A política é cotidiana

A política é arte do humano, do “fazer-se humano”

17/08/2018 às 12:37
Leia nesta página:

Somente se é, ao "fazer-se política". Porque só nos tornamos humanos, fazendo política.

Desde que os homens discutiram entre si as melhores condições para assentar seu grupo social – porque haveria melhor campo de caça e água limpa e abundante –, até a definição de regras para a propaganda político-eleitoral nas redes sociais (Fake News), somos resultado da política.
A sociabilidade, pré-requisito da Interação Social – assim como a empatia –, inicia-se quando se debate politicamente se haverá um agrupamento humano, em que condições, para que fins: contornando, negociando-se o melhor caminho a seguir.
Esta dialética entre meios e fins é, obviamente, política – porque impõe escolhas, mas também limites à divergência de interesses. Então, o Homem se constitui como ser social; porém, somente após ter firmado a opção de se constituir como animal político: zoonpolitikón.
A definição dos fins e a escolha dos meios eficazes para sua construção destacam tanto a opção política quanto a racionalidade, maior ou menor, no manejo das escolhas – diante das opções/possibilidades – e na operacionalização dos recursos para a consecução dos objetivos propostos.
Quando o estudante indaga a seu professor ou orientador sobre os critérios de avaliação, ele aborda duas questões ou dimensões políticas: seu julgamento é racional, qual a razão desta nota ou conceito? Porém, também acentua sua preocupação com a legitimidade do resultado: os meios foram bem empregados, o combinado foi cumprido, a aferição é justa?
A dona de casa, a mulher, a senhora, que pechincha ou reclama dos preços, que não compra itens encarecidos, que os troca por outros que estão no tempo da safra, elas fazem política. Trata-se da racionalidade da economia: não é racional – nada razoável – permitir que me explorem se tenho a capacidade de evitar.
Essas mesmas mulheres fazem política quando se aliam contra a cultura do machismo. E os homens que se engajam na luta contra o machismo e contra a misoginia fazem política para si, porque atuam em prol do Outro.
As trabalhadoras e os trabalhadores que lutam por direitos, evidentemente, fazem política. Por isso fazem greves – algumas vezes são enrolados pelos empregadores, em locautes ou blecautes.
A política se faz dentro e fora dos partidos políticos, motivados ou indiferentes às objetivações sociais. Há política com mais ou menos militância, quando se luta a favor ou contra esta ou aquela lei.
Faz-se política dizendo que é “arte do exercício do acúmulo de poder”, tanto quanto quem defende a política como a forma humanizada de se prover recursos a uma determinada organização social.
Há política na fome. Há política na seca. Há política de desenvolvimento. Há política na qualidade do ar que se respira ou na cor e na saúde da água que se bebe (ou não se bebe). Há política na quantidade de bebês que nascem, vivem ou morrem. Há política dos direitos reprodutivos e há política do aborto.
 Na prática, na luta pelo controle do espaço público e pela requisição de direitos e de legitimidade, os adjetivos são incorporados: Política Social; Política Econômica; Política Cultural; políticas (im)populares; Política Financista; Política Trabalhista; Política Judicial; Política Ambiental; Política Educacional; Política de Estado.
Neste sentido, o homem é um animal político que se torna um ser social. Pois tanto fazemos política para garantir uma organização social quanto para modificar ou revolucionar o status quo.
Assim, há política quando se constroem escolas ou hospícios, ainda que os últimos não sejam edificados rotineiramente. Até porque muitos de seus idealizadores há muito não vão às escolas e, talvez, tornassem-se clientes assíduos dos hospícios.
Contudo, a pior forma de se "fazer-política" é própria daquele ou daquela que fala com "convicção" que detesta a política. Promove-se entropia desagregadora, caos social, uma vez que a luta pela democracia promove energia social positiva.
Tanto o apático quanto aqueles interessados na apatia (os cínicos) são os piores atores da política, porque sua forma de “fazer-política” compactua com a desumanização – se lembrarmos que o Homem é um animal político.
Concluindo: o melhor político é o cidadão que emprega suas forças para que o pior indivíduo, aquele que se diz "apolítico" (ser humano despolitizado, dessocializado), não prospere em suas intenções mentirosas e desumanizadoras.
Vinício Carrilho Martinez (Dr.)
Professor Associado da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar/DEd

Sobre o autor
Vinício Carrilho Martinez

Pós-Doutor em Ciência Política e em Direito. Coordenador do Curso de Licenciatura em Pedagogia, da UFSCar. Professor Associado II da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Departamento de Educação- Ded/CECH. Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade/PPGCTS/UFSCar Head of BRaS Research Group – Constitucional Studies and BRaS Academic Committee Member. Advogado (OAB/108390).

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