A RÉPLICA DE RUI BARBOSA
Rogério Tadeu Romano
Um dos mais vigorosos debates na primeira metade do século XX no Brasil envolveu a famosa Réplica de Rui Barbosa ( 1902). No decorrer da Réplica, Rui exibe um impressionante conhecimento sobre estudos linguísticos que estavam sendo desenvolvidos na época. Seu conhecimento detalhado das mudanças linguísticas por que o Português tinha passado não impediu, no entanto, que ele deixasse de reconhecer que o que ele percebia como defeitos da linguagem de seu tempo era, na verdade, reflexo de uma nova gramática que estava tomando forma no Brasil naquela época: Não sou dos que precisem de ser cathechizados á verdade scientifica da evolução dos idiomas. Meu trato dos antigos escriptores não me levou ao fetichismo da antiguidade vernacula, (...) não me divorciou dos estudos hodiernos sobre as leis da vida organica nas linguas. (...) Usado a buscar nas fontes antigas os veios preciosos do oiro fino, que ellas escondem ao modernismo pretencioso e ignaro, amo e uso tambem a linguagem de meu tempo, esforçando-me, entretanto, por lhe evitar os defeitos. (Repl. 38).Com a Réplica, Rui consolidou sua reputação de grande erudito em questões de língua e gramática, tornando-se um dos maiores ícones de purismo linguístico. Este trabalho discute a visão de Rui sobre língua expressa na Réplica, examinando sua posição em relação a algumas propriedades sintáticas típicas do português brasileiro. O texto está organizado da seguinte forma. A seção 2 descreve brevemente o contexto histórico em que a Réplica foi escrita do modo a permitir que o leitor possa entender melhor as razões que subjazem à intensidade e à contundência das observações de Rui. A seção 3 apresenta a posição de Rui em relação a três propriedades sintáticas do português brasileiro: a ordem sujeito-verbo, o uso do pronome interrogativo o que e a colocação de clíticos (pronomes átonos). Finalmente, a seção 4 conclui o artigo.
Uma síntese dessa monumental obra sobre a língua portuguesa está em “Repertório da Réplica de Rui Barbosa, 1950, Casa de Rui Barbosa, escrita por M.S.Mendes de Morais.
Ler, reler, perler, a Réplica é, por conseguinte, aprimorar-se no português.
Sobre ela, disse Jairo Nunes(A réplica de Rui Barbosa e a emergência de uma gramática brasileira):
“Em 1899, o ministro Epitácio Pessoa solicitou que o jurisconsulto Clóvis Bevilaqua escrevesse uma primeira versão para o Projeto do Código Civil Brasileiro. Essa primeira versão foi modificada por uma comissão de congressistas e publicada em janeiro de 1902. Em fevereiro, foi então remetida ao Professor Carneiro Ribeiro, eminente gramático que tinha sido professor de Rui, para revisão dos aspectos gramaticais. Em abril Rui apresentou um parecer sobre as modificações de Carneiro Ribeiro, tendo sido publicado em julho. Seguiram-se duas reações a esse parecer. O primeiro foi um texto de Carneiro Ribeiro intitulado “Ligeiras Observações sobre as Emendas do Sr. Rui Barbosa”, publicado em outubro. Em novembro foi a vez do deputado Anísio de Abreu com sua “Resposta ao Parecer do Senador Rui Barbosa”. Em dezembro, Rui publica sua monumental (599 páginas!) Replica do Senador Ruy Barbosa ás Defesas da Redacção do Projecto da Camara dos Deputados, em que usa todo o seu talento argumentativo para defender seus pontos de vista e demolir as objeções de seus oponentes, com singular ironia (veja-se Moura 1997 para detalhes adicionais).Os leitores de hoje se surpreendem com o fato de um debate tão acalorado e intenso ter sido desencadeado por uma “mera” questão de correção gramatical. Entretanto, essa era uma questão extremamente sensível na virada do século XIX para o XX, dada sua íntima relação com os novos conceitos de nação trazidos à baila com o estabelecimento de um sistema político republicano. Um tema recorrente junto aos círculos intelectuais da época era a questão se a jovem nação dispunha ou não de uma língua própria – uma língua brasileira (veja-se Pimentel Pinto 1978 para uma discussão bastante iluminadora). A posição de Rui foi expressa de modo cristalino