O artigo trata do amálgama defeituoso que foi formada a sociedade brasileira, calcada em valores morais deturpados e desconstruída intelectualmente.

                                                É inegável o fato de que a sociedade brasileira atravessa uma crise moral e ética sem precedentes. Por isso, não estarreceu  aos telespectadores a insolente confissão feita por Pedro Barusco, em rede nacional, em tom de deboche para com os honestos trabalhadores que vivem nessa terra de Pindorama.

                                                Na visão dos sociólogos, há sintomas evidentes de que estamos ultrapassando a barreira do mínimo ético, abaixo da qual sobrevém a decadência e a degradação. Só o insólito é objeto de aplauso e divulgação. Virtudes como a honra, a seriedade, a retidão de caráter e a prática do bem não atraem, nem sensibiliza mais a ninguém.

                                                Mas, convenhamos: a culpa não é do PT, de Dilma, do Lula, FHC, Aécio ou de qualquer outro líder ou partido político. O mal é do amálgama moral com que foi formada a nossa nação. A desonestidade é uma mácula enraizada de maneira lastimável na cultura brasileira, com registros desde o Brasil Colônia. Tem-se como exemplo a denúncia do erudito PADRE ANTÔNIO VIEIRA endereçada ao rei de Portugal, cujo conteúdo alertava sobre a “arte de furtar” e a desfaçatez dos próprios funcionários do monarca. Em seu escrito, dizia ele: “A maior dificuldade está no conhecimento deles, porque, como o ofício é infame e reprovado por Deus e pela natureza, não querem ser tidos por tais, e, por isso, andam todos disfarçados; mas será fácil dar-lhes alcance, se o dermos a suas máscaras, que são as artes de que usam. Destas faço aqui praça e lhas descubro todas, mostrando seus enganos como em espelho e minhas verdades como em teatro, para fazer de tudo um mostrador certíssimo das horas, momentos e pontos em que a gazua destes piratas faz seu ofício”.[1]

                                                         Barusco e Renato Duque são protótipos de um desarranjo social antigo, milenar até! Por aqui, é banalizada a perversidade da enganação, da busca da vantagem pessoal, do privilégio individual em detrimento do bem comum. No Brasil, o Estado timidamente combate a corrupção - um mal que reconhecidamente já é endêmico, e, por pior ainda, os cidadãos simplificam o problema da corrupção à caricatura da figura do político de hábitos escusos.

                                                Diferentemente do que se comumente pensa, a corrupção não é um fenômeno circunscrito a uma elite política perversa e sem ética, revela, por si mesmo, os valores fortemente arraigados na formação social brasileira.

                                                Na obra "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda, ele chama a atenção para a nossa desonestidade, como característica do nosso perfil psicológico, herdada dos colonizadores portugueses. No dizer do autor, é da nossa essência genética exaltar a ética do aventureiro, estimulando a audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem.

                                                A plasticidade social do povo brasileiro advém do colonizador português, que seguiu a ética da compensação imediata e buscava a "riqueza da ousadia e não a riqueza do trabalho", que pudesse "extrair do solo grandes benefícios, sem grandes sacrifícios" (RAÍZES DO BRASIL, 1995, pág 49).

A ausência de projeto, de dedicação permanente e a busca da riqueza fácil deram à colonização portuguesa um nítido aspecto de exploração comercial; de "feitorização muito mais do que de colonização.

                                                O Brasil é um laboratório da História em matéria de instabilidade política e institucional. Na colonização viveu os atropelos dos usurpadores. Cada um deles oferecendo prebendas e roubando riquezas. Sem exceção. Os donos “descobridores” e seus concorrentes instalaram uma luta constante no processo de rapina que durou cerca de três séculos.

                                                O “homem cordial” descrito pelo sociólogo Sérgio Buarque é exatamente o produto de um processo de socialização daquele indivíduo subjugado aos valores da família patriarcal que não tem a capacidade de mensurar com uma exatidão segura os limites entre o público e o privado. Sua ética é pautada pelo personalismo, que confronta a impessoalidade, a abstração, a racionalidade e a coletividade pela cooperação.

                                                Continuamos seguindo a mesma lógica dos portugueses descobridores. Vem dos nossos ancestrais a nociva confusão entre o público e o privado. Não cumprimos corretamente os nossos deveres, mas gostamos de exigir abusivamente os nossos direitos. Somos “privúblicos”; membros defensores da República, mas também da apropriação do que dela puder ser subtraído, ou, melhor, uma Re“privada”.

                                                As nossas mobilizações populares têm esse paradoxo de produzir heróis de fanfarras. Basta referenciar os tipos que lideravam o Movimento do Passe Livre, em junho passado, todos cooptados e financiados por agremiações políticas.

                                                É paradoxal que estudantes de classe média alta falem de corrupção no Governo quando estão sendo financiados pelo FIES,  programa criado exclusivamente para financiamento de estudantes pobres. Isso não seria uma corrupção da finalidade? É triste ver ricos gritando palavras de ordem pela melhoria da saúde e do SUS, quando pegam remédios gratuitos na UNICAT. É certo? Queremos um país melhor mas não queremos ser esses edificadores. Queremos uma sociedade justa, fraterna e solidária, quando somos desprovidos do senso da solidariedade, de justiça e do bem-estar coletivo.

