É comum idealizarmos para nós e para os nossos filhos uma educação de qualidade, capaz de formar indivíduos com senso crítico, capazes de pensar, de se expressar e de formular sua próprias opiniões, no entanto, nos deparamos diariamente com um realidade totalmente controversa e que atinge profundamente o ensino educacional do Brasil, que é a desvalorização do professor e sua má formação.
Ao analisar o nosso sistema educacional, o que vemos são professores desestimulados, ministrando disciplinas incompatíveis com as de sua formação, mal pagos,e trabalhando em péssimas condições, tudo isso devido a pouca consciência política que os governantes tem da importância dessa classe para o desenvolvimento do país.
A luta desses docentes, por uma formação digna e por melhores condições de trabalho é antiga, registrada até na época da Corte imperial, no século XIX, onde os professores já reinvindicavam aumento de salário e mais respeito por parte do poder público.
Como podemos perceber nesse alerta feito por professores públicos primários da Corte, em 1871, onde eles diziam: “Não vedes que, tratados os professores como escravos, só conseguireis moldar por eles uma sociedade indigna do século que viveis”.
Esse relato embora datado naquela época, ainda pode ser usado na atualidade, visto que se faz de grande importância mostrar ao governo que só teremos uma educação de qualidade quanto tivermos mais respeito pela classe docente já que é ela a grande formadora da sociedade.
Essas lutas se arrastam ao longo dos anos, mas os avanços em relação a valorização e formação do docente ainda são muito lentos.
Em 1985, com a redemocratização do País, houve um período de muitas transformações, e uma delas é marcada pela participação de vários movimentos sociais, e de sindicatos que reinvindicam direitos sociais igualitários e melhores condições de vida nas diferentes esferas da sociedade, bem como uma maior participação na vida política do Brasil.
Todas essas reinvindicações eram debatidas e apresentadas pelas diferentes categorias profissionais.
É em meio a essas discussões que emergem e se confirmam as lutas dos profissionais da educação no objetivo de que sejam adquiridos novos direitos e que sejam conquistadas melhorias que garantam o exercício de sua profissão com qualidade.
Das discussões realizadas nesse período, percebe-se que alguns avanços foram conquistados no âmbito do Direito, por esse grupo educacional do Brasil.
Nos ano 90, surge um grande conjunto de reformas educacionais estabelecidas pelo governo brasileiro, visando expandir as oportunidades educacionais e a melhoria da qualidade de Ensino, sempre em conexão com o desempenho dos profissionais de Educação.
Baseando-se nessas reformas, é que surgiram as maiores reclamações, já que há muito a ser aprimorado.
No que concerne à formação profissional, almeja-se que esta seja em condições adequadas, através de uma formação continuada vinculada com Universidades, além da abertura de centros de formação de educadores em municípios e estados, conforme assinala a Associação Nacional pela formação de Profissionais de Educação( ANFOPE), tudo isso garantiria ao professor uma melhor qualificação, onde ele se capacitaria na profissão, e buscaria se especializar na disciplina de sua formação.
Já com relação á valorização do magistério, muitas são as leis que a asseguram,como é o caso da Constituição Federal de 1988 no seu art. 206 que diz art. 206.
V- Valorização dos profissionais do ensino,garantidos na forma de lei, planos de carreira para o magistério, piso salarial profissional e ingresso exclusivo por concurso de provas e título. (Brasil, 1998)
E também o PNE, que fundamentado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, afirma que o compromisso com a melhoria da qualidade de ensino não poderá ser cumprido sem a valorização do magistério, pois esta inclui
“Um sistema de educação continuada que permita ao professor Um crescimento constante de seu domínio sobre a cultura letrada (…) Jornada de trabalho organizada de acordo com a jornada escolar dos alunos, concentrada num único estabelecimento de ensino e que inclua o tempo necessário para as atividades complementares ao trabalho em sala de aula; Um salário condigno, competitivo em termos de outras posições no mercado de trabalho, abertas a candidatos com nível equivalente de formação” (Plano Nacional de Educação, 2001, inciso IV)
Ainda na lei nº 9.424/96 encontram- se fixadas mecanismos que regulamentaram o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (FUNDEF), que garante que pelo menos sessenta por cento dos recursos do Fundo devem ser destinados a remuneração dos profissionais do magistério que se encontram em efetivo exercício de sua atividade no ensino fundamental público, e fica fixada a permissão no seu art. 7º da utilização de parte desse recursos, nos primeiros cinco anos na capacitação de professores leigos ( Brasil, 1996).
Como vimos as leis existem, mas como quase todas as leis brasileras, não são rigorosamente cumpridas, prova disso é que no sistema educacional de hoje só o que vemos são professores que trabalham mais do que sua jornada estipula, e para completar a renda necessitam se deslocar para lecionar em outras escolas, e muitas vezes são obrigados a ensinar em salas de aulas lotadas, tendo que lidar com realidades e com perfis de alunos diferentes, com o aumento da indisciplina e da violência na escola, além de enfrentar um sistema rigoroso que maioria das vezes tira totalmente sua autonomia.