nas páginas da Réplica, como ilustrado pelos seguintes excertos:Na “vergonhosa metamorphose por que está hoje passando o português” (...) entre nós, “homens aliás mui instruidos, verdadeiros sabios em outras materias, commetem crassos erros de linguagem”. (...) Depois então que se inventou, apadrinhado com o nome insigne de ALENCAR e outros menores, “o dialecto brasileiro”, todas as mazellas e corruptelas do idioma que nossos paes nos herdaram, cabem na indulgencia plenaria (...) do despreso da grammatica e do gosto. (Repl. 297)Aquelles que (...) habituaram o ouvido a essa lingua bastarda, a esse dialecto promiscuo (...) acabam por suppor seriamente mais clara essa miscellanea amorpha (...) e rude, esse português mistiço de entre lobo e cão. (Repl. 297). Especificamente em relação ao texto do Projeto para o Código Civil depois das intervenções de Carneiro Ribeiro, Rui não esconde seu desdém:Havia-lhe na physionomia muito mais do tal dialecto que da lingua portuguesa. Tentei approximal-o da lingua. Conto que m’o não perdoem os apaixonados do dialecto. (Repl. 39).
Rui Barbosa apresentou, à época, conclusões que se fazem atuais sobre a língua.
Consideremos por fim o tópico que tem dado margem a discussões sem fim desde o século XIX e que mereceu atenção especial na Réplica: a colocação de clíticos (pronomes átonos) em português brasileiro. Os clíticos têm propriedades fonológicas e sintáticas diferentes em português europeu e em português brasileiro: são fonologicamente dependentes de elementos à sua esquerda em português europeu (veja-se e.g. Brandão de Carvalho 1989) e de elementos à sua direita em português brasileiro (veja-se e.g. Nunes 1993). Isso explica, por exemplo, por que o português europeu não admite que os clíticos possam ser precedidos por uma pausa ou começar uma oração, ao contrário do português brasileiro, que admite ambas as possibilidades, em que * registra inaceitabilidade. Português europeu: a. *João tinha, se não me falha a memória, me dado um livro b. João tinha-me, se não me falha a memória, dado um livro c. *Te telefono amanhãd. Telefono-te amanhã. Português brasileiro: a. João tinha, se não me falha a memória, me dado um livro b. *João tinha-me, se não me falha a memória, dado um livro c. Te telefono amanhã*Telefono-te amanhã Como se poderia esperar a partir da sua visão sobre o português brasileiro citada na seção 2, Rui também assume uma posição conservadora em relação à colocação de clíticos, com inúmeras páginas de exemplos de autores clássicos. E, novamente, sua noção de eufonia não leva em consideração a língua de seu tempo. Ele, por exemplo, censura Carneiro Ribeiro por não admitir construções que já haviam desaparecido do português séculos antes (veja-se e.g. Williams 1938):[Carneiro Ribeiro chega] ao extremo de rejeitar como antiquada a intercalação euphonica do n em locuções como estas: Quem no diria? Quem no creria? (Repl. 342)E semelhantemente ao que vimos antes em relação à escolha entre o que e que, a pesquisa de Rui sobre colocação de clíticos deixa seus adversários numa posição quase hilária. Em primeiro lugar, ele usa as próprias lições de Carneiro Ribeiro sobre colocação de clíticos para rejeitar a sentença em abaixo, com o clítico se em início de oração, que constava do projeto original e não foi corrigida por Carneiro Ribeiro em sua revisão: “Se a simulação for absoluta (...) e for assim provado a requerimento de algum dos contrahentes, se julgará o acto inexistente”A essa construcção oppuz eu esta lição categorica do professor CARNEIRO: NÃO SE COMEÇA PHRASE ALGUMA em portuguez pelas variações pronominaes obliquas me, te, se, lhe, lhes, nos, vos, o, a, os, as. (Repl. 55)Além disso, Rui desqualifica a crítica de Anísio de Abreu apontando casos de hipercorreção envolvendo colocação pronomimal na própria Resposta de Abreu, como ilustrado em (7), em que o clítico sedeveria preceder o verbo: “na historia do trabalho a que a comissão dedicou-se” (Repl. 31)(...) bastariam para nos dar mostra as suas bellezas de arte, ao collocar dos pronomes. (Repl. 31).”