                                                O Brasil não é melhor porque também não somos melhores. Quem pode se dizer cidadão consciente? Um país onde o Pastor Valdomiro tem milhões de seguidores não pode criticar a alienação dos que seguem o Estado Islâmico. A desconstrução intelectual e moral deve ser uma base necessária para a percepção de que o direito do povo e a obrigação do Estado é mero conceito, requerendo um conjunto de ações antecipadamente de cada indivíduo e seus grupos que compõem a sociedade.

                                                Colocar a culpa no Governo tornou-se uma desculpa pela nossa inação. Odiamos o Estado, mas continuamos elegendo aqueles que dizemos serem os piores candidatos para geri-lo. Então, somos nós os vitoriosos detratores do nosso próprio espelho. Como eleitores, vivemos uma relação sadomasoquista cívica com os mandatários: os elegemos e depois “batemos” neles; quando eleitos, eles devolvem a agressão e destroem as nossas vontades. Somos vítimas e também vilões.

                                                É bem verdade que não se aplica ao todo da sociedade tal condição, mas também é por certo que uma boa parte daqueles que estão criticando o Governo foram responsáveis pela renovação do mandato de Dilma e de alguns dos parlamentares que a apoiam. Outro paradoxo! Falar do Governo e botar a culpa em Dilma virou um lugar-comum.

                                                Certas condutas típicas de um povo são tão repetitivas que acabam por receber um nome e uma explicação padronizados. Conduta, nome e explicação formam assim a unidade de uma auto-imagem que, ao tornar-se um lugar-comum, um topos, um modo de agir que particulariza os seus cidadãos. São características positivas ou negativas a partir do padrão de conduta. O povo inglês tem fama de pontual (pontualidade britânica), o alemão de ser meticuloso, o teatralismo italiano, a ranhetice francesa, o praticismo americano, o sentimentalismo russo, a modéstia japonesa, a melancolia judaica, tudo isso é reconhecido mundialmente.  

                                                Sendo o esquema de conduta um padrão de reconhecimento, como somos reconhecidos lá fora?  Qual seria a nossa auto-imagem mais comum? Ao sermos observados de relance, o que diria um estrangeiro a nosso respeito? Como lido com estrangeiros, posso assegurar que somos vistos coletivamente como desonestos.

                                                Quando dizemos que nosso povo não sabe escolher os seus representantes, é descomprometido e inconsequente, só podemos usar essas expressões para explicar a conduta alheia, e não a nossa? Somos nós, contudo, os responsáveis, pela eleição dos que ai estão. Somos nós o material humano que também se corrompe quando chega ao poder. Somos essa etnia, essa identidade nacional que ruge, mas ao mesmo tempo se deixa manipular por falsos arautos da seriedade. Nesse topos em particular, temos a compulsão de criar ídolos e salvadores da pátria que, ao sentar na cadeira, corrompem as suas outrora propaladas virtude

                                                Assim como aconteceu com a Tomada da Bastilha no início do inverno francês do ano de 1789, a população segue fazendo uma revolução em busca da libertação social de anacrônicos males. Se a Bastilha (uma fortaleza medieval que na época tinha apenas sete prisioneiros) tornou-se um dos símbolos da Revolução Francesa, podemos fazer dessas mobilizações a nossa “Bastilha”.

                                               Na França do Século XVIII, as ideias de Rousseau e do iluminismo inspiraram profundamente a Revolução francesa. Também parte das revoluções do Século XX tinham a inspiração do existencialismo de Kierkegaard, Edmund Husserl e Martin Heidegger. A preocupação do ser no mundo e suas variadas e possíveis relações com o outro e com tudo ao redor de si fez com que se criasse uma ordem mundial em defesa dos direitos humanos.

                                               No presente, caminhamos em retrocesso. Na pauta difusa, se reivindica até uma intervenção militar. Lembrando o Marechal Castelo Branco, “as vivandeiras rondam os bivaques dos granadeiros”. Que absurdo! Olhando bem a fundo os fatos recentes, se percebe que parte das reivindicações são inócuas ou vazias, como o impeachment de Dilma. Os pleitos são regionalizados e desconstituídos da visão coletiva de Nação. Cada protesto, um grito diferente...

                                               A sociedade precisa saber reivindicar. E se reinventar. Temos temas urgentes como a reforma política. Mas, igualmente temos urgência na reforma da administração pública e do Poder Judiciário. Uma pauta bem definida poderia até incluir, ao meu ver: a) fim do financiamento privado das campanhas eleitorais; b) financiamento público das eleições; c) o fim da reeleição; d) eleição direta para os Tribunais Superiores e mandato de 08 anos aos eleitos, não renováveis; e) extinção da excrescência chamada “Quinto Constitucional”; f) verdadeira transparência na gestão pública; g) extinção das verbas dos gabinetes parlamentares e do gasto não-fiscalizado; h)  alteração da Lei Orgânica da Magistratura para permitir a demissão de magistrados ímprobos; i)  preenchimento dos cargos de confiança na Administração Pública apenas por servidores concursados; j) um melhor aparelhamento do Poder Judiciário; ...

                                                Por isso, nesta semana que antecede o desfecho da quaresma, de coração penitenciado, pensemos nos nossos males e na nossa conduta pessoal. Se mudarmos intimamente, aí sim, tenho a forte esperança de que poderemos mudar o Brasil.


[1] VIEIRA, Padre Antônio. Arte de Furtar. São Paulo: Martin Claret, 2006, p.30-31


Autor


Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria