A eclosão de viciados em crack nas lavouras brasileiras

17/06/2018 às 11:00
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Esta pesquisa tem como objetivo estudar a epidemia de viciados em crack nas lavouras brasileiras, que a cada dia se torna mais fora de controle.

A eclosão de viciados em crack nas lavouras brasileiras Luzia Aragão Magalhães (FLF) [email protected] Resumo: Esta pesquisa tem como objetivo estudar a epidemia de viciados em crack nas lavouras brasileiras, que a cada dia se torna mais fora de controle. Longe da fiscalização, de baixo custo, de preço acessível e efeito imediato, a droga encontra ambiente perfeito para se proliferar. A pesquisa será assentada em artigos científicos e reportagens veiculadas nas grandes mídias, com o intuito de traçar um panorama geral da situação em que os municípios do interior do Brasil se encontram no enfrentamento dessa epidemia. Bem como coletar informações, através de publicações de reportagens em jornais e sites de notícias, sobre os motivos que levam essa parcela da população da zona rural, que deveria ser tão pacata e tranquila a procurar o crack. Palavras-chave: Zona Rural; Crack; Droga; Viciados. Abstract: This research aims to study the epidemic of crack addicts in Brazilian crops, which is becoming more out of control every day. Far from oversight, low cost, affordable and immediate effect, the drug finds perfect environment to proliferate. The research will be based on scientific articles and reports published in the mainstream media, in order to provide an overview of the situation in which Brazilian municipalities are confronted with this epidemic. As well as collecting information, through publications of newspaper reports and news sites, on the reasons that lead this part of the rural population, who should be so quiet and quiet to seek crack. Keywords: Rural Area; Crack; Damn it; Addicts. 1. INTRODUÇÃO Essa trabalho foi realizado com o intuito de pesquisar sobre o crescimento do consumo de droga nas áreas rurais do Brasil e começou como atividade nas aulas de Criminologia, o que despertou o interesse para entender melhor o assunto e junto a isso surgiram algumas questionamentos, tais como: o crack já chegou até as comunidades rurais do Brasil? Por qual motivo essas pessoas se envolvem com a droga? Para responder essas perguntas durante todo o processo de pesquisa foram catalogadas reportagens e artigos científicos publicados na área nos últimos 20 anos. Já existem políticas públicas para o combate ao uso de crack, porém não se nota grandes avanços para que o mesmo seja erradicado, o que se percebe é que o consumo está crescendo e atingindo, inclusive a população das áreas rurais das cidades. A pesquisa foi organizada em cinco partes, introdução, segundo capítulo, intitulada de a vida no interior, onde feito um panorama sobre a vida no interior, o terceiro capítulo é feito um apanhado histórico sobre o surgimento do crack , o quarto capítulo é realizado uma catalogação de reportagens onde mostra os depoimentos de alguns viciados em crack da zona rural em vários estados brasileiros, e por fim a conclusão. 2. A VIDA NO INTERIOR Morar no interior não requer pressa, pois os hábitos de vida são pacatos, as pessoas se conhecem, há uma tranquilidade e o sossego que as grandes metrópoles não oferecem. O custo de vida é mais barato, se tem mais qualidade de vida, afastado da correria dos grandes centros, o ar é mais puro e se vive mais e melhor, e ademais tem a proximidade com o campo ou praia que torna ainda mais aconchegante esse estilo de vida. Mais pacata ainda é a vida na zona rural das cidades do interior do Brasil, onde a mão de obra local é praticamente toda empregada na agricultura ou pesca. Trabalho esse que exige esforço físico intenso, exposição ao sol, o que torna o labor ainda mais árduo e, muitas vezes, horas excessivas de trabalho, de sair de casa com o nascer do sol e voltar ao findar o dia, ou no caso dos pescadores, que passam dias em alto mar, sem banho, sem higiene pessoal adequado e com uma alimentação deficiente: A função de pescador de bordo se aplica aos responsáveis por jogar a rede ou o espinhel ao mar e recolhê-los assim que houver peixe. São os membros da tripulação que ficam mais expostos ao sol, exibindo normalmente lábios cortados e grossos. Suas mãos são ásperas de tanto segurar a grossa linha de náilon do espinhel. Nas embarcações há sempre dois pescadores de bordo. (VISSER, 2016, p.126) Para muitos esse tipo de trabalho é gratificante e para alguns é um fardo pesado demais para se carregar e acaba lançando mão de artifícios para aguentar a rotina árdua do trabalho. 3. O CRACK O crack é uma droga com o mesmo princípio ativo da cocaína, porém o seu processo de fabricação é não requer cuidado algum, fazendo com que a droga seja misturada com diversos outros produtos químicos, assim explica o Ministério da Justiça, na sua Política sobre drogas: Por ser produzido de maneira clandestina e sem qualquer tipo de controle, há diferença no nível de pureza do crack, que também pode conter outros tipos de substâncias tóxicas - cal, cimento, querosene, ácido sulfúrico, acetona, amônia e soda cáustica são comuns. Essa droga, ao ser absorvida pelo cérebro, provoca diversas sensações, desde euforia, sentimento de prazer, a irritação. Seus efeitos são rápidos, o que pode estar ligado com a eficiência para a sua dependência, conforme explicitado na Política sobre drogas do Ministério da Justiça: Enquanto a cocaína em pó leva cerca 15 minutos para chegar ao cérebro e fazer efeito depois de aspirada, a chegada do crack ao sistema nervoso central é quase imediata: de 8 a 15 segundos, em média. É por esta razão que o crack pode ocasionar dependência mais rapidamente. O crack surgiu nos Estados Unidos, na década de 80, entre a população pobre da periferia, que por não ter dinheiro para comprar drogas como a cocaína e a heroína, passaram a consumir o crack, que produzia os mesmo efeitos que aquelas, e era de fácil produção e aquisição. Os usuários também não precisavam se expor aos riscos, por exemplo, de uma droga injetável e se contaminar com vírus, como o HIV, que estava em surto, na época. Conforme informações do da Política sobre drogas do Ministério da Justiça: Aos jovens atraídos pelo custo da droga juntaram-se usuários de cocaína injetável, que viram no crack uma opção com efeitos igualmente intensos, porém sem risco de contaminação pelo vírus da Aids, que se tornou epidemia na época. No Brasil, acredita-se que surgiu na década de 90, primeiramente me São Paulo e depois se disseminando pelo Brasil. 4. O CRACK E O INTERIOR O uso de drogas é extremamente complexo de discutir, mas muito necessário. Pois não é um problema só individual, e que não merece ser excluído, é necessário que se estude os impactos, todos os reflexos que se tem o uso de drogas, principalmente o tráfico, a criminalidade envolvida na problemática das drogas que afeta a sociedade como um todo, mas também não se pode ignorar que o uso de drogas também é algo muito singular e próprio de cada pessoa, que entra em sua vida de alguma forma, em algum momento e precisa ser considerado no âmbito subjetivo também. Muitos que procuram as drogas estão em busca de fugir das dores físicas e psíquicas que atormentam a sua vida diária: A droga, considerada uma das técnicas de arte de viver, é a única capaz de não somente incidir sobre o corpo, alterando sua química, mas também de nos tornar insensíveis ao que a vida tem de insuportável e sem conciliação, oferecendo certa garantia de independência e alheamento do mundo externo. (CHEIBUB apud SOUZA, 2016, p.145) Essas dores que os usuários buscam aliviar com uso de substâncias químicas, são causadas muitas vezes por fatores sociais de exclusão e discriminação na sociedade, da própria realidade em que o usuário vive e do contexto familiar ao qual ele estar inserido. Muitos são os fatores que podem levar uma pessoa a procurar a solução dos seus conflitos nas drogas. O problema da epidemia das