A IRMANDADE MUÇULMANA E OS MOVIMENTOS TERRORISTAS NO EGITO
Rogério Tadeu Romano
A Irmandade Muçulmana, que luta para estabelecer a sharia (leis do islamismo) como base para governos, é considerada a precursora do fundamentalismo islâmico contemporâneo, que, a partir de cisões, deu origem a grupos mais violentos como o Hamas e a al-Qaeda e tem o objetivo de unificar os países de população muçulmana e opõe-se às tendências seculares de algumas nações islâmicas (ex: Turquia, Líbano, Egito, Marrocos) assim como rejeita as influências Sufi e o chamado "islamismo moderado".
Ela tem origem na mesma seita islâmica radical uaabita, sunita, base da sociedade da Arábia Saudita e que inspirou a milícia dos talibãs e a rede terrorista Al-Qaeda. O chamado EI é um prolongamento dessa ação armada. O EI perdeu bases territoriais com o fracasso do Califado Àrabe, em áreas na Síria e Iraque, mas deve se estender de forma difusa em outros movimentos e criminosos atentados.
Fundada em 1928 no Egito, com o objetivo de libertar a pátria islâmica do controle dos estrangeiros e infiéis (kafir) e estabelecer um estado islâmico unificado. Duas figuras exercem uma influência poderosa sobre o pensamento da Irmandade: o seu fundador Hassan al-Banna e o escritor Sayed Outb.
Como explicou Cláudio Fernandes(Brasil Escola), A Irmandade foi fundada em 1928 por Hassan Al-Banna, que já era conhecido como um crítico radical da postura que o Império Turco adotara com relação à Ummah, isto é, a “Comunidade Muçulmana” (entende-se por isso todos os muçulmanos do planeta). Al-Banna criticava duramente a interferência dos modelos da civilização ocidental sobre o mundo muçulmano durante a hegemonia dos turcos e ocupava-se em elaborar uma doutrina que recuperasse os fundamentos do Islã com vistas à implementação da Sharia (isto é, a Lei Islâmica) em todo a Ummah. Além desse objetivo, Al-Banna ainda defendia a expansão do islamismo para territórios ainda não conquistados, objetivando o combate e a submissão dos “infiéis”, ou seja, aqueles não comungassem da religião islâmica
As ideias de Al-Banna logo se disseminaram no Egito e no restante do mundo muçulmano, conquistando milhares de adeptos para a Irmandade Muçulmana. O governo egípcio chegou a colocar a organização de Al-Banna na ilegalidade, mas isso não causou o arrefecimento da organização. A Irmandade conseguiu ainda mais força no fim da década de 1940, com o fim da Segunda Guerra Mundial, por um motivo principal: a morte de Al-Banna. Al-Banna foi morto por agentes do governo egípcio por representar um perigo para a manutenção da ordem no país. Seu assassinato converteu-o imediatamente em mártir para os membros da organização por ele criada.
Com a morte de Al-Banna, o principal nome entre os “irmãos muçulmanos” era o de Sayyid Qutb, um intelectual egípcio e rival de Al-Banna. Mas ao contrário desse último, Qutb conheceu a civilização ocidental e a opulência da economia de mercado, haja vista que passou longos anos estudando fora do Egito, sobretudo em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Qutb desenvolveu um misto de fascínio e repulsa pelo mundo ocidental. Ele admirava, por exemplo, grandemente o que a tecnologia podia fazer, mas odiava o “endeusamento” da ciência dos ocidentais. O assassinato de Al-Banna fez crescer em Qutb seu desejo de ver a civilização islâmica tornar-se poderosa internacionalmente, o que dependeria de uma luta permanente com os valores e a estrutura político-econômica do mundo ocidental. Para tanto, ele precisava integrar-se à organização de seu antigo rival, agora morto, como diz o pesquisador Lawrence Wright, especialista em terrorismo islâmico:
“A voz de Banna foi calada exatamente quando estava sendo publicado o livro de Qutb Justiça Social no Islã – que consolidaria sua reputação de importante pensador islâmico. Qutb se mantivera explicitamente distante da organização criada por Banna, embora tendesse para pontos de vista semelhantes sobre a aplicação política do Islã. A morte de seu contemporâneo e rival intelectual, porém, abriu caminho para sua conversão aos Irmãos Muçulmanos. Foi um divisor de águas, tanto na vida de Qutb como no destino da organização” ( Vulto das Torres: A Al-Qaeda e o caminho até o 11/9. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 29).
O lema da organização é: "Alá é o nosso objetivo, Maomé é o nosso líder, o Corão é a nossa lei, a jihad é o nosso caminho. Morrer no caminho de Alá é nossa maior esperança.
Atualmente, a Irmandade Muçulmana atua em países como Egito, Síria, Arábia Saudita, Jordânia, Líbano, Paquistão dentre outros. O grupo terrorista radical palestino Hamas e a Al-Qaeda, responsável pelos atentados de 11 de setembro, bem como o Estado Islâmico, que atua entre o Iraque e a Síria, têm sua fundamentação ideológica nas ideias de Sayyid Qutb e apoio de grande parte dos membros da Irmandade Muçulmana.
No Egito, de 2011 a 2013, com a chamada primavera árabe, tivemos uma experiência de poder envolvendo a irmandade muçulmana com o governo sob a presidência de Mohammed Mursi.
