O ARTIGO REMEMORA A GUERRA DO PARAGUAI COM SEUS EPISÓDIOS MILITARES E OS TRATADOS ASSINADOS.

PARA LEMBRAR UMA GRANDE VITÓRIA MILITAR DO BRASIL

Rogério Tadeu Romano

Na guerra do Paraguai, em janeiro de 1869, Assunção é tomada pelas forças da Tríplice Aliança.

Ocupação e saque de Assunção ocorreu a partir de 1 de janeiro de 1869 quando as forças brasileiras na Guerra do Paraguai ocuparam a capital paraguaia. Assunção ficou deserta, evacuada por todos seus habitantes e se viu cercada pelos 30.000 soldados do Conde d'Eu.

As tropas mal chegaram na cidade que se iniciou o saque de todos os edifícios, começando pelos grandes palácios das famílias aristocráticas da capital. Também foram saqueados a mobília dos ministérios do governo, do Palácio do Congresso, da família López; o mobiliário do Clube Nacional, comprado na Europa pouco antes da guerra; a mobília da casa do marechal Francisco Solano López e da residência de sua mulher, Elisa Lynch. Os primeiros lugares a serem revistados foram o Clube Nacional e as residências do Presidente, de sua mulher e de seus irmãos Venancio e Benigno e Inocência, repletas de móveis finos, quadros de assinatura, tapetes, espelhos venecianos, pianos e louças de ouro e prata.

Pelas ruas tinham filas de objetos e móveis que esperavam para ser carregados nos barcos dirigidos a Buenos Aires e Rio de Janeiro; ao zarpar, os barcos iam até o topo carregados dos objetos saqueados em Assunção. Nos anos 70, tanto a Argentina como o Uruguai devolveram os "troféus de guerra" capturados durante o conflito bélico, mas a maior parte do saqueado na capital nunca pôde ser recuperado.

Recordando o trágico "Saque de Assunção", o historiador argentino general José Ignacio Garmendia escreveu:

Aquella ciudad solitaria sentada a la margen del tranquilo rio, sufrió, indiferente, la suerte del vencido de lejanos tiempos. El vencedor entró a saco.

O saque de Assunção foi uma vergonha para a história do Brasil.

Tempos antes, sob o comando de Caxias, em 5 de agosto de 1868, Brasil, Argentina e Uruguai ocuparam Humaitá, cidadela guarani, e permitiam a derrocada de Solano Lopez, possibilitando a chegada até aquela capital.

A guerra do Paraguai, um conflito por lutas de fronteiras envolvendo interesses regionais, completa 150 anos de seu fim, em 1 de março de 1870, quando, em Cerro-Corá, o ditador paraguaio, que sustentou uma guerra fratricida, na maior tragédia humana da América do Sul, foi morto, por um militar brasileiro, numa luta corpo a corpo, o “Chico Diabo”. Para López, com sua morte, morria o Paraguai de López, que, em verdade, continuou a existir, resistindo a morte de metade de sua população e a convivência com a pobreza absoluta, diante de um Império brasileiro, que via surgir, a partir do fim daquele conflito, o seu fim, paulatino, com as questões militares, religiosa e escravocrata.

Foi a guerra do Prata, lembrando o estuário formado entre os rios Uruguai e Paraná, o Rio da Prata.

O ditador paraguaio López, um homem de forte vocação militar, que entendia que os paraguaios, para a defesa do seu território, andassem com um fuzil e com um cavalo, pretendia criar um Paraguai vasto e rico.

O ditador do Paraguai, Francisco Solano López, entrou na guerra conhecendo alguns fatos. A população do Brasil era dez vezes maior que a do Paraguai, cerca de 8 milhões de habitantes, contra 800 mil. A Argentina, forte aliada do Brasil, tinha cerca de 2,5 milhões. Ambos os países tinham acesso desimpedido ao oceano Atlântico para comprar armas, navios e o que mais precisassem da Europa e dos Estados Unidos, enquanto o único acesso ao mar do Paraguai era por meio dos rios Paraná e Prata, cruzando o território argentino.