drogas, antigamente, era visto, mais comumente nas ruas dos grandes centros urbanos, mais especificamente, nos locais chamados de “cracolândias”, onde era possível perceber uma grande concentração de usuários a qualquer hora do dia. Atualmente o tráfico de drogas se disseminou para além das fronteiras das metrópoles chegando até as pequenas cidades do interior do Brasil. Levando drogas, disputa por território, violência e medo para as tão pacatas cidades do interior. É dentro desse contexto que o tráfico chega à zona rural do interior do Brasil, porém não é um problema recente na história do país, ao que se tem notícia. Há mais de 20 anos o jornal Folha de São Paulo (1997) já fazia matéria especial sobre a explosão do uso de drogas nos canaviais: “Adolescentes que trabalham nos canaviais da região de Botucatu (225 km de SP) estão adotando o consumo de crack como forma de aumentar a produtividade e, assim, ganhar mais”. Geralmente, com a justificativa de aumentar a produtividade nas lavouras, os jovens começaram a inserir o crack na sua rotina e passaram a se tornar dependentes para produzir. Porque após os efeitos da droga, vem a debilitação e acaba que o usuário procura novamente consumir para poder aliviar os sintomas da abstinência, conforme veiculado no jornal Folha de São Paulo (1997): “Mas, depois, o jovem do campo tem de abandonar logo o serviço na lavoura, pois os efeitos da droga acabam debilitando-o." Muito rapidamente o crack se espalhou pelas lavouras de cana de açúcar e tornou-se uma epidemia: O centro, ligado ao departamento de Biomédicas da Unesp de Botucatu, realiza anualmente uma pesquisa com jovens cortadores de cana nas fazendas da região. Em 96, o centro registrou 42 usuários. Em 95, haviam sido registrados 14 casos e, em 90, apenas dois. Os usuários são submetidos a tratamento de desintoxicação, oferecido pelo próprio centro. (OLIVEIRA, 1997) O crack encontrou caminho para o interior, pelas vias dos canaviais, pois o acesso e a falta de fiscalização, facilitavam a ação dos traficantes, porém o consumo de crack não se restringiu mais, apenas, aos cortadores de cana. Hoje é comum se encontrar usuários, nas comunidades pesqueiras, por exemplo: [...]a droga é um meio para aguentarem a dura rotina de trabalho em alto-mar, da chamada pesca de plataforma. Lá ficam de 10 a 15 dias, sem tomar banho, com água salgada no corpo, dormindo poucas horas por dia, pois precisam pescar o máximo possível para assim amenizarem os efeitos nefastos de uma renda familiar inconstante e variável. (VISSER apud SOUZA, 2016, p.127) Pescadores consomem a droga, no intuito de aliviar as dores físicas que o árduo trabalho no mar lhe provoca. Porém, diferente da cidade grande, esses trabalhadores, vivem o temor de serem pegos consumindo a droga, pois se o restante da comunidade tomar ciência desse fato, ele fica descreditado, na vila inteira. Esses usuários têm família constituída, trabalho e vida religiosa: Ranzi tem família constituída, faz parte de associações, vai à igreja, a reuniões de pais e alunos na escola e usa o crack exclusivamente no local de trabalho. Se nas pequenas cidades, bem como nas comunidades pescadoras, a vida local aparece rigidamente definida, as esferas – como família, trabalho, religião, associações e vínculos de amizade ‒ produtoras de laços sociais e afetivos exercem um poder de coesão social muito mais explícito e visível sobre o indivíduo. (VISSER apud SOUZA, 2016, p.129) O uso do crack no interior passou a se disseminar entre comunidades, saindo da esfera do trabalhador passando a atingir jovens dessas regiões interioranas do país, como nos arredores de Brasília, por exemplo: Em Formosa, o problema assola as áreas urbana e rural. O consumo ocorre com mais frequência nos bairros São Benedito, Pantanal, Parque Lago, São Vicente e Formosinha. Nos arredores do município, pode ser visto nos assentamentos de Flores de Goiás e Palmeiras 1, 2 e 3 [...]