Sobre o tema disse Luiz Viana Filho(A vida de Rui Barbosa, páginas 278 a 279):
“Incapaz de suportar por muito tempo relativa obscuridade, Rui, inesperadamente, encontraria a ocasião para aparecer ruidosamente. Designado pelo Senado, que, certamente, vira nisso uma incumbência sem caráter político, para examinar o projeto do Código Civil, vindo da Câmara já revisto pelo seu antigo mestre de francês, Carneiro Ribeiro, das grandes sumidades do páis em matéria de linguagem, Rui dedica-se ao assunto de corpo e alma.
E em março de 1902, com surpresa mais ou menos geral, pois se supunha serem suficientes apenas alguns retoques, apresentou ao Senado o seu “Parecer”, contendo mais de mil emendas no texto preconizado por Carneiro Ribeiro. Começaria assim uma das mais importantes polêmicas travadas no Brasil. Em setembro, num pequeno opósculo, que intitulou “Ligeiras Observações”, Carneiro respondeu-lhe. Fê-lo de maneira polida, embora sem demonstrar receio do antagonista. Mais defesa do que ataque. Contudo, foi o bastante para que o tímido se sentisse ferido. Para ele tornara-se indispensável destroçar o contendor, que se atrevera a contraditar-lhe a opinião. E, como se encontrasse no trabalho, toda amargura do homem tantas vezes malogrado nas suas ambições políticas, o autor do “Parecer” escreveu a “A Réplica, entregue ao Senado, em dezembro. Sem modéstia, dirigindo-se ao seu antigo professor do “Ginásio Baiano”, reproduziu na publicação estas palavras de Castilho: “Tanto é fácil aos discípulos sobrepujar algumas vezes os mestres que os precederam”.
Isso foi notado, aliás. Resposta azeda. Mas, pela elegância da frase, a erudição dos exemplos, a própria paixão, que imprimira ao debate, constituía alguma coisa de monumental. A verdade era que o pais estava maravilhado. Habituara-se a admirar o jurista, aplaudir o orador, e entusiasmar-se com o jornalista, mas espantava-se diante desse aspecto inédito daquela inteligência privilegiada, cujos profundos conhecimentos da língua eram ignorados. Aqueles temas áridos de filologia, manejados pela pena do escrito, tornavam-se atraentes e, entre as classes mais ou menos cultas, foram bem poucos os que não acompanharam a contenta com interesse. “A Réplica realiza esta maravilha – uma discussão do gramático, que nos apaixona, que nos faz vibrar. O conceito pertence a Jose Maria Belo e é perfeitamente exato. Realmente, o assunto tanto interessara o país, por mais que pareça estranho tratando-se duma polêmica sobre colocação de pronomes e sutis segredos de linguagem, que, depois da “Réplica” se passou a escrever melhor. Aquelas páginas cheias de paixão e também de amargura haviam feito mais pela correção de linguagem do que os anos vividos nas escolas pela maioria dos leitores. Sobretudo, Rui fora tão claro, tão abundante, tão lógico, que o público não esperou sequer pela tréplica de Carneiro para atribuir ao autor da “Réplica” uma vitória integral. “
Sobre a matéria escreveu José Maria Belo, “Rui Barbosa”(Rio, 1918), pág. 60. Sobre A Réplica veja-se o prefácio do padre Mague ao volume XXIX, tomo II, das Obras Completas de Rui Barbosa.