López, no Paraguai, contava com o apoio dos Blancos e, na Argentina, as províncias de Entre Rios e Corrientes, que lutavam contra Mitre(um unitarista, pró-Buenos Aires, que lutava contra os chamados federalistas, derrotados). López apoiava os Blancos, inimigos de estancieiros brasileiros, que apoiavam o partido que lhes fazia oposição os Colorados. Daí o interesse do ministério que era do chamado Partido Liberal no Brasil, de apoiar a vitória de Flores(Colorado) sobre Bérro(Blanco) e impedir o avanço de López.

Os uruguaios eram aliados de López, e a guerra só começou, tecnicamente, porque o Brasil invadiu o Uruguai, em guerra civil desde 19 de março de 1863, em apoio ao ex-presidente Venancio Flores e 1,5 mil voluntários do Partido Colorado, que desafiou o governo de Montevidéu, controlado pelo Partido Nacional (ou Blanco). Os brasileiros, que formavam um terço da população do Uruguai, apoiavam Flores e passaram a sofrer ataques dos partidários blancos. Em 30 de agosto de 1864, o Paraguai havia mandado um ultimato ao Brasil: invadir o Uruguai seria um ato de guerra. Mas o Brasil invadiu para garantir o Partido Colorado, aliado do Brasil, no poder.

O Brasil ignorou o ultimato e declarou guerra ao governo blanco em 10 de novembro de 1864, com o apoio tácito da Argentina. "Nem Argentina nem Brasil acreditavam que o Paraguai reagiria a um ataque ao Uruguai", disse o jornalista Moacir Assunção, autor de Nem Heróis, Nem Vilões: Curepas, Caboclos, Cambás, Macaquitos e Outras Revelações da Sangrenta Guerra do Paraguai. Mas López cumpriu a ameaça e atacou o Brasil. Não na fronteira com o Uruguai, mas em Mato Grosso, em dezembro de 1864.

López não contava só com o apoio dos blancos. Havia recebido promessas de Justo José Urquiza. Governador da província de Entre Rios, Urquiza era o maior proprietário rural da Argentina, presidente entre 1854 e 1860, e inimigo do presidente argentino, Bartolomé Mitre. O plano de López era invadir o país ao norte, juntar-se às forças de Urquiza ao sul e seguir para Buenos Aires. Se tudo funcionasse, os 3 aliados - Paraguai, Uruguai e Argentina - atacariam o Brasil. Ao final, ganharia Mitre, que firmaria uma Argentina forte, a partir de Buenos Aires. Ganhariam os colorados uruguaios e seus aliados unitaristas na Argentina.

López, com seus conhecimentos militares, partiu para a invasão, em 1864, do território da província do Mato Grosso, de cidades como Dourados, Corumbá, Miranda. Mandou seu exército até Uruguaiana e, depois, foi rechaçado pelas forças imperiais.

Era uma batalha envolvendo um Exército, de pouco mais de 50 mil pessoas, contra um Brasil com 1/3 dessas forças. Para tanto, os chamados Voluntários da Pátria foram chamados, na verdade, forçados a ir, primeiramente de forma clientelista e após à força. Com o fim de guerra garantiram aposentadorias e pensões, terras nas fronteiras, como retribuição pelo sangue derramado.

Os Voluntários da Pátria, força criada em 1865,  são recebidos no Rio de Janeiro com indiferença pelo Imperador e autoridades, após a guerra.

Está cada vez mais caduca a ideia de que a Inglaterra tinha interesse por um dos lados no conflito. Essa ideia não levava em conta os interesses regionais acima mostrados. A Inglaterra tanto financiou um lado como outro da contenda. Aliás, interessava a Inglaterra um Uruguai como “um algodão entre os cristais”, impedindo o avanço do Brasil ou ainda do Paraguai.

Foi uma guerra, que, aparentemente, duraria poucos meses, a partir de dezembro de 1864 e que durou até 1870. Pensava que foi a vitória em Riachuelo, em 1865, e a conquista, em terra, de Avaí, levaria ao fim da guerra. Isso não aconteceu.

