênfase em mercadologia.

[4] Doutor em Desenvolvimento Regional (Ph.D.) pela Universidade do Québec(UQAC)/Canadá. Mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ) /RS. Professor do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional e Agronegócio (Mestrado e Doutorado), da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)/Campus de Toledo. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, pesquisador do Grupo de Pesquisas em Desenvolvimento Regional e Agronegócio (GEPEC) e pesquisador associado do Centro de Pesquisas sobre o Desenvolvimento Territorial (CRDT) da Universidade do Québec (Canadá). Ganhador do Premio BRDE de Desenvolvimento em varias edições. Atua na área de desenvolvimento regional, com ênfase em planejamento regional, economia dos territórios, geoeconomia e desigualdades econômicas. Autor de textos científicos publicados no Brasil e no exterior.

[5] VASCONCELLOS, Marco Antonio Sandoval de. Economia: micro e macro. 4. ed. 9. reimpr. São Paulo: Atlas, 2011.

[6] ARAÚJO, Wilson Alves de. Desenvolvimento regional: conhecimento, cooperação e competitividade. In: _______ (Org.). Leituras em economia e administração. 1. ed. São Mateus, ES: Opção, 2008. p.  17.

[7] ARAÚJO, 2008. Op. cit., p. 18.

{C}[8]{C} PORTER apud ARAÚJO, 2008. Op. cit., p. 19.

{C}[9]{C} SEBRAE, Serviço Brasileiro de Apoio a Média e Pequena Empresa. Subsídios para a identificação de clusters no Brasil: atividades da indústria. Marcos Aurélio Bedê. São Paulo, 2002.

[10] Gravação audiovisual da palestra de Jandir F. de Lima. IV Seminário de Iniciação Científica. Faculdade do Sul da Bahia/FASB. 27 out. 2011.

[11] QUANDT, Carlos Olavo. Inovação, competividade e desenvolvimento regional: os desafios da reestruturação produtiva do Estado. Revista Paranaense de Desenvolvimento, Curitiba: IPARDES, n.91, p.9-32, maio/ago. 1997. Disponível em: < http://pucpr-br.academia.edu/CarlosQuandt/Papers/200935/Inovacao_Competitividade_E_Desenvolvimento_Regional_Os_Desafios_Da_Reestruturacao_Produtiva_Do_Estado >. Acesso em: 15 nov. 2011.



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