Conforme Facci (2004, p. 21) “O professor pode ser encarado como o vilmo das mazelas que povoam o espaço escolar tais como: o Descompasso entre a teoria e prática, o fracasso Escolar, os problemas de indisciplina e até mesmo Violência: Dificuldades de aprendizagem entre outras Problemáticas enfrentadas na escola” E é por conta dessa desvalorização, que aumenta cada vez mais os índices de jovens que não optam pela carreira de professor.
Como comprova uma pesquisa realizada em 2010 pelas Fundações Carlos Chagas e Victor Civita, que mostrou que dos 1.500 alunos ouvidos, apenas 2% dos jovens do terceiro ano do Ensino médio pretendiam cursar Pedagogia ou alguma Licenciatura.
Aqueles que aindam decidem pela licenciatura, o fazem por vocação ou por amor a profissão.
Toda essa desvalorização também pode ser percebida em propagandas da Tv aberta, que anunciam melhorias na Educação, como é o caso de uma, que está sendo veiculada pelo Governo Federal, sobre a Reforma do Ensino médio, onde esta se ultiliza de jovens atores que falam da profissão que almejam e depois dizem aprovar a reforma, no entanto, a Jovem que diz querer ser professora, ao contrário dos outros, complementa sua fala dizendo que é por que gosta, como se a escolha dessa profissão precisasse ser justificada.
Esse é um assunto que preocupa muitos educadores, mas todos reconhecem que tais assuntos só entram em pauta, em época de eleição, onde os governantes exibm campanhas que trazem a educação como prioridade, a exemplo temos o slogan usado á pouco tempo pelo governo federal que trazia o Brasil como “Pátria Educadora”, mas é nitido que todas as propostas ficam somente no papel, e depois o descaso continua o mesmo.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) ,o salário médio do docente do ensino fundamental no Brasil é o terceiro mais baixo do mundo, no universo de 38 países desenvolvidos e em desenvolvimento.
O descaso continua também na estrutura das escolas e na falta de vagas.
Contudo, se faz extremamente importante que os governos e suas instituições se conscientizem do papel do professor , pois este não é apenas um mero transmissor de contéudo, e sim um dos principais componentes na formação democrática do País, é através dele que crianças, jovens e adultos são capacitados para o exercício da cidadania, e para o mercado de trabalho, tendo assim a oportunidade de uma vida digna.
Todo professor necessita de uma formação que lhe dê mais dominio de conteúdo e de sala de aula, precisa de mais material didático, e principalmente de respeito.
Para isso é necessário que muitas decisões sejam tomadas, tanto na promoção de políticas públicas eficientes, que atendam as demandas e reinvindicações dos professores, quanto no diálogo entre União, estados e municípios, aproximando esses órgãos da realidade da classe docente,e das lacunas que precisam ser preenchidas no sistema educacional brasileiro.
Vale ressaltar que essa luta não é só do professor, mas de todos nós que sonhamos em ter uma educação de qualidade, educação essa que fará com que muito mais jovens ingressem no mercado de trabalho e aproveitem ainda mais as oportunidades que surgirem, afinal, a valorização do professor e consequentemente o ensino brasileiro, é algo que reflete em toda nossa sociedade, uma vez que são esses profissionais que colaboram com toda a formação social de um país, é pelo professor que se forma o passado, presente e futuro, todos algum dia passaram por esse profissional ,ou ainda irão passar , talvez não só em busca de instrução escolar, mas também de se manter atualizado com as novas tecnologias.
Professor é a profissão que forma todas as outras, e é por isso que merece respeito e valorização.
REFERÊNCIAS
CUNHA, Maria Couto. As política de valorização dos profissionais da educação como objeto da produção acadêmica recente. R. Faced. Salvador, n.12, p 51-70, jul/dez. 2007.
FACCI, M. G. D. Valorização ou esvaziamento do trabalho do professor?: um estudo critico-comparativo da teoria do professor reflexivo, do construtivismo e da psicologia vigotskiana. Campinas, SP: 2004.
GONDRA, José G. e MAGALDI, Ana Maria. A reorganização do campo educacional no Brasil: Manifestações, Manifestos e Manifestantes. Rio de Janeiro: 7letras, 2003.
LEMOS, Daniel Cavalcante. A luta é antiga. Acesso em: 11 de jan de 2017.
Pesquisa da UNESCO: Salário do professor no Brasil é o 3° pior do mundo. Acesso em: 11 de jan de 2017.
RIBEIRO, Marcelle. Pesquisa mostra que apenas 2% dos jovens querem ser professores. Acesso em: 11 de jan de 2017.