Cito ainda Jairo Nunes quando disse:
“Em várias partes da Réplica, Rui recorre à noção de vernaculidade (as propriedades inerentes de um idioma) para argumentar a favor de suas análises. Um exemplo claro envolve sua discussão sobre a ordem sujeito-verbo ou verbo-sujeito em orações adjetivas. (1) abaixo reproduz o texto original do Projeto e (2) a correção de Carneiro Ribeiro: (1) “logar onde ella estabelece de modo definitivo a sua residencia” (2) “logar em que estabelece ella de modo definitivo a sua residencia” A crítica de Rui às mudanças em (2) está baseada na propriedade da eufonia vernacular, a saber, o fato de algumas sequências soarem bem formadas, enquanto outras não: “Qual a vantagem do em que sobre o onde? A vantagem do estabelece ella sobre o ella estabelece? (Repl., 89) (...) “No ‘em que ella estabelece’ a euphonia é perfeita. Mas o ‘em que estabelece ella’ sensivelmente a offende.” (Repl., 90) As observações de Rui estão em consonância com estudos linguísticos sobre a história do português brasileiro. Andrade Berlinck (2000), por exemplo, documenta uma queda significativa na frequência da ordem verbo-sujeito no português brasileiro no século XIX. De fato, nenhum falante de português brasileiro hoje discordaria de Rui em tomar a ordem original em (1) como muito mais aceitável que a ordem em (2). Entretanto, a maioria dos seus argumentos na verdade desconsideram se as sentenças relevantes soavam bem aos ouvidos dos falantes nativos de português brasileiro na época. Considere, por exemplo, a escolha entre o que e que usado como pronome interrogativo. Estudos linguísticos têm mostrado que o que começa a substituir que em português brasileiro no século XIX (veja-se e.g. Lopes-Rossi 1993), o que permite conjeturar que a forma o que deveria ser julgada como mais eufônica pelos falantes do começo do século XX. Rui, no entanto, toma como critériodecisivo para essa escolha seu uso em português arcaico (!): “Não ha justificação vernacula, que se enxergue, para a anteposição desse o ao que nas interrogações. Quasi nenhum exemplo della se encontra nas mais antigas fontes” (Repl., 113) “Concluo eu, portanto, (...) que a expressãoo que, interrogativamente usada, é incorrecta.” (Repl.,153) Essa opção não parece, entretanto, ser inocente, pois se relaciona a uma disputa filológica específica com Carneiro Ribeiro, que dava preferência a o que. Como argumento para sua posição, Carneiro Ribeiro tinha citado a sentença em (3), que ele atribuiu ao sermonista barroco Vieira. (3) “O que dirão a isso os todo poderosos do mundo? ” Através de uma pesquisa filológica bastante meticulosa sobre o uso de que e o que, Rui mostra em sua resposta que Carneiro Ribeiro tinha na verdade errado em sua citação: “Esse exemplo é falso. Vieira escreveu exactamente do modo contrario, exactamente como eu sustento que sempre se deve escrever.” (Repl.112)
“Que dirão agora a isto os todos poderosos do mundo?” “Essa a verdadeira phrase de Vieira (...) Tral-a a edição antiga, no vol. VI (sexta parte), Sermão da Terceira dominga Post Epiphaniam,p. 309, n.278. Reprodul-a a segunda edição, a moderna, de 1855, no vol. IV, p. 279.”(Repl.,112) Para grande embaraço de Carneiro Ribeiro, Rui então usa esse erro de citação para questionar sua credibilidade acadêmica em geral: “Que fé nos podem merecer de ora avante as citações do professor Carneiro? (...) Como nos certificarmos da fidelidade das outras?”