Veio a atuação no Sinai por parte dos movimentos terroristas.
Até há pouco mais de uma década, as terras escassamente povoadas e montanhosas da Península do Sinai eram um refúgio de contrabandistas e criminosos, e um lugar onde os extremistas se escondiam e treinavam, mas não realizavam ataques. Mas desde a derrubada do presidente Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana, em 2013, a violência na região só aumentou. Uma série de atentados recentes deixou centenas de mortos — desde ataques em cidades turísticas às margens do Mar Vermelho, em 2014 e 2015, até explosões de bombas em igrejas coptas em 2016 e 2017.
Explicam os analistas que a península do Sinai, no Norte do Egito, faz fronteira com Israel e a Faixa de Gaza e vem sendo um bastião para grupos insurgentes contra o governo egípcio. Após as Forças Armadas destituírem em 2013 o presidente egípcio, Mohamed Mursi, ligado à Irmandade Muçulmana, grupos extremistas têm realizado diversos atentados contra militares, policiais, mesquitas e civis. A região vive em meio a uma grande tensão nos últimos anos, após décadas deixada de lado desde que Israel retirou. as tropas que ocupavam o local em 1979. Os extremistas parecem ser alimentados pelos métodos brutais do governo de lidar com a dissidência, em conjunto com a falta de desenvolvimento da província, com parte da população se sentindo marginalizada.
O extremismo cresceu principalmente após o caos que engoliu o país na Primavera Árabe. Assim como um grupo afiliado ao Estado Islâmico, outros quatro grupos menores alinhados à al-Qaeda estão ativos no local.
Diferente do Iraque ou da Síria, o EI no Egito não conseguiu entrar nos grandes centros urbanos. O afiliado do EI no Norte do país se chama Wilayat Sinai (Província do Sinai) e é predominantemente formado por combatentes do grupo local insurgente Ansar Beit al-Maqdis, que mudou o nome após jurar fidelidade ao califado do grupo extremista e enviou pessoas para lutar na Síria em 2014.
O Província do Sinai reivindicou a responsabilidade pela queda do avião Metrojet Flight 9268 em 2015. A aeronave russa voava de Sharm el-Sheikh para São Petersburgo quando caiu no deserto, matando todas as 224 pessoas a bordo. Os extremistas afirmaram que detonaram uma bomba escondida dentro de uma lata de refrigerantes.
O grupo, a insurgência mais ativa no Egito, está ligado a maioria dos ataques fatais no país, a maioria na província do Sinai, no Norte, mas também na capital Cairo e outros locais. O número de combatentes do grupo é estimado em até 1.500. O Província do Sinai começou atacando Israel com foguetes, mas após a saída de Morsi do poder em 2013, concentrou-se nos serviços de segurança do Egito, matando dezenas de soldados. Os jihadistas se envolveram em atentados suicidas, tiroteios, assassinatos e decapitações.
Amro Ali, professor da American University, no Cairo, lembra que, se por um lado o extremismo e a instabilidade existiam antes de Mursi chegar ao poder, seus laços ambíguos e simbólicos com grupos terroristas — e a falta de condenação incondicional de ataques por parte de seu governo — levaram o público em geral “a suspeitar que a Irmandade, pelo menos, fornecia pano de fundo e legitimidade para a narrativa vitimista que leva agora ao terrorismo”.
Nos últimos anos, diversas facções da região também se uniram ao Estado Islâmico, um grupo extremista com acesso sem precedentes a dinheiro e armas. Repetindo a lógica do governo de Hosni Mubarak, os terroristas tentam atingir o turismo, fundamental para o país. A mudança de estratégia é que agora as mesquitas, e não apenas igrejas coptas e instituições de segurança, passaram a ser alvos. Principalmente santuários sufistas.
O sufismo é uma corrente mística e contemplativa dessa religião, e seus praticantes, conhecidos como sufistas, desenvolvem uma relação mais íntima, direta e contínua com o profeta Maomé, através de práticas espirituais como orações, jejuns e meditação — algo considerado controverso pela corrente mais radical do islamismo.
A vertente também é considerada uma ameaça ao monoteísmo do islamismo por adorar santos, o que para muçulmanos é considerado idolatria. Por isso, muitos grupos extremistas, como o Estado Islâmico — que compartilham a visão puritana do salafismo — consideram os sufistas apóstatas.
Os sufistas foram se tornando alvos sistematicamente do EI no Sinai, como forma de minar o Estado ao fomentar divisões em espaços sagrados.
Isso explica a geopolítica na região e a lógica do atentado que matou, no dia 24 de novembro de 2017, cerca de 235 pessoas que oravam numa mesquita.
Em resposta, o presidente Abdel Fattah al-Sisi — general eleito para governar o Egito após derrubar o governo islamista de Mohamed Mursi em 2013 — prometeu responder com “força bruta”. Aviões da Força Aérea ontem mesmo começaram a bombardear áreas montanhosas perto do vilarejo de Bir al-Abed, onde ocorreu o massacre.
Ora, Sisi é um ditador, que governa o país sem levar em conta a moderna democracia. Ele é um representante das forças armadas que tomaram o poder, em 1952, no Egito.
Haverá mais violência diante desse histórico.