Ainda que muitos se empenhem em afirmar o contrário, todos somos fofoqueiros por natureza; fofocar é fundamentalmente humano.

SOBRE A «FOFOCA» E A VIDA DOS DEMAIS

Atahualpa FernandezÓ

“Yo creo que los hombres viven en sociedad por saber cada uno lo que pasa en la casa del otro.”Josè Selgas 

Robin Dunbar sustenta que “los primates pasamos más de un tercio de nuestras vidas tratando de informarnos sobre la vida de los demás” (o que ele denomina mais finamente social topics). Nos encanta a informação. Amamos as notícias, os rumores, a fofoca, a bisbilhotice e, o mais importante, a informação acerca dos demais e do futuro. Queremos a informação e a queremos já, quanto antes, agora melhor que logo. As fofocas nos ajudam a obter informação que nos permite eleger e tomar decisões.

Dado que somos seres com intensa vida social e dependemos uns dos outros, conhecer a personalidade e a vida dos personagens que formam parte da rede à que pertencemos foi e é fundamental para a sobrevivência de nuestra espécie porque assim podemos saber de quem fiar-nos e de quem não à hora de cooperar. Como diz  Roy Baumeister, “la murmuración funciona como instrumento de vigilancia empelado por las culturas como método barato para regular las conductas de sus miembros, en especial de aquellos que persiguen intereses egoístas a expensas de la comunidad”.

A sugestão de Dunbar é no sentido de que as fofocas ajudaram nossos ancestrais a acompanhar um número muito maior de relacionamentos sociais do que poderiam pela observação e interação direta; falar era mais eficiente que se aproximar de todos com o intuito de estabelecer laços de amizades. Esta visão da fofoca como “comportamento de aproximação humano” explica por que a troca de informações sociais incluem tantas exibições de simpatia. Quer dizer, se o conteúdo da linguagem foi moldado pelas inclinações psicológicas de nossos ancestrais, que assunto pareceria mais relevante para um primata altamente social?

A resposta, claro está, é o conteúdo social (segundo Dunbar, ao redor de 80% de todo o discurso linguístico que se produz de maneira natural inclui questões sociais). Se nossos ancestrais já estavam passando a maior parte de suas vidas conscientes pensando uns sobre os outros, e se preocupando com seus relacionamentos, então eles teriam uma inclinação psicológica para favorecer o conteúdo social em suas conversas: a fofoca satisfaria seu apetite de informações sociais (recordemos que a reputação das pessoas está determinada pelo que outros lhes vem fazer e, inclusive, mais pelo que outros falam). Se tivéssemos evoluído a partir de aranhas solitárias, nossa linguagem seria dominada por teias e moscas, assim como nossas mentes aracnídeas (G. Miller).

De fato, não existem culturas onde as pessoas não “fofoquem” e não lhes importe em absoluto o que fazem os demais. Nosso apetite por informação social, quero dizer, por saber o que ocorre com os outros e conhecer vidas alheias pode ser qualificado “sin exagerar un ápice de voraz”. Um apetite natural, universal e que está enraizado na biologia: a capacidade de cuidar da vida dos demais é parte do que somos. Ainda que muitos se empenhem em afirmar o contrário, todos somos fofoqueiros por natureza; fofocar é fundamentalmente humano.

E tudo isto não somente com relação ao fofocar ou ao bisbilhotar analógico, senão também no que se refere a sua dimensão virtual ou digital. O instinto biológico de conseguir informação social é uma força que foi cambiando ao largo da história e se expressou de diferentes maneiras. Agora se pode dizer que estamos de novo em um mundo sem paredes e que fechamos o círculo voltando à época dos caçadores-recoletores. Temos Facebook, Twitter, Instagram, Big Brother, televisão, revistas, etc.; formas todas elas de dar vazão às nossas paixões ancestrais, “del afán de ser visible, de meter las narices en la vida de los demás y degustar de sus experiencias íntimas”.