(Rep.,113) Consideremos por fim o tópico que tem dado margem a discussões sem fim desde o século XIX e que mereceu atenção especial na Réplica: a colocação de clíticos (pronomes átonos) em português brasileiro. Os clíticos têm propriedades fonológicas e sintáticas diferentes em português europeu e em português brasileiro: são fonologicamente dependentes de elementos à sua esquerda em português europeu (veja-se e.g. Brandão de Carvalho 1989) e de elementos à sua direita em português brasileiro (veja-se e.g. Nunes 1993). Isso explica, por exemplo, por que o português europeu não admite que os clíticos possam ser precedidos por uma pausa ou começar uma oração, ao contrário do português brasileiro, que admite ambas as possibilidades, como respectivamenteilustrado em (4) e (5), em que * registra inaceitabilidade. (4) Português europeu: a. *João tinha, se não me falha a memória, me dado um livro b. João tinha-me, se não me falha a memória, dado um livroc. *Te telefono amanhã d. Telefono-te amanhã(5) Português brasileiro: a. João tinha, se não me falha a memória, me dado um livro b. *João tinha-me, se não me falha a memória, dado um livro c. Te telefono amanhã d. *Telefono-te amanhã
Como se poderia esperar a partir da sua visão sobre o português brasileiro citada na seção 2, Rui também assume uma posição conservadora em relação à colocação de clíticos, com inúmeras páginas de exemplos de autores clássicos. E, novamente, sua noção de eufonia não leva em consideração a língua de seu tempo. Ele, por exemplo, censura Carneiro Ribeiro por não admitir construções que já haviam desaparecido do português séculos antes (veja-se e.g. Williams 1938): [Carneiro Ribeiro chega] “ao extremo de rejeitar como antiquada a intercalação euphonica do n em locuções como estas: Quem no diria? Quem no creria?” (Repl., 342) E semelhantemente ao que vimos antes em relação à escolha entre o que e que, a pesquisa de Rui sobre colocação de clíticos deixa seus adversários numa posição quase hilária. Em primeiro lugar, ele usa as próprias lições de Carneiro Ribeiro sobre colocação de clíticos para rejeitar a sentença em (6) abaixo, com o clítico se em início de oração, que constava do projeto original e não foi corrigida por Carneiro Ribeiro em sua revisão: (6) “Se a simulação for absoluta (...) e for assim provado a requerimento de algum dos contrahentes, se julgará o acto inexistente” “A essa construcção oppuz eu esta lição categorica do professor CARNEIRO: NÃO SE COMEÇA PHRASE ALGUMA em portuguez pelas variações pronominaes obliquas me, te, se, lhe, lhes, nos, vos, o, a, os, as.” (Repl., 55) Além disso, Rui desqualifica a crítica de Anísio de Abreu apontando casos de hipercorreção envolvendo colocação pronomimal na própria Resposta de Abreu, como ilustrado em (7), em que o clítico se deveria preceder o verbo): (7) “na historia do trabalho a que a comissão dedicou-se” (Repl., 31) “(...) bastariam para nos dar mostra as suas bellezas de arte, ao collocar dos pronomes” (Repl., 31) Mas o alvo principal de Rui continua sendo seu antigo mestre, Carneiro Ribeiro. Rui examina cuidadosamente a gramática escrita por Carneiro Ribeiro, registrando cada inconsistência em relação à colocação pronominal. Sua conclusão é a seguinte:
“Mas ninguem, ninguem errou jamais em tanta maneira, copiosamente, espalmadamente, como o dr. CARNEIRO na collocação dos pronomes.” (Repl., 182) “Cincoenta vezes, quando menos, errou, portanto, o dr. CARNEIRO, na sua Grammatica Philosophica, a collocação dos pronomes.” (Repl., 183) Os trechos citados acima demonstram bem não só a grande erudição filológica de Rui, como também sua grande habilidade de transformar o resultado de suas pesquisas em uma demolidora arma retórica."
Do extenso repertório da Réplica, acuso os seguintes pontos, naquela análise vernacular do Projeto do Código Civil de 1916:
- A antes de verbos: Tratando-se de verbos continuados, basta que a preposição se exprima antes do primeiro. Assim diríamos corretamente:
"O mártir foi condenado a padecer tratos, sofrer mutilações, perder a fortuna, e morrer queimado".