. (GOULART, 2010) A pacata vida rural do interior do país, agora é assolada pela a epidemia do crack, que leva consigo a disputa por pontos de vendas e criminalidade para a região. O já tão sossego estilo de vida do interior, já sofre muitas modificações, em decorrência dessa nova realidade. Cada vez é mais raro, de se encontrar, no sertão, por exemplo, casas de portas abertas, redes armadas nos alpendres à noitinha, pois aquela tranquilidade, hoje dar lugar ao medo dos assaltos que se tronam cada da mais comum na vida do sertanejo. Segundo a Conferência Nacional dos Municípios, através do portal Observatório do Crack, 95% dos municípios brasileiros enfrentam problemas com o consumo do crack: A cada grupo de seis municípios cearenses, um relata ter altos níveis de problemas relacionados ao consumo de crack. Os dados da plataforma digital Observatório do Crack (www.crack.cnm.org.br), desenvolvida pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), aponta que 32 das 184 cidades do Estado (17,39%) se encontram em situação grave quanto à droga. (SENA, 2017) O dado é alarmante, e o que parece é que a droga está fora de controle e que virou um problema de saúde pública no Brasil, pois cada vez mais cresce o número de dependentes enchendo as ruas, e os que têm auxílio da família, são encaminhados para centros de reabilitação. 5. CONCLUSÃO Conclui-se com esse trabalho que a epidemia do crack está longe de ser controlada, pois apesar de haver programas nas escolas, nas ações sociais dos municípios, ainda não é o suficiente para controlar e erradicar essa droga. O interior do Brasil se encontra mais vulnerável ainda, por facilitar a ação dos traficantes, longe dos olhos de qualquer fiscalização pelo poder público. Encontra, no trabalhador rural, homem sofrido, de baixa escolaridade, cheio de dores do trabalho árduo da luta diária, o cliente perfeito para a comercialização. O que se percebeu com esta pesquisa é que o Brasil é carente em ações de prevenção ao consumo de droga, baixa ou nenhuma fiscalização para coibir o crescimento do tráfico nas comunidades. É necessário que o poder público, promova ações de prevenção e de combate ao consume de drogas não só nas escolas, mas nas lavouras também, levanto informações sobre os riscos que o consumo pode ocasionar, e ao mesmo tempo oferecendo amparo ao tratamento de quem já se tornou usuário. A região rural do Brasil, antes conhecida como sinônimo de sossego e tranquilidade, hoje sofre com as consequências do consumo de droga na região, marcada pela violência em decorrência da disputa por pontos de vendas do crack. Sem políticas públicas e ações efetivas de prevenção e combate a venda e ao consumo de crack, o descontrole será maior ainda e chegará até os lugares mais inimagináveis do Brasil, ficando praticamente impossível de se controlar e combater a droga. REFERÊNCIAS CARVALHO, Salo. A política criminal de drogas no Brasil: estudo criminológico e dogmático da Lei 11.343/06 – 8. ed. ver. e atual. – São Paulo: saraiva, 2016. SOUZA, Andrea Cardoso. Entre pedras e fissuras: a construção da atenção psicossocial de usuários de drogas no Brasil: tratamento atual do mal-estar da civilização: toxicomania e segregação. – 1. Ed. – São Paulo: Hucitec, 2016. SOUZA, Jessé. Crack e exclusão social. - Brasília : Ministério da Justiça e Cidadania, Secretaria Nacional de Política sobre Drogas, 2016. OLIVEIRA, WAGNER. Explode consumo de droga nos canaviais. Agência Folha. 1997. Disponível em: . Acesso em: 25/05/2018 BRASIL. A droga. Ministério da Justiça. Disponível em: . Acesso em: 25/05/2018 GOULART, Guilherme. Crack se espalha pela maioria das áreas rurais e urbanas ao redor do DF. Correio Braziliense. 2010. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2010/01/11/interna_cidadesdf,165670/crack-se-espalha-pela-maioria-das-areas-rurais-e-urbanas-ao-redor-do-df.shtml. Acesso em: 28/05/2018 SENA, João Marcelo. Uma em cada seis cidades do Ceará relata graves problemas com crack. O Povo. 2017. Disponível em: . Acesso em: 30/05/2018

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