A partir de 1870, os militares deixariam de nutrir a devoção ao Imperador, como pensavam Caxias(que comandou a Tríplice Aliança até a conquista de Assunção e provou ser um ótimo militar, pois reorganizou as forças aliadas a partir da derrota de Curupaiti, sob Mitre) e Osório(herói da batalha do Avaí, travada em 11 de dezembro de 1868), para ter um sentimento de respeito e consideração a sua Nação, como se viu a partir das gerações posteriores que surgiram, principalmente, a partir da República, em 1889, quando as forças miliares decretaram o fim do Império do Brasil.

Fatos importantes se deram em 1866 e consolidariam a vitória da Tríplice Aliança, que, aparentemente, se davam como uma questão de tempo, mas, depois, na busca de López, acabaram por adiar o desenlace do conflito. Foram eles:

16 de abril de 1866 - Exército aliado na Argentina cruza o rio Paraná e invade o Paraguai, onde inicia marcha rumo à fortaleza de Humaitá.

24 de maio de 1866 - Batalha de Tuiuti, que é considerada a mais importante e uma das mais sangrentas da guerra. O exército paraguaio atacou os soldados da Tríplice Aliança que seguiam para Humaitá. Apesar das inúmeras mortes, os aliados venceram.

12 de setembro de 1866 - López pede encontro com Bartolomeu Mitre, governante da Argentina. Os dois se reúnem, mas não há acordo para o fim da guerra.

A batalha do Tuiuti foi a mais sangrenta da guerra. Significou, a partir das vitórias em Riachuelo, a derrocada das aspirações de Solano López.

Após aquela derrota paraguaia, López procuraria um acordo com Mitre, que não o aceitou. Aliás, os Quatro Protocolos secretos assinados, na formação daquela Aliança, impediam um acerto unilateral. López teria que se dar por vencido diante das três Nações a ele inimigas. Disso sabia a Inglaterra, que, oficialmente, tomou, em 1865, conhecimento daquele Tratado da Tríplice Aliança. Aliás, a Inglaterra, como potência maior do comércio internacional, viria a se beneficiar economicamente. Em setembro de 1865, a casa bancária Rothschilds empresta 7 milhões de libras esterlinas ao Brasil. Ao final, o Brasil saiu da guerra com sérios problemas em suas finanças.

A vitória, aliás, na batalha do Avaí, em 11 de dezembro de 1868, um verdadeiro banho de sangue, consolidaria a vitória da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Mas o fim demoraria a chegar.

A batalha do Avaí  foi um dos combates travados na fase do conflito denominada como Dezembrada, quando se registrou uma série de vitórias obtidas por Duque de Caxias naquele mês, ao evoluir em direção ao Sul para tomar Piquissiri pela retaguarda, a saber: batalhas de Itororó, Avaí, Lomas Valentinas e Angostura. Além da presença de Caxias, General Osório também participou da batalha.

Em 1873, em 9 de janeiro , foi firmado o Tratado da paz e o Paraguai  cede ao Brasil o território entre os rios Apa e Branco, no Mato Grosso do Sul.

Em 1876, foram assinados tratados importantes envolvendo o Paraguai e a Argentina:

Fevereiro - Tratado da paz cede para à Argentina os territórios em litígio das Misiones entre os rios Bermejo e Pilcomayo. Os territórios entre os rios Pilcomayo e Verde foram submetidos ao arbítrio norte-americano, que concedeu a região ao Paraguai.

22 de junho - Saem os últimos soldados de ocupação brasileiros do Paraguai.

 Em 1879, sairam os últimos soldados de ocupação argentinos.

A vitória brasileira no Paraguai, que foi tomado por estrangeiros, como os argentinos, brasileiros e uruguaios, foi um dos maiores feitos de sua história.

Certamente o atual governo, ditado no emblemático discurso militar, irá comemorar os 150 anos do fim daquela que foi a maior tragédia humana do continente, numa vitória que terminou nas mãos do Imperador D. Pedro II e seu genro, o Conde D’Eu, mas que foi, acima de tudo uma vitória do maior soldado brasileiro, Caxias, o Pacificador.


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