- A baila - Rejeita o Sr. C. de FIGUEIREDO a expressão à baila, corrindo à balha.
Mas tenho certeza, por lembrança mui segura, que uma e outra, como haja tempo de as buscar, se encontrarão, com o mesmo uso, nos bons textos antigos e modernos. Nem vejo motivo de bom discernimentos para a seleção, que faz o ilustre filólogo.
Filinto Elísio valeu-se indiferentemente de ambas. § 495.
ABÓBEDA - (Apontava o Dr. Carneiro), como barbarismo, abóbeda por abóbada, ortografia portuguesa, adotada por JACINTO FREIRE, DUARTE NUNES, MANUEL BERNARDES, registrada por MORAIS, DOMINGOS VIEIRA, ADOLFO COELHO, FIGUEIREDO e ainda recentemente autorizada por CASTILHO, na forma bôbeda, § 273.
ALUGUEL E ALUGUER - Nâo objetos destinados AO aluguer, mas objetos destinados A aluguel. Logo, inferi, não haver artigo antes de aluguer, não o pode haver antes de venda, § 177.
APETRECHO - Petrecho é nome, e apretrecho é verbo, § 78.
ENTRE ELE E MIM - C. Figueiredo é de aviso contrário a esta forma.
Peço vênia, porém, ao mestre para lhe notar que VIEIRA disse:
"Como a comparação não é mais que entre meu Pai e mim,....."
"No que entre ele e mim é posto".
Que se não admite o - entre ele e eu - (como o - entre eu e ele- ), é sem dúvida.
Mas de - entre mim e ele - a - entre ele e mim - não vejo onde a vernaculidade padeça quebra, suposto assim não pensem gramáticos de nomeada.
ENTREGAR - Em certos casos, equivale "a pagar, satisfazer, indenizar". (MORAIS, Dic.). Isso, bem que tenha, ao mesmo tempo a forma - entregar-se de - ou - ser entregue de-:
"Fico entregue da carta"(VIEIRA).
"Feito pelo secretário o termo de entrega do preso, se entrega dele o alcaide.
EXARAR - Nâo havia eu dito que no assnto se exarassem pessoas. O que eu dissera é que no termo de casamento se exarariam fatos, atos, declarações, nomes. E a isso é que justamente se aplica o verbo exarar, sinônimo de "abrir, gravar, mencionar, consignar, escrever"(C. DE FIGUEIREDO). § 314
IMPUTAR - As palavras computa, computação, computar, deputa, disputa, disputar, imputa, imputação, imputar, reputa, reputação, reputar a sua necessidade e imemorialidade habituaram o ouvido a escutá-las, sem as associar às consemelhanças repugnantes, que no próprio contexto desses vocábulos se encerram.
INCIDIR - Equivale a cair sobre ou a cair em, não parecendo consentâneo, por conseguinte, dizer-se incidir sob. § 155.
INDENIZAR - Com o mesmo cunho português diremos: indenizar a alguém alguma coisa
ou
indenizar alguém por de alguma coisa.
"indenizar ao gestor as despesas".
"Antes do proprietário ser privado de sua propriedade, será indenizado do valor dela(Teixeira de Freitas).
Bem sei que não é autoridade vernácula o célebre jurisconsulto.
Mas, se o invoco, é apenas em argumento adminicular, subsídio aos outros, que venho de expender. § 260.
INSOLVABILIDADE - Pesaroso de não ter inventado a palavra honorabilidade, termo inútil, vago, obscuro e mal derivado, que já discuti, replicando ao professor CARNEIRO, o trocista filológico da Resposta exprime igualmente a sua mágoa de não ter forjado também o insolvabilidade. § 381.