Atualmente todos somos exibicionistas e espectadores. Nos mostramos para que nos mirem (evidentemente de forma seletiva) e, a sua vez, miramos aos demais. Gostamos de posar e manifestar nossas opiniões pessoais, ter uma audiência e vários amigos imaginários, expressar abertamente nossas preferências, idiossincrasias e obsessões, mostrar (sempre) a melhor versão de nós mesmos para que as pessoas nos vejam como nós nos vemos, criar testemunhas de nossa vida e que todo o mundo saiba (“quase”) tudo sobre o que fazemos, etc….etc.; daí o enorme êxito das redes sociais - esta espécie de vacina psicológica contra uma duvidosa ou baixa autoestima e um eficaz mecanismo “para empujar a la persona hacia una inclusión cada vez mayor y a una aceptación por un número cada vez mayor de personas”.

“¿Cómo vas a saber como va tu vida si no sabes cómo van las vidas de los demás?  ¿Cómo vas a diseñar una vida privada para ti si no sabes cómo viven los demás? ¿Cómo vamos a hacer la comparación social tan necesaria (mandato evolucionista) sin saber qué hacen los demás?” (John L. Locke). Espiar a vida privada dos demais é um instinto tão enormemente fascinante, poderoso e valioso que não poderia haver sociedade sem fofoca (M. Silveira). É por isso “por lo que somos buitres sociales que se ciernen sobre los aspectos sensacionalistas de la vida de los demás” (J. Bering).

Como disse um personagem de Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros”... Mas o paraíso também (J. Haidt). Celebremos, pois, os mexericos.


Ó Membro do Ministério Público da União/MPU/MPT/Brasil (Fiscal/Public Prosecutor); Doutor(Ph.D.) Filosofía Jurídica, Moral y Política/ Universidad de Barcelona/España; Postdoctorado (Postdoctoral research) Teoría Social, Ética y Economia/ Universitat Pompeu Fabra/Barcelona/España; Mestre (LL.M.) Ciências Jurídico-civilísticas/Universidade de Coimbra/Portugal; Postdoctorado (Postdoctoral research)/Center for Evolutionary Psychology da University of California/Santa Barbara/USA; Postdoctorado (Postdoctoral research)/ Faculty of Law/CAU- Christian-Albrechts-Universität zu Kiel/Schleswig-Holstein/Deutschland; Postdoctorado (Postdoctoral research) Neurociencia Cognitiva/ Universitat de les Illes Balears-UIB/España; Especialista Direito Público/UFPa./Brasil; Profesor Colaborador Honorífico (Associate Professor) e Investigador da Universitat de les Illes Balears, Cognición y Evolución Humana / Laboratório de Sistemática Humana/ Evocog. Grupo de Cognición y Evolución humana (Human Evolution and Cognition Group)/Unidad Asociada al IFISC (CSIC-UIB)/Instituto de Física Interdisciplinar y Sistemas Complejos/UIB/España.


Autor

  • Atahualpa Fernandez

    Membro do Ministério Público da União/MPU/MPT/Brasil (Fiscal/Public Prosecutor); Doutor (Ph.D.) Filosofía Jurídica, Moral y Política/ Universidad de Barcelona/España; Postdoctorado (Postdoctoral research) Teoría Social, Ética y Economia/ Universitat Pompeu Fabra/Barcelona/España; Mestre (LL.M.) Ciências Jurídico-civilísticas/Universidade de Coimbra/Portugal; Postdoctorado (Postdoctoral research)/Center for Evolutionary Psychology da University of California/Santa Barbara/USA; Postdoctorado (Postdoctoral research)/ Faculty of Law/CAU- Christian-Albrechts-Universität zu Kiel/Schleswig-Holstein/Deutschland; Postdoctorado (Postdoctoral research) Neurociencia Cognitiva/ Universitat de les Illes Balears-UIB/España; Especialista Direito Público/UFPa./Brasil; Profesor Colaborador Honorífico (Associate Professor) e Investigador da Universitat de les Illes Balears, Cognición y Evolución Humana / Laboratório de Sistemática Humana/ Evocog. Grupo de Cognición y Evolución humana/Unidad Asociada al IFISC (CSIC-UIB)/Instituto de Física Interdisciplinar y Sistemas Complejos/UIB/España; Independent Researcher.

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