- Temos solvência, solvente, solvível, solúvel, insolúvel, insolvível, insolvente, insolvência, insolubilidade. Nâo necessitamos, portanto, das achavascas adaptações de solvable e solvabilité, vocábulos mal lavrados e muito menos bensoantes que aqueles nossos. § 382.
- Admitir em nossa língua as palavras solvável e solvabilidade, com as suas derivadas, é cobrir o francês, mas cobri-lo, ignaramente, violando as próprias leis de geração etimológica, pelas quais o francês obteve insolvabilité, insolvable, § 383.
De minha parte, tenho que para a caracterização da insolvência, o devedor pode deixar de adimplir um contrato porque tem razões jurídicas para fazê-lo, seja uma dúvida que seja relevante sobre o montante da dívida, exceção de contrato não cumprido, falência do credor. Diverso é o devedor insolvente que é aquele que, sem escusa jurídica, porque não pode fazê-lo, porque a situação econômica do seu patrimônio torna impossível a prestação devida.
Para Teixeira de Freitas(Aditamentos ao código de comércio) a insolvência é a cessação de pagamentos, tal como exigida pelo revogado artigo 797 do Código Comercial. Mas essa opinião ficou isolada na doutrina. Insolvente é aquele que não solve as suas obrigações sem escusa jurídica.
A inaptidão econômica a adimplir refere-se a insolvabilidade. O insolvável deixa de adimplir porque não pode fazê-lo, porque a situação econômica de seu patrimônio torna impossível a prestação devida.
A insolvência diz respeito à obrigação, a insolvabilidade é um estado que interessa a totalidade dos credores de devedor. A inaptidão econômica de adimplir caracteriza a insolvabilidade: insuficiência do ativo no patrimônio do devedor(insolvência em sentido clássico) ou falta de meios líquidos para prestar. A primeira é uma impossibilidade definitiva e a segunda é uma impossibilidade mais ou menos durável em função do crédito de que goze ou venha a gozar, o devedor insolvável e do tempo necessário à realização do seu ativo ilíquido.
INFINITO IMPESSOAL - Essas criaturas malignas já me não inspiram mais que indiferença, ou curiosidade. Quando me investem, deixoa-as descarregar-me à vontade no rastro ou na sobre o veneno. § 32.
- Nâo haviam mister de se arrimar a LATINO COELHO ou apologistas do projeto, para me convencer de que "o neologismo é uma necessidade fatal". § 480.
"Com estas palavras começaram as lágrimas a correr." (BERNARDIM).
"Tornaram-se aos navios sem lhe fazer dano."(BARROS).
"Tiveram muita razão, não só para se alegrar, mas para se rir"(VIEIRA).
- Já entre os clássicos antigos se praticava o infinitivo impessoal quando o sujeito era idêntico ao da oração do modo finito, com a qual se ligava.
Com o apurar do ouvido, com o crecer das exigências da eufonia, com o intervir cada vez mais largo da reflexão e da análise no falar e escrever, mais e mais se foi amiudando esta forma, mais e mais ganhando a preferência à outra. § 200.
INFINITIVO PESSOAL - Personaliza-se o infinitivo, para lhe indicar o sujeito, quando este lhe é peculiar, quando não for o mesmo da oração regente. Contribui para a clareza e a graça da construção vernácula, dando à expressão da ideia maior transparência e relevo.
Tal de ordinário o préstimo deste invejado lusitanismo.
Multiplicado indistintamente, onde não oferecesse esse proveito, sobrecarregava o estilo, embaraçava a enunciação do pensamento, desbotava e enfraquecia a sua linguagem. § 200.
Ex. de RUI: Nem na antiga latinidade, portanto, nem na latinidade medieval se descobriu até hoje o menor documento, o mais ligeiro vestígio da palavra necessária aos nossos neologistas, o vitabilis derivação da vita, para demonstrarem a procedência latina da francesia, que preconizou. § 246.
Passados mais de um século de “A Réplica”, as lições de Rui Barbosa sobre a filologia e o correto uso da língua são um convite benfazejo aos que querem cultuar